O Estranho.

1 Capítulo Único


Acordei assim que o meu despertador soou. Era barulhento demais, até incômodo. Em um salto, arranquei as cobertas de cima de mim e parti para um banho gelado para me acordar. Então me vesti com meu vestidinho florido só um pouquinho acima dos joelhos, calcei minhas sapatilhas pretas, apanhei minha bolsa de couro onde ficava meu material de escola e parti para o ponto de ônibus que meu pai me mostrou, onde eu pegaria meu transporte para o centro. Lá, eu iria a pé para o colégio.

— Não esqueça sua maçã, filha — disse minha mãe, quando agarrei a maçaneta da porta para abri-la.

Voltei um pouco, peguei a maçã e finalmente parti em direção ao ponto de ônibus.

Quando cheguei ao banquinho de madeira com encosto, vi que outro alguém ocupava uma de suas extremidades. Um rapaz com uma camisa bege com o primeiro botão solto e as mangas dobradas até os cotovelos, uma calça marrom lisa e sapatos de cadarço da mesma cor. Tinha olhos azuis como o dia sem nuvens, cabelos negros como a noite sem estrelas. Seu olhar estava distante, no outro lado da rua. Sem desviar os olhos do nada ali na frente, murmurou:

— Bom dia.

— Bom dia — respondi, sentando-me para esperar por meu ônibus.

Ele parou de encarar o nada, finalmente, e olhou para mim. Eu, ao mesmo tempo, olhei para ele. Ele sorriu um pouquinho e estendeu a mão em minha direção, para me cumprimentar. Não tive tempo nem de tocar nele. Meu ônibus havia chegado, e o motorista parecia apressado. Fiz um sinal de despedida com a cabeça, que o rapaz repetiu, então sentei-me no banco duro do automóvel e vi ele ficar mais distante através do vidro da janela.

Quando voltei, ele ainda estava lá. Sentado, os olhos fixos no nada, como se seu ônibus não tivesse chegado.

— Boa tarde — disse a mim, me encarando por alguns segundos.

— Boa tarde.

Essa rotina boba se manteve por quase todo o semestre. Um dia ou outro trocávamos algumas palavras a mais:

— Bom dia — ele dizia.

— Bom dia — eu respondia.

— É nova na vizinhança?

— Sou. Me mudei esse verão.

Às vezes, trocávamos palavras a menos:

— Bom dia — eu dizia.

E ele ficava calado, ou focado demais no nada, ou melancólico demais para prestar atenção, ou mais para o final do semestre, por estar mais frio, não respondia apenas pelo cachecol lhe cobrir as orelhas e a lateral do rosto, e ele não me via ou me ouvia.

— O que faz aqui, sentado o dia todo? — ousei uma vez perguntar.

— Estou esperando — ele respondeu.

— Quem?

— Meu pai.

Não consegui perguntar mais, meu ônibus havia chegado.

— Qual o seu nome? — ele me perguntou um dia.

— Laura.

Fiquei me preparando psicologicamente para perguntar o nome dele. Tanto que acabei por não perguntar.

— Gosta de dramas policiais? — perguntei uma vez quando o vi segurando "O Estudo em Vermelho".

— Sim, mas não tenho gostado muito de Sherlock Holmes. Gosto mais de Hercule Poirot.

— Eu também — fiquei vermelha, e ele também.

De qualquer forma, depois de muito tempo, decidi que perguntaria o nome dele, e o convidaria para um piquenique nas férias de natal. Fui preparada para o ponto, levando duas maçãs ao invés de uma, e com um "Qual é o seu nome?" ensaiado insistentemente diante do espelho.

Porém, quando cheguei lá... Ele não estava. Bem que eu havia estranhado. Na tarde do dia anterior, ele não estava lá quando cheguei.

"O pai dele deve ter chegado finalmente", pensei.

Acabei levando duas maçãs comigo para a escola.

Levei duas maçãs para o ponto insistentemente durante uma semana. Quando as férias de ação de graças haviam chegado, eu apenas levava uma lá, para que eu lhe entregasse a fruta, falasse com ele e fosse embora.

Eu só queria falar com ele. Mas nada. Nenhum sinal de vida no banco.

Então, decidida, me sentei ali logo pela manhã e fiquei por lá, esperando. Quando um ônibus parava, eu me atrevia a perguntar sobre ele para passageiros que desembarcavam, passageiros que vinham embarcar, motoristas... Todos diziam que nunca haviam prestado atenção.

Porém, quando perguntei sobre ele para um velho fazendeiro que ali passava, ele me respondeu de voz mansa:

— Ah sim, o menino que espera. Me desculpe menina, mas... Bom, acho melhor ir falar com a mãe dele. Ela mora ali, depois da plantação de trigo.

Era uma casinha bem modesta. Quando bati à porta, fui recebida por uma mulher de olhos inchados, cabelo negro desgrenhado e roupas amassadas.

— Pois não? — falou baixinho.

— Olá... Eu não conheço a senhora, mas seu filho sim. Ele ficava esperando alguém no ponto de ônibus, o pai, dizia ele... Porque ele não vai mais lá? O pai retornou?

— Não, o pai não retornou.

— Então ele está em casa? Adoeceu?

Ela fez que não.

— Sabe onde ele está?

...

John Van Ghurb. Esse é o nome dele.

Era o nome dele.

"Bom filho, fiel e valente", escrito logo abaixo do nome, na lápide.

E então data de nascimento e morte.

O que a mãe me contou foi que, depois de um tempo desde o começo do ano letivo, ele chegou em casa e disse que tinha conhecido uma garota incrível. Com o tempo, foi criando coragem de falar mais com ela, e algumas semanas atrás, decidiu ir atrás dela até a cidade. Mas o ônibus que havia pegado bateu. Não houve sobreviventes.

Aquilo foi um choque. Como eu queria que a tal garota não fosse eu. Qualquer uma, menos eu.

Então ela me mostrou o diário dele. Vazio no começo do semestre. Algumas pequenas anotações nos dias seguintes. Uma data com letras grandes, escrito "O NOME DELA É LAURA!!!". Uma com apenas um esqueminha, como "Poirot > Sherlock".

Na última data anotada, as simples palavras "Hoje vou saber mais dela. Espero que dê certo.".

Espero que dê certo...

E mesmo mal conhecendo John, mesmo descobrindo seu nome no mesmo dia que descobri que havia morrido, comecei a chorar. Pedi à mãe dele para ficar com o diário, e ela disse que sim. Por fim, perguntei:

— Por que ele esperava o pai?

— O pai foi para a guerra. Quando recebemos a carta informando a morte dele, John insistiu que ele voltaria, e passou a ir para o ponto esperá-lo de manhã, e voltava quando o sol estava para sumir atrás das montanhas.

Assenti, agarrada ao diário. Então agradeci e fui embora.

No caminho de volta para casa, vi o ponto logo ali, vazio, desocupado.

Caminhei até ele. Me sentei onde ele sentava. Encarei o nada que ele encarava.

E comecei a esperar.

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