O Espaço Entre Nós

4 Afogando em desespero


—É um parque arqueológico e só podemos entrar onde queremos se estiver fechado. Só tem dois guardas então vai ser fácil. ­– Ele apontou para o muro. – Vamos pular o portão do estacionamento que é mais fácil e não vão estar lá.

Eu não esperava invadir algo.

Demos mais uma pequena caminhada até o maldito portão de uns 3 metros de altura. Subi naquilo que balançava dificultando tudo como se eu já não estivesse com dificuldade. E pular do outro lado fez a sola dos meus pés arderem como o inferno. Já as meninas pularam como se fizessem aquilo o tempo todo, fazendo com que eu me sentisse um lixo.

—Vou ver se tem alguém por perto. – Disse o Levi enquanto nos escondíamos num carro ali.

—Vocês fazem muito isso? – Perguntei. – Invadir os lugares.

—Nem sempre. – Respondeu Pan sorrindo.

Esperamos ele voltar e o seguimos. Fora do estacionamento deu para ver um lugar ali perto onde ficavam os seguranças; era o único lugar com luz. Sem as lanternas, fomos como podíamos ate começar um extenso campo com algumas construções que eu não conseguia ver. Era um campo aberto e muito fácil de sermos pegos já que estávamos indo em linha reta até uma construção.

—Então, se vocês são dos 12, pelo o que eu entendi, que signo vocês são. – Eu já não aguentava aquele silêncio.

—Eu sou de peixes – Disse Ann. –, a Pan é de escorpião, o Levi de leão e a Lya de touro.

—Eu também sou de escorpião! – falei.

Ann olhou braba para Pan e a cutucou falando algo que não pude ouvir. Ela deu de ombros.

A construção era algo como uma pirâmide sem a ponta. Não conseguia ver os detalhes direito no escuro.

—Esse é o templo de Kulkulcán construído pelos Itzaés aqui no parque Chichén Itzá em XII antes de Cristo. – Explicou Lya sem ninguém perguntar. – Quatro fachadas principais, cada uma com uma escadaria central. A parte superior termina com o templo da serpente emplumada. Cada lado se alinha aos pontos cardeais com 69 metros e outra pirâmide abaixo dela com 17. Ela é toda sobre o calendário Maia e vocês iriam dormir se eu contasse. A entrada fica na escadaria norte.

Ela disse tudo isso olhando para o templo, sem pesquisar nem nada. Ok, então.

—Será que dá para subirmos logo? – Perguntei.

Subimos as escadas até a entrada. Agora além de estar com sono também estou cansado. Lya nos levou para dentro, uma pequena sala onde havia uma estátua de uma pessoa deitada com as mãos na barriga que era lisa olhando para o lado. Olhos, dentes e unhas brancos. Era uma pessoa do meu tamanho, só que gorda. E velha.

—Esta é a sala das oferendas. – Começou Lya de novo. – E aquela estátua é bem conhecida, se chama Chaac-Mool e não se sabe o significado. A barriga é lisa como se segurasse uma bandeja de oferendas a algum deus. – Ela pegou uma bússola em sua mochila e a olhou. – Ela olha para o nordeste. E ali – apontou para trás do Chaac-Mool onde havia outra sala – é a câmara dos sacrifícios.

Andamos até a outra sala onde havia uma estatua de felino, feia igual à outra. Algo parecido com o que uma criança faria com massa de modelar de você pedisse um felino. Ele era completamente quadrado a não ser pela cabeça. Em cima dele estava um disco velho – tudo ali era velho. Com olhos e dentes brancos como o Chaac-Mool, totó vermelho, mas bem gasto e cheio de manchas verdes onde em algumas estavam o que eu acho serem esmeraldas, mas varias faltavam. Embora fosse bem mal feito e feio que o Chaac-Mool, parecia mais importante.

—O jaguar era usado como um tipo de mesa onde queimava copal. –Disse Lya. – E também olha para nordeste.

—Então já temos uma coincidência. – Falou Levi.

Mais além na sala do jaguar havia duas fileiras de ossos (que pareciam humanos) paralelos á parede do fundo.

—Procuramos uma pirâmide. – Ann que estava muito calada se pronunciou. – Então como vamos chegar a que fica embaixo de nos? Sinto que é por aqui mesmo.

—Devemos achar a tal pedra, certo? – perguntei.

—Não é obvio? – Levi me encarou.

—Lya se você sabe tanto sobre tudo, porque não pegamos a pedra logo?

Dê-me um desconto, eu falo merda quando estou um caco.

—Kaya, a pedra tem uma energia além da nossa compreensão. – Respondeu. – Não pode ser fácil achá-la, para que somente os que precisem realmente a achem.

Será que eu entendi direito? Vai ser difícil pra porra achar a pedra!

—Sabem, eu já li muitos livros de aventura, talvez eu seja útil. – Admiti. –Já que temos duas estátuas usadas para oferendas, não é isso que devemos fazer?

Pan fez cara de espantada e disse:

—Até que você não é tão burro!

—Se for o caso, temos dois lugares. O Chaac-Mool fica na sala das oferendas, mas é o jaguar que é usado para queimar copal.

Eles ficaram ali discutindo enquanto eu tentava pensar em alguma coisa para ajudar. Bom, ninguém tinha copal, seja o que for. Se os dois tinham formas para colocar algo em cima, talvez devêssemos usar os dois. Mas o que colocar em neles?

—O que é copal? – Perguntei interrompendo eles.

—Um tipo de incenso, que até atraia mosquitos. Usado em cerimônias. – Disse Lya.

Será que usar outra coisa no lugar funciona do mesmo jeito?

—Será que funciona só queimar algo? Copal parecia o que?

—Uma pedra ou joia. ­– Respondeu Lya, a enciclopédia.

Fui ate o jaguar e arranquei duas pedras dele quando me virei todos me olhavam espantados.

—Sei que posso ser preso, mas o futuro não depende disso?

Coloquei uma pedra no Chaac-Mool.

—Alguém tem uma folha de papel?

Ann me entregou uma folha de um bloco que tirou de sua mochila e eu enrolei a pedra na folha. Se a pedra não fosse queimar magicamente, a folha ia pelo menos. Fiz o mesmo com o jaguar. Peguei dois isqueiros com eles e entreguei um ao Levi.

—Vamos queimar ao mesmo tempo, ok? – Tive essa ideia muito repentinamente, eu sei. Mas era melhor do que esperar a pedra até ela aparecer.

Levi foi para a outra estátua e no três colocamos fogo no papel. Fiquei ali observando o papel queimar e depois de uns 10 segundos eu comecei a me sentir o cara mais burro do mundo. Até Ann gritar. Quando eu olhei para onde ela estava, havia apenas um buraco no chão. O buraco ficava na direção que as estatuas olhavam e o papel com as esmeraldas havia sumido.

—Você está bem? – Pan gritou para o buraco.

—Estou. – sua voz ecoou. – Mas não enxergo nada.

Levi ajudou Lya e Pan a descerem e foi depois me deixando por ultimo. Pulei dentro do buraco preparado para cair, mas escorreguei por um longo escorregador quadrado de muitos séculos de idade cheirando a coisa velha, muito velha, que eu quase não conseguia respirar. O ar devia estar parado a só Deus sabe quanto tempo. De repente cai no escuro por alguns segundos até bater o joelho e depois a cabeça em algo duro e começar a rolar pelo que parecia uma escada.

Estava me recuperando no chão quando enxerguei a lanterna dos outros. Ao colocar a mão na cabeça pude sentir que estava molhado onde eu bati. Ah, mas que merda.

—Olha, achei um espelho. – Disse Pan. Ninguém percebeu a queda que levei.

Ouvi um barulho de metal velho contra metal velho – algo que ninguém mexeu por muito tempo. A Pan estava mexendo em um espelho oval e todo deteriorado até que uma luz seguiu em linha reta até outro espelho, e outro... Até que um quadrado de luz fechou a sala.

Olhei e volta. Era uma sala perfeitamente quadrada, mas imensa. Com uma pirâmide bem no centro. Lá em cima da pirâmide havia alguma coisa que eu não enxergava. Fora isso a sala estava vazia. O ar ali também não circulava, estava pesado e quente, me obrigando a respirar irregularmente. Um barulho fino me incomodava ali, como um computador ligado.

—O que sabe sobre isso Lya? – Perguntou Ann.

—Kulkulcán, Quetzalcoátl, Gucumatz e Coo Dzavui é, tecnicamente, a mesma entidade que os Maias adoravam. Era visto como serpente emplumada. Sei sobre solstício, equinócio, dimensões, acústica, simbolismo, calendário...

—Fala sobre a acústica. – Pedi.

—Se uma pessoa bater palmas na escadaria nordeste da pirâmide o som faz um eco distorcido, criando um som parecido com que o pássaro Quetzal faz.

—Quetzal, o deus que eles adoravam? – Perguntou Pan.

—Não. Quetzal é um pássaro, o deus é Quetzacoátl. Que pensando agora... – Ela olhou a sua volta. – tem muita semelhança com o pássaro mesmo!

Pan com uma bússola, que pelo visto só eu não tinha, foi para um dos lados da pirâmide e bateu palmas. O som fez eco e os últimos ecos da batida foram se transformando em um tipo de assovio, como o vento em uma garrada. Algo acima da pirâmide se mexeu.

Um pássaro acordava espreguiçando-se abrindo suas asas com penas dum vermelho quase marrom, estufando seu peito de um vermelho sangue. Sua calda quase atravessava a sala ate a parede; o dorso e a cabeça verde em um moicano. Lindo a não ser por ele ter o tamanho de uma águia americana e só o bico deveria ser do tamanho da minha mão.

Olhou para nós e piou.

—Ele parece com fome. – falei sem tirar os olhos dele.

—Que tal dar algo para ele comer? – alguém idiota disse isso.

—Ele parece querer comer a gente, não outra coisa! – eu ainda olhava para ele.

—O que eles comiam Lya?­ – Ouvi Ann perguntar.

—Olha isso eu não sei, mas sei que o deus... bom, usavam cacau nos rituais.

—Olha só que sorte! – Disse um Levi desesperado tirando um bombom de dentro da mochila.

Ele subiu as escadas de vagar, mas dava para ver o quão apavorado ele estava, era até engraçado. O pássaro o encarou de um jeito muito sinistro. Lá em cima parecia ser um ninho e Levi lentamente esticou seu braço oferecendo o bombom já sem papel. Juro que vi Levi tremer quando o pássaro pegou o bombom. Ele se enfiou no ninho e depois voltou correndo com uma cara muito satisfeita.

—Olhem. – Disse.

Na sua mão estava uma pedra, um rubi, do tamanho de uma laranja! Aquilo era lindo demais e brilhava mesmo na sala mal iluminada.

Senti meus pés gelados e molhados, quando olhei para baixo percebi que havia água no chão. E não tinha nenhum lugar de onde a água poderia estar saindo. Como se não bastasse o chão começou a tremer um pouco.

—Já pegamos a pedra. – Falei. – Porque não acabou ainda?

—Eu não sei. – Falaram todos juntos.

—A entrada na verdade é pelo chão mesmo. – Disse Lya. Agora ela avisa?

Começamos a procurar a maldita “entrada” por toda a gigantesca sala. Eu tateava a parede a procura de qualquer brecha, mas não havia nenhuma e a porra da água subia rápido.

—Tem corrente! – Disse Ann apontando para a água que já estava nas minhas coxas. A água rodeava a pirâmide e parecia estar ganhando força. – O que a gente faz? Podemos esperar a água subir até o teto por onde entramos? – Ela gritava porque a correnteza fazia muito barulho.

Ouvi um grito e vi Pan começar a rodear junto com a água. Ela estava desesperada e não conseguia ficar na superfície. Pulei na água para pegá-la, mas foi burrice visto que a água corria tão forte que eu nem consegui me aproximar dela. A correnteza ficou mais forte e eu já não conseguia nadar, eu estava afundando.

Ouvi outro grito quando algo me puxou para dentro d’água e eu estava em um túnel. No susto eu não peguei ar e já estava me afogando. Ali não havia superfície nem pirâmide. Vi os outros afundando e tentando tirar suas mochilas que os levavam para o fundo. Comecei a olhar para todos os lados quando minha garganta ardia cada vez mais e meus pulmões pediam ar. Pan me puxou pelo braço e apontou para o que deveria ser o teto do túnel. Havia uma bolha de ar ali. Beijei o teto super feliz por isso.

Levi apontou para uma direção do túnel e fez sinal para irmos em frente. Segui nadando rápido pelo túnel que ficava cada vez maior e agora já não era mais reto, mas com pedras. O que era bom já que haviam muitas bolhas de oxigênio nos espaços entre as pedras. E eu cansei. Me segurei nas pedras do teto e fui me empurrando para a frente como os outros buscando bolhas e a saída. Mesmo com as bolhas a quantidade de oxigênio ali era tão pouca que não satisfazia minha vontade de respirar. Eu sugava o ar, segurava o máximo que conseguia e soltava. Todos os outros estavam na mesma situação. Arrastávamo-nos lentamente no teto. O túnel havia virado uma caverna e eu nem procurava mais uma saída, só as bolhas.

Senti algo passar pela minha perna. Olhei para os lados a tempo de ver uma cobra enorme indo na direção dos outros. Ela apenas se esgueirava. Pan deu um grito silencioso quando a viu soltando todo o seu ar. Meu Deus. Suguei o máximo de ar que pude do meio das pedras e agarrei uma Pan que se debatia como louca. Meu Deus. Eu tinha que nadar mais. Meus músculos ardiam e queimavam como o inferno e Pan não ajudava nem um pouco em total pânico ficando sem ar. Eu nadei o máximo que pude em direção à luz tentando salvar Pan. Meu Deus. A garota parou de se debater o que me deixou em pânico. Estava começando a fazer minha oração quando também fiquei sem ar. A garganta ardia, tudo ardia e doía, e eu mal enxergava luz, quando minimamente percebi que a luz branca no final foi começando a ficar azul e verde. Pensei estar delirando e prestes a desmaiar quando o túnel acabou. Usei o resto de minhas forças para nadar até a maravilhosa luz da superfície. Puxando Pan pelo braço nadei até a borda de cimento e a empurrei para cima.

Escutei os outros emergindo atrás de mim quando me aproximei da Pan. Meu nariz e garganta ardiam como loucos com o ar puro e eu estava zonzo demais. Inclinei-me sobre ela para fazer respiração boca-a-boca quando fui empurrado. Cai ao lado dela e Levi que estava horrorizado começou o procedimento. Fiquei parado no chão olhando tentando acalmar meu corpo.

Ele empurrava o ar nela, e fazia massagem cardíaca. Todos estávamos molhados, mas para o meu azar Pan estava de camisa branca que agora estava transparente e colada em seu corpo. Logo ela acordou tossindo água e arfando, seu peito subindo e descendo...

Tentei me concentrar em que porra de lugar estávamos. Aquilo era um tipo de gruta, perfeitamente redonda. O chão de cimento continuava e haviam escadas que levavam ao topo. O lugar era lindo, a água cristalina. Mas nada se comparava a visão que eu tinha da Pan, que agora em pé, eu podia ver seu sutiã preto.

—Isso aqui é o Cenote Sagrado. – Disse Lya. – Aqui perto tem a rua que leva ao nosso hotel.

Depois de tudo aquilo ainda tivemos que nos embrenharmos na vegetação até a estrada. Ficamos cheios de folhas e galhos grudados nas nossas roupas molhadas. Como se não bastasse, nenhum maldito carro passava naquela estrada. Erámos cinco pessoas molhadas e sujas andando á beira da estrada.

Eu queria morrer quando chegamos ao hotel. Eu estava exausto ao limite física e mentalmente. Quase dormi no box do banheiro quando tomei banho. Sai e me joguei na cama. Ah a cama! Ela parecia a melhor coisa do mundo.

Alguém bateu na porta. Sussurrei um entra morrendo de ódio.

Todos os quatro alienígenas entraram no meu quarto.

—Você esta bem? – Perguntou Ann quando levantei.

—Dor de cabeça. – Resmunguei. – Já disse que odeio vocês?

Ela me fez sentar na cama para olhar minha cabeça e tive que mostrar onde bati. Ela apenas limpou o local.

—Eu vou comprar nossas passagens e se eu conseguir amanhã mesmo vamos para lá. – Disse Lya mexendo em um tablet sentada na cama.

—Para lá onde? – Ela está louca?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.