O Espelho dos Condenados

1 As luzes do escritório


Notas iniciais
Que mistérios podem se esconder atrás das portas dos mais pacatos lares?
Abra as portas e descubra por si mesmo!
Acompanhem a história e deixem sua opinião!
Obrigada!

Eram constantes as visitas de Louis Healler à mansão de seu irmão, Arthur, que cobria quase todo o quarteirão de um dos bairros mais ricos e belos da cidade. Os dois costumavam manter uma relação de cordialidade e respeito mútuo, fazendo jus ao bom nome da família. Como todo cavalheiro de meia idade que se preza, tomavam um bom vinho em volta da lareira, conversavam sobre seus interesses e negócios, mas mantinham certo distanciamento com relação à suas vidas pessoais, limitando-se, em certos assuntos, a conversas superficiais e vagas.

Mas naquela tarde de outono, tudo parecia diferente. Louis caminhava apressado pelas ruas do pacato bairro, que àquela hora encontravam-se vazias devido ao mau tempo. Uma neblina forte encobria a visão das casas, e um vento frio soprava balançando as copas das árvores que enfeitavam as calçadas de pedra.

Sua respiração era ofegante, seu coração pulsava acelerado, e um temor incontrolável tomara conta de seu corpo. Ele sabia que sua vida corria grave perigo, e que naquela noite, seu destino seria selado.

Ele bate a porta da casa do irmão, e logo após é recebido pelo mordomo, Carlo, que já havia recebido instruções para encaminhá-lo ao escritório de Arthur, nos fundos da mansão.

O que se passou naquele escritório aquela noite, de fato, escreveu as últimas linhas do destino de Louis, e o marcou, de tal modo, que as consequências seriam irreversíveis.

Era possível ouvir da grande sala de estar da mansão os gritos que ecoavam do escritório, batidas na mesa e na porta, feitas por punhos descontrolados, lamentos, súplicas e murmúrios descontentes. O que quer que fosse o motivo para tais atos de desespero, atiçou a curiosidade de todos os empregados da casa, que embora não conseguissem compreender o que se passava naquele cômodo, logo fantasiaram, a seu modo, as mais diversas situações, e debatiam, na cozinha da casa, suas teorias.

_Só pode ser por causa de alguma mulher. – Falava uma das arrumadeiras, que sabendo do fato de Louis ser um homem já em idade avançada e ainda solteiro e que Arthur havia ficado viúvo há dez anos, logo chegou à conclusão de que o motivo da discussão só poderia ser alguma disputa amorosa, já que os dois sempre foram bons amigos.

_Pois eu acho que se trata de alguma questão financeira. – Comenta o jardineiro, lembrando-se do fato de que nos últimos tempos, Louis tem constantemente recorrido ao irmão para pedir grandes quantias emprestadas.

_Não sejam tolos – Fala uma segunda arrumadeira- Não faço ideia do que pode estar acontecendo, mas seja o que for, é muito mais grave do que mulheres ou dinheiro. Eu nunca vi o senhor Healler gritar desse jeito, ele sempre foi um homem muito calmo e bom. Para tirá-lo da razão dessa maneira, algo terrível deve ter acontecido...

_O que estão fazendo? – Questiona Carlo ao entrar na cozinha e se deparar com os empregados discutindo.

_Tentando descobrir o que se passa no escritório do senhor... – O jardineiro se pronuncia, mas é interrompido por Carlo, que o lança um olhar reprovador.

_O que se passa no escritório do senhor Healler é somente de interesse dele, portanto voltem ao trabalho e cuidem de suas vidas.

Carlo se retira da cozinha e caminha em direção ao longo corredor que conectava a sala de estar aos fundos da casa, e logo se depara com Anna, a espreita atrás da porta do escritório.

_Senhorita Anna. – Ele diz, assustando a jovem que empalidece ao se deparar com o mordomo.

_Carlo! Você me assustou!

_Perdoe-me por minha intromissão, mas o senhor Healler pediu que a levasse a seus aposentos e não permitisse que saísse de lá até que tenha terminado sua reunião.

_O que está acontecendo?

_Eu não sei, mas devo pedir que me acompanhe, por favor.

_Eles estão gritando lá dentro. Meu pai nunca se altera dessa maneira, alguma coisa deve ter acontecido, eu preciso saber o que é.

_Pergunte ao senhor Healler mais tarde. Agora vamos, por favor.

A jovem acompanha o mordomo até seu quarto, ela sentia que algo aterrador havia acontecido, seu coração estava pesado. Ela sabia que aquele dia estava longe de terminar.

A noite chega. E súbito a discussão entre os dois irmãos torna-se silenciosa. Os empregados se assustam, indagando se tal situação descontrolada havia levado ao extremo da perda da razão e os dois haviam se matado dentro do escritório, mas o silêncio logo é rompido pelo som da porta se abrindo, logo Louis sai com passos pesados pelo corredor e se dirige a cozinha, com uma expressão de terror em seu semblante.

_Um copo d’água, por favor. –Ele diz, respirando ofegante. Seu rosto estava pálido e ele apertava as mãos com desespero.

_O senhor está se sentindo bem? – Pergunta a cozinheira, apreensiva com o estado de Louis.

_Sim, sim. Só estou um pouco nervoso. Não se preocupe. Só me dê um copo d’água, por favor.

_Só um minuto. – A cozinheira verifica as garrafas sobre a bancada de madeira, mas todas estavam vazias — Espere um pouco, vou ter que buscar mais água, senhor.

Ela se retira da cozinha com uma das garrafas e minutos depois retorna com a mesma cheia, mas Louis já havia se retirado. Ela o procura na sala, mas o homem também não estava lá, somente Carlo, que caminhava novamente em direção ao corredor.

_Você viu o senhor Louis? – Ela pergunta.

_Acabou de sair – O mordomo responde

_Estranho, ele estava tão transtornado, parecia que não estava se sentindo bem. Pediu um copo de água, mas quando trouxe a água, não estava mais na cozinha...

_Pois para mim, o senhor Louis pareceu perfeitamente normal, despediu-se e disse que voltaria em breve.

_Esses cientistas são mesmo loucos.

_Não seja indelicada. O senhor Louis é um cientista renomado, devemos tratá-lo com devido respeito. Se me dá licença, vou ao escritório. Ponha o jantar à mesa.

Carlo se dirige ao corredor, à medida que se aproxima da porta do escritório ouve um som que há anos já não ouvia. Arthur, no interior de sua sala, chorava, copiosamente, como não fazia desde a morte de sua esposa, Sara. O mordomo se assusta, ele sabia que somente algo de proporções semelhantes ao evento de dez anos atrás seria capaz de abalar o patrão de tal maneira.

Ao bater na porta, ouve uma voz fraca permitir sua entrada, mas ao entrar se depara com Arthur sentado em sua mesa, como de costume, lendo o jornal do dia. A falsa tranquilidade que emanava da atitude do patrão incomodava Carlo, e o deixava ainda mais curioso com o que poderia ter acontecido.

_Está tudo bem, senhor? – Ele pergunta, receoso.

_E por que não estaria? – Arthur responde, ainda com o rosto encoberto pelas páginas do jornal.

_O jantar será servido em minutos, senhor. – O mordomo não quis se intrometer nos assuntos do patrão, preferindo ser evasivo.

_Está bem, muito obrigado.

O jantar foi silencioso, como há muito já não era. Arthur e Anna sempre foram muito ligados como pai e filha, e gostavam de conversar sobre suas atividades e opiniões durante as refeições. Mas naquela noite Arthur não disse uma palavra sequer durante o jantar, a despeito das tentativas de Anna, se limitando a dizer apenas “boa noite, querida”, ao terminar a refeição. Depois, bebeu seu vinho ao pé da lareira e se recolheu em seu escritório novamente.

Anna subiu para seu quarto, decidira deixar a conversa com o pai para o dia seguinte, já que não conseguiria mais nada àquela hora da noite. Deitou-se em sua cama, mas não conseguia pegar no sono, sentimentos revoltos tomavam conta de seus pensamentos, e por mais que tentasse, não conseguia tirar de sua cabeça a imagem aterradora de seu pai gritando.

Já passava da meia noite, quando Carlo se encaminhava para seus aposentos, junto com os quartos dos demais empregados, nos fundos da casa. Enquanto caminhava pelo longo corredor que conectava as partes anterior e posterior da mansão, notou que a luz do escritório ainda estava acesa, não pode deixar de se espantar com a situação, já que, salvo exceções em que ia a festas ou jantares a noite, o senhor Healler sempre costumava se deitar antes das onze horas.

Ele se aproximou da porta e bateu de leve, não obtendo, porém, qualquer resposta. Tentou bater outra vez, com mais força, mas novamente foi ignorado.

_Senhor Healler? – Ele chamou uma, duas, três vezes. Mas não havia resposta. Pensou que o patrão pudesse ter adormecido e resolveu entrar para chamá-lo.

Mas qual não foi o terror e o desespero de Carlo, ao entrar pela porta do escritório e ver Arthur caído no chão, pálido e imóvel.

Ele gritou, sacudiu o corpo gelado do patrão, mas quando encostou a cabeça no peito do homem, não ouvi um batimento sequer... Não havia mais nada a ser feito. Arthur Healler estava morto.

Notas finais
Obrigada por lerem! Continuem acompanhando.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.