O Espelho De Plartya
3 Perigosas descobertas
Esse foi um dos poucos momentos da minha vida, que um arrepio vindo da ponta do meu dedão do pé, atravessou meu corpo inteiro, até sair pela minha cabeça. Senti meu corpo estremecer, e me virei. Era um homem bem arrumado. Parecia que iria à uma festa. Usava uma calça social, e aqueles sapatos de casamento que não sei como chamam. Ah sim, e vestia um casaco bege. Seu cabelo estava bem dividido, e ele tinha uma aparência normal.
– O que faz? – perguntou para mim com uma cara de suspeito
Pronto. Era aqui mesmo, nessa pequena praça, com uma fonte no centro, doze árvores cercando em volta, e seis bancos um pouco sujos. Com certeza se eu dissesse que poderia ter uma chave embaixo dessa pedra, que abriria uma caixa especial, que dentro haveria um livro mágico. Tive que mentir.
– Eu estava passando aqui, quando tropecei, e minha chave escorregou para debaixo da pedra. – fiz uma cara como se estivesse quase chorando – Estou tentando mover a pedra para pegá-la.
– Posso ajudar?
– Não, obrigada, me viro sozinha, obrigada mesmo. Obrigada! – ele deve ter percebido meu desespero, por tantas vezes que usei a palavra obrigada
– Mas ajudarei mesmo assim.
Não tinha mais jeito. Ele me ajudou a levantar a pedra, e havia uma caixinha lá dentro. Peguei a caixinha sem ele ver, e coloquei no meu casaco. Derrubei a verdadeira chave da minha casa, e peguei fazendo uma cara de surpresa.
– Olha ela aqui! Obrigada! Vou indo. – apressei o passo e saí da praça
– De nada...
Nunca, nunca mesmo, nunca de verdade, passei tanto desespero. Olhei para trás, e o homem havia sumido. Não liguei, e continuei andando. Estava quase virando a esquina olhando para cima, achando que iria chover e trombei com alguém.
– Desculpe, não vi para onde eu estava indo e... – a voz era agradável, porém de ninguém que eu lembrava
– Que nada, eu que sou a distraída e cega. – olhei para ele, ele era muito bonito – Meu nome é Mirella. Mirella Bardio, qual o seu?
– Meu nome é Renan Trent.
– Você mora aqui?
– Na verdade cheguei há umas duas semanas. Eu morava em uma cidade perto daqui. Mas já morei no Canadá e na Itália.
– Que legal. Eu nasci na Itália, mas vim para cá com seis meses, não me lembro de nada.
Ele olhou nos meus olhos, e eu nos dele. Era um menino da minha altura, bem magro, mas não um palito. Era ruivo. De olhos verdes. Tinha sardas no rosto.
– Ainda não estou em nenhuma escola. Vou esperar o ano que vem para entrar. Onde você estuda? Não conheço ninguém dessa cidade. Bom, agora conheço você.
– Estudo no Alphabet. Tenho 13 anos de idade, e moro aqui desde que nasci. Meus únicos amigos são meus livros.
– Triste demais, se anime! Agora você tem um amigo. – ele veio e me abraçou
Acho que se eu estivesse sozinha, rodopiava em pulos, dava sete bananeiras, dois mortais no ar, subia em cima de uma árvore, pendurava de ponta cabeça e ainda dançava Macarena de felicidade. Mas não, apenas retribui o afeto com um abraço.
– Obrigado, é bom ouvir isso de alguém que não seja sua mãe. – Por que eu disse isso? – Bem vindo! Onde você está indo?
– Na biblioteca. Mas quero conversar mais com você agora.
– Aceita ir para minha casa? – Quem aceitaria ir à casa de um desconhecido? – Minha mãe deve ter feito um bom almoço, e de sobremesa, cookies.
– Sim! Seria um prazer.
Fiquei paralisada. Queria gritar, queria dançar, queria sair voando com os patos.
– Vamos!
Aquela trombada me fez esquecer o que eu estava carregando na mochila, e uma ventania começou.
– Caminhe para a luz. – um sussurro veio em meu ouvido – Eu disse que sua vida mudaria. Confie em quem confia em você.
– Renan. Preciso te contar muita coisa, mas vamos para casa antes.
Caminhamos e caminhamos, cada um contando de sua vida para o outro.
– Chegamos. Essa é minha casa.
Minha casa é laranja. Tem um jardim bonito na frente, e uma cerca em volta. A porta tem uma cobertura, e em cima, duas janelas. Uma do quarto de hóspedes, e outra do quarto da minha mãe. Nós não tínhamos sótão, só porão. E eu tenho muito medo dele.
– Entre.
Entramos.
– Essa é minha sala.
Dois sofás, uma lareira, uma televisão. Uma mesinha com um abajur, e um lustre cinza no teto.
– Mãe? Venha cá!
– Oi filha, pode... Ah, olá! Qual seu nome? É um amigo da escola da Mi?
– Na verdade... – Renan tentou falar
– Deixe que eu explique.
– Bom, nós nos trombamos na rua, e ele é novo na cidade. Não conhece ninguém. Acho que sou a primeira amiga dele aqui. Vamos subir para o quarto.
– Certo... – minha mãe olhou com uma cara bem desconfiada pra mim, mas estava feliz demais para me importar
Subimos as escadas de madeira, e lá estava o corredor dos quartos. O meu era da porta cinza. Abri, entramos. Ele ficou observando a bagunça.
– Ah sim, desculpe! – juntei tudo, abri a porta do armário, peguei tudo e joguei lá dentro e forcei para ele fechar
– Certo! – disse ele, e nós rimos
Abri minha mochila, e peguei a toalha. Desenrolei e lá estava a caixa, toda suja de terra. A terra caiu no chão de madeira, mas não me importei. Coloquei sobre a cama, sujando o cobertor. Peguei a pequena caixinha da chave, e abri. A chave tinha o formato do símbolo de Plartya.
– Espere, já vi esse símbolo...
– Já? Como assim?
– Meu pai me deu um chaveiro, que tinha esse símbolo em... Ouro.
– Ouro? Você é...
– Rico? Por favor, não use essa palavra. Incomoda-me um pouco. Sinto-me superior aos outros...
– Tudo bem.
Então ele tirou do bolso o chaveiro. Comparamos o símbolo com o da chave, e eram iguais! Abri a caixa de madeira, e lá estava o livro de couro, com “Plartya” escrito na capa. Tirei-o, e virei, tocando o relevo. Renan colocou o chaveiro por cima do símbolo e era do mesmo tamanho.
– Ah Finicci...
– O que disse?
– Ah, nada. Por favor, tente encaixar.
Ele tentou, porém, a correntinha do chaveiro não deixava ele entrar.
– Que pena.
– Mas isso não é um problema. – então Renan estourou a correntinha, deixando apenas o símbolo de ouro. – Mas me explique o que é isso antes...
– Ontem... Eu fui a biblioteca, e trombei com a estante, e esse livro caiu perto de mim. Havia algo escrito nele, sobre não lê-lo em uma biblioteca. E joguei-o dentro da mochila. Abri na pracinha, mas nada havia dentro dele, apenas um espelho. – abri e mostrei – Mas quando tentei ver meu reflexo, ele não estava lá. Então uma luz saiu do espelho e acordei em um lugar muito claro. E alguém invisível, no caso o vento, chamado Finicci, me disse que isso é a mágica de Plartya, e que a partir de agora, eu seria importante. Então acordei na escada da biblioteca, e a bibliotecária disse que eu havia escorregado, e o livro não estava mais na minha mochila. À noite, o vento sussurrou comigo novamente, me dizendo para ir à praça, achar a árvore com esse símbolo, e cavar em volta dela, para achar uma caixa de madeira com o livro. Quando achei, precisava de uma chave. Então tropecei num piso desnivelado pelas raízes das árvores, e olhei para a fonte. Era um querubim segurando uma chave, olhei para o piso, e era a mesma chave. Tentei mover o piso quando...
– O que?
– O homem.
– Que homem?
– Ai...
– Diga Mi!
– Agora que lembrei. Quando ele abaixou pra me ajudar a levantar o piso para ver o que tinha embaixo, ele tinha o símbolo de Plartya no pulso.
– Mas ele sabe de tudo?
– Não... Só quis me ajudar a levantar o piso. Então peguei a caixinha de madeira que tinha o símbolo de Plartya de debaixo da pedra, coloquei no casaco e saí andando. Quando olhei para trás, o homem havia sumido, e então trombei com você.
– Meu Deus Mi... Quer dizer que não foi por acaso que ele quis te ajudar? Ele queria a chave?
– Não sei...
Nesse momento eu fechei o livro, e deixei a parte de trás virada pra cima, o símbolo de Plartya de ouro, caiu sobre o relevo e se encaixou. O livro começou a flutuar, e exibir um brilho branco muito forte, não conseguimos olhar. Só podíamos ouvir o barulho de folhas se debatendo, e então ele caiu na cama, aberto em uma página, que antes estava em branco.
– Olhe... – Renan passou o dedo sobre a página, e havia um fino pó sobre o quarto todo, inclusive sobre nós – O que é isso Mirella? Ei veja a página!
Lembro bem o que estava escrito naquele pedaço de papel.
“Chave de Taranium
A chave para poder ativar a mágica de Plartya sobre o espelho. Quem possuir, poderá sempre contar com as criaturas de Plartya. É algo muito significativo e perigoso para mãos erradas. Guarde-o com sua vida, se você o ter.”
Abaixo desse pequeno trecho, havia um desenho do chaveiro do Renan, ou melhor, da Chave de Taranium. Viramos as outras páginas, e todas continuavam em branco. Mas quando viramos para a página do espelho, não vimos nosso reflexo, mas uma sala oval, abandonada, escura, cheia de teias de aranha, e restos de velas. Renan tentou olhar por cima do espelho, se desiquilibrou, e caiu para dentro. Como ele poderia ter atravessado um espelho tão pequeno? Arranquei a chave da capa de trás, e o portal não se apagou. Me joguei para dentro também.
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