O Estereoscópio

13 Cura e contradição


Notas iniciais
Muitos diálogos.

Henrique buscou do seu quarto um remédio qualquer para Freia. Levou um vidrinho com um conta-gotas e copo d’água, nem vazio nem cheio e sem rachadura no fundo. Diante da vidente, pingou uma gota no copo e lhe entregou. Clara já havia retornado para as suas tarefas.

― Mas o que é isso? Homeopatia?! Só se você estiver querendo me matar! Traga-me algo mais fraco ― exigiu Freia.

Sem saber bem por que, Henrique obedeceu. Voltou com uma cartela de comprimidos de dipirona monoidratada, a qual Freia aprovou e tomou tudo de uma só vez. O rapaz esperou que ela terminasse antes de se retirar. Já dera de costas e andara alguns passos quando Freia, que se sentara no outro sofá junto à televisão, o chamara.

― Henrique, espere, fique aqui. Tenho algo importante para te dizer ― pediu, em tom grave.

E ele fez. Contudo, em vez de dizer logo o que queria, Freia mandou que ele se sentasse, ligou a televisão e ficou assim por muito tempo. As horas corriam. Outras moradoras se juntaram para a programação da tarde. Sem se dar conta, Henrique almoçara, ali mesmo, pipoca, junto com Freia, que às vezes lhe colocava na boca. Devia ter passado um filme muito interessante. O sol se pôs. Anoitecia. Enfim, os dois acabaram ficando sozinhos na sala.

― O que você vai fazer agora? Se veio para cá, é porque não tem mais para onde ir. E você já não pode mais trabalhar como vidente ― disse Henrique, sem mudar de posição.

― Quanta perspicácia da sua parte! Estou surpresa ― enquanto falava, Freia mantinha um sorriso indistinto, que hora parecia sarcástico, ora meigo. ― A sua mãe disse que eu poderia ficar aqui por quanto tempo eu quisesse sem me preocupar com o pagamento. E como assim eu não posso mais trabalhar como vidente? Você não sabe, mas mais de 85% das videntes por aí não passam de charlatãs. No meu caso, não seria de forma alguma imoral trabalhar assim, porque não seria como se eu tivesse enganando alguém, não sei se me exprimo direito... Bom, ainda que eu não possa lidar com o futuro por enquanto, tem outras coisas que eu sei fazer, como dar banhos. Eu posso de dar um qualquer dia desses. Não entenda errado, é só um banho de ervas, dos joelhos e dos cotovelos para baixo, só isso, e serve para diversas finalidades.

Henrique ouvia espantado.

― Mas me parece que ainda não respondi à sua pergunta. Você quer saber o que eu vou fazer agora. Pois é: eu também não sei. Eu perdi a minha vidência, conforme você lembrou. Obrigada por isso, eu estava tentando esquecer ― acrescentou.

― Eu sinto medo e não sei dizer exatamente do quê.

― Medo? Essa é boa. Henrique, ― disse Freia, segurando-lhe as bochechas ― você pode ficar tranquilo. Não é à toa que estou aqui hoje. Com certeza há um motivo para o destino ter arranjado as coisas assim, e o fato de eu não poder prevê-lo pode ser parte disso, talvez seja necessário que tomemos decisões de uma forma espontânea. Contudo, estamos seguros. Posso estar sem a minha espada, mas se algum demônio malvado tentar algo contra você, primeiro ele terá que se ver comigo. Tomaremos especial cuidado com aqueles que sussurram, Henrique.

― Eu agradeço, mas...

― Não diga nada: eu sei. Não foi isso o que você quis dizer, eu entendo. Henrique, ouça: desastres, terremotos, doenças, violência, essas coisas não são nada. Você não vê, mas há demônios por toda a parte. Se visse, provavelmente ficaria louco. Você não conhece a sua mãe, não é? É uma grande mulher, trabalha diligentemente e tem feito o possível e o impossível para proteger essa pensão, com todos os seus esforços. Todos os dias, as pessoas mais variadas entram aqui, carregando consigo problemas, pensamentos, emoções. No entanto, ela também tem seus limites e devemos entender isso. Agora, sem mais perguntas. Eu tinha me prometido não pensar muito, para não atrapalhar o destino, sabe? Mas parece que você já atrapalhou.

― Desculpe, não vou dizer mais nada.

Passados alguns minutos, Freia, entediada, voltou a falar.

― Você me acha bonita? ― Perguntou, de repente.

― Se eu te acho bonita? Eu nunca tinha parado para pensar. Sim, você é bonita.

― Limite-se a responder o que eu perguntei. Não quero saber o que eu sou, mas o que você acha. Beleza é algo subjetivo, depende de quem olha.

― Sim, eu sei. Eu te acho bonita ― afirmou Henrique. ― Mas acho que talvez você seja isso mesmo.

― Então você está dizendo que eu posso ser objetivamente bonita?

― Isso mesmo, objetivamente.

― Mais do que a Luciana, talvez?

― Tanto quanto ela, eu diria.

― Bom, bom, nada mal ― avaliou Freia, após breve consideração. ― Por enquanto estou satisfeita de ser tão bela quanto Luciana. No entanto, você não poderá ficar em cima do muro para sempre, uma hora terá de escolher.

Estranho, Henrique até sentia falta de Luciana, mas, quando estava com Freia, não se importava.

― Henrique, na sua vida, você deve, principalmente, saber lidar com as senhoritas. Suas infinitas queixas, seus achaques, com um único remédio se curam. Se souber manter as aparências, terá todas na sua mão.

― Não em parece ruim, se eu puder usar isso com Luciana.

― De todas as pessoas, Luciana é a que mais precisa de você agora. Sem a sua ajuda, ai! Ela pode cair em contradição.

― Cair em contradição?

― É até pior do que perder a alma. É quando a pessoa como um todo para de fazer sentido e, logicamente, não pode mais se justificar sozinha, então que toda a sua estrutura se desmancha e ela passa a considerar-se e a ser considerada um erro, um ser e não-ser ao mesmo tempo e no mesmo lugar. Uma situação triste e, uma vez consumada, sem escapatória, visto que nem a afirmação nem a negação são mais possíveis, nem um passo a frente nem um atrás podem ser tomados.

O rapaz percebeu que o discurso de Freia era plausível e lembrou-se do estereoscópio. Poderia usá-lo para extrair mais informações de Freia, para observá-la, ou induzi-la a falar o que sabia sobre o objeto e, por conseguinte, ajudá-lo a decidir o que fazer com ele.

― E quanto a Daniel, Henrique? Por que você não acaba logo com ele, se já tem tudo o que é preciso? Por que não o desarma com um sorriso e o conquista com a sua amizade? Ele te apontará armas, virá com argumentos e acusações, mas você oferecerá a trégua e ele sentirá vergonha.

Henrique levantou-se, pediu para que a moça esperasse porque ele iria buscar um negócio.

Notas finais
Muitos, muitos diálogos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.