O Espelho Mágico

3 A Final da Copa Mundial de Quadribol



Depois de mais um pouco de chá e uma conversa entre Narcisa e Peter no qual Hydra estava chocada demais para participar, Peter anunciou que precisava se retirar e encontrar sua família para o jogo, se despediu de todos e Hydra o acompanhou até a saída da barraca, ainda meio pálida.

— Hydra, está tudo bem? – Perguntou ele, parado em frente à barraca.

— Meu pai aprovou algo que eu faço e eu não sei bem como me sinto quando a isso, na verdade eu não sei se isso já aconteceu antes, com algumas amizades sim na verdade, mas acho que praticamente só... – Respondeu ela sendo direta e Peter começou a gargalhar.

— Você consegue ser dramática meu amor, sua mãe tem razão quanto a isso, o que que tem? Isso é uma coisa boa, não teremos que nos preocupar com ele nos perturbando, você não quer isso?

— Sim. – Disse ela forçando um sorriso – É claro que eu quero, só é muito estranho e muito novo pra mim.

Ela então abraçou e beijou Peter.

— Eu te amo sua doidinha! — Disse Peter em seu ouvido, Hydra retribuiu.

— Eu também te amo, seu amante de doidinha- Disse ela rindo.

Ambulantes aparatavam a cada metro, trazendo bandejas e empurrando carrinhos cheios de extraordinárias mercadorias. Havia rosetas luminosas – verdes para a Irlanda, vermelhas para a Bulgária – que gritavam os nomes dos jogadores, chapéus verdes cônicos enfeitados com trevos dançantes, echarpes búlgaras adornadas com leões que rugiam de verdade, bandeiras dos dois países que tocavam os hinos nacionais quando eram agitadas; havia miniaturas de Firebolts, que realmente voavam, e figurinhas colecionáveis dos jogadores famosos, que andavam se exibindo nas palmas das mãos.

— Acho que vou comprar algumas coisas – Disse Hydra e ela e Peter saíram em direção aos ambulantes, compraram rosetas verdes para os dois, Hydra comprou também um chapéu e Peter comprou uma miniatura de uma Firebolt para ela de presente.

— O que é isso? – Perguntou Peter indo até um carrinho atulhado de coisas que pareciam binóculos de latão, só que eram cheios de botões estranhos.

— Onióculos – disse o vendedor pressuroso. – Você pode rever o lance... passar ele em câmara lenta... e ver uma retrospectiva lance a lance, se precisar. Pechincha: dez galeões um.

— Quero quatro por favor – Disse ele.

— Quatro? Perguntou Hydra.

— Sim, um para mim, um para você, um para papai e outro para Jeniffer.

— Vou comprar um para o Draco. – Disse Hydra – Acho que ele vai gostar.

Mas Peter fez questão de mudar seu pedido para cinco Onióculos e deu dois para Hydra, depois se beijaram e ela voltou para a barraca.

— Toma, o Peter te deu de presente, são onióculos, com eles você pode rever lance, ver em câmera lenta e por aí vai. – Disse Hydra entregando o objeto para Draco que olhou com desdém e não falou nada.

Ela depois entrou no seu quarto e guardou sua miniatura da Firebolt. Do nada, ouviu um gongo, grave e ensurdecedor, bater em algum lugar além da floresta, olhou pela janela e na mesma hora, lanternas verdes e vermelhas se acenderam entre as árvores, iluminando o caminho até o campo.

— Está na hora – Gritou Lúcio da sala.

Com Lúcio na frente e Hydra, enfeitada com suas compras, todos correram para a floresta seguindo o caminho iluminado pelas lanternas. Ouviam a algazarra de milhares de pessoas que se movimentavam à volta deles, gritos, gargalhadas e trechos de canções. Até que finalmente emergiram do outro lado e se viram à sombra de um gigantesco estádio. Embora Hydra só pudesse ver partes das imensas paredes douradas que cercavam o campo, ele podia afirmar que caberiam dentro dele, com folga, umas dez catedrais.

— Venha, vamos até nossos lugares. – Disse Lúcio.

— Lugares maravilhosos! – exclamou a bruxa do Ministério ao portão, quando verificou as entradas deles. – Camarote de honra! Suba direto, Sr. Malfoy, o mais alto possível. Lúcio olhou com nojo para a bruxa por "ousar" que ele iria ficar em um local que não fosse o "de primeira"

As escadas de acesso ao estádio estavam forradas com carpetes púrpura berrante. Eles subiram com o resto da multidão, que aos poucos foi se dispersando pelas portas à direita e à esquerda que levavam às arquibancadas. Sua família continuou subindo e finalmente chegou ao alto da escada, onde havia um pequeno camarote, armado no ponto mais alto do estádio e situado exatamente entre as duas balizas de ouro. Umas vinte cadeiras douradas e púrpura tinham sido distribuídas em duas filas.

Cem mil bruxos e bruxas iam ocupando os lugares que se erguiam em vários níveis em torno do longo campo oval. Tudo estava banhado por uma misteriosa claridade dourada que parecia se irradiar do próprio estádio. Ali do alto, o campo parecia feito de veludo.

De cada lado havia três aros de gol, a quinze metros de altura; do lado oposto ao que estavam, quase ao nível dos olhos de Hydra, havia um gigantesco quadro-negro.

Palavras douradas corriam pelo quadro sem parar como se uma gigantesca mão invisível as escrevesse e em seguida as apagasse; observando melhor, Hydra viu que o quadro projetava anúncios no campo.

"Bluebottle: uma vassoura para toda a família – segura, confiável, equipada com alarme antirroubo... Removedor Mágico Multiuso da Sra. Skower: sem dor nem cor!... Trapobelo Moda Mágica – Londres, Paris, Hogsmeade..."

Então, ela viu os Weasleys, Harry e Hermione e dois outros rapazes ruivos que Hydra não conhecia mas julgou ser os irmãos de Fred e Jorge que a olhavam com curiosidade, todos sentados na fileira na frente a que estavam indo sentar, Lúcio, Narcisa e Draco os olharam com nojo, Hydra sorriu e os cumprimentou. Ela também viu uma elfa doméstica que parecia extremamente assustada sentada ao lado de uma cadeira vazia, estranhou a situação, mas não falou nada.

— Ah, Fudge – disse o Sr. Malfoy, estendendo a mão para o ministro da Magia, ao chegar mais próximo. – Como vai? Acho que deve se lembrar da minha mulher, Narcisa? Nosso filho, Draco e nossa filha, Hydra?

— Como estão, como estão? – disse Fudge, sorrindo e se curvando para a Sra. Malfoy. – E me permitam apresentar a vocês o Sr. Oblansk ("Obalonsk, senhor"), bem, o ministro da Magia da Bulgária, e de qualquer modo ele não consegue entender nenhuma palavra do que estou dizendo, portanto não faz diferença.

Hydra e Draco, que falaram muito bem búlgaro, cumprimentaram o ministro em sua língua local.

— Fantástico, fantástico, que crianças mais bem educadas, Lúcio! – Disse Fudge entusiasdo por ter dois novos tradutores para ele se precisasse.

— Naturalmente... – Respondeu Lúcio, dando um leve sorriso.

— E vejamos quem mais, você conhece Arthur Weasley, imagino?

Foi um momento tenso. O Sr. Weasley e Lúcio se entreolharam, os olhos de Lúcio, frios e cinzentos, examinaram o Sr. Weasley e depois a fila em que ele estava e Hydra sorria se divertindo com a cena.

— Meu Deus, Arthur – disse ele baixinho. – Que foi que você precisou vender para comprar lugares no camarote de honra? Com certeza sua casa não teria rendido tudo isso, não?

Hydra se revoltou e ia falar algo quando Fudge, que não estava prestando atenção, comentou:

— Lúcio acabou de fazer uma generosa contribuição para o Hospital St. Mungo's para Doenças e Acidentes Mágicos. Está aqui como meu convidado.

— Que... que bom – disse o Sr. Weasley com um sorriso muito forçado.

Os olhos do de Lúcio se voltaram para Hermione, que corou de leve, mas retribuiu o seu olhar com determinação. Os lábios de Lúcio se crisparam. Acenou a cabeça com desdém para o Sr. Weasley e continuou a avançar em direção aos lugares vazios.

Draco lançou a Harry, Rony e Hermione um olhar de desprezo, depois se sentou entre Lúcio e Hydra que por sua vez estava ao lado da mãe e disse com os lábios sem som para os Weasleys "me desculpe" enquanto a família não olhava, o Sr. Weasley acenou a cabeça para ela de volta.

— Todos prontos? – perguntou ele, o rosto redondo e excitado brilhando como um queijo holandês.

No momento, seguinte, Ludo Bagman adentrou o camarote de honra, Hydra o conhecia de vista de um de seus aniversários.

— Ministro, podemos começar?

— Quando você quiser, Ludo – disse Fudge descontraído.

Ludo puxou a varinha, apontou-a para a própria garganta, disse "Sonorus!" e então, sobrepondo-se à zoeira que agora enchia o estádio lotado falou; sua voz reboou, ecoando em cada canto das arquibancadas:

"Senhoras e senhores... bem-vindos! Bem-vindos à final da quadridentíssima vigésima segunda Copa Mundial de Quadribol!"

Os espectadores gritaram e bateram palmas. Milhares de bandeiras se agitaram, somando seus desafinados hinos nacionais à barulheira geral.

O grande quadro-negro defronte apagou a última mensagem (Feijõezinhos de todos os sabores Beto Botts – um risco a cada dentada!) e passou a informar BULGÁRIA: ZERO, IRLANDA: ZERO.

"E agora, sem mais demora, vamos apresentar... os mascotes do time búlgaro!" O lado direito das arquibancadas, que era uma massa compacta e vermelha, berrou manifestando sua aprovação.

Hydra olhava com admiração, até que viu umas cem Veelas deslizando pelo campo, ela não gostava de Veelas, eram mulheres lindas que deixavam os homens completamente encantados com sua dança, sentia uma certa inveja disso.

As veelas começaram a dançar e Hydra notou que Harry estava em pé e tinha uma das pernas passada por cima da borda do camarote. Ao lado dele, Rony estava paralisado numa posição que dava a impressão de que ia saltar de um trampolim, Draco também estava de pé parecendo enfeitiçado.

— Sente-se agora! – Disse Lúcio nervoso.

Quando as Veelas se retiraram, gritos indignados começaram a encher o estádio. A multidão não queria que as veelas se retirassem. Hydra só queria que elas saíssem o mais rápido possível, não gostava mesmo das criaturas, não tinha jeito! (Ela pensava pelo menos) e só de imaginar Peter possivelmente lá embaixo "babando" pelas Veelas já sentia uma imensa raiva e ciúmes.

"E agora", trovejou Ludo Bagman, "por favor levantem as varinhas bem alto... para receber os mascotes do time nacional da Irlanda!"

No instante seguinte, algo que lembrava um imenso cometa verde e ouro entrou velozmente no estádio. Deu uma volta completa, depois se subdividiu em dois cometas menores, que se projetaram em direção às balizas. De repente, um arco-íris atravessou o céu do campo unindo as duas esferas luminosas.

A multidão fazia "aaaaah" e "ooooh", como se presenciasse um espetáculo de fogos de artifício. Depois o arco-íris foi-se dissolvendo e as esferas se aproximaram e se fundiram; tinham formado um grande trevo refulgente, que subiu em direção ao céu e ficou pairando sobre as arquibancadas. Parecia estar deixando cair uma espécie de chuva dourada...

Hydra gritava e aplaudia, o ministro da Magia da Bulgária parecia não gostar muito do que via e nem Lúcio que a mandou parar diversas vezes, mas ela não ligava e continuava gritando, quando o trevo sobrevoou o camarote, fazendo chover pesadas moedas de ouro, que ricocheteavam nas cabeças e cadeiras. Apertando os olhos para ver melhor o trevo, Hydra percebeu que na realidade ele era composto de milhares de homenzinhos barbudos de colete vermelho, cada qual carregando uma minúscula luz ouro e verde.

— Leprechauns! – ela ouviu o Sr. Weasley a frente exclamar, fazendo-se ouvir em meio ao tumultuoso aplauso dos espectadores, muitos dos quais continuavam a disputar o ouro e a procurá-lo por todo o lado em volta e embaixo das cadeiras.

— Não pegue, não é como se precisássemos! – Disse Lúcio olhando com desdém para o Sr. Weasley e falando com Draco e Hydra, a deixando magoada.

O maior dos trevos se dissolveu e os leprechauns, que são duendes irlandeses, foram descendo no lado do campo oposto ao das veelas, e se sentaram de pernas cruzadas para assistir à partida.

"E agora, senhoras e senhores, vamos dar as boas-vindas... ao time nacional de quadribol da Bulgária! Apresentando, por ordem de entrada... Dimitrov!"

Um vulto vermelho montado em uma vassoura, que voava tão veloz que parecia um borrão, disparou pelo campo, vindo de uma entrada lá embaixo, sob o aplauso frenético dos torcedores da Bulgária.

"Ivanova!" Um segundo jogador de vermelho passou zunindo.

"Zograf! Levski! Vulchanov! Volkov! Eeeeeeeee... Krum!"

— É ele, é ele! – Hydra ouviu Rony berrar, acompanhando Krum com o onióculo. Vítor Krum era magro, moreno, de pele macilenta, com um narigão adunco e sobrancelhas muito espessas e negras. Lembrava uma ave de rapina grande demais. Era difícil acreditar que tivesse apenas dezoito anos.

"E agora vamos saudar... o time nacional de quadribol da Irlanda!", berrou Bagman.

"Apresentando... Connolly! Ryan! Troy! Mullet! Moran! Quigley! Eeeeeee... Lynch!"

Sete borrões entraram velozes no campo;

"E conosco, das terras distantes do Egito, o nosso juiz, o famoso bruxopresidente da Associação Internacional de Quadribol, Hassan Mostafa!"

Um bruxo miúdo e magro, completamente careca, mas com uma bigodeira que rivalizava com a do tio Válter, entrou em campo trajando vestes de ouro puro para combinar com o estádio. Um apito de prata saía por baixo dos bigodes e ele sobraçava de um lado uma grande caixa de madeira e, do outro, sua vassoura. Hydra pegou o seu onióculo e observou com atenção Mostafa montar a vassoura e abrir a caixa com um pontapé – quatro bolas se projetaram no ar; a goles vermelha, os dois balaços pretos e (Hydra o viu por um brevíssimo instante antes que ele desaparecesse de vista) o minúsculo pomo alado de ouro.

Com um silvo forte e curto do apito, Mostafa saiu pelos ares acompanhando as bolas.

"COOOOOOOOOOOMEÇOU a partida!", berrou Bagman. "É Mullet! Troy! Moran! Dimitrov! De volta a Mullet! Troy! Levski! Moran!"

Hydra apertava o onióculo no rosto. A velocidade dos jogadores era assustadoramente incrível, ela achava que nunca ou ao menos já tinha muito tempo que não via nada assim. – os artilheiros jogavam a bola um para o outro tão depressa que Bagman só tinha tempo de identificá-los. Hydra tornou a girar o botão do lado direito do onióculo para reduzir a velocidade da imagem, apertou o botão "lance a lance" e na mesma hora estava assistindo ao jogo em câmara lenta, enquanto letras púrpuras passavam brilhando pelas lentes do instrumento, e o rugido da multidão martelava seus tímpanos! E depois colocou de novo na velocidade normal.

"GOL DE TROY!", berrou Bagman, e o estádio estremeceu com o rugido dos aplausos e vivas. "Dez a zero para a Irlanda"

Os artilheiros irlandeses eram fantásticos. Deslocavam-se em harmonia, como em um teatro ou uma dança, pela maneira com que se posicionavam, e a roseta no peito de Hydra não parava de guinchar o nome dos jogadores. Em dez minutos a Irlanda marcou mais duas vezes, elevando sua vantagem para trinta a zero e provocando uma onda de gritos e aplausos dos torcedores de verde. A partida se tornou ainda mais rápida, porém mais brutal. Volkov e Vulchanov, os batedores búlgaros, atiravam os balaços com bastonadas fortíssimas nos artilheiros irlandeses e estavam começando a impedi-los de executar alguns dos seus melhores movimentos; duas vezes eles foram obrigados a dispersar e então, finalmente, Ivanova conseguiu passar por eles, driblar o goleiro Ryan, e marcar o primeiro gol da Bulgária.

Hydra não conseguia deixar de imaginar o quanto Olívio devia estar em algum lugar ali saboreando cada momento dessa partida espetacular do jogo que tanto amava, ela sorriu com o pensamento por um instante, era bom imaginar a felicidade dele e de todos que ela gostava de alguma forma.

As veelas começaram a dançar comemorando o lance e Hydra se sentiu irritada novamente.

As veelas haviam parado de dançar e a Bulgária recuperara a posse da goles.

"Dimitrov! Levski! Dimitrov! Ivanova... ah, essa não!", berrou Bagman. Cem mil bruxos e bruxas prenderam a respiração quando os dois apanhadores, Krum e Lynch, mergulharam no meio dos artilheiros, tão velozes que pareciam ter pulado sem paraquedas de um avião. Hydra acompanhou a descida deles com o onióculo, procurando pelo pomo...

No último segundo, Vítor Krum se recuperou do mergulho e se afastou em círculos. Lynch, no entanto, bateu no chão com um baque surdo que pôde ser ouvido em todo o estádio. Um enorme gemido subiu dos lugares ocupados pelos irlandeses.

Lynch se levantou finalmente, sob ruidosos vivas dos torcedores de verde, montou a Firebolt e deu impulso para o alto. Quando Mostafa tornou a soar o apito, os artilheiros entraram em ação com uma maestria que não se comparava a nada que Hydra tivesse visto até então na partida. Decorridos quinze minutos de velocidade e fúria, a Irlanda acumulara uma vantagem de mais dez gols. Agora liderava por cento e trinta pontos a dez e a partida estava começando a ficar mais desleal.

Quando Mullet disparou em direção às balizas mais uma vez, segurando firmemente a goles embaixo do braço, o goleiro búlgaro, Zograf, correu ao encontro da jogadora. O que aconteceu foi tão rápido que Hydra não percebeu, mas a torcida irlandesa gritava, e o agudo do apito de Mostafa informou que alguém cometera uma falta.

"E Mostafa repreende o goleiro búlgaro pelo jogo bruto... usou os cotovelos!", informa Bagman aos espectadores que berram. "E... confirmando, é pênalti a favor da Irlanda.

Os leprechauns, que haviam levantado voo, furiosos, como um enxame de marimbondos reluzentes, quando Mullet fora atingida, agora corriam a se juntar formando as palavras "HA! HA! HA!". As veelas, do lado oposto do campo, levantaram-se de um salto, sacudiram os cabelos com raiva e recomeçaram a dançar olhou para o campo.

Hydra viu que Hassan Mostafa aterrissara bem diante das veelas dançantes, e estava agindo de modo realmente estranho. Flexionava os músculos e alisava o bigode, muito agitado.

"Ora, isso não é admissível!", disse Ludo Bagman, embora seu tom de voz fosse o de quem estava achando muita graça. "Alguém aí dê um tapa nesse juiz!"

Um medibruxo entrou correndo em campo, os dedos enfiados nos ouvidos, e deu um baita chute nas canelas de Mostafa, ele fez Hydra pensar em Peter imediatamente. O juiz pareceu voltar a si; Hydra, que observava outra vez o jogo com o onióculo, viu que Mostafa parecia extremamente constrangido e gritava com as veelas, que tinham parado de dançar e pareciam estar se rebelando.

"E a não ser que eu muito me engane, Mostafa está de fato tentando despachar as mascotes do time da Bulgária!", comentou Bagman.

"Aí está uma coisa que nunca vimos antes... ah, isso é capaz de dar confusão..." E deu: os batedores búlgaros, Volkov e Vulchanov, pousaram ao lado de Mostafa e começaram a discutir furiosamente com o juiz, gesticulando em direção aos leprechauns, que agora formavam alegremente as palavras "HI! HI HI!". Mostafa, porém, não se deixou impressionar com a argumentação dos búlgaros; espetou o dedo indicador no ar, dizendo claramente a eles que voltassem ao ar e quando os jogadores se recusaram, ele puxou dois silvos breves no apito.

"Dois pênaltis a favor da Irlanda!", gritou Bagman, ao que a torcida búlgara ululou de raiva. "E é melhor Volkov e Vulchanov voltarem a montar as vassouras... é isso aí... e lá vão eles... e Troy toma a goles..."

A partida agora atingira um nível de ferocidade que ultrapassava tudo que os garotos já tinham visto. Os batedores dos dois lados jogavam sem piedade: principalmente Volkov e Vulchanov pareciam nem ligar se os seus bastões estavam fazendo contato com balaços ou com gente, quando os giravam violentamente no ar. Dimitrov disparou um balaço em cima de Moran, que segurava a goles, e quase a derrubou da vassoura.

— Falta! – urraram os torcedores irlandeses em uníssono, todos de pé como uma enorme onda verde.

"Falta!", ecoou a voz de Ludo Bagman, magicamente ampliada. "Dimitrov esfola Moran... o jogador saiu com intenção de dar um encontrão... e tem que ser outro pênalti... e aí vem o apito!"

Os leprechauns subiram ao ar mais uma vez e agora formaram uma gigantesca mão que fazia um gesto muito grosseiro para as veelas. Ao verem isso, elas se descontrolaram. Precipitaram-se pelo campo e começaram a atirar algo com o aspecto de bolas de fogo contra os duendes irlandeses. Observando com o onióculo , Hydra viu que elas agora não estavam mais bonitas. Muito ao contrário, seus rostos começaram a se alongar para formar cabeças de aves com bicos afiados e cruéis e irromperam asas longas e escamosas dos seus ombros...

— Assim que elas são como elas são quando estão com raiva... – Disse ela para Draco que também observava no onióculo. – Viu só?

Bruxos do Ministério invadiam o campo para separar as veelas e os leprechauns, mas sem muito sucesso; entrementes a batalha no campo não era nada comparada a que estava ocorrendo no ar. Hydra espiava pelo onióculo, pois a goles trocava de mãos com a velocidade enorme... "Levski – Dimitrov – Moran – Troy – Mullet – Ivanova

— Moran de novo – Moran – É GOL DE MORAN!"

Nem os gritos da torcida irlandesa mal conseguia abafar os gritos agudos das veelas, os estampidos que agora vinham das varinhas dos funcionários do Ministério e os berros furiosos dos búlgaros.

A partida recomeçou imediatamente; agora Levski estava com a posse da goles, agora Dimitrov... O batedor irlandês Quigley levantou com violência o bastão contra um balaço que passava e arremessou-o com toda a força contra Krum, que não se abaixou com suficiente rapidez. O balaço atingiu ele em cheio no rosto. Ouviu-se um lamento ensurdecedor dos torcedores; o nariz de Krum parecia quebrado, saía sangue para todo lado, mas Hassan Mostafa não apitou. Distraíra-se e Hydra entendia agora o porquê; uma das veelas atirara uma mão cheia de fogo e incendiara a cauda da vassoura do juiz.

O apanhador irlandês repentinamente mergulhara e Hydra pegou os onióculo para olhar melhor.

— Ele deve ter visto o pomo! – Dizia Hydra excitada para Draco.

Metade da multidão parecia ter compreendido o que estava acontecendo, a torcida irlandesa se levantou como uma grande onda verde, animando o apanhador... mas Krum voava na esteira dele. Krum agora emparelhava com Lynch agora e os dois disparavam em direção ao chão...

— Ai meu Deus, eles vão bater! – Gritou ela.

Pela segunda vez, Lynch bateu no chão com um tremendo impacto e foi imediatamente pisoteado por uma horda de veelas raivosas.

— O Krum pegou o pomo! – Disse Draco admirado.

Krum, as vestes vermelhas tintas com o sangue que escorrera do seu nariz, tornava a levantar voo suavemente, o punho erguido lá no alto, um brilho de ouro na mão. O placar piscou por cima da multidão BULGÁRIA: CENTO E SESSENTA; IRLANDA: CENTO E SETENTA, mas os torcedores não pareciam ter percebido o que acontecera. Então, lentamente, como se um grande jumbo começasse a aquecer as turbinas, o rugido da torcida da Irlanda foi se avolumando e explodiu em urros de alegria.

"VENCE A IRLANDA!", gritou Bagman, que, como os irlandeses, parecia estar espantado com o inesperado desfecho da partida. "KRUM CAPTURA O POMO... MAS VENCE A IRLANDA... Deus do céu, acho que nenhum de nós esperava uma coisa dessas!"

Hydra tentou obervar com os onióculo o que acontecia. Os leprechauns sobrevoavam o campo felizes e em grande velocidade, mas ele conseguiu divisar Krum, rodeado por medibruxos. Parecia mais carrancudo que nunca e se recusava a deixar que o limpassem. Seus colegas de time o rodeavam, sacudindo a cabeça, arrasados; um pouco adiante, os jogadores irlandeses dançavam felizes sob a chuva de ouro que seus mascotes faziam cair. Bandeiras se agitavam pelo estádio, o hino nacional irlandês tocava altíssimo por todo lado; as veelas revertiam à beleza de sempre, mas pareciam desanimadas e infelizes.

— Pom, prrigamos falentemente – disse uma voz triste na fileira de Hydra. Ela virou o rosto para olhar; era o ministro da Magia búlgaro.

— O senhor fala a nossa língua! – exclamou Fudge indignado. – E vem me obrigando a falar por mímica o dia inteiro!

— Pom, foi muito engraçado – disse o ministro búlgaro, encolhendo os ombros

"E enquanto o time irlandês dá a volta olímpica, ladeado pelos mascotes, a Copa Mundial de quadribol está sendo levada para o camarote de honra!", berrou Bagman.

A visão de Hydra foi repentinamente ofuscada por uma luz branca, o camarote de honra foi magicamente iluminado para que todos os espectadores nas arquibancadas pudessem ver o seu interior. Apertando os olhos na direção da porta, ele viu dois bruxos ofegantes entrarem no camarote com uma imensa taça de ouro, que foi entregue a Cornélio Fudge, ainda muito aborrecido por ter passado o dia falando com as mãos à toa.

"Vamos aplaudir com vontade os galantes perdedores... Bulgária!", gritou Bagman. E pelas escadas entraram os sete jogadores derrotados. A multidão aplaudiu manifestando o seu apreço; Hydra viu milhares e milhares de lentes de onióculo faiscarem e lampejarem em sua direção.

Um a um, os búlgaros se acomodaram nas filas de cadeiras do camarote e Bagman chamou-os, nome por nome, para apertarem a mão do seu ministro e depois a de Fudge. Krum, que foi o último da fila, estava com uma aparência medonha. Seus olhos negros se destacavam espetacularmente no rosto ensanguentado. Continuava a segurar o pomo. Mas quando o nome de Krum foi anunciado, o estádio inteiro lhe deu uma ovação de rachar os tímpanos. Depois foi a vez do time irlandês. Aidan Lynch veio amparado por Moran e Connolly; a segunda colisão parecia tê-lo atordoado e seus olhos pareciam estranhamente fora de foco. Mas ele sorriu com alegria quando Troy e Quigley ergueram a Copa no ar e a multidão embaixo fez ouvir sua aprovação.

Finalmente, quando o time irlandês deixou o camarote para dar mais uma volta olímpica montado nas vassouras (Aidan Lynch na garupa de Connolly, agarrado à sua cintura e ainda sorrindo abobalhado), Bagman apontou a varinha para a própria garganta e murmurou Quietus.

— Eles vão comentar isso durante anos – disse ele rouco –, uma reviravolta realmente inesperada, essa... pena que não pudesse ter durado mais... ah sim... sim, devo a vocês... quanto? Pois Fred e Jorge tinham acabado de saltar por cima de suas cadeiras e estavam parados diante de Ludo Bagman com enormes sorrisos no rosto, as mãos estendidas.