O Espelho de Delfos

1 Uma velha, um roqueiro e uma confusão


Já era manhã quando Henry acordou de um terrível pesadelo, era a sexta vez nessa semana que sonhava com as mesmas coisas: vultos negros, pessoas morrendo, relampejos verdes e algo que parecia um vidro refletindo seus olhos escuros.

Depois de um bom banho e um reforçado café da manhã, pegou suas coisas da escola, socando cadernos dentro da mochila vermelha e a jogando para as costas. Ao sair de casa, suspirou fundo e abriu os braços. O ar gélido e úmido da manhã preenchera seus pulmões. Estava uma hora adiantado naquela manhã.

Aquele era o dia de seu aniversário, e ele sentia-se aliviado por não ser mais acordado por seus pais para serem os primeiros a parabenizá-lo. Além disso, antes mesmo dele poder vestir alguma coisa propícia para o dia, sua mãe vinha com aquele seu sempre celular presente em datas comemorativas ou dias que ela considerava especial. Henry perguntava-se o que havia mais naquele celular além de fotos ou vídeos do "Parabéns Pra Você". Agora ele tinha dezesseis anos, e não precisava mais disso. Por isso saiu mais cedo, deixando seus pais em um sono profundo.

Seus pensamentos se dissiparam quando ouviu um estalido seco, seguido pelo som de folhas secas sendo sopradas. Sua atenção fora tomada por uma figura encapuzada que aparecera em seu jardim (pelo menos ele não a havia visto até ali. Perguntava-se de onde havia saído). Ela usava uma veste púrpura e apenas seu nariz em forma de gancho era visível pelo capuz. A espinha de Henry gelou.

Seria alguém que ele desconhecia vindo lhe entregar algum presente? Uma amiga da sua mãe que vinha vender cosméticos? Talvez fosse a Sra. Jordan, uma vizinha próxima que se fantasiava para festas de aniversário de crianças. Mas algo nele dizia que não era a Sra. Jordan. Ele estava do lado de fora, não sabia o que fazer. Poderia entrar, mas não fez. Permaneceu parado. A figura começou a se aproximar lentamente sem tirar os olhos dele. Agora que ela estava mais próxima e saíra da sombra de um carvalho próximo, Henry pôde perceber algumas mexas de cabelos grisalhos, então era alguém velho.

— Lindo dia, não? — disse a figura. Sua voz era seca e falha, quase como se estivesse perdendo a voz.

— Sim, lindo dia — respondeu Henry, sem se mover. Colocou a mão direita no bolso. Sua chave estava lá, se quisesse correr para dentro de casa daria tempo, e ainda por cima estava uma hora adiantado, não teria problema quanto a isso. Mas resolveu continuar ali, parado, observando a figura encapuzada se aproximar vagarosamente.

— Não precisa ter medo, só que quase não o reconheci depois de tantos anos. — voltou a dizer, a figura, tirando o capuz e revelando uma mulher velha com os cabelos esbranquiçados e longos como algodão e os olhos azuis que brilhavam como joias naquela manhã. Com o movimento, a manga de seu capuz escorregou para trás, revelando um braço branco e seco cheio de tatuagens.

— Eu não estou com medo — Henry forçou uma risada para esconder o pavor.

— Então devo ter desaprendido a ler auras, pois é isto o que a sua está indicando. — retrucou a velha, de forma calma e misteriosa.

— Ah, entendi, a senhora é uma daquelas pessoas que dizem saber ler as mãos, não é? Uma vidente. — respondeu de forma sarcástica.

— Vidente? Bom, não diria que sou completamente uma vidente, já que pessoas como nós podem ter mais de um dom.

Aquele jeito misterioso que a velha usava para falar com ele o desconfortava. O que ela estava querendo dizer? Quem era ela?

Alguém em algum lugar distante ligou um cortador de grama, e o som estridente deu uma pausa na conversa. Henry esfregou uma mão na outra e inspirou uma nuvem branca no frio da manhã, embaçando a visão da velha de capuz que continuava parada no mesmo lugar.

— Olha, se me der licença, preciso ir para a escola, acho que o ônibus se atrasou então vou ter que ir andando. — disse o menino, quebrando o silêncio agoniante. A figura misteriosa não demorou a responder:

— Pois bem, não quero atrapalhar o seu precioso tempo, mas apenas me escute, venho de longe lhe trazer um aviso — de repente tudo ficou silencioso. O som do cortador de grama, dos pardais cantarolando em alguma árvore próxima e dos carros que passavam de vez em quando na rua em frente. Parecia estar dentro de uma bolha junto com aquela velha misteriosa, em que nada podia os interromper-, você corre perigo, já tem dezesseis anos então não poderá se esconder por muito tempo, seus poderes estão crescendo e você não pode impedir.

— Tudo bem então, eu vou tentar não fazer nada — respondeu, de forma sucinta, tentando colocar ponto final na conversa. Ele estava confuso, não entendeu nada do que ela falou. Pensou em chamar a polícia, talvez fosse uma paciente de um manicômio que tinha fugido, ou talvez fosse uma charlatã tentando tirar algum dinheiro dele. Suas esperanças de ganhar um presente de aniversário se esvaíram. Depois de alguns segundos de silêncio, que pareceram décadas, a velha misteriosa voltou a falar:

— Henry, eu só quero que fique em segurança, me prometa que não usará seus poderes até que consiga controla-los, é de extrema necessidade que não faça nada. — Acima de tudo, como ela sabia seu nome?

—Tá, tudo bem senhora, eu não vou fazer nada, só vou para a escola ter um péssimo dia. — disse, afastando-se. O olhar da velha o seguiu.
— Agora, se me der licença...

Quando o menino estava a uma distância razoável da casa, perguntando-se se havia trancado a porta, a velha voltou a dizer:

— Henry, eu acredito que você chegará adiantado demais no colégio, mas para me certificar, pode me dizer que horas são?

— São sete horas. — Ele tirou os olhos do celular e quando olhou na direção que a velha senhora estava não havia ninguém lá, como se ela nunca estivesse aparecido. Desapareceu com o mesmo estalido seco e som de folhas sendo sopradas, com que havia aparecido.

Sete horas? Pensou o menino. Seu coração disparou e ele se sentiu tonto: tinha saído de casa faltando dez minutos para as sete. Com o tempo da conversa que teve com a senhora, teria perdido uma hora, mas foi como se o tempo estivesse parado, como se os dez minutos tivessem sido apenas do caminho de casa até o ponto de ônibus. Eu devo estar ficando louco, pensou, olhando novamente para o celular.

Ignorando totalmente o ocorrido, seguiu seu caminho ao ponto de ônibus que o levava para o colégio. Estava no segundo ano do ensino médio, daqui a pouco entraria para a Universidade de Princeton. Mesmo faltando pouco não sabia o que cursar.

Demorava quinze minutos até chegar ao colégio de ônibus, sempre chegava lá antes de o sinal tocar. Estudava em Livingston High School, uma escola onde toda a sua família estudou. Não era um lugar ruim, só que ele levava um legado de família.

O ônibus estava demorando muito, eram sete e trinta e cinco, geralmente nesse horário o lugar estava cheio. Tirando um homem que estava sentado a três bancos de distância estava sozinho.

Quando aquele homem chegou? Pensou. Estava tão aturdido em seus pensamentos que não percebeu quando o homem sentou-se do seu lado.

Era um homem estranho, parecia um cantor de rock, usando uma calça de couro preta, tênis de cano alto também pretos, uma jaqueta de couro preta com uma camisa branca que dizia em letreiros grandes "É HORA DO ROCK". Não tinha nenhuma tatuagem, mas tinha os cabelos lambidos caindo até os ombros e usava óculos ray-ban de sol também preto.

Henry não falou nada, ficou calado esperando que o ônibus chegasse. Mas não tardou até que o tal homem falou:

— Henry, Henry, Henry, ouvi histórias sobre você e sobre a sua família... Não me parece grande coisa. — o homem falou sem olhar para ele.

— C- como sabe meu nome? — Henry perguntou intrigado.

— É uma longa história, mas não estou aqui para conversar. Estou aqui para recuperar o que você roubou. — o tal roqueiro novamente falou sem se mover.

— Acho que você está me confundindo com alguém. Não roubei nada.

O coração de Henry mais uma vez disparou, estava realmente com medo de aquele homem fazer algo com ele mesmo que não tivesse roubado nada. Tentou se acalmar, respirou fundo, contou até dez e tornou a falar:

— Escuta, eu não sei do que você está falando ok? Eu não roubei nada, não peguei nada ok? Acabei de sair de casa, ontem fiquei no meu quarto o dia inteiro, não saí de lá. Então eu vou me levantar desse banco e vou andando para a escola. — Henry falou calmamente cada palavra.

Pegou a mochila vermelha que estava encostada aos seus pés e levantou-se. Até então, o misterioso homem não tinha feito nada. Andou e não olhou para trás. De repente seus pés ficaram pesados, logo Henry não conseguia andar. Olhou rapidamente para baixo, mas não havia nada que o impossibilitasse de caminhar.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou o homem. — Por que parou?

Henry não sabia como, não sabia o porquê, mas de certa forma tinha a consciência que o homem que estava à sua frente o prendera.

— Adam, não é? Seu nome. — Henry falou surpreso ao saber o nome dele.

— E como sabe meu nome? — pelo seu olhar, já sabia a resposta.

— Eu... Eu não sei. — Henry respondeu aflito.

— É... Foi o que pensei. Parece que você herdou o dom de sua mãe. — Adam, o roqueiro, respondeu.

— Minha mãe? Do que você está falando? — respondeu Henry confuso.

Adam agarrou o colarinho da camisa de Henry com as duas mãos, e entredentes o empurrou até a parede. Com um baque surdo, Henry perdeu todo o ar.

— É só um aviso garoto, se não me der o que roubou vou acabar com você. Mas não se preocupe porque eu não mato ninguém, só torturo, até ouvir seu último grito e sentir seu último suspiro e por fim... Morre. Eu sei onde você mora, é só questão de tempo até encontrar sua família e seus amigos. Está avisado.

— Mas você acabou de falar que não mata ninguém. — Henry falou procurando oxigênio.

— Ah é? Tente.

Houve um clarão momentâneo e de repente Henry estava novamente no ponto de ônibus sentado em um banco. Alguém mexia em seu corpo. Escutava alguns ruídos, mas não os entendia.

— Garoto, acorde. — uma voz distante chamava Henry. — Garoto! Você vai perder o ônibus.

Henry acordou atordoado, sua visão embaçada não mostrava quem era a mulher que o acordara. Apenas andou de relance até a porta e embarcou no ônibus.

Tudo que aconteceu foi um sonho? A velha e o roqueiro, eles foram apenas fruto de sua mente? Estivera dormindo todo esse tempo? Tudo parecia tão real.

A caminho do colégio nada poderia ter sido tão estranho quanto.

Henry não sabia como, mas estava vendo coisas que nunca viu. Sempre tomava o mesmo caminho, os mesmos prédios, as mesmas casas, os mesmos vendedores, até o mesmo motorista. Mas naquela manhã em especial estava vendo pessoas estranhas, em todos os lugares. Viu um homem negro usando vestes brancas compridas, sentado em um banco quando pararam em outro ponto para uma velhinha entrar. O mais estranho é que o homem tinha cortes pelo corpo todo e parecia que a velha não estava vendo. Não por ser uma velha de visão ruim, mas literalmente não estava vendo ele.

O ônibus parou e o motorista indicou que chegara a escola de Henry.

— Tenha um bom dia Ted. — falou Henry para o motorista.

— Você também Henry, ah, e não se esqueça das cartinhas. Tenho quase a coleção completa de DungeonsandDragons. Faltam apenas duas cartas.

DungeonsandDragonsé um jogo onde as pessoas criam personagens que embarcam em aventuras imaginárias em que eles enfrentam monstros, reúnem tesouros e ganham pontos de experiência para se tornarem incrivelmente poderosos à medida que o jogo avança. Ted era o melhor jogador com quem ele jogava há dois anos.

— Tudo bem Ted, amanhã eu te dou. — falou Henry se despedindo.

— Ah Henry, — Ted falou antes de Henry ir embora. — feliz aniversário.

— Obrigado. — Henry respondeu dando-lhe um grande sorriso.

Saindo do ônibus Henry encontrou Charlie e Sam, seus melhores amigos.

Sam usava uma blusa branca com estrelas azuis, que eles haviam desenhado no natal, com a sua melhor calça jeans que só usava em ocasiões especiais. O vento batia em seus cabelos louros e Henry não parava de pensar o quanto ela estava linda.

— Pensei que você não ia vir hoje, eu te mataria se não tivesse te visto.

— O que? Como assim? Eu cheguei mais cedo. — Henry retrucou mostrando as horas no celular.

— Se lembra que sempre nos encontramos no ponto de ônibus?

— Pega leve Sam, hoje é aniversário dele. — Charlie interrompeu. — Parabéns cara, soube que hoje vão servir pizza na cantina. — falou dando-lhe um aperto de mãos.

— Parece que hoje é meu dia de sorte. — Henry respondeu.

Charlie estava com os cabelos bagunçados, usava um casaco verde do colégio. Mas ao contrário de Sam, estava usando shorts brancos com um tênis all star.

Ele olhou para Sam que estava com a cara fechada, mostrando apenas seus olhos esverdeados. Tentando acalmar a fera dentro dela, falou:

— Não faz essa cara Sam, você sabe que todos os anos minha mãe tira aquelas fotos. Então, resolvi sair mais cedo.

— Olha, eu não vou ficar brava com você hoje, porque é seu aniversário. Mas isso não me impede de ficar outro dia. A propósito, eu que falei para o Charlie vir com essa camisa. — falou Sam apontando para Charlie.

Charlie retirou o casaco e mostrou uma camisa vermelha com letreiros grandes e dourados que diziam: "HOJE É ANIVERSÁRIO DO HENRY".

Henry sorriu. Agradeceu ao Charlie.

— Isso não é tudo, veja as costas. — Sam falou.

Charlie virou as costas e nelas estavam os mesmos letreiros em caixa alta com dizeres: "É MELHOR VOCÊS DAREM PARABÉNS A ELE OU...".

— Realmente é a melhor camisa para usar hoje. Me lembre para fazer isso no seu.

Juntos caminharam para a sala de aula.

Escola Livingston, Henry se lembrava da primeira vez que pisou naquela escola. Era um completo estranho até, sem querer, derrubar o material de Charlie e desde então são melhores amigos. Já a Sam foi diferente, principalmente porque ela não foi na primeira semana de aula. Conheceram-se no laboratório de química quando tiveram que fazer dupla. Como tinham gostos em comum não foi difícil a comunicação fluir entre eles. Depois de alguns dias Henry soube que Charlie e Sam já se conheciam há dois anos.

Charlie era o mais inteligente do grupo, sempre tirou notas altas, mas nunca se gabou por isso. Adorava ler, escrever, desenhar. Adorava as aulas de cálculos, e as aulas de arte. Henry achava estranho esse gosto por cálculos e ao mesmo tempo por desenhos, pinturas e poesia. Ano passado, Charlie começou a interessar-se pelo time de futebol da escola, os Lançadores. Fez o teste e é um dos atacantes.

Sam era totalmente diferente, não se interessava por matemática ou física, gostava muito de história e era uma boa cantora (talento que apenas Henry e Charlie conheciam). Sam gostava de pintar os cabelos sempre, essa semana estava loura, semana passada estava com os cabelos azuis... Não gostava da monotonia, sempre com essa fama de louca. Gostava de música, The Smiths era sua banda favorita. Quando conheceu Andy Rouke e Johnny Marr por acaso, quase teve um ataque cardíaco. Sempre que acampavam no quintal de sua casa, ela pegava seu violão branco e tocava para eles.

Henry estava tão envolvido em pensamentos que não percebera que já haviam chegado ao seu armário.

— Podem ir, vou só pegar meu livro de álgebra. — Henry falou para Charlie e Sam.

— Ok. — ambos falaram juntos.

Henry girou o cadeado colocando a combinação 6.2.4.4.2, pegou o livro de álgebra e o trancou novamente.

Antes de sair do corredor, Henry foi empurrado e bateu as costas em um dos armários.

— Feliz aniversário, babaca. — uma voz grave falou indo em direção a ele.

Era Travor Harris. Um garoto do primeiro ano, apesar de ser bem mais velho. Possuía pelos pelo rosto redondo e cabelos negros altamente bagunçados apenas com um gorro dos Yankees (um time de basebol que era fanático), olhos pequenos e escuros e roupas grandes demais para ele. Travor era o típico valentão do colégio, sempre que podia roubava o dinheiro dos calouros... e de Henry.

Henry se levantou meio zonzo, apesar de estar perto dos armários o impacto que ele recebeu foi grande.

— Qual é a sua Travor? Me deixa em paz. — Henry falou cansado das mesmas brincadeiras que Travor Harris fazia com ele sempre.

— Só vim desejar meus parabéns. — Travor falou com uma voz de criancinha. Disfarçando quando a Sra. Connor, professora de química passou.

— Você já deu, agora deixe eu ir embora. — Henry falou.

— Você pode ir, mas antes me dê o dinheiro do seu almoço. — Travor falou com um olhar ameaçador.

Cansado daquela monotonia de sempre, Henry deu o dinheiro.

— Obrigado, babaca. — Travor falou empurrando mais uma vez Henry contra os armários.

Henry sentiu a raiva tomar conta do seu corpo, sentiu seus olhos inflamarem de ódio, suas mãos esquentaram e tudo o que ele queria era bater no Travor, ele sabia que podia. E foi o que ele fez.

Antes de Travor entrar na aula de inglês Henry correu e pulou em cima dele pelas costas, ambos caíram. Henry ainda sob Travor começou a dar socos e mais socos em seu rosto. Era tudo o que ele queria, fazê-lo pagar por todas as brigas que tiveram, por todas as vezes que o prendera no armário, por todas as vezes que roubara seu dinheiro. Henry ainda dando socos ouviu Travor pedir para que parasse, mas ele não fez.

— Você vai pagar Travor! — Henry berrava.

— Não, não, pare, por favor. — ouviu Travor choramingar.

— Só estou começando! — falou Henry sentindo seus olhos esquentarem.

Todos estavam ao redor dos dois vendo a briga acontecer. Henry estava gostando da atenção, talvez pudesse ser o novo valentão do colégio, pensou.

De repente mãos agarraram Henry pelas costas puxando-o para longe, ele se debatia, pois queria terminar com Travor, queria mata-lo, ele sabia que podia. Só quando estava na entrada do colégio percebeu que as mãos que o tiraram da confusão eram de Charlie e Sam.

Henry viu seus rostos amedrontados, apavorados com o que havia acontecido.

— O que foi isso Henry? Você está ficando louco? — Sam perguntou indignada.

De repente a adrenalina no seu corpo diminuiu, seu coração voltou aos batimentos normais, ele conseguiu se acalmar e só então percebeu o que tinha acontecido.

Ele havia brigado com Travor Harris, o cara que sempre tivera medo. Sentiu vergonha por seus amigos verem-no dessa maneira, sentiu vergonha por seus melhores amigos o olharem pela primeira vez com medo.

— O que você fez? — Charlie falou olhando-o fixamente.

— Eu... Eu... — Henry tentou falar algo, mas não conseguiu.

— Você bateu no Travor, você socou a cara dele. Henry, eu nunca te vi assim. Quem é você? — Sam falou.

— Eu... — Henry começou a falar, mas Sam o interrompeu.

— Você quebrou o nariz do cara, seja lá o que ele tenha feito hoje, não tinha o direito de fazer isso. Você nunca fez.

Henry percebeu o quão chocados Sam e Charlie estavam, viu pela primeira vez uma lágrima sair do olho de Sam. Isso o deixou extremamente envergonhado.

— Eu não sei porque eu fiz aquilo, estava com muita raiva dele e algo em mim disse que eu conseguia fazer... Aquilo. — Henry falou tentando não olhar para seus amigos.

— Pois fale para esse algo ou alguém que o que você fez está errado. Henry você não pode resolver nada com violência! Não está certo. — Charlie falou. — Tudo bem que o Travor sempre enchia seu saco, mas não era assim que as coisas seriam resolvidas. Veja suas mãos.

Henry baixou a cabeça e olhou para as mãos que estavam sujas de sangue. Do sangue do Travor Harris. Sangue!

— Não fala nada! Só, vai lavar isso. — Sam falou.

— Estamos decepcionados com você Henry, você é nosso amigo, mas... Isso foi demais — Charlie falou. — A gente se vê depois.

Charlie e Sam, seus melhores amigos o deixaram sozinho, estavam com medo dele, medo do que ele podeira fazer.

Sem pensar duas vezes foi direto para o banheiro.

Pelo caminho percebeu os olhares encarando-o, pessoas comentando. Passou em frente ao seu armário e viu as manchas de sangue no chão. Alguém teria levado Travor Harris para outro lugar, provavelmente a enfermaria. Ele que tinha feito aquilo, ele. Correu em direção ao banheiro, mas por onde passava via as pessoas falando e o olhando apavoradas.

O que estava acontecendo comigo?

Chegou ao banheiro e agradeceu aos céus por não haver ninguém lá. Lavou as mãos e molhou o rosto. Ainda não acreditava no que havia acontecido.

Levantou sua cabeça olhando para seu próprio reflexo no espelho.

— O que você fez Henry Anderson? — ele falou olhando para seu reflexo.

Era o que você queria fazer.

Henry ouviu uma voz distante, com olhos bem abertos procurou se havia alguém em algum dos boxes. Mas não tinha ninguém além dele.

— Ótimo, além de tudo eu estou ficando louco. — Henry falou.

Não era a primeira vez que ele havia ouvido vozes, sempre pensara que fosse algo de sua cabeça. Mas naquele dia, onde coisas estranhas aconteceram, ele sabia que estava acontecendo alguma coisa.

Henry pensou no que aconteceu nessa manhã, a velha que estava parada em frente à sua casa, o homem que lhe deu um aviso quase mortal. O que será que aquilo significava?

Saiu do banheiro atordoado indo em direção à sala seis.

— Senhor Anderson! — falou uma voz atrás dele.

Henry parou e se virou.

Viu o Sr. Thompson, o diretor.

Com certeza ele já teria descoberto sobre a confusão e vai me expulsar, pensou.

— Sim? — Henry falou.

— Minha sala. Agora! — o senhor Thompson apontou para o corredor principal.

Chegando à sala do diretor Travor Harris já estava lá com uma gaze no nariz.

— Sente-se Henry. — ordenou Sr. Thompson.

Henry já sabia o que iria acontecer. Com sua sorte Travor seria liberado e ele expulso.

— É a última vez que algo desse gênero acontece. Dois adolescentes brigando feito animais. Não irei mais tolerar esse comportamento dos dois. — Sr. Thompson falou, a cada palavra dita ele olhava de um para o outro.

— Mas senhor, eu não tive culpa, Henry que se atirou em cima de mim e começou a me bater. — Travor falou se fazendo de inocente.

— Isso é verdade Henry? — Sr. Thompson perguntou.

— Sim, mas, eu já estou cansado do Travor! Sempre que ele pode rouba meu dinheiro, me prende no armário e me empurra. — disse Henry.

— É, mas, eu nunca cheguei a te bater ou quebrar o seu nariz! — disse Travor.

E aí que ele percebeu que o Travor realmente estava falando a verdade. Apesar das brincadeiras sem graça, apesar de tudo Travor, nunca quebrara seu nariz.

— Então eu vou fazer o seguinte, — disse o Sr. Thompson.- vou pedir para que ambos se desculpem e depois, para ficar claro a minha autoridade, vou suspender os dois, por três dias.

— O que? — ambos responderam.

— Vocês me ouviram, peguem seus materiais e vão para casa. Mas antes, apertem as mãos como sinal de respeito, paz e perdão.

Henry e Travor apertaram as mãos, ambos pedindo desculpas.

— Ah, não se preocupem, seus familiares já foram avisado. — concluiu Sr. Thompson.

Saindo da sala do diretor, Henry não falou nenhuma palavra com Travor. Foi direto ao seu armário deixar o livro de álgebra que ainda estava na entrada do colégio.

Abriu novamente e então um bilhete em papel velho caiu para fora do armário. Henry guardou o livro e pegou a carta. Não havia nome do correspondente, só estava endereçado a Henry.

Henry Anderson: Armário número 112

Estranhou o bilhete, não havia nada nele, virou e viu uma singela mensagem.

Abra-me, apenas quando for necessário!

Ele realmente não quis abrir naquele momento. Já eram 09:00 e com sorte pegaria um táxi e voltaria para casa.

Deixou um papel escrito que tinha ido embora dentro do armário de Charlie. Pegou sua mochila vermelha e saiu do colégio.

Pegou um táxi rapidamente e foi para casa. No caminho não aconteceu nada estranho. Nenhuma velha encapuzada, nenhum roqueiro querendo mata-lo e nem vozes estranhas na sua cabeça.

Pagou o táxi com um dinheiro que tinha tirado do seu armário e agradeceu.

Entrando em casa sentiu um calafrio tomar conta do seu corpo. Não havia ninguém. Geralmente seus pais estariam em casa. As portas abertas, a sala bagunçada... Ele ficou com medo, algo acontecera enquanto estava no colégio.

Então subitamente lembrou-se das palavras do roqueiro Adam, que conhecera mais cedo.

"Eu sei aonde você mora, é só questão de tempo até encontrar sua família".

Ele teria vindo à sua casa, machucado seu pai e sua mãe. Só podia ser isso.

Então nada daquilo fora coisa de sua cabeça, aquilo com a velha e o tal homem realmente aconteceu, e agora seus pais estavam pagando pelo erro de Henry, por ele, supostamente, ter roubado o que for de Adam.

O que está acontecendo?

Notas finais
Irei postar os capítulos todas as semanas... Assim não deixarei o gosto por ela acabar. Haha, desde já agradeço a quem ler.