O Espelho
1 Será eu Alice?
Eu estava sentada no chão da sala, aos pés de minha mãe, de frente para minha avó. Elas conversavam sobre alguma receita de bolo para o meu aniversário que seria em alguns dias. Essa é a primeira memória que tenho, talvez eu tivesse uns 2 ou 3 anos. À minha frente um mar de brinquedos, bonecas e carrinhos. Não lembro perfeitamente de quais eram todos os brinquedos, nem das palavras que elas diziam, nem mesmo do cenário ao meu redor. Mas me lembro do espelho, ele sempre esteve ali, e nesse momento eu o via pelo canto do olho.
Quando eu tinha uns 6 anos minha avó adoeceu. Ela dizia ser culpa do espelho, por que sua versão do "outro lado" a havia vencido, e por isso agora ela adoecera. Minha mãe me proibiu de permanecer ao lado da minha avó depois que ela resolveu esquecer que eu era uma criança impressionável e vivia contando aventuras malucas sobre o outro lado. Mas não eram malucas do modo divertido, como Alice no País das Maravilhas, era algo mais próximo aos contos antigos, aonde bruxas lutavam em batalhas épicas, montadas em enormes dragões cuspidores de fogo.
Aos 12 anos minha avó já havia me enchido de histórias fantásticas, e eu resolvi anotar todas as suas histórias, sendo elas longas ou não, terminadas, ou não. Em um caderno que eu não usava na escola escrevia todo dia algo novo, ou algo que ela já havia me contado a muito tempo. A primeira página era composta de uma breve descrição do "outro lado":
"Lá do outro lado no início é tudo igual à nossa casa, a sala, os quartos, até mesmo nossa garagem. Mas assim que você sai a mudança é gigante. Estamos de volta a idade média, um enorme campo ocre, cheio de trigo, se estende até você não enxergar mais. Do lado direito da casa uma montanha cinzenta se ergue até o céu escondê-la com suas nuvens, mas saiba que nessa montanha se esconde duas criaturas horríveis, uma é o Dragão Malchior, e a outra criatura é Mirsay, a bruxa. O melhor a fazer é seguir pelo campo até a cidade. Não fica muito longe, mas você demoraria um século para chegar lá se não prestar atenção no caminho. Nunca atravesse o campo a noite, os orcs vão te achar. E jamais, tente correr deles, pois em apenas dois passos eles conseguem te alcançar."
Minha avó me contara isso quando eu tinha uns 9 anos, e eu ficara encarando o espelho durante alguns dias, imaginando orcs saindo de dentro do espelho. Naquela época eu ainda acreditava em tudo isso, mas alguns anos depois, minha fé deixou de existir.
Quando eu estava com 16 anos minha avó morreu, e duas semanas depois o advogado leu o testamento deixado por ela. Aonde, ela deixou um espelho amaldiçoado, um relógio de bolso, e alguns livros, antigos e novos, para mim. Para minha mãe, ela deixou uma carta, e a casa aonde ela morou. Além do dinheiro guardado no banco. Eramos a única família dela, então, tudo o que ela podia deixar no testamento, era para nós duas.
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