O Esquizofrênico e a Caneta Tinteiro

2 Capítulo 1.0 - As vozes em minha cabeça


Notas iniciais
Finalmente, cá estamos para o primeiro capítulo de verdade. Muito obrigado a SS Tobias que comentou no Capítulo 0.5. Sem mais delongas, vamos para a história.

Neste momento, não faço a menor ideia de onde me encontro. Assim que olho para o meu relógio de pulso e constato que são 18:49, a única coisa que eu posso fazer é imaginar o quão louco eu devo ser. Isso não deveria ser nenhuma novidade, afinal, sou tratado como louco desde quando era criança e por um motivo extremamente específico (e até válido, tenho que reconhecer). Não que tenha a ver com a atual situação onde eu me encontro, quero dizer, uma coisa é você ouvir vozes e achar que são espíritos querendo a sua ajuda, outra coisa é você ter a brilhante ideia de sair de seu trabalho e andar pela cidade sem rumo ao invés de, simplesmente, voltar para sua amada residência e descansar após um longo dia de trabalho.

De fato, é estranho demais você imaginar que existe alguém que poderia ter a disposição de fazer algo que não seja voltar para casa e relaxar após trabalhar exaustivamente durante horas. Nesse mundo, temos que trabalhar mais do que deveríamos para conseguir realizar tarefas "simples" como pagar as contas e despesas do lar, por isso muitos passam quase metade do dia trancados em salas apertadas, digitando sem parar, realizando diversas contas matemáticas em planilhas gigantescas e rezando para que o chefe não decida, do nada, diminuir seu salário no fim do mês só para facilitar sua vida medíocre sob um justificativa igualmente medíocre e furada.

O que quero dizer é que trabalhar é cansativo, por isso muitos preferem ir direto pra casa após um longo dia de trabalho, mas eu não. Eu, Benjamin Grant, 30 anos, prefiro caminhar cerca de uma hora antes de voltar para casa. Pois é, é assim que eu aproveito minhas primeiras horas "pós-trabalho" no fim do dia. Eu gosto de sair caminhando pela cidade, fazendo trajetos aleatórios, às vezes virando à direita, outras vezes virando à esquerda, na maioria das vezes seguindo reto, mas nunca olhando pra trás de vez em quando para garantir que não tem nenhum louco me seguindo. Não que eu tenha que me preocupar, até porque, um louco seguindo outro louco seria um "duplo-louco", não é? Ou será que eu deveria me preocupar?

De qualquer modo, ainda que possa parecer loucura, eu gosto muito de caminhar. Andar faz bem para o corpo, fortalece o físico e o psicológico. Ainda que eu trabalhe bastante, no fim do dia eu ainda tenho disposição para caminhar. O único problema é que eu nunca planejo uma trajetória lógica e segura para não correr o risco de me perder. A cidade onde eu moro é pequena, possuindo uma área de 825,7 km², mesmo assim muitos podem não achar seguro caminhar sem ter uma noção clara para onde está indo e se poderá chegar em casa seguro e intacto (mesmo em uma cidade com baixos índices de violência). Bom, isso não importa agora, no momento eu tenho coisas mais importantes para fazer, como saber se estou indo para a direção correta até minha casa, por exemplo.

Estou pensando demais com esses devaneios malucos, mas tudo isso é para não ficar tempo demais sem pensar em nada. Quando você ouve vozes em sua cabeça, manter a mente e o corpo ocupados é sempre bom para evitar as ditas cujas. Existem diversas pessoas que preferem se manter ocupadas por mais tempo para não ficar pensando em muitas coisas. É compreensível, afinal, pensar é estressante. Só que no meu caso, trabalhar e pensar demais são melhores do que ficar ouvindo coisas que você não consegue explicar ou entender.

O u ç a m e . . . e u p r e c i s o d e s u a . . .

Olá, minha velha amiga! Achei que não a ouviria hoje! Estava torcendo por isso!

Mais um dia como qualquer outro. Trabalhando sem nenhum contratempo. Todos te ignorando como você tanto gosta. Caminhando após sair do trabalho sem saber onde está e para onde ir. Ouvindo vozes em sua mente. Esse é o perfeito resumo dos meus dias. Não sei se deveria dizer isso com tanta naturalidade, só sei que preciso tomar os meus malditos remédios assim que eu chegar em casa. Não que eu precise realmente tomar, afinal, ao contrário do que os médicos e meus pais sempre me disseram, eu não tenho esquizofrenia. Essas vozes que eu ouço são reais e um dia eu vou provar para todos.

Esse seria meu objetivo atual. Em meu tempo livre, gosto de ler diversos livros. A maioria é sobre contabilidade e economia que é referente à minha área de trabalho, mas também leio livros sobre espíritos e fantasmas (e, às vezes, de demônios, por que não?). A grande maioria parece que foi escrito por malucos que queriam que todos fossem tão malucos quanto eles para eles se sentirem menos solitários no mundo, mas sempre que eu estou lendo eu ignoro completamente isso, pois fico mais focado tentando encontrar alguma explicação para as já citadas vozes em minha cabeça. Eu não queria uma solução, necessariamente, só quero entender o porquê isso acontece comigo. Quero entender se existe alguma razão para eu ter passado por isso durante toda a minha vida. Tudo que eu quero é me sentir bem comigo...

M E A J U D E P O R F A V O R . . .

Que ótimo! Mais vozes! Dessa vez uma voz masculina, só pra variar um pouco!

Após quase surtar por um mísero instante (algo bem comum para a minha pessoa), decido simplesmente esfriar a cabeça e focar em meu trajeto ao invés de me estressar à toa com aquelas malditas vozes. É chato, mas eu não quero comprometer a minha saúde física, já basta a saúde mental e psicológica. Eu quero acreditar que não tenho nenhum problema mental, queria fazer todos acreditarem nisso, mas tem alguns poucos momentos que mesmo eu me questiono se não seria essa a terrível verdade.

Andando mais um pouco, ainda meio chateado, eu reparo que estou andando ao lado de um terreno baldio. Eu nunca havia passado por esse local antes. Isso que é algo bem legal de caminhar, você conhece lugares novos, ainda que alguns sejam fedorentos e muito feios. Nada contra quem gosta de lugares mais próximos da natureza, mas convenhamos, nem sempre a natureza tem um cheiro bom. Aquele lugar não parecia já ter sido um local habitado um dia, ainda assim eu queria acreditar que muitos pessoas já tiveram momentos felizes lá. Um pouco de energia positiva não faz mal a ninguém.

Eu até teria reparado em mais detalhes daquele campo aberto se algo no chão próximo a mim não tivesse chamado minha atenção. Era uma caneta-tinteiro. Sim, uma caneta que possuía um reservatória recarregável de tinta. Bem na minha frente. Pra ser mais específico, à uns 40 centímetros de distância dos meus pés, encima da grama. Era uma caneta preta, sua cor se destacava bastante do local onde se encontrava, mas mesmo que não fosse, certamente eu teria percebido de qualquer jeito.

Pode parecer estranho, mas eu sempre tive um fascínio especial por canetas. Sim, eu tenho o hobby de colecionar canetas de diferentes tipos, sejam canetas normais, canetas coloridas, canetas multicores e até canetas-tinteiro como aquela. Não sei explicar, mas eu sempre gostei de canetas, só isso importa ressaltar. Qualquer um poderia considerar mais sensato ignorar tal objeto no chão e seguir seu rumo de volta pra casa, mas eu não sou "qualquer um".

Eu me abaixei para pegar aquela caneta e, quando eu olhei bem para ela, percebi que ela estava em perfeito estado. Não havia marcas de dedos na superfície, sem impressões digitais, sem riscos, sem sujeira, nem ao menos de uma gota de tinta. Aquela caneta parecia que tinha acabado de ser comprada. Por um instante, fiquei chateado pela pessoa que pagou por aquele objeto tão precioso e depois o perdeu em um lugar como aquele.

Na verdade, parando pra pensar, não faz muito sentido ela ter vindo parar aqui. Haviam poucas residências perto daquele lugar e pela aparência das mesmas, não parecia que seus residentes eram o tipo de pessoa que pagariam por uma caneta-tinteiro. Posso estar parecendo preconceituoso com essa afirmação, mas realmente era muito estranho aquilo estar ali sem mais nem menor. Porcaria, já estou querendo pensar demais. Não poderia ter ocorrido algo muito complexo, alguém simplesmente a perdeu naquele lugar ou até mesmo a jogou fora, vai saber. Não tinha porque esquentar a cabeça com aquilo, era só uma caneta. Certo?

Eu coloquei aquela bela caneta-tinteiro em meu bolso com muito cuidado para não sujá-la ou deixá-la cair. Assim que eu me certifiquei que não cometeria o mesmo erro que seu comprador, eu voltei a minha concentração para o que realmente importava naquele momento: Voltar para casa. Eu consegui encontrar o caminho para casa e ainda levei pouco mais de 20 minutos para chegar até o meu destino. Obviamente eu estava bastante cansado e só queria saber de descansar, mas uma parte de mim ainda estava pensando naquela caneta. Meu Deus, o que há de errado comigo?

Embora eu goste bastante de canetas a ponto de ter um coleção só delas, eu raramente as usava. Eu possuía um palmtop, algo bem fora de moda, mas bastante eficiente para fazer anotações. Mesmo que eu não estivesse com ele em mãos, eu optava por escrever à mão utilizando lápis e lapiseiras na boa e velha folha de papel. Eu quase nunca usava as minhas canetas, o que levanta a questão do porque de eu as tê-las pra começo de conversa. Ainda assim, eu estava curioso para saber se aquela coisa bonita ainda estava funcionando direito, se o reservatório de tinta não havia secado ou se esgotado. Claro que ele poderia ser recarregada, mas nada garante que seu dono original tinha essa informação. Eu só queria acreditar que aquela caneta não foi perdida ou descartada por não ter mais tinta para escrever.

Assim que eu pego uma folha de caderno e tento escrever com a caneta, a minha surpresa. A caneta estava funcionando perfeitamente. O reservatório de tinta parecia estar longe de esvaziar. Eu não conseguia acreditar, então realmente a caneta parecia que tinha acabado de ser comprada. Ela estava em perfeito estado físico e ainda tinha tinta. Sério, como o comprador pôde deixar isso acontecer. Canetas-Tinteiro não são baratas, ainda mais com aquela qualidade. O homem ou mulher que a comprou deveria saber muito bem do preço que estava pagando sobre essa relíquia, mas mesmo assim ele ou ela conseguiu perder a caneta, ainda mais em um lugarzinho medíocre como aquele terreno baldio. Esse mundo está perdido mesmo. Mas tudo bem no final das contas, afinal, aquela caneta-tinteiro agora me pertencia. Achado não é roubado, como diria um poeta que não me recordo o nome.

Assim que eu deixo a caneta próxima da minha coleção, eu volto para a realidade. Eu gosto de canetas, mas existem coisas mais importantes para se pensar. Eu vou até a minha cozinha, abro meu armário e lá estão eles, os meus três amigos pra cabeça: Risperidona, Amissulprida e Olanzapina. Tudo que eu precisava fazer era ingerir um pouco de, pelo menos, um deles por dia para tratar da minha suposta esquizofrenia. Será que uma marretada já não seria o suficiente? Bom, fazer o quê? Eu pego a Amissulprida e tiro de dentro da embalagem três comprimidos, o que era equivalente a 600 mg daquela droga. O médico falou que era o suficiente para evitar que as minhas "alucinações" viessem a se tornar mais frequentes. Se, pelo menos, eu pudesse convencê-lo da verdade, eu poderia economizar meu dinheiro, porque essa porcaria não é barata e eu tinha que comprar com frequência ainda. Como eu odeio isso, misericórdia.

Assim que eu tomo meus remédios, eu resolvo fazer o meu jantar. Arroz, feijão e bife acebolado, não era um prato digno de MasterChef, mas pra mim estava mais que perfeito. No mais, eu comi tranquilamente como eu sempre fazia todas as noites. Muitos poderiam pensar que viver sozinho é algo bem solitário e até seria mesmo se eu não tivesse algumas companhias bem inconvenientes. Ao menos, eu não precisava gastar mais dinheiro comprando comida para alimentá-las. Após terminar de comer, eu lavo os pratos e os guardo.

Quando eu olho pro relógio, vejo que já eram 20:43. Eu sempre começo a me preparar para dormir às 21:30, antes disso eu tenho costume de praticar a minha caligrafia escrevendo em meu diário. Sim, eu tenho um diário. Antiguado? Sim. Relaxante? Sim, até certo ponto. Eu gostava de escrever sobre tudo que acontecia no meu dia-a-dia. Sou muito apegado a detalhes, então não me faltam coisas interessantes para escrever. Como sempre, meu dia foi absolutamente normal, tirando o fato de eu ter adquirido uma caneta nova na minha coleção. Isso não era realmente um novidade, já havia encontrado antes canetas em bom estado abandonadas em lugares aleatórios, mas naquele caso foi especial. Eu estava mais feliz do que deveria na hora que eu encontrei aquela caneta-tinteiro próxima do terreno baldio, então obviamente o meu relato sobre aquilo no meu diário foi feito com especial carinho.

e s c u t e m e p o r f a v o r . . .

O quê? Três vezes no mesmo dia? Aquilo era um recorde, nunca tinha acontecido comigo an...

Po r f av or . . . es cu te — me . . .

Hã? Mas o que é isso? Isso nunca...

Por favor... escute o que eu tenho a...

Eu me levanto e olho para os lados. Eu sempre pude ouvir vozes em minha cabeça, desde criança. Elas sempre estavam lá, às vezes eram vozes masculinas e outras vezes eram femininas. Muitas vezes, dava até pra diferenciar se eram vozes de crianças, jovens, adultos ou velhos, mas elas sempre pareceram distantes e em baixo volume. Aquela voz que eu estava ouvindo naquele momento não estava distante, pelo contrário, parecia que tinha alguém ao meu lado falando comigo diretamente.

Eu preciso que você me escute... eu preciso muito... é algo que somente o senhor pode fazer por mim... por favor...

O que estava acontecendo? Elas nunca haviam falado comigo daquele jeito. Tinha algo acontecendo, algo muito diferente. Confesso que fiquei com muito medo, aquilo era repentino e inesperado demais, ainda que eu conseguia identificar aquele tipo de voz perfeitamente. Era claramente a voz de uma garota adolescente, pude distinguir pelo tom mais agudo. Eu não sei o que era queria comigo, eu precisava descobrir. Mesmo estando com medo, eu respirei fundo e perguntei:

— Quem é você? Ou melhor, o que é você?

Silêncio. A voz não respondeu imediatamente.

— Vamos, responda! Você disse que queria me ajuda, não é? Então fale, o que você quer comigo?

Mais uma vez, silêncio. Eu comecei a ficar irritado. Durante toda a minha vida, eu ouvi vozes. Elas nunca respondiam quando eu falava com elas, elas nunca me davam satisfação, elas apenas falavam comigo quando lhes era conveniente. Por causa daquelas vozes, eu fui diagnosticado com esquizofrenia. Essa fato fez os meus pais infelizes, fez com que eu não tivesse nenhum amigo na escola e eram por causa delas que eu tinha que gastar dinheiro à toa com remédios. Cada segundo que ia passando, minha raiva só aumentava.

— VAMOS LOGO, VOZ MALDITA! VOCÊ QUER FALAR COMIGO? ENTÃO FALE! EU NÃO AGUENTO MAIS OUVIR COISAS QUE NINGUÉM MAIS CONSEGUE OUVIR! SE VOCÊ É REAL, ENTÃO RESPONDA MINHA PERGUNTA! QUEM É VOCÊ? QUAL É O SEU NOME? DE ONDE VOCÊ VEM? RESPONDA!

Eu nem pensei que aquela gritaria toda poderia assustar os vizinhos, mas eu não estava nem aí. Eu queria satisfação, aquela voz me devia isso.

JONATHAN... HARRISON... JR.

— O quê? Jonathan Harrison Jr.?

Um nome do qual nunca ouvi falar. Era um nome masculino, logo não poderia ser o seu nome. O que aquilo significava. Eu estava confuso, a minha raiva foi substituída por um desentendimento completo. Será que eu finalmente estava ficando verdadeiramente maluco?

Por favor, escreva esse nome em um papel. Use aquela caneta que você encontrou para escrever esse nome.

A caneta-tinteiro? Ela queria que eu escrevesse aquele nome em um papel usando a caneta-tinteiro? Eu não entendi absolutamente nada. Naquele ponto, eu não era capaz de questionar o porquê eu deveria realmente fazer aquilo. Pela primeira vez na minha vida, uma das vozes que eu ouvia resolveu falar algo além do que eu sempre ouvia e falou diretamente comigo. Ela conversou comigo e me pediu um favor diretamente. Eu não poderia ignorar aquilo mesmo que eu quisesse. Porém, um resquício de dúvida ainda me seguia. Por que ela queria que eu usasse especificamente a caneta-tinteiro que eu havia acabado de encontrar para realizar aquela tarefa, sendo que qualquer caneta, teoricamente, poderia servir? Mesmo com essa dúvida, eu não poderia ignorar aquela voz.

Eu arranquei uma folha do meu diário e escrevi o nome que a voz me falou. Jonathan Harrison Jr. Quem poderia ser? Seria um amigo da dona da voz? De repente, o pai dela ou irmão? Eu sequer perguntei também, na verdade, eu sabia que não adiantaria perguntar. Assim que eu terminei de escrever, eu perguntei à voz:

— Pronto, já fiz o que me pediu. Agora me fale, quem é esse Jonathan? Ele é amigo ou parente seu? Por favor, responda-me.

Silêncio.

Eu esperei alguns segundos, mas nada. Nenhuma resposta. O que aquilo poderia significar. De repente, eu começo a me sentir estranho. Uma sensação... de sonolência? O meu corpo, do nada, começou a ficar mais... cansado? O que poderia...?

Eu caí no chão e adormeci.

E agora?

Eu iria sonhar com alguém?

O que estava por vir?

O quê?

...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.