O Espadachim Sem Vocação
1 Primeiro Conto
Um jovem espadachim, filho de um carpinteiro, tinha diversas dúvidas sobre qual seria a sua verdadeira vocação na vida. Ele não conseguia encontrar nada em que fosse verdadeiramente bom, e consequentemente, se achava incapaz de continuar a viver em tamanha agonia existencial. Mesmo assim, ele se julgava especial por ter uma espada capaz de decepar um homem com apenas um golpe, e braços fortes para conseguir levantar um bezerro.
Certo dia, ele resolveu fazer suas malas e partir pelo mundo em busca de algum sentido para sua humilde vida. Viajando pelo mundo, o jovem pensou, em um mundo tão vasto, não seria difícil de achar algo em que fosse bom, ainda mais com suas habilidades especiais. O espadachim tentou ser mago, mas achou o sabor das poções muito amargo. O espadachim tentou ser poeta, mas sua mente não era tão aberta. O espadachim tentou ser fazendeiro, mas tinha preguiça de cuidar do celeiro. O espadachim tentou ser amante, mas seu abraço não era tão aconchegante. O espadachim tentou ser soldado, mas não tinha paciência para ser ordenado.
Ao fim de sua viagem pelo mundo, o espadachim se deparou com o homem mais sábio do mundo. Aquele homem poderia dar um caminho para o jovem espadachim seguir, afinal, todos sabem que o homem mais sábio do mundo sabe de tudo.
— Sábio, eu preciso descobrir qual é minha vocação neste mundo – Disse o espadachim, ao se deparar com aquele senhor já castigado pela idade.
— Me diga, jovem espadachim, o que você tem de especial? Perguntou o velho sábio.
— Eu tenho a força nos braços para levantar um bezerro! – Disparou.
— Mas qualquer um, com muito treino, consegue ter força para levantar um bezerro – ponderou o sábio.
— Eu tenho uma espada capaz de decepar a cabeça de um homem com um só golpe! – Berrou o espadachim.
— Mas qualquer espada, se estiver bem afiada, pode decepar um homem com um só golpe – disse o sábio. – O que você tem de especial, jovem espadachim? – Perguntou insistentemente o sábio.
O espadachim foi embora dali em silêncio e triste, pois realmente não havia esperança para si. Após inúmeras tentativas fracassadas e frustradas, e mesmo depois de ter conversado com o homem mais sábio do mundo, o espadachim desistiu. Já que não havia vocação para ele naquele mundo, talvez a morte fosse a melhor opção, de nada valia um homem sem utilidade no mundo. O espadachim se encostou em uma árvore, colocou sua espada em seu colo e esperou ali até que a morte viesse, o que não demorou muito.
Algum tempo depois, um viajante que passava por ali, viu o esqueleto do espadachim encostado na árvore. Seu filho veio logo correndo e perguntando de quem se tratava, o viajante olhou para aquela cena e imaginou o óbvio.
— Era um espadachim, meu filho, percebe-se pela espada em seu colo – começou o viajante, analisando o fio da lâmina. – Deve ter sido um dos mais corajosos e implacáveis espadachins de todo o reino. Com esse tamanho e com essa espada afiada, deve ter salvado vilas e donzelas, enfrentados leões e dragões, lutado pelo rei e morrido após vários anos de batalhas heroicas. Deve ter aproveitado cada segundo de sua empolgante vida de guerreiro.
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