O Estereoscópio
4 O Egoísta
Notas iniciais
Henrique identificava-se tanto com o que acabara de ver na história de sua mãe, que ficou bastante impressionado. Na verdade, jamais considerara com clareza a apatia do mundo, mas, no instante em que a vislumbrou, pôde reconhece-la imediatamente, tomado de horror. É que todo o seu comportamento era uma completa reação contra essa apatia.
Da mesma forma que você não se importa com o inseto em que eventualmente pisa, os deuses, os poderosos, os tomadores de decisões, não tinham motivos para se importar com a vida dos humanos. E estava mais do que provado que havia muita gente no mundo, como havia muitos grãos de areia. Talvez, mudando-se a escala, as pessoas ficariam do tamanho dos insetos. Quando se viaja de avião, coloca-se a cabeça na janela, e os maiores prédios ficam menores. Podia ser que, no fundo, Henrique soubesse que ele não tinha o direito de se emocionar porque, naquele mesmo momento, milhões de pessoas enfrentavam uma realidade infinitamente mais dura do que a dele. Ele tinha consciência de que, no passado, pessoas sofreram todo tipo de injustiça e privação, e não choraram por isso, enquanto ele chorava por nada.
No entanto, ele vivia era na sua própria escala, e os sentimentos que lhe queimavam o peito debaixo da camisa eram os seus sentimentos. Ainda que ninguém se importasse com o que passava dentro dele, ele se importava. E que diferença fazia se dissessem que tudo não passava, no fim das contas, de imaginação, de pulsos elétricos, sinapses nervosas?
Porque ele nunca conseguiu prestar atenção às aulas de história. Só ele era o protagonista de sua história. Para onde quer que ele fosse, ele ia junto, sem poder desvencilhar, desgrudar-se de si. Sem sequer perceber, pagava o mundo com a mesma indiferença.
Eventualmente simpatizava com alguém e era capaz fazer sacrifícios por essa pessoa. Quando praticava qualquer tipo de filantropia, era porque não tinha outra escolha. Sempre escolhia não se envolver, mas uma força maior o arrebatava ao heroísmo; era a mesma força que o fazia cometer pequenos furtos. Tinha pena de si mesmo.
Para ele não existia nada como imperativo categórico, princípio do dever ou razão pura prática. Era egoísta, sim, profundamente, e agia segundo o que seu coração lhe ordenava. Um homem é escravo de suas vontades e age por compaixão, e isso é fraqueza, é produto da inclinação, não é moral. Outro homem cumpre seu dever, segundo o que ele chama de legislação universal, mas ambos são escravos de alguma coisa.
Seu egoísmo era um modo de vida, e também a fonte de seus tormentos. Individualista, pessimista, oscilava entre arrogância e comiseração, mas tinha uma baixa autoestima. Sua extrema sensibilidade lhe impedia o trato com as pessoas, que surgiam sempre tão rudes.
Já trocara de emprego diversas vezes: não podia aceitar a crítica. Não era um daqueles homens sem seriedade, que não se dedicam a nada e não colocam sentimento no que fazem, como se o produto de seu trabalho não tivesse nada a ver com eles e, consequentemente, aceitavam facilmente as críticas. Longe disso, Henrique não gostava da palavra “supervisor”. É que a pessoa que apontava supostos defeitos em seu trabalho costumava ser um sujeito menos inteligente, cego ou extremamente implicante para os detalhes, as sutilezas, e nunca elogiava, procurando inventar defeitos quando estes não existissem. Já seus colegas não tinham o mesmo problema. Abaixavam a cabeça, concordavam, prometiam melhorar, aperfeiçoar, definir mais metas, ainda que não fizessem nada disso. Ele levava para o lado pessoal, sim.
A comunicação com ele era sempre difícil, tinha uma nuvem em volta dos olhos. Alguma hostilidade, uma alienação. E sua angústia aumentava à medida em que se isolava. Quanto à doença, à cleptomania, sentia remorso por isso. Não era uma falha de caráter. Sabia que era errado, mas não podia evitar.
Se, por um instante ao menos, no silêncio de seus gritos abafados, pudesse ver de relance o brilho da vela que queima, então ele mesmo derreteria como a cera e se dedicaria todo a manter aquela coisa acesa. Se, pelo menos, amasse. Mas não lhe era permitido amar o suficiente. Se, entre um e outro suspiro, pudesse segurar o belo em suas mãos, se agarrasse uma flor e levasse uma ferroada da vespa, então, como se levasse um beliscão dentro de um sonho ruim, ele estaria salvo.
Moça que dorme, Bela adormecida, hoje o príncipe não vem te resgatar. Ele foi beber com os amigos e não sabe que você existe. Espere até amanhã – você ficará velha e ele não virá. Se você tentar suicídio, ninguém vai te impedir. Ninguém vai reparar. Porque você já não estava viva desde o começo. Saiba que a Branca de Neve é mais interessante, ela é mais engraçada. Tudo o que você precisava era de um beijo na boca. Olha, está vindo, um rapaz alto e forte, na sua direção. “Saia da frente, você está no meu caminho. Eles vão te pisar se você não se levantar”. Ninguém vai se dar ao trabalho de subir na torre da Rapunzel. Talvez ela não valha tudo isso. Veja como o Branca de Neve beija bem – ela faz outras coisas também. Seus pais disseram que você era especial e você acreditou. Você está cansada de ser tão hipócrita.
Henrique se deu conta de que já havia esquecido o som da própria voz, então decidiu, categoricamente, que deveria tomar uma atitude, se dirigir à sua mãe e perguntar onde estava seu pai. Gostaria de ouvir isso diretamente dela, olhando em seus olhos. Depois disso, procuraria outro lugar para morar – seu quarto estava pequeno. Faria isso sozinho, mas só amanhã, ou depois de dormir, pois já era de madrugada.
Talvez o pássaro que voa no escuro tivesse nascido em uma chocadeira e fosse voar no quarto de Henrique enquanto ele estivesse deitado, com as luzes apagadas. Se a janela estivesse hermeticamente fechada – e nunca estaria –, ele passaria por baixo da porta. Antes de o sol nascer, ou antes do menor sinal de luz surgir, ele sairia correndo de lá, caso não tivesse mais asas, e voltaria depois, para repetir.
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