O Espelho Alternativo
3 O Ritual
Notas iniciais
-Mas... e eu??
David já havia cansado de chorar. Ouvir Keyle morrendo foi muito forte e difícil pra ele, ainda mais com toda culpa que sentia, mas havia ainda uma vida com a qual se importar: a própria.
Claro, era melhor pensar em um jeito de sair daquele castelo e, agora, para também poder vingar seu amigo que morrera. A vontade de matar tornou-se mais forte do que a tristeza que o fazia querer ficar parado. Era preciso mexer-se, informar-se, vingar-se.
-Keyle viu a porta se abrindo – começou a analisar. – que estranho.... A porta está tão bem fechada.....
Resolveu investigar melhor. O Keyle deve ter tido fora uma ilusão. Só pode ter sido. Veja, as correntes grossas estão bem firmes.... O cadeado é enorme e não abre de jeito nenhum.... A maçaneta nem gira....
-Maçaneta??...
David de repente reparou na maçaneta: era uma pedra rosada, oval, do tamanho de uma bola de tênis. Brilhava muito, parecia ter brilho próprio. Isso lembrou-o de um lugar...
-O quarto do Guilherme.... Eu o abri com uma pedra muito parecida.....
Estava óbvio que a pedra era mais uma chave. Segurou a maçaneta e tentou puxá-la.
-AH! Está presa!
Apoiou o pé na porta e puxou com toda força. A pedra soltou do nada, e David voou longe. Bateu as costas no chão e caiu deitado.
-AAII!!... Aff que ótimo... Minhas costas...
Sentou-se e analisou a pedra. Era lindíssima, brilhava muito à luz das velas.
Guardou-a no bolso. Mas, algo começou a pingar em suas costas, um líquido vermelho e espesso. Mais um susto ao virar-se para ver o que era:
Uma criatura estranha e deformada, não tão diferente de todas as outras que ele já havia visto. Era o corpo de um homem nu que alternava entre pele humana e carne viva. Seus braços estavam estranhamente colados ao corpo, somente as mãos estavam livres, como se te enfaixassem todo e deixassem somente as mãos de fora. Ele não possuía rosto, mas sua cabeça estava cortada ao meio. Era impossível dizer se possuía olhos ou boca, pois ela tremia freneticamente, tão rápido quanto as asas de um inseto. Havia um buraco em seu pescoço de onde saía um liquido espesso e nojento.
Antes que David pudesse pensar no que fazer, o monstro jogou-se sobre ele, deixando-o sem ataque. O buraco do pescoço começou a devorar seu braço esquerdo.
-AAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!
Havia um cano ao seu lado. Instintivamente David pegou-o e golpeou as costas da criatura, que rolou para o lado, soltando um choro estranho e agudo.
David levantou-se. Havia um buraco em seu antebraço, mas a criatura não havia atingido seus músculos. Antes que ela pudesse se levantar, David golpeou-a com o cano novamente. E mais vezes, mais vezes.... O instinto assassino tomava conta de seu corpo de novo, quando....
Uma segunda criatura, idêntica à primeira, pulou sobre ele. David caiu no chão, imobilizado, e o cano voou longe. Estava deitado com a criatura sobre ele, pronto pra dar uma dentada em seu pescoço, quando algo inimaginável aconteceu:
Um vulto branco emergiu do chão do castelo e suspendeu-se no ar. David observou: parecia uma garota, com vestido e cabelos longos. Soltava espécies de gritos agudos, que ecoavam pelas paredes frias do castelo. Pareciam formar uma música.
A garota então deu um mergulho no ar e entrou dentro de um dos monstros. Este começou a tremer inteiro, até que explodiu. A garota estava lá, flutuando, dirigindo-se para seu próximo alvo: a criatura que estava sobre David. Quando o monstro começou a tremer assim como o outro, David jogou-o pro lado e se afastou, até que o bicho explodiu. O espírito da menina então deu um último grito e fugiu para o segundo andar.
David foi atrás. Novamente estava na sala quadrada com as portas nomeadas. Pegou a pedra rosada de seu bolso e tentou em cada uma das portas. Ela só serviu na de nome Bárbara.
-Finalmente... poderei saber um pouco mais sobre essa menina...
Girou a maçaneta e entrou no quarto. Uma voz feminina e doce falou:
-David?!... Ah! Finalmente, você chegou!!.....
FIM DA PART 9
O quarto era nitidamente feminino. Paredes rosa, cobertor com babados rosa, bichinhos de pelúcia e quadros com moldura... Rosa! O clima completamente infantil somente era quebrado pelo fato do espírito de uma garota de 15 anos estar flutuando sobre o tapete. Rosa.
A garota possuía cabelos longos e muito lisos, porém estes eram brancos e transparentes pois já não existiam mais: a garota era um fantasma. Usava um vestido comprido também.
-Você... Você é a Bárbara? – arriscou David
-Sim, sim!! – a garota mostrava uma excitação nítida – Eu sou a Bárbara, eu mesma!! E, é claro, você só pode ser o David.
-É sim, sou eu mesmo...
-Nossa você não se parece nada com o que eu imaginei, sabe?!
A garota parecia uma anfitriã que tenta ser simpática ao seu convidado. “Que visita macabra” pensou David.
-Eu imaginei um cara alto, todo fortão, que exalasse vitalidade – continuou ela, rindo de si mesma. – Mas, cá pra nós, vitalidade é a última coisa que você aparenta ter, heim?! Você está detonado, olha pra sua cara... Meu deus, parece um peixe morto...
Que espécie de comentário era aquele??
-Como eu poderia “exalar vitalidade” em um lugar como esse?? – perguntou David, zombando – Além do mais, eu nem te conheço e não sei o que estou fazendo aqui!! Achei que você me ajudaria a compreender o que está havendo ao invés de ficar me analisando – respondeu, grosseiro.
A garota assustou-se com o comentário do garoto, e só então David percebeu que havia sido muito mal-educado com a primeira pessoa que o tratara bem naquele lugar. Tinha que se desculpar:
-Puxa, desculpe eu...
-Não tudo bem – interrompeu-o ela – Você está coberto de razão. Você nem sabe porquê está aqui e eu já encho de pergunta. Você é quem mais merece saber o que está acontecendo. Por favor, pergunte o que quiser que eu lhe responderei.
David adorou ter as respostas na mão.
-Foi você quem deixou essa adaga pra mim, não foi? Porque?
-Ah sim! Esta adaga e da família, tem até o Brasão nela. Te dei porque não queria que você morresse tão cedo sabe?! Você deve ter visto como os pecados da Lavínia mudaram este castelo. Os monstros que passaram a habitar este lugar realmente dão arrepios.
-Mas... afinal, quem é esta tal de Lavínia?
-O que? Você não sabe??
-Guilherme me perguntou a mesma coisa – disse, lembrando-se do garoto triste que conhecera no outro quarto
-Então você também conheceu meu irmão?? Não liga pra aparência dele por favor, não é culpa dele. Nem pra personalidade sabe?! Ele é meio sem emoções, mas é até legal...
-Mas quem é a tal Lavínia? – interrompeu David
-Lávínia? Oh! É mesmo! A Lavínia é minha madrasta, minha e do Guilherme, e do Arthur, da Priscila, do Edgar... Somos todos irmãos sabe?! Nossa mãe, Mônica, vivia feliz com papai aqui neste castelo, mas um dia ela teve um surto psicótico sabe?! Pirou de uma hora pra outra, tadinha... Papai falou que ela tinha alguns problemas emocionais e que isso desencadeou no surto súbito, mas ele nunca contou-nos quais... Bom, ele passou algum tempo isolado de todas as pessoas e nós também, até que um dia conheceu a Lavínia. Ela vinha até em casa, parecia uma boa senhora, dava-nos doces e até brincava com a gente. Nós adorávamos ela, porque ela se parecia muito com a mamãe. Meu pai logo apaixonou-se e eles se casaram.
-O estranho foi que após o casamento ela mudou muito. Parou de brincar com a gente e de parecer uma boa senhora. Ficou mandona e possessiva, querendo que todo mundo fizesse tudo o que ela mandasse o tempo todo. Ficou rabugenta, sempre reclamando de tudo. E até mudou com o papai. Vivia xingando-o e batendo nele, fazendo-o de cachorrinho. Dava um desgosto enorme ver o meu pai de cabeça abaixada, obedecendo tudo que aquela vaca dizia.
-Mas o pior foi quando ela tentou implantar aqui em casa aquela religião estranha e macabra dela, sabe?! É... ela tinha uma religião herdada dos pais que dizia algo como “a passagem para o paraíso é a pura água”. Muita chatice, a gente tentou impedir que ela fizesse isso, mas ela manipulou papai de novo, e ele obrigou-nos a participar. A casa inteira participava de rituais, sacrifícios pequenas e auto-flagelações que ela pregava, até que um dia eu me enchi de tudo aquilo! Reclamei em voz alta e gritei que detestava tudo aquilo, que achava tudo um monte de besteira e que não iria praticar de novo. Ela simplesmente parou o que estava fazendo, me pegou pelo cabelo e saiu me arrastando. Todos gritavam para que ela parasse com aquilo, e eu gritava de dor mas ela não falava nada, só continuava me arrastando. Arthur e Edgar tentaram correr ao meu socorro, mas papai os segurou, dizendo que aquilo seria melhor pra mim, apesar dele estar chorando. Ela me levou pra um quarto, fechou a porta e me esmurrou. Bateu, bateu, mas bateu muito, sabe?! Quando parou, falou no meu ouvido “você vai participar” e me deu um soco no estômago. Fiquei lá arfando, enquanto ela saía e continuava a cerimônia sem mim.
-E isso não foi o pior!! Depois do ocorrido, ela resolveu me transformar na “queridinha” dela, sabe?! Todo dia me dava aulas particulares daquelas esquisitices do culto, e me batia sempre que possível. Foi por causa destas aulas que aprendi algumas magias negras. E foi graças à ela que consegui transformar todos os moradores em fantasmas... A não ser o Guilherme, que morreu antes de eu aprender, e eu ressuscitei-o com Necromancia.
A cabeça de David girava. Que história.
-Mas Bárbara... Isso não explica nem como o castelo está banhado de sangue, nem os monstros e nem e muito menos porque eu estou aqui!!
-Bom... Eu aprendi com ela que a religião pregava o Apocalipse como o da Bíblia Católica, sabe?! Todos tínhamos que mostrar devoção e fé à Deus para que no dia do Juízo Final Ele nos condenasse justos de ir ao Reino dos Céus. Por isso a gente tinha que se cortar, fazer rituais e aquelas coisas todas... Mas a religião também explica que o Apocalipse não acontece espontaneamente: nós, os seguidores, é que teríamos de gerá-lo, sabe?! E para isso, teríamos que achar a única pessoa que fosse tão fortemente ligada à água que poderia fazer dela um portal para que os Anjos do Apocalipse chegassem à terra para então destruí-la e, depois, reconstruí-la para os seguidores.
-E daí? – Perguntou o menino.
-Daí que a Lavínia fazia suas bruxarias para tentar encontrar a tal pessoa, e eu era obrigada a fazer junto. Um dia, quando aproximadamente todas as pessoas da casa já haviam morrido, só havia sobrado eu e papai, ela conseguiu achar a tal pessoa, sabe?! Mas esta estava no futuro, muitos anos á frente da época em que a gente vivia. Então ela criou um universo alternativo no castelo pra que ela vivesse até chegar a hora do escolhido nascer. E este escolhido é você!
-Eu?? – David estava perplexo – Mas o que foi que eu fiz??
-Eu não cheguei a descobrir o porquê, sabe?! A Lavínia matou a mim e ao papai assim que criou este universo alternativo.
-Mas... Mas eu nem gosto tanto de água... Nem nadar direito eu sei!!
-Eu também não sei por que foi você... Já disse...
-Bom... Mas então porque estes monstros estão aí?
-Estes monstros são a materialização direta dos pecados que a Lavínia cometeu no mundo real. Quando eu e papai morremos, viemos pra cá também e nos encontramos com meus irmãos porque Lavínia assassinou à todos. Eu não sou propriamente um fantasma, como eu disse. Sou apenas uma lembrança da Lavínia sobre mim mesma, mas carrego minha memória e minha personalidade, sabe?! As paredes estão banhadas de sangue pois a própria mente da Lavínia é sanguinária assim.
-Então eu estou aqui porque eu sou o único que pode abrir um portal para que anjos destruam a Terra?? Isso é loucura.
-Eu sei, mas prefiro chamar de “chacina” – disse ela, séria.
-Bom, então diga-me o que eu posso fazer para impedir esta mulher – quis saber o garoto.
Bárbara suspirou longamente.
-Eu não sei.
-O que???? – David estava perplexo – Não era você que estudava a fundo a religião e tudo mais??
-Sim, sim era eu, mas eu não sei ué!! –respondeu ela – O Guilherme era o único que sabia, você não perguntou pra ele??
-Ah eu tentei! Mas antes que ele falasse, ele morreu! – disse, zombando.
-Mas ele já está morto....
-Então tá, ele explodiu bem na minha frente. Os soldadinhos do quarto dele mataram ele e uma boneca de pano quase arrancou minha perna – disse, mostrando a panturrilha ferida.
-O Guilherme foi destruído???? AH MEU DEUS!!! Agora está tudo perdido... Ele era o único que sabia o que fazer para impedir a Lavínia de te usar... – disse a garota, atordoada com a notícia.
-Mas o que faremos??
-Eu só vejo uma saída: você terá de enfrentá-la. O Castelo não tem saída, você terá que matá-la pra destruir a Realidade Alternativa.
Matar uma pessoa parecia atormentador. Mas não havia saída: ou ele matava Lavínia, ou morria em seu castelo.
-Eu topo! Vou enfrentá-la!! – disse, confiante.
-Isso! É assim que se fala, David!! – disse Bárbara, feliz com a escolha do garoto.
-Mas... aonde ela está??
-No porão. Desde que criou este mundo ela vive repousando lá, pois é aonde ela realiza todos os rituais macabros dela. Você sabe onde é?
-Sei. Conhecia este castelo antes do dia de hoje!
-Perfeito!! Ela é a única pessoa viva que está nesse castelo alternativo. Como já está aqui à muito tempo, é possível que sua estrutura física tenha se alterado um pouco. Talvez ela ao se pareça mais um ser humano, sabe?! Tome cuidado!!
-Ok então. Vou até o porão. Obrigado por toda essa informação.
E dirigiu-se à porta. Antes de sair, porém, Bárbara chamou-o:
-Estou grata por ter sido você o escolhido.
David não teria outra resposta:
-Pena que eu não posso dizer o mesmo.
FIM DA PART 10
O Porão ficava na última escadaria do castelo. Para alcançá-lo, era preciso descer as escadas que levavam aos quartos, ir ao sul e pegar a escadaria que ficava na cozinha. Então, passava-se pelo calabouço e então, chegava-se ao porão. Enquanto caminhava para o Hall, David pensava o quão estranho e perturbador era ter um calabouço, uma sala de tortura, bem abaixo da cozinha...
Chegou ao Hall e pegou a direita, o lado oposto ao da sala de jantar, onde já havia passado.
Ao abrir a enorme porta à sua frente, deparou-se com a Sala de Estar.
Esplêndida em sua magnitude, muitíssimo bem decorada para acolher os visitantes do castelo.
Essa era a imagem que David queria ter visto da Sala de Estar de um castelo, mas a que ele encontrou era muito diferente.
Os móveis da Sala foram substituídos por um altar enorme com a imagem de um demônio sombrio que abraçava uma criança assustada. A imagem era aterrorizadora. As unhas do tal demônio penetravam na carne da criança, e de seus olhos saíam lágrimas de dor e medo. Várias gaiolas encontravam-se penduradas no teto como lustres, com corpos triturados de todas as formas que um ser humano pode imaginar, muitas pingavam sangue. Ao centro encontravam-se cadeiras em circulo, exatamente sobre o desenho de um símbolo que David já vira em um livro. O símbolo chamava-se Halo of Sun. A única fonte de luz da sala eram as incansáveis e fortes velas vermelhas que estavam espalhadas aos montes no altar macabro.
David avaliou-se. Não, não era possível que estivesse em um lugar tão perturbado. Ele não fazia muitas coisas erradas. Raramente mentia para os pais, era bom aluno, ajudava as pessoas... Não era possível, ele sentia-se pagando pecados que jamais havia cometido...David levou as mãos à cabeça: “Vou acabar pirando se continuar neste lugar por mais muito tempo” pensou.
Deveria atravessar a sala cauteloso. Tentava ao máximo não olhar novamente para o altar sinistro que encontrava-se à sua esquerda, nem para as gaiolas sobre sua cabeça, que já pingavam sangue sobre ele,e sim nas cadeiras, paradas, inofensivas, que encontravam-se à sua frente. Inofensivas... Quietas... Sim, já estava quase chegando...
-David?? É você??...
Uma voz familiar vinha do altar. David virou-se pra ver quem era, e viu que o demônio agarrado à estatua da criança agora soltava-a, desfazendo seu abraço infernal. Solta, a criança começou a caminhar na direção de David.
-É você, não é?!
Aquela voz era tão conhecida... Tão triste...
-Encontrei-o novamente...
A estátua já encontrava-se a apenas 7 metros de distância do garoto.
-David...
Aquela era a voz de Keyle.
-IAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHH!!!
O mais aterrorizador grito de desespero ecoou-se pelo salão. David ajoelhou-se no chão, tapando os ouvidos, e começou a chorar. Era o mesmo grito que Keyle dera ao morrer do lado de fora do castelo.
-A CULPA FOI SUA!!! VOCÊ DEIXOU QUE EU MORRESSE!!
-Não, não... – gemia David para si mesmo.
-VOCÊ VEIO PRA ESTE CASTELO!!! VOCÊ LIGOU PRA QUE EU VIESSE TE AJUDAR!!!VOCÊ ME MATOU, DAVID!!!
-Não... Não é verdade!!... – David serrou os olhos, mergulhado em desespero e dor.
-A CULPA É SUA!!!
A culpa era sua.
-VOCÊ ME MATOU!!
Ele havia matado Keyle.
-VOCÊ TEM QUE PAGAR!
David tinha que pagar... Como?!
David subitamente olhou para cima: a estátua da criança estava bem á sua frente, empunhando uma espada e pronta para cravá-la em David.
Num rápido giro, David desviou-se do golpe fatal, e a espada afundou 50 centímetros no chão de mármore.
-Volte aqui, seu desgraçado – disse a estátua, com a voz completamente alterada: era agora uma voz grave e profunda, a voz de um demônio.
Ela tirou a espada do chão com a maior facilidade e partiu para cima de David, que não teve outra escolha senão desviar novamente: seria difícil lutar contra um combatente feito de pedra que empunhava uma espada de um metro e meio. Era preciso pensar em alguma coisa.
A resposta veio dos céus. Literalmente.
Ao desviar-se, David rolou para o lado e parou de costas para o chão. No teto, havia algo escrito em vermelho. Algo tão vermelho quanto sangue.
Estava escrito: “Àquele que atribuir ao Halo of Sun o verdadeiro e puro poder do sol, será concedida Graça Divina e Eterna”.
-TE PEGUEI!!
A estátua pulou pra cima de David novamente, e por pouco ele não conseguiu escapar. Pondo-se de pé e correndo para o outro lado da sala, David pensava: “O Halo of Sun está no centro da sala... Mas qual poderia ser o verdadeiro poder do sol??”
David estava passando à frente do altar, correndo desesperadamente. As velas vermelhas queimavam tão intensamente que iluminavam o quarto inteiro, mesmo ele sendo enorme.
Velas ardendo ao fogo...
-FOGO!!! – gritou David.
Rapidamente David parou e agarrou um dos candelabros, enquanto apressava-se em caminhar para o centro da sala, onde as cadeiras estavam posicionadas sobre o enorme símbolo desenhado também de vermelho no chão.
“O sol é feito de fogo... Fogo é seu estado mais puro, só pode ser isso...” pensava, enquanto aproximava-se do símbolo. Chutou a cadeira que estava à sua frente e posicionou-se no centro do círculo.
-Graça Divina, hein garoto?! NÃO TÃO CEDO!!
A estátua pulou no ar e ergueu sua espada, atacando David. Este se desviou rápido, largando o candelabro com a vela vermelha e deixando-o rolar no chão. A espada cravou-se no chão novamente, porém, assim que a vela tocou a marca vermelha no chão, o símbolo inteiro começou a arder em chamas, fazendo a estátua e as cadeiras pulverizarem-se.
Apesar de estar no meio do fogo, David não sentia nada. Somente assistia, ainda em choque e sem fôlego, a estátua derreter bem á sua frente.
-Você não vai conseguir se salvar, David...
A voz de Keyle havia voltado, mais chorosa e melancólica do que nunca.
-Vai morrer cheio de dor e sofrimento assim como eu morri...
David não suportava mais ouvir aquilo.
-A culpa foi sua...
A estátua já estava completamente incinerada, e assim as chamas cessaram.
Sentado, triste, sozinho...
David perguntava-se quanto tempo ainda iria suportar naquele lugar até enlouquecer...
FIM DA PART 11
David olhou bem para os dois lados ao abrir a porta antes de sair. Não queria ser surpreendido de novo, mas o corredor que ligava a sala de estar à cozinha estava deserta, e ele avançou.
Com a adaga na mão direita, pronta para rasgar qualquer pedaço de carne que ousasse aparecer em seu caminho, David sentia o sangue ferver de ódio e rancor correndo dentro de si. Queria logo acabar com aquela situação insana. Sentia seus passos, decisivos em direção ao porão, marcando a hora de Lavínia morrer como se fossem o “tic-tac” de uma bomba relógio que não pode ser desarmada. A frieza mortal de um assassino estava cravada no olhar do garoto. Se conseguisse sair daquele lugar, David tinha certeza de que nunca mais seria o mesmo.
A porta da cozinha já se encontrava à sua frente, e ele a abriu.
Uma cozinha medieval poderia ser limpa, claro. Mas não aquela que residia na mente de uma fanática religiosa psicopata.
A cozinha, assustadora em sua grandeza, possuía uma mesa de madeira de aproximadamente 5 metros ao centro. 3 armários encostados em cada parede lateral e um fogão de lenha ao canto esquerdo. No direito, estava a porta que levava para a masmorra.
Sobre a mesa estavam depositados restos humanos, o que não assustava mais a David. O garoto meramente contemplou-os por um tempo e foi checar o conteúdo dos armários: poderia haver algum item útil.
Um por um os armários foram abertos e, em cada um deles, descobriu-se que não havia conteúdo algum, simplesmente.
Faltava então vasculhar o fogão à lenha. David abaixou-se para o fogão e foi aproximando sua cabeça da boca escura quando...
Várias larvas do tamanho de um tênis adulto saltaram de dentro do buraco. David jogou-se para trás depressa, e elas caíram sobre a mesa. Deveriam ser umas 20... Ou talvez 30... 40... David não poderia contar, eram muitas.
Elas automaticamente, ao invés de atacar David, dirigiram-se para a parede e começaram a escalá-la, a fim de alcançar o teto. Só então, quando olhou, reparou que o teto não estava vazio: ali jazia o corpo de um homem que estava preso ao teto em formato de cruz por pedaços de carne semelhantes à uma teia que se entrelaçavam e grudavam-se ao teto. O homem estava coberto de sangue e possuía uma pele pálida e velha, por onde se via o traçado de todas as suas veias. Apesar da aparência morta, olhava David com os olhos vidrados e a boca muito aberta, como se desfrutasse de inimaginável dor.
Uma a uma, as larvas alcançavam o teto e agora se moviam de cabeça para baixo, desrespeitando qualquer gravidade. E uma a uma, dirigiam-se à boca do homem, que continuava com seu olhar penoso.
- O que elas vão fazer?.... – Sussurrou David.
Até que a primeira larva invadiu a boca do homem.
Um nojo fulminante tomou conta de David. A larva penetrava-se na boca do sujeito, que agora gritou de dor e desespero. Seu grito abafado pelo animal que o invadia tornava-o ainda mais sofrido e aterrorizador. Quando o animal penetrou-se por completo, David assistiu a carne da garganta do homem digerir o animal e a carne de seu estômago erguer-se, indicando que a larva estava movimentando-se, rasgando o homem por dentro. A segunda larva não deu trégua e começou a entrar na boca do homem também, fazendo com que seus gritos desesperados se multiplicassem... Era impossível assistir a uma cena daquelas.
Somente quando a quinta larva estava em sua garganta algo diferente aconteceu: o homem fechou a sua boca e todas as outras larvas que tentavam alcançá-lo subitamente explodiram, jogando sangue para todo o lado. As amarras de carne que o prendiam ao teto lentamente se desfaziam, fazendo com que o corpo bamboleasse até cair, de súbito, sobre os restos humanos que estavam na mesa. Só então David viu que um grosso canudo de carne prendia as costas do corpo jogado do homem ao teto, como um cordão umbilical, tudo banhado a sangue. O cordão enfim soltou-se do teto e caiu sobre o corpo imóvel e jogado. Aquele homem acabara de nascer.
David aproximou-se devagar e apreensivo, com sua adaga pronta para atacar. O rosto do homem estava virado para baixo, sem nenhum sinal de vida. David dava passos pequenos e demorados, para evitar ser surpreendido. O corpo estava imóvel... Parecia inofensivo... Parecia...
De súbito, a cabeça do homem levantou-se e encarou David por um segundo. A ação foi tão rápida que David levou um susto e jogou-se para trás. O corpo, sem tirar os olhos de David, começou a levantar-se apoiando seu corpo nos braços, o que fazia um barulho nojento. Pôs-se de pé e começou a caminhar na direção de David, como um zumbi. Este já estava pronto para atacar, e pulou sobre o zumbi, cravando sua faca no dorso da criatura. Esta não pareceu sentir nada, e meramente olhou para o garoto, que se encontrava sobre ele. Ferozmente então, jogou sua cabeça contra a de David e começou a devorar sua orelha direita.
-AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!
Em meio ao desespero e dor escaldantes, o garoto contra-atacou toda a pele do monstro que podia enxergar, rasgando tudo que estava a seu alcance, mas a criatura não parecia sentir nada.
Agonizado, usou as duas mãos e pegou a cabeça da criatura e afastou-a de sua orelha. Assim que conseguiu separar sua carne da boca do zumbi, jogou-se longe e caiu no chão. Tentou apalpar sua orelha direita, mas esta já não existia. Um fluxo constante de sangue jorrava e a boca do animal estava manchada de vermelho. Uma onda de raiva invadiu o corpo de David novamente, uma raiva desumana e vingativa que ele já havia experimentado.
Seu espírito assassino havia voltado.
FIM DA PART 12
Um sentimento maligno invadiu cada centímetro do corpo de David. Estava sedento de carne mais uma vez, sedento por sangue alheio jorrando nas próprias mãos. David novamente sentiu como se a única coisa que o desse prazer pro resto da vida fosse a vida de outro ser escorrer por entre seus dedos. Sua orelha direita ardia... Suas mãos ardiam... Seu olhar ardia... Sua existência resumia-se no sentimento de Vingança.
Numa investida feroz e fatal, David avançou sobre a criatura e furou seus dois olhos com a faca que carregava. O monstro abriu novamente a boca e urrou de dor, levando suas mãos aos olhos que agora não enxergavam nada. David aproveitou esse tempo para novamente rasgar toda carne que podia, mas o monstro, além de não sangrar, não apresentava nenhum sinal de dor além daquele sofrido contra os olhos.
A criatura virou-se furiosa e jogou os braços contra o corpo de David, que voou para a mesa e caiu sobre o nojento “cordão umbilical”, embebido em sangue. Foi então que David teve uma idéia para matar a criatura, imune à dor.
David guardou a adaga no bolso e pegou o cordão umbilical com as duas mãos. Como não podia enxergar, a criatura deixava a aproximação de David muito mais fácil. Bastava caminhar lentamente... Sem que ela escutasse. A angústia em encontrar e matar David era perceptível, pois o zumbi bufava de ódio, virando seu rosto para todos os lados, como se assim pudesse encontrá-lo.
Lentamente e abaixado David aproximou-se das costas da besta até que...
Pulou de uma vez sobre o animal, passando o cordão umbilical pelo seu pescoço e puxando rápido e forte parta trás, a fim de estrangulá-la. O monstro levou as mãos ao que prendia seu pescoço tentando tira-lo, mas David puxava ainda mais o cordão contra si, o que tornava o esforço da besta inútil. Bastaram poucos minutos para que o estranho corpo caísse enforcado no chão, bem à frente de David, voltando a ser imóvel e inofensivo mais uma vez.
David olhava com desprezo o corpo imundo que encontrava-se à sua frente, sentindo o sentimento assassino vazar de seu corpo, mesmo com o local onde estava sua orelha ainda pulsando e sangrando ardentemente. Soltou o cordão sobre o monstro e passou por cima de ambos, sem nem ao menos perceber a estranha ironia: O mesmo objeto que antes era fonte de vida para o monstro, matou-o.
FIM DA PART 13
A porta da masmorra era pequena, simples e limpa, mas mesmo assim era um pouco aterrorizante. A idéia de uma masmorra disposta ao lado da cozinha só fazia David lembrar do filmes de canibais e coisas do tipo. Além do mais, as pessoas mortas e torturadas na masmorra poderiam servir de refeições para aquelas que moravam no castelo.... Sem que estas nem soubessem! Assustador era literalmente a palavra!!
David empurrou a porta calmamente, já que não possuía maçaneta, e penetrou no quarto escuro. Era impossível enxergar qualquer coisa naquele cômodo, então David sacou a lanterna que havia pegado naquele primeiro quarto em que entrou no castelo alternativo, aonde achou a pedra azulada, chave para a porta do quarto de Guilherme. Assim que ligou o feixe de luz, reparou que na sua frente não havia nada além de uma escada que levava para baixo. Não havia sinais de paredes nem um teto, a luz não alcançava nenhuma dessas coisas, se é que elas existiam. Logo, sem outra alternativa, David desceu as escadas, sempre com a lanterna ligada.
A decida era lenta e assustadora. Sem saber pra qual lado olhar, sem saber o que esperar da escuridão sem fim, David pisava em cada degrau com a cautela de um leão que prepara-se para abocanhar a presa. Somados ainda pelo silêncio perturbador, a escadaria parecia não ter mais fim.
Finalmente, e com certo alívio, David pisou no último degrau e, por fim, no chão firme. A escuridão era absoluta, não era possível enxergar nada. Menos o chão da masmorra, que era de areia e pó. David ficou um pouco parado analisando: Em suas mãos, havia uma lanterna. Às suas costas, uma escada. Em sua frente e aos lados, simplesmente nada além de uma escuridão infinita. O que ele deveria fazer?
Resolveu ele, então, caminhar um pouco, tateando o ar em busca de algo sólido. Isso não foi necessário, pois em seu segundo passo uma imensidão de candelabros ascenderam-se sozinhos.
A masmorra constituía-se em um retângulo de tamanho aproximado de um campo de futebol de uma escola. Nas paredes e laterais, estavam os candelabros altos e as velas queimando. Atrás da escada ainda estava muito escuro, provavelmente luz nenhuma alcançaria aquela parte, simplesmente pelo fato daquele lugar não existir... E os materiais e aparelhos de tortura estavam dispostos irregularmente por toda extensão da sala. Aterrorizantes.
O pior não é o fato dos aparelhos de tortura existirem e estarem ali, bem diante dos olhos de David, e sim de que vários monstros estavam sendo torturados neles.
Alguns estavam presos em gaiolas, sempre sangrando e soltando gemidos graves e estranhos. Um deles estava em uma estaca que penetrava seu ânus e perfurava-o até sair pela boca. Um outro estava com os braços presos de um lado e as pernas presas do outro, enquanto um terceiro cerrava-lhe as duas pernas.Um deles estava com a mão presa em uma espécie de mesa que pendia o pulso e o dedo do meio. Assim, um outro girava uma manivela que fazia com que o dedo fosse levemente puxado até ser arrancado. Ainda haviam alguns que estavam pendurados pelos braços na parede por correntes e sendo queimados por ferros em brasa. E no centro da sala em outro tinha sua cabeça presa e suspensa enquanto um grupo estocava alfinetes por todo seu corpo, e outros dois usavam alicates enormes para arrancar cada uma de suas unhas. Tudo isso emanado por terríveis gritos de dor.
David assistia a tudo horrorizado. Aquela mulher, Lavínia, deveria ser realmente diabólica. Quem mais poderia criar um universo originado da própria mente que pudesse ser tão perverso e cruel? Tão sanguinário e masoquista?? David sentia que faria um favor ao mundo exterminado uma pessoa como essa. Antes, porém, fazia um favor a si mesmo desse jeito.
O garoto pegou sua adaga e esperou que algum dos monstros viesse atacá-lo, mas isso não aconteceu. Nenhum dos monstros parecia notar a presença dele no ambiente. Todos estavam muito preocupados em torturar e serem torturados. Nenhum deles sequer olhou para David.
Ele lentamente caminhou, sempre pronto para atacar, na direção de algum monstro. Chegou muito perto, seu coração estava disparado de medo. Mas este não virou em sua direção, não demonstrou interesse em atacá-lo, não percebeu sua existência.
David relaxou. O ambiente era hostil e depravado, mas ele não corria risco de ser atacado. Apesar disso, era preciso arranjar uma porta ou qualquer outro tipo de passagem que levasse ao porão. Foi quando algo inesperado aconteceu:
-HUUOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOWNNN!!!!
De repente, todos os monstros da sala berraram um gemido estranho e grave em uníssimo, assustando David e tirando todo o fôlego que lhe restava. O garoto olhou em volta e percebeu que todos eles estavam caminhando lentamente em sua direção, em passos mancos e sem parar de emitir os mesmos sons estranhos.
David avaliou as opções que fuga que tinha, mas estas não existiam: o garoto estava lentamente sendo cercado por dezenas de monstros que vinham de todos os lados. Ele possuía apenas uma adaga e uma lanterna, não havia como enfrentar aquela horda demoníaca que aproximava-se. O garoto estava simplesmente entregue às aberrações.
Há aproximadamente 3 metros de distância das criaturas que fechavam um círculo sobre o ele, David levantou os braços e abaixou a cabeça, entregando-se. Sentia um frio sentimento percorrer as entranhas de seu corpo, a certeza da morte que já o atingia. Nunca na vida havia se sentido tão indefeso, tão sem opções. Estava gelado, estava pronto para morrer.
Um monstro agarrou seu braço. “Pronto, é agora. Vão me devorar.” Pensou ele. O monstro então se apoiou sobre as costas dele e começou a empurrá-lo para baixo. Os outros monstros que chegavam tentavam fazer a mesma coisa.
-Mas... O QUE É ISSO??
As criaturas jogavam o peso de seus corpos contra David com força, até que ele ficou de joelhos. Mais monstros jogaram-se sobre ele, empurrando seus ombros, sua cabeça, e empurrando uns aos outros. Em pouco tempo, David começou a afundar na areia.
-AAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH!!!!!
Não havia como reagir, o peso sobre o corpo dele era muito grande. Gritando de horror, David esperava lentamente até o momento que seria completamente engolido pela areia e morreria sufocado. Os monstros pulavam uns sobre os outros, o que tornava o processo um pouco mais rápido: a areia já estava na altura de sua barriga.
-Mrmmmmmmmmmf
Já havia tanto peso sobre sua cabeça que David nem podia abrir sua boca para gritar. Surpreendia-se de seu pescoço não ter sido quebrado. A areia estava em seu dorso, até que sentiu uma coisa engraçada que não havia percebido: suas pernas estavam livres. Isso mesmo, não havia areia e ele podia movimentar sua perna livremente. Isso significava que, empurrando-o para baixo, as criaturas estavam tentando leva-lo a outro andar, um subterrâneo àquele onde estava. David só teria de resistir à alguns segundos sem oxigênio.
-HWOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOON
A areia estava na altura de seu pescoço. Era agora ou nunca. O garoto puxou muito ar e serrou bem os olhos, para que a areia não o cegasse. Assim, o mostro empurrou toda sua cabeça para dentro da areia e o deixou. A parte livre de seu corpo no andar subterrâneo já estava em seu peito. Mas para o horror de David, ele parou.
Ele estava preso na areia. Os monstros não tinham mais como empurrá-lo, e o peso de seu corpo não era suficiente para puxá-lo para baixo por completo. Desesperado, ele começou a balançar seu corpo freneticamente. Agora sim, morreria sufocado na areia. Cada vez mais rápido David balançava suas pernas o mais alto que podia, já sentindo que o ar estava lhe escapando. Mas só então ele percebeu: Como ele poderia estar suspenso em um andar onde o chão era feito e areia?? Porque o chão não se desmoronava??
Assim que o pensamento veio-lhe a cabeça, o chão começou a se desfazer e ele a escorregar, como areia que cai de uma ampulheta. Assim, o garoto despencou uns 3 metros e caiu sentado no chão. Quando abriu os olhos, deparou-se com um lugar estranho, que jamais imaginou poder existir em um castelo. À sua frente, uma voz o chamou:
-Aaah... Finalmente.. David Waterfields!!....
David jamais esqueceria a aparência daquela que o havia chamado.
FIM DA PART 14
David encontrava-se no local mais improvável em que ele jamais sonhara estar dentro de um castelo. Localizado às profundezas do castelo dos Sinfullness, muito abaixo do porão e da sala de tortura, o garoto encontrava-se em uma espécie de campo que compreendia uns 5000 metros quadrados. O chão era formado de areia e não era possível ver o teto, pois esse estava oculto pela escuridão do local. A única fonte de luz do aposento vinha de um lago quadrado pequeno, de mais ou menos 100 metros quadrados. Era um brilho intenso e azulado, que dava um ar fantasmagórico ao ambiente, sendo que as pequenas ondas faziam com que o brilho refletido nas paredes e no chão dançasse. O aposento mais parecia-se com uma gruta.
-Aaah... finalmente.. David Waterfields!!....
Uma pessoa, sentada em uma pedra, chamava seu nome. David tinha dificuldades para esconder seu nojo: Aquela definitivamente era Lavínia. David já a havia visto uma vez, dentro do espelho por onde entrara no castelo alternativo. No espelho, ela tinha a aparência de uma mulher que foi chutada de uma festa de gala e havia virado mendiga. Mas a mulher que David viu sentada na pedra era ligeiramente diferente: esta possuía o vestido rasgado e o cabelo negro, sujo e despenteado, mas seu rosto estava velho e deformado. Seus olhos eram completamente negros e eram muito grandes e alongados, como se alguém tivesse puxado os dois para baixo, dando à Lavínia um olhar triste e medonho. Seus braços eram enormes, vinham até pouco mais que o joelho, e suas mãos eram do tamanho de seu rosto, com afiadas garras nas pontas. Aquela grotesca criatura chamava David com uma voz grave e firme, uma voz semelhante à de um demônio:
-David...
O garoto procurou desviar seu olhar, mas estava prestes a vomitar.
-David...
Ele levou as mãos ao rosto. Porque estava passando por tudo aquilo?
-David...
David sentiu um refluxo azedo chegar à sua garganta.
Aquilo era o bastante.
-CHEGA!!!
O grito foi involuntário, mas alto o suficiente para fazer com que Lavínia se calasse. David precisava saber o porquê daquilo tudo.
-POR QUE EU?? DIGA-ME, MESMO QUE EU VÁ MORRER DEPOIS, O QUE EU ESTOU FAZENDO NESTE MALDITO CASTELO?? PORQUE EU ESTOU ENVOLVIDO COM ESSA MALDITA SEITA?? PORQUE É TÃO IMPORTANTE QUE EU MORRA?? PORQU...
Afogado nas próprias palavras, David caiu no chão e vomitou. Lavínia não fez outra coisa senão rir. David exalou tudo que restava em seu corpo, até o fôlego lhe faltar. Quando terminou, sentia que seu estômago havia retraído e só o que havia restado era um gosto amargo na boca. Lavínia acalmou-se, e falou:
-O dia do Julgamento Final em fim parece ter chegado. Com a ajuda do Escolhido e dos 2 anjos do Apocalipse, Samael e Metatron, eu reconstruirei o Verdadeiro Parais...
-MAS QUE MERDA DE PARAÍSO É ESSE, AFINAL?! – gritou David.
Lavínia encarou-o com um olhar gélido.
-Ofereço-lhe agora, senhor, como sacrifício, o indivíduo que possui o coração mais angustiado e cheio de repúdio que já habitou este planeta. Ofereço-lhe agora, senhor, como sacrifício, o indivíduo que possui o maior vinculo com a água já presente neste universo...
-MAS PORQUE EU?? APENAS DIGA-ME: PORQUE EU??
Lavínia levantou calmamente e dirigiu suas palavras a ele:
-Pergunte a seus ancestrais, DAVID WATERFIELDS!
Em um súbito mergulho no ar, Lavinia dirigiu-se em um golpe mortal na direção de David. Este, por sua vez, girou rápido no chão e escapou por pouco. Muito hábil, sacou sua adaga e colocou-se logo de pé, limpando o resto de vômito que ainda saía de sua boca. Lavínia foi parar em pé, poucos metros á sua frente. Gargalhou sonoramente e disse:
-Isso vai ser interessante.
Ela correu de encontro a David, que rapidamente desviou do ataque da mulher e cravou sua adaga em suas costas. Esta gritou de dor e caiu no chão.
-Desgraçado... DESGRAÇADO!!!
Rápida, virou de uma vez e agarrou o pescoço do garoto com suas enormes mãos. David não teve tempo de se desviar, e Lavínia o suspendeu no ar, contente. Ele já estava esperando que ela quebrasse seu pescoço ou esmagasse seu crânio, mas Lavínia começou a carregá-lo. David não tinha a menor idéia do que estava por vir, até que se lembrou: “O LAGO!!”. Esse certamente era o plano de Lavínia, David morreria afogado. Levou as mãos às garras que o prendiam, mas era inútil: Lavínia era forte demais. Ela calmamente entrou no lago e recitou para o nada:
- Ofereço-te, senhor, o seu sagrado sacrifício. Que a morte deste ser represente a passagem dos Anjos do Apocalipse para este mundo!! QUE VOSSOS ANJOS CONSTRUAM SOBRE ESTA TERRA DE PECADORES O VERDADEIRO PARAÍSO!!!
E, sussurrando ao ouvido de David, disse:
-Amén!
Em um instante, Lavínia forçou todo o corpo do garoto para dentro da água. Seu longo braço ficou rígido, fazendo com que força alguma fosse suficiente para salvá-lo. “Vou morrer afogado! LAVÍNIA VAI ME MATAR AFOGADO!!!” Pensava ele, enquanto debatia-se na água. Era inútil. Nada moveria o braço de Lavínia. Enquanto isso, David percebeu um estranho brilho vir de suas costas, às profundezas do lago. Um corpo emergiu do fundo e flutuou até a superfície, porém ele nunca seria capaz de dizer o que viria a ser o corpo, pois sua visão já estava ficando embaçada. Numa última tentativa, David flexionou os joelhos e chutou com toda força os seios de Lavínia. A água absorveu grande parte do impacto, mas a dor foi suficiente para fazer com que ela largasse o pescoço dele. O garoto voltou-se para a superfície aliviado e respirou fundo. Mas o alívio foi rápido, durou somente até ele ver a criatura que havia submergido antes dele.
-SAMAEL!!! – gritou Lavínia com vigor, ainda um pouco abalada, jogada em um canto do lago. – MEU ANJO SAMAEL!!!
Samael possuía a aparência de um homem enorme, de uns 4 metros de altura. Estava completamente nu e não possuía o braço esquerdo, restando-lhe apensa um buraco, como se alguém o tivesse arrancado à força. Haviam muitas feridas em seu corpo inteiro, e suas asas não possuíam penas: estavam banhadas em sangue e em carne-viva. Ele não possuía nariz, apenas uma fenda avermelhada, e de seus olhos completamente brancos jorrava sangue. Samael carregava consigo uma lança de mais ou menos um metro e meio, suja de sangue nas pontas afiadíssimas, que formavam um V.
-SAMAEL! – gritou Lavínia, tentando se levantar – FAÇA O QUE DEVES FAZER, Ó ANJO! DESTRUA A TERRA E TUDO QUE NELA HÁ!
Cambaleante, o anjo arriscou um passo, mancando. Ao segundo passo, caiu no chão, sustentando-se apenas com sua lança.
-NÃOOOO!!!
Lavínia gritou desesperada, mas David não entendia o que aconteceu com o anjo.
-Samael... Porque não te levantas?...
Enfim David entendeu: quando sua vista havia ficado embaçada, era sinal de que estava quase morrendo afogado, e por isso o portal foi aberto e Samael foi libertado. Mas, como ele não morreu de fato, o segundo anjo não pôde passar e Samael não nasceu por completo. Ele não possuía forças para destruir planeta algum!
Lavínia estava em prantos. Chorava copiosamente a delicadeza do anjo caído, que não podia nem locomover-se como deveria. Olhou David com profundo desgosto e berrou:
-A CULPA É SUA, FILHO DE UMA PUTA!!! VOCÊ VAI MORRER, COM OU SEM PARAÍSO!!
Lavínia pulou no ar de súbito, e David quase não conseguiu escapar. Rápida, ela virou-se e investiu novamente contra o garoto, que se jogou para o lado e desviou.
-MEU SONHO, MINHA VIDA... TODA MINHA VIDA DE SERVENTIA E VOCÊ JOGOU-A FORA!!! EU VOU TE DILACERAR VIVO ATÉ QUE VOCÊ ENLOUQUEÇA DE DOR!!!!
Ainda no chão, David olhou para o anjo quase morto e viu em suas mãos a última chance que possuía de sair vivo daquele lugar. Enquanto suas veias bombeavam para seu corpo todo um calor que ele já conhecia, David pulou feroz em direção da lança que Samael estava segurando. Lavínia estava correndo há poucos metros de distância dele e pulou para agarrá-lo. Veloz, David pegou a lança e virou-se rapidamente para direção de Lavínia, que caiu com vontade na lança, sendo perfurada na barriga e no peito. O rapaz largou a lança e Lavínia caiu deitada de costas na areia. Sua voz soou distante e fraca quando ela falou:
-Você não vai sobreviver...
David sentia o calor exalar-se de seu corpo.
-Mesmo que saia deste castelo, você vai morrer...
Lavínia levou suas mãos à lança e falou sua última palavra:
-Amén.
Exausto como jamais havia se sentido, David jogou-se para trás e caiu sobre o corpo inerte do anjo Samael. Apesar de sentir certo nojo de deitar-se sobre um cadáver, ele não sentiu vontade alguma de levantar-se. Seus músculos imploravam para que ele nunca mais os mexesse. Toda extensão do corpo de David latejava em uma fadiga arrasadora. Ele só queria descansar...
Do nada, o braço direito de Samael moveu-se de leve, mas David nem notou. O rapaz só percebeu quando o anjo havia já havia o cerrado em um forte abraço contra o próprio peito.
-MAS O QU...
Levantando-se rápido, o anjo começou a andar determinado, sem cambalear uma só vez agora. David debatia-se com uma força que nem possuía mais. Samael estava indo em direção ao lago. Parou um instante e, depois, pulou.
David via-se sendo afogado novamente, enquanto Samael o segurava firmemente. Percebendo que não havia mais como lutar, David resolveu simplesmente deixar-se afogar. Precisava descansar. De qualquer jeito.
David Waterfields acordou de súbito. Assustado, olhou para si mesmo: estava vivo!
Olhou em volta e logo percebeu onde estava: na frente da porta principal do Castelo do Sinfullness, mas do lado de fora! David mal podia acreditar que havia saído dali com vida!
Tentou se levantar e, com grande esforço, pôs-se de pé. Ainda se sentia muito cansado e sua perna esquerda continuava machucada. Tentou andar um pouco, mas sabia que naquele ritmo nunca chegaria há lugar algum. Até que percebeu um vulto se aproximando na névoa distante.
David já estava entregue. Estava desarmado e com um cansaço inimaginável. Apenas fechou os olhos e esperou que a criatura viesse o pegar, mas não foi isso que aconteceu. Ao longe, uma voz o chamou:
-David!
Ele abriu os olhos e viu que Keyle estava se aproximando.
-K... Keyle???
Keyle chegou mais perto e fitou David com um olhar preocupado.
-Vim aqui ver se você estava em apuros no castelo e pelo visto estava certo, hein?! Como você se machucou deste jeito lá dentro? Aliás, você não estava preso??
David sentiu-se desamparado e confuso.
-Keyle?? Do que você tá falando?? Você... Você não tinha morrido?...
Keyle sorriu
-Como é David?
-VOCÊ MORREU SIM! NÃO É POSSÍVEL, EU ME LEMBRO, VOCÊ LIGOU PRA MIM, HAVIA TRAZIDO OS BOMBEIROS E DISSE QUE A NEBLINA ESTAVA DENSA E...
Keyle fez sinal para que se calasse. Então, soltou uma gargalhada descontraída:
-Você deve estar doido, David. Eu acabei de chegar!
-MAS VOC...
-Silêncio David. – disse Keyle, sereno. – Vamos para casa. Você tem que cuidar destes ferimentos.
David calou-se. Estava cansado demais para raciocinar no que Keyle dissera. Só queria voltar para casa.
E assim, David Walterfields caminhou sem rumo por um bom tempo pela densa neblina que envolvia o Castelo naquela manhã, sem perceber que estava sendo guiado pela própria loucura para morrer de frio e fome no meio de lugar nenhum.
FIM
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