O Estranho de Amarelo
1 Céu Esmeralda
Jeferson Andrade penteava o cabelo olhando seu reflexo no espelho. Estava devidamente arrumado para uma noite no barzinho com o seu melhor amigo, Ricardo. Pegou seu smartphone, o relógio digital na pequena tela marcava 22:30h. Enfiou o aparelho no bolso da frente da calça jeans. O de trás trazia sua carteira de couro. Após uma rápida borrifada de perfume desligou a luz do quarto e saiu em direção à porta da frente da casa. Quando sua mão direita estava a centímetros de agarrar a maçaneta uma voz gritante o chamou.
— JEFERSON, VEM AQUI!
— Merda. – pensou ele.
Deu meia volta e foi na direção de onde a voz viera. Chegou a uma porta fechada. Ela era perto do seu próprio quarto. Abriu-a.
— Aonde você vai vestido assim? No mercadinho? – disse uma voz feminina.
— Não, Claudia. Eu vou sair com o Ricardo, tá bom?
No quarto mal iluminado havia pouca mobília, do lado oposto à porta uma cama de solteiro carregava a dona da voz que gritou por Jeferson. Era Claudia Andrade, sua irmã caçula. Ele tinha 35 anos e estava vendendo saúde. Ao contrario da irmã. Tinha 29 anos, mas apesar da pouca idade sua saúde não estava nada bem. Ela estava magra e pálida. Seus olhos quase sem vida carregavam olheiras escuras. Mal tinha forças para ficar de pé. Ao lado da cabeceira da cama frascos de vários remédios se espalhavam em uma mesinha.
— Você vai sair? E eu vou ficar sozinha aqui?
— Eu não vou demorar.
Então ela começou a gritar.
— Você vai me deixar sozinha? E se eu precisar ir ao banheiro?
Jeferson franziu o cenho.
— Você pode ir muito bem sozinha ao banheiro.
— Não. Se eu for eu vou cair. Minhas pernas não tem força. Você sabe!
Jeferson começou a se irritar.
— Isso é tudo fingimento seu. Você pode muito bem andar sozinha!
Claudia gritou mais alto.
— Mas eu não quero ficar sozinha aqui! Tenho medo! Você tem que cuidar de mim! É meu irmão mais velho!
Agora foi Jeferson quem berrou.
— Droga! Eu fico a semana toda acordando cinco horas da manhã pra dar o seu remédio e a sua comida. Não posso ficar dez minutos no meu quarto fazendo o qualquer coisa que você grita por mim só pra pedir um copo d’água que você poderia muito bem pegar. Ou me chama só pra ir ao banheiro, sabendo que você poderia ir também. Eu não posso trabalhar por sua causa. Porque, se não, você grita até chamar a atenção dos vizinhos e diz que te abandonei. Faz semanas que não saiu para me divertir. Fico só aqui cuidando de você. E só recebo ingratidão. Já chega! Eu vou sair hoje e acabou!
Jeferson deu meia volta e bateu a porta do quarto da irmã com força. Pôde ouvir os gritos vindo de trás dela. Respirou fundo para a raiva passar. Estava decidido. Já havia perdido anos de sua vida cuidando da irmã ingrata. E a ironia era que ela mesma havia causado o acidente que a deixou assim. Ele foi em direção à porta da rua. Depois de tranca-la, e antes de se virar para ir embora, sentiu uma ponta de remorso e pena na sua consciência. Ficou ali parado por alguns segundos. Depois fez cara feia e afastou esse sentimento.
— Que droga. Eu mereço pelo menos uma noite de folga. Eu queria poder me livrar dela – pensou. Partiu de vez de sua casa. Ao chegar na calçada Jeferson percebeu que o céu noturno estava nublado. Uma forte chuva estava a caminho. Ele ficou ali olhando as nuvens escuras, como se elas fossem o reflexo da situação atual da sua vida. As nuvens moviam-se levadas pelo vento silencioso da noite. Elas tinham diversas formas esquisitas. Pareciam grandes tentáculos que se espalhavam no céu. E pequenos feixes de luzes esverdeadas perfuravam a cortina de nuvens. Jeferson observava a colossal figura no céu, quase hipnotizado. Era como se ele pudesse ouvir uma voz o chamando. Uma voz que o atravessa até as profundezas do seu ser. Uma voz que lhe dizia...
— JEFERSON!
O susto o fez sair do transe e acelerou seu coração. Ele olhou para a direção da voz. Era Ricardo. O amigo estava parado na rua dentro do seu carro. Pela janela do motorista, olhava para Jeferson com uma expressão frustrada.
— Cara eu tô te chamando há dez minutos, até buzinei e você não parava de olhar pra cima. Não vai me dizer que já tá doidão sem ter bebido nada.
Jeferson abriu a boca, mas não conseguiu falar nada. Olhou novamente para as nuvens. A figura gigante que elas tinham formado agora era apenas um teto negro e ameaçando uma grande torrente de água. Jeferson olhou novamente para Ricardo.
— V-você viu? – gaguejou.
— Vi o que?
— Os tentáculos. A luz esverdeada.... ali nas nuvens.
Ricardo olhou para o amigo sem entender nada.
— Tá vendo. Isso que dá ficar semanas atrás de semana sem sair de casa e vendo merda na internet. Entra aqui e vamos logo, porque quando essa chuva cair o trânsito vai tá uma droga.
Jeferson deu uma ultima olhada para o céu. Ainda eram apenas simples nuvens carregadas. Foi até o carro de Ricardo, deu a volta e entrou pela porta do passageiro. Ricardo acelerou pela rua em direção à avenida. Jeferson não parava de olhar as nuvens, até que começou a chover.
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