O Espectro do Tempo

3 Depois da Explosão


Notas iniciais
Boa noite, gente. Mais um capítulo da nossa história aqui. Um capítulo bem longo até, e que me demorou mais tempo do que eu imaginei para escrever. Desculpa pela leve demora para postar. Estou fazendo meu melhor pra me manter em um cronograma minimamente, e cada capítulo deve sair no máximo em duas semanas após o anterior. Bom, sem mais delongas, fiquem a vontade para ler o capítulo. Mais ao final vou dar minhas notas e pensamentos sobre o capítulo. Beijos, boa leitura.

Assim que eu fiquei desacordado, minha mente me levou de volta ao dia do acidente no Centro de Pesquisas Keth, após eu tentar enfrentar meu irmão.

Tentar é a palavra-chave.

Em um momento, eu lembro de correr em direção a ele, com os punhos cerrados, enquanto Nate assumia uma postura defensiva. No momento seguinte, eu estava em outra parte da cidade. Como se eu tivesse sido realocado instantaneamente, sem nenhuma explicação.

Antes que pudesse pensar em qualquer coisa, ouvi uma explosão, e soube imediatamente onde era. Eu não estava tão distante do CPK, apenas algumas ruas e distâncias, então a explosão do prédio atingiu o cheio meus ouvidos, fazendo o chão tremer e várias janelas se abrirem para que as pessoas pudessem entender o que estava acontecendo. Reconhecendo aonde estava, andei em direção ao CPK.

Eu tinha várias perguntas passando pela minha mente enquanto corria em direção ao prédio, mas dois objetivos principais estavam em minha mente. O primeiro era tentar achar o meu irmão. O segundo, tentar conversar com as autoridades que aparecessem.

Os dois não aconteceram. Por motivos diferentes.

O primeiro, porque meu irmão não estava lá. E boa parte do prédio também não. Tinha surpreendentemente poucos destroços do CPK em si, como se o foco da explosão tivesse sido completamente desintegrado e não existisse mais. Mas os danos feitos aos prédios que estavam ao redor do CPK eram grandes. Boa parte dos prédios a esquerda e a direita estavam em chamas, além de terem suas estruturas extensivamente abaladas. As pessoas na rua entraram em pânico, algumas correndo para longe da explosão, as outras em estado de choque, olhando para a cena paralisadas. Um arrepio correu minha espinha quando eu me toquei que todas as pessoas que estavam no CPK haviam morrido.

Todos menos eu. E o meu irmão.

Não me perguntem como ou por que eu sabia daquilo. Mas o que quer que havia me salvado da explosão, também tinha salvado Nate. Era quase como uma sensação, uma conexão, que se não estivesse ali, eu saberia.

Nate estava vivo. Com super poderes que o permitiam controlar o tempo. E que, aparentemente, haviam o levado a loucura. Ele pretendia fazer algo ruim. Eu tinha que encontrá-lo. Tinha que parar o que quer que ele quisesse fazer. Aquilo se fixou em mim naquele dia, e 10 anos depois ainda me guiaria dia após dia.

Foi então que uma percepção passou pela minha mente.

Eu não poderia falar com ninguém sobre o que aconteceu. Sobre o que realmente tinha acontecido. Para todos os efeitos, eu estava morto. Todo mundo saberia que eu estava no CPK, todos achariam que eu estava na explosão, e que teria morrido por causa dela. Se eu tentasse explicar o que aconteceu, eles iriam me amarrar numa camisa de força e me tacar num hospício. Se eu criasse alguma desculpa esfarrapada, as autoridades provavelmente me culpariam de alguma forma pela explosão. Dos dois modos, ninguém acreditaria em qualquer história que eu quisesse contar. Eu estava perdido.

Sem saber o que fazer, fiquei parado, observando as ruínas do CPK. Ao ouvir as primeiras sirenes, saí da rua e comecei a andar em direção a casa. A caminhada era longa, o que me deu tempo de deixar os pensamentos correrem pela minha mente. Não conseguia focar em uma coisa específica ao mesmo tempo. Juntos aos meus pensamentos, várias imagens passavam pela minha cabeça. Às vezes mostravam habilidades minhas, coisas que aqueles poderes, que aquela explosão, de alguma forma, havia me dado. Outras eram cenas aleatórias, que não ficavam tempo suficiente para conseguir tirar alguma informação delas.

À medida que andava, uma chuva começou a cair. A tempestade que o dia todo tinha ameaçado aparecer, decidiu cair toda de uma vez naquele momento oportuno. Sem minha mochila, e consequentemente sem guarda chuva (e sem celular também), só me restou puxar o capuz do meu casaco e ser ensopado pela chuva.

Apesar de ainda não estar tão tarde, já parecia noite quando eu finalmente cheguei em casa. Parei em frente a ela e fiquei pensando. Me dirigi à janela da sala, e, fazendo o máximo para passar despercebido, olhei para a cena.

Minha mãe estava sentada no sofá. Seus cabelos lisos castanhos, com algumas mechas grisalhas quase imperceptíveis, estavam bagunçados. Ela tinha as duas mãos a frente do rosto, e soluçava copiosamente. A área ao redor de seus olhos verdes estavam vermelhas, o que me fez perceber que ela já tinha recebido a notícia da explosão há algum tempo.

Meu pai estava próximo a ela, com a mão em seu ombro, mas de pé, como costumava estar quando ficava nervoso. Ele coçava o couro de seu cabelo preto cacheado. Os olhos castanhos passavam a clara mensagem de que ele estava claramente desesperado, enquanto conversava no telefone com alguém. Seu corpo tremia.

A TV estava ligada. Me ajeitei um pouco para poder ver. Estavam passando, por ordem alfabética, nomes e fotos das pessoas que estariam no edifício na hora do acidente. Quando eu comecei a ver já estavam na letra J, então não demorou muito para o meu nome aparecer. Depois de alguns minutos e muitos nomes (uma quantidade mais do que o suficiente para fazer meu coração pesar), meu irmão apareceu na tela.

Antes de chegar em casa, eu já suspeitava do que aconteceria, e ao ver o nome e o rosto do meu irmão na TV, tive certeza. Eu não podia entrar em casa. Não podia falar com meus pais. Tanto porque, para o resto do mundo, meu irmão e eu estaríamos mortos. Mas também porque éramos perigosos. Tínhamos poderes, que levaram meu irmão a loucura, e considerando o estado da minha cabeça naquele momento, não descartava a possibilidade de que eu fosse enlouquecer também. Foi então que um vislumbre passou pela minha mente. Um dos meus poderes, algo que eu conseguia fazer controlando o tempo. Sabia que seria o melhor para os meus pais. Com sorte, meu irmão ficaria longe deles e eu poderia encontrá-lo e talvez desfazer o que eu faria.

Tinha me decidido. Fechei meus olhos e respirei fundo. Parar o tempo é uma sensação parecida com a de parar um objeto em movimento. A única diferença era que você tinha que calcular com precisão qual força você usaria para pará-lo, se não acabaria voltando no tempo. Quando abri os olhos novamente, o tempo não estava exatamente parado, mas estava bem mais lento.

Um dia eu vou conseguir explicar para vocês da forma correta como os meus poderes funcionam. Por hora, aceitem essa explicação ligeiramente tosca.

Com o tempo em lenta progressão, andei até a porta de casa. Fiquei olhando para a maçaneta por muito tempo. Nem eu sei quanto exatamente. Fiquei tão absorto naquilo que quase não percebi os passos atrás de mim. Me virei, pensando que poderia ser meu irmão, mas não.

Quem estava atrás de mim era um homem, aproximadamente com 1,90m. Vestia roupas casuais, calça jeans com um casaco azul claro e uma camisa cinza. Tinha as mãos nos bolsos da calça. Seus cabelos e barba estavam quase completamente tomados por tons grisalhos, mas aqui e ali tinha alguns pelos pretos. Olhos cinzas tempestuosos olhavam para mim, de um jeito quase carinhoso. Uma cicatriz um pouco abaixo do olho esquerdo fazia ele parecer algum tipo de soldado.

Ele mexeu a cabeça, fazendo sinal para a porta.

—Decisão difícil? — Perguntou, com uma voz suave, porém firme.

Balancei a cabeça negativamente.

—Já me decidi. Tomar a ação é que é difícil.

Você pode estar se perguntando: “Jonas, como assim um cara super misterioso aparece na sua frente e você não se espanta, pergunta quem ele é e por que ele está ali?”. Para começar, eu estava exausto para caralho. Além disso, não precisei de muito para entender que a única explicação possível era que ele era como eu, alguém capaz de controlar o tempo, alguém bem mais experiente nisso. Além disso, na pior das hipóteses ele estava ali para me matar, mas se ele quisesse, já teria o feito.

Passou-se algum tempo antes de que alguém falasse alguma coisa. Parecia que ele esperava que eu falasse algo, então finalmente tomei o convite.

—Quem é você?

Ele fez sinal de quem estava satisfeito por eu finalmente ter falado algo.

—Sou como você. — Falou, e desacelerou ainda mais o tempo para provar. Vendo que eu não estava tão satisfeito com a resposta, continuou. —Meu nome é Raymond Lake. Eu sou líder de uma organização chamada Guardiões do Tempo. Pessoas como nós, dedicadas a garantir que ninguém faça mudanças drásticas à linha do tempo, alterando todo o tecido da realidade.

“Claro”, pensei, “Por que não?”. Imediatamente depois que ele disse aquilo, sabia por que Lake estava ali. Sabia que ele me conhecia.

—Eu tenho que encontrar o meu irmão. Tenho que pará-lo. — Falei, me virando para a porta. De canto de olho, vi ele assentir a cabeça levemente.

—Eu sei como é. — Ele não sabia como era ter um irmão louco com poderes capazes de destruir toda a realidade. Mas ele sabia como era estar na minha posição. Provavelmente era a única pessoa que me entendia e não me acharia maluco naquele momento. —Eu posso ajudar.

Suspirei e perguntei como.

—Posso treinar você. — Lake respondeu. —Posso ajudá-lo a entender os seus poderes, para que possa encontrar o seu irmão. Mas você vai ter que vir comigo. Se tornar um Guardião do Tempo.

Olhei para o céu. Eu sabia que não tinha opção. Tinha certeza absoluta disso. Mesmo que eu soubesse controlar os meus poderes e entendesse as extensões dele, não saberia como começar a procurar por Nate. Precisava de ajuda. Me virei para a maçaneta de novo, mas eu continuava a hesitar.

—Posso fazer isso por você se quiser. — Disse mais uma vez Lake, como se lesse minha mente.

Meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu fiz de tudo para me controlar. Prometi a mim mesmo que seria apenas temporário. Encontraria meu irmão e o salvaria, então voltaria para casa. Ao menos, era o que eu pensava...

—Posso ao menos me despedir? — Perguntei, com a voz falhada.

Uma pausa que eu imaginei que fosse ele assentindo e logo depois um “claro” tão baixo que eu pensei que só teria imaginado ele dizer. Então, entrei em casa e me ajoelhei em frente à minha mãe.

—Mãe. Mãe, eu sinto muito. Eu não sei o que fazer, eu estou com muito medo. Eu preciso proteger vocês, eu preciso proteger o Nate. Eu espero que um dia você me perdoe de alguma forma.

Me levantei, chorando, e com lágrimas nos olhos me dirigi ao meu pai.

—Pai, obrigado por todos esses anos. Por ter nos ensinado a proteger uns aos outros. Por nos proteger esse tempo todo. Sinto muito por todas as vezes que fiquei com raiva de você, mas você nunca desistiu de mim.

Minha garganta fechou, e eu desabei no choro. Lake apareceu a porta, olhando para mim, com uma expressão que indicava que ele sofria com aquela cena. Lágrimas apareciam em seus olhos também.

Levantei-me e andei em direção a porta, para sair. E voltar sabe-se lá quando. Lake deu um passo para trás para me deixar passar. Parei à porta, me virei mais uma vez para sala, e prometi:

—Eu vou detê-lo. E então eu vou salvá-lo.

Saí e esperei. Lake fez alguns movimentos estranhos, fechou os olhos e suspirou. Então se virou para mim e anunciou o que tinha feito.

—Pronto. Pela manhã, sua mãe e seu pai não terão lembranças de você e seu irmão. Uma equipe de Guardiões do Tempo vai retirar seus pertences da casa e tudo que seja um remanescente da existência de vocês. E ninguém será capaz de associar eles a vocês.

Olhei para Lake, com lágrimas ainda nos olhos. Por um momento, agradeci por ele ter feito aquilo por mim

—Isso vai protegê-los. — Falou ele, prevendo a pergunta que eu faria. —Pronto?

Assenti, incapaz de falar mais uma palavra pelo resto da noite. Lake puxou um dispositivo que parecia um rádio super tecnológico de um bolso interior do casaco.

—Estou com o Espectro. — Anunciou para sabe-se lá o que. Por um momento, nada mais aconteceu. E então, meus olhos tiveram dificuldades para entender o que estava na minha frente. Parecia uma daquelas naves espaciais enormes que apareciam em filmes e séries de ficção.

Vendo meu rosto impressionado, um sorriso se abriu no rosto de Raymond Lake.

—Jonas Park Specter, essa é a Arca do Tempo.

Notas finais
Vou falar para vocês que esse é um capítulo bem importante pra mim e para a história, eu acho. É basicamente o último capítulo em que eu vou ter que desacelerar um pouco as coisas para que Jonas possa explicar para vocês o que levaram ele a situação que ele está e como isso afetou ele e as pessoas ao redor dele. Daqui pra frente, a história ganha outro ritmo e os flashbacks param de ser introduções básicas e passam a ser quase que uma história paralela. Ou seja, daqui pra frente é basicamente onde ele passa a ser mais o Espectro, como dá pra perceber mais ou menos pelo final. Temos também a introdução de um personagem que vai ser importantíssimo para a história e para Jonas, como dá pra perceber. Um personagem que divide as minhas opiniões sendo bem sincero com vocês, mas enfim. Já estou me estendendo muito, de novo, nessas notas. Espero que vocês tenham gostado do capítulo. Estou aberto a quaisquer comentários. Até a próxima!