O Espectro De Uma Cor
2 Capítulo I - Vermelho (parte 1)
Notas iniciais
Alice's POV
Vermelho por toda parte. Dois tipos distintos.
O primeiro vermelho, cronologicamente falando, era o vermelho vivo e brilhante dos lenços e vestimentas dos cidadão de Volterra naquela tarde ensolarada.
A impressão que aquele tom distinto e vivo me passava era semelhante ao desespero que eu sentia no momento. Em Forks, à milhares de quilômetros de distância, Rose estava prestes a se atirar de boca na jugular de Bella Swan. Em algum lugar daquela praça superlotada estava Edward, a poucos instantes de se expor para centenas de humanos vestidos de vermelho e, assim, assinar seu atestado de óbito.
E cabia a mim impedir ambos desastres.
Desviei-me das pessoas que tentavam seguir o fluxo da praça ensolarada. Meu capuz, luvas, sobretudo e óculos escuros me tornavam o ser mais excêntrico de Volterra — sem comentar que eu usava amarelo. Pelo menos, ninguém veria a minha pele brilhar. Quando encontrei um espaço livre e amplo o suficiente para correr, quase me esqueci o quão rápidos nós, vampiros, somos. Recebi alguns olhares de espanto, mas mal pude disfarçar e esperar que se perdessem, pois, ao longe, dando passos hesitantes na direção do sol forte da praça, estava meu irmão.
Edward parecia ter os olhos fechados, carregando um semblante sombriamente tranquilo. Sem camisa, só precisaria dar mais alguns passos para deixar as sombras da ruela ao lado da torre do relógio.
Se eu tivesse um coração pulsante, esse seria o momento perfeito para uma taquicardia.
Ignorando as quase vinte pessoas que se interpunham entre mim e o futuro de Edward, saltei mais alto e mais longe que qualquer humano seria capaz de saltar. Aterrissei aos pés da escada da torre, afobada pelo ribombar do relógio que soava repetidamente. Nada mais me interessava, eu precisava impedir os próximos passos de Edward — para que não fossem, também, seus últimos. Com a graciosidade de uma bailarina, pulei todos os degraus de uma só vez e encostei a palma da mão direita no peito do meu irmão. Sentindo a resistência inicial (Edward não parecia ter intenções de parar de andar), forcei-o para dentro da ruela. No fim das contas, tive que empurrá-lo com toda a minha força, fazendo-o cair com as costas na lateral de um container de metal. O container amassou.
"O que significa isso?" ele balbuciou. Sua voz era tão desprovida de vida quanto seu corpo gélido.
"Você não vai morrer hoje." eu disse, impondo o máximo de autoridade que meu timbre doce permitia.
Edward ergueu os olhos dourados para mim, quase que suplicando a morte. Era mágoa em forma de ouro líquido.
"Bella Swan não morreu..." eu comecei. Não houve reação imediata, ele parecia precisar de alguns minutos para processar a informação.
"Eu vi na sua cabeça. Ela... se atirando do penhasco. Não é possível..."
Na cabeça dele, não fazia sentido. Eu teria que mostrar.
"Vasculhe minha mente. Você vai entender."
O que pareceu ser uma hora depois, Edward terminou de amassar o container. Eu não conseguia ler as emoções em seu rosto — os lábios finos e desenhados estavam franzidos numa espécie de sorriso alucinado e os olhos ardiam em suas órbitas. Mas ele estava vivo, muito diferente de quando vira sua Bella em queda-livre.
"Você tem que mostrar à Rose que nada aconteceu aqui em Volterra. Precisamos voltar o quanto antes." eu disse, esperando uma resposta afirmativa. Nenhum de nós gostaria de resolver as coisas por aqui e deixar tudo ir por água abaixo em Forks. Edward voltou as costas para mim, assumindo uma postura defensiva. Não compreendi até ouvir os passos. Eram dois vultos encapuzados que pareciam deslizar pela escuridão daquela ruela estreita e longa. Apesar da distância, Edward já cerrava os dentes e rosnava para ambos.
A ficha demorou para cair.
O grito estrangulado e sofrido de Edward quebrou o silêncio da ruela. Então, de repente, eu não conseguia mais enxergar. Era como se meus olhos tivessem sido tapados por uma venda invisível e super apertada, e, por mais que eu arregalasse os olhos, continuava presa naquele estado de cegueira. Como se não bastasse, minha audição também se foi, eu estava à deriva num mundo negro e frio. Quando tentei localizar meus (aparentemente) inimigos, o olfato também se foi. Por fim, meus pés perderam a noção do que era chão e o que não era. Flutuando no nada, eu só podia esperar que tudo passasse. Esperar que o Volturi me desse permissão aos meus próprios sentidos. Esse era o tipo de poder que o dom de Alec concedia.
Como saber como funciona o passar do tempo em um mundo escuro como aquele? Eu podia estar sendo atacada naquele exato momento e sequer saber. Eu já podia estar morta, inclusive. Na minha cabeça, o que reverberava eram os resquícios do grito de Edward. Ele não podia morrer.
Como que em um raio de luz, tive uma visão. Uma previsão.
Isabella Swan suspira pesadamente em seu sono, enquanto seus lábios murmuram palavras quase inaudíveis. O calendário ao lado de sua cama indica que já tinha se passado uma semana e meia contando do dia em que eu me encontro. Ela acorda gritando "Eles os pegaram!" e passa as costas da mão na testa suada. A janela aberta faz as cortinas esvoaçarem. Do lado de fora, Edward a observa com anseio — no segundo seguinte, sumiu.
Bella pula para fora da cama e joga as cobertas para o lado. Corre até a janela e fecha o vidro, sem ter certeza de que vira o que pensa ter visto.
Fechei os olhos com força e voltei para a minha escura realidade que, gradativamente, se desanuviava. Luz fraca invadia o ambiente, e, assim que pude focar minha visão no que parecia ser uma pessoa à minha frente, me deparei com o segundo tom de vermelho: o mais terrível de todos.
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