O Escorpião Escarlate
3 Sequestro no ponto de ônibus
Notas iniciais
Angustia
Essa era a única palavra que descrevia com precisão cirúrgica devastadora a emoção predominante que me manteve desperto durante toda noite. A ansiedade me corroía como uma doença degenerativa em estado avançado, bloqueando eficazmente toda e qualquer lógica de minha sempre imperturbável racionalidade.
Lembranças constantes do ocorrido naquela esquina fétida do dia anterior reverbava perturbadoramente em minha cabeça, como erva daninha. Desagradável e inevitável, uma praga difícil de se livrar.
A verdade declarada era que ainda me encontrava entorpecido pelo choque de ter sido quase estuprado por um loiro sádico de olhos azuis demoníacos. Essa sem dúvida alguma havia sido a pior situação que tive o desprazer de vivenciar. E como se não bastasse, ainda tinha o fato de que havia deixado para trás minha pasta com os trabalhos concluídos no dia anterior, junto com minha identidade.
E esse incontestável fato fora a principal causa da minha insônia. Afinal e se aquele homem tivesse achado a pasta? Será que ele viria atrás de mim em busca de retaliação? A julgar pela fúria psicopata que ardia em seus olhos por ter conseguido escapar de sua ineficaz tentativa de estupro, eu seria espancado até entrar em coma. Tudo bem, estou sendo otimista. Eu seria morto mesmo.
Aquele parecia o esteriótipo de cara prepotente que não perdoava o que considerasse uma afronta ao seu ego. E claro, não ajudava o fato de ter esmagado sua virilha em um chute de alta potência. Definitivamente não gostaria de ter a má sorte de esbarrar com aquele lunático novamente, e acabar virando uma pasta de neutróns derretido pelas mãos daquele sujeito, não mesmo.
A parte racional de minha massa cefálica que ainda não havia fugido de para — quedas pela janela dos fundos, dizia em alto e bom som que eu estava agindo como uma garotinha virgem assustada, frente ao seu suposto violador. E bem, que eu era virgem eu já sabia, agora, garotinha assustada era realmente novidade pra mim.
Além do mais, a real probabilidade daquele homem ter realmente achado minha pasta naquele beco imundo, e sem iluminação pública, eram de baixa estimativa. E mesmo que ele tenha encontrado a pasta com meus dados pessoais e a localização de onde fazia faculdade, não significava de forma alguma, que ele perderia seu precioso tempo vindo atrás de um doncel pobre e insignificante, que não tinha nem mesmo onda cair morto. Só porque o frustrei sexualmente, e lhe dei um pequeno e imperceptível chute no saco, não é mesmo?
Sim! Com certeza ele tinha coisas mais importantes pra fazer. Tais como; agarrar donceis sorrateiramente em vielas escuras, ou planejar de forma eficiente e o mais dolorosamente possível o próximo homicídio, que eu evidentemente esperava não ser o meu.
Saí dos meus devaneios ao reconhecer a voz de Shion dando por encerrada a sua aula. Era a primeira vez em dois anos de faculdade que não saberia responder o que fora dito em sala de aula, caso me perguntassem. Já que minha cabeça teimava insistentemente a cada segundo em repassar vezes seguida os últimos e surreais acontecimentos, como visgo pegajoso e de raízes traiçoeiras.
Levantei de minha habitual carteira, guardando meus objetos e carregando alguns livros que havia pego com Marin na biblioteca mais cedo, como tinha perdido meus trabalhos que se encontravam dentro daquela pasta, não me restava outra opção além de refazer tudo novamente.
Caminhei em passos lentos até a mesa de Shion, que se ocupava em guardar alguns papeis em sua bolsa.
_ Camus, que bom que você está volta. Soube por Afrodite o que houve. Lamento por sua perda._ disse serenamente e cheio de pesar ao me aproximar.
Senti como se garras afiadas me rasgasse em inúmeros pedaços. A morte do meu pai ainda era muito recente, e essa era uma ferida que me esmagava dolorosamente a cada instante que essa inegável verdade era jogada sobre minha cara. Como agora, na forma de um simples pesar.
_ Obrigado._ Respondi mecanicamente, ocultando minha dor sobre uma fachada fria.
_ Você esta indo para o trabalho? Caso queira posso te levar até a livraria, já que também estou indo pra lá me encontrar com Dohko._ Dohko era o proprietário da loja de livros onde trabalhava no período da tarde. Além de ser meu empregador, ele também havia sido um velho amigo de Dégel. Talvez tenha sido por isso que ele tenha me oferecido a vaga de trabalho em sua loja. Afinal quem mais empregaria uma anomalia genética visto como escória vulgar de uma sociedade tradicionalista e preconceituosa?
Evidente até para pessoas de raciocínio lento, que a resposta para essa pergunta é: ninguém .
Shion e Dohko eram muito próximos , segundo sabia eles se conheciam desde os tempos da faculdade e mantinham uma arraigada amizade que permaneceu inalterada através dos anos. Era comum vê-los sempre juntos, compartilhando de uma intimidade que eu desconfiava ir muito além dos campos de uma simples amizade. Não que eu ficasse os observando, não mesmo, devo acrescentar.
Mas é importante ressaltar que a maneira ambingua com que eles se falavam e os olhares cumplices que ambos trocavam, deixava pouca margem de erro para se tirar uma conclusão precipitada sobre aqueles dois. Isso sem contar nos toques desnecessário que já havia flagrado entre eles, e as frases dúbias de conotação suspeita que ambos diziam com certa frequência. E não mencionando propositalmente o quanto Shion ficou com o rosto em chamas vivas, no dia que Dohko entrou sem camisa pela porta dos fundos da loja, exibindo uma impressionante tatuagem de um tigre selvagem sobre suas costas nua.
Se isso me incomodava? Oras! É claro que não. O fato de eu ser uma criatura sem vida pessoal e assexuado, não queria dizer que os outros também o fosse. E de qualquer forma isso não era um problema de minha autoria. Se eles se gostavam realmente, deveriam mais é se assumirem de uma vez, e pararem com a atuação mal feita e despropositada frente ao público.
Eu tinha uma teoria que explicava racionalmente o comportamento contido de ambos sempre que se encontravam em público. Provavelmente Shion não queria se expor, uma vez que ele era um respeitável professor graduado em história contemporânea em uma das mais aclamadas faculdades do país. Colocando logicamente a idoneidade de sua carreira profissional acima das expectativas de sua vida pessoal e intima.
_ Sim, eu realmente estou indo para a loja. Aceitarei sua oferta se não for incomodo. _ Disse com polidez.
_ Não é incomodo algum Camus, já que eu também estou indo para lá. _ Respondeu num tom gentil.
O percurso de carro que corresponde a cerca de 7km/h da faculdade até a livraria, transcorreu de forma amena e com diálogos de cunho neutro, focado basicamente sobre assuntos monótonos de pedagogia na atualidade. E eu teria apreciado se essa enfadonha conversa tivesse prosseguido. Mas aparentemente Shion não pensava assim.
_ Camus notei que você parecia ausente durante a aula, um comportamento atípico de seu feitio. Alguma coisa lhe incomoda?_ Questionou de maneira cautelosa após um breve instante de silêncio.
Me remexi desconfortável no assento, não sabendo ao certo o que deveria responder. Afinal não havia nenhuma chance de contar a verdade. Não que eu não confiasse em Shion, de forma alguma. Porém ainda não me sentia preparado para compartilhar o ocorrido da noite passada, não hoje, não agora. Desconfiava seriamente que nunca seria capaz de confessar a ninguém o que tinha acontecido, nem mesmo eu ainda tinha digerido aquele quase estupro. Como que poderia virar para Shion e falar: “desculpe pela minha alienação durante a aula. Mas sabe como é, estava ocupado demais pensando em um tarado loiro ninfomaníaco , aparentemente apreciador de sadomasoquismo, que só para constar tentou praticar sexo não consensual comigo ontem a noite, em um beco escuro da zona sul. E agora estava apavorado que ele tenha achado minha pasta com meus dados pessoais e resolva vir atrás de mim pra se vingar por eu ter chutado seu pênis. Que minha nossa! A julgar pelo volume da calça era enorme.” É, realmente não tinha como eu dizer isso.
_ Está tudo bem Shion, apenas não tive uma noite de sono satisfatório. De qualquer forma isso não voltará acontecer._ Bem, pelo menos era um pequeno fragmento da verdade, uma vez que realmente não havia dormido. Isso não me rotulava como mentiroso, apenas como omisso.
_ Se você diz... _ Disse numa expressão que deixava claro que ele não havia se convencido da autenticidade das minhas palavras. Mas ele não insistiu novamente no assunto, o que me fez soltar um discreto suspiro de alívio. Consideração que o Dite não teria me dispensado, tenho certeza.
A loja se encontrava movimentada quando chegamos. Dohko atendia alguns clientes que aparentemente se mostravam impacientes pela lentidão do atendimento. Estava óbvio que a demanda era grande para apenas um atendente. E pele expressão rígida de Dohko ele também havia percebido este fato.
Me apressei até ele pra agilizar o andamento daquele pequeno amontoado de consumidores barulhentos e agitados. Segurei a vontade de rir quando Dohko me olhou como se eu fosse um herói de guerra que veio para salva-lo da artilharia pesada.
_ Camus ! graças aos deuses que você chegou. Eu já estava prestes a ter um colapso nervoso nessa loucura que a loja está hoje. Acho que terei de contratar mais alguém para ajudar no bom funcionamento da loja._ Disse numa evidente expressão de alívio.
_ Tudo bem Dohko, eu assumo agora._ Afinal o horário do meu expediente já havia começado mesmo. De qualquer forma seria um excelente e eficaz método de distração para minha mente perturbada.
Em todo caso Dohko permaneceu na loja até que o movimento dissipasse. E depois subiu pra sua casa , que se eu não o disse ainda, ficava no andar de cima da livraria. Evidentemente acompanhado por Shion.
Passei toda a tarde arrumando prateleiras e tirando o pó de alguns livros velhos, mofados pelo tempo. Sabe, eu era grato ao Dohko por ter me dado esse emprego, era daquela renda que recebia por meu trabalho que conseguia me sustentar, agora que não tinha mais o meu pai. Não era muito, mas pelo menos supria as necessidades mais básicas. E eu realmente me considerava uma pessoa de sorte por não ter de pagar aluguel, do contrario o meu repouso seria embaixo de algum viaduto nas esquinas de Tokio.
Fechei a loja no horário de costume, trancando a porta da frente com cadeado e travas eletrônicas , eu realmente adorava tecnologia. Como Dohko e Shion não haviam decido ainda , optei por sair sem me despedir. Não queria incomoda-los com minha presença ou acabar sendo inconveniente.
Senti o vento frio acariciar meu rosto e algumas mechas do meu cabelos escaparem de meu habitual rabo de cavalo, enquanto caminhava calmamente pela avenida principal do centro da cidade, em direção ao ponto de ônibus que se localizava pouco acima de um dos semáforos.
Aquela era uma agradável fim de tarde. As ruas estavam calmas e alguns comerciantes fechavam despreocupadamente as portas de seus estabelecimentos, dando por encerrado mais um dia de labuta diária. O transito fluía em sintonia harmônica com a cálida leveza de um novo crepúsculo, que surgia gradativamente sobre o céu alaranjado pelos últimos raios de sol. Era exatamente o tipo de ambiente que apreciava; calmo e pacífico.
Não havia mais ninguém no ponto de ônibus além de mim. O que era bom, assim podia aproveitar o silêncio, que acredite, é uma raridade numa metrópole tão agitada e de acelerado desenvolvimento econômico como o Japão. Sentei no banco de metal com minha bolsa preta lateral, que usava para guardar os materiais que utilizava na faculdade, e os livros que tinha pego na biblioteca de manhã. O resultado é que aquela bolsa deveria estar pesando uns 8kl, e minha coluna vertebral começava a protestar com esse considerável acréscimo de peso.
Tive a atenção desviada pra rua principal quando um imponente aston martin preto surgiu do túnel Seikan em baixa velocidade. E bom, não é todo dia que você via um carro desse calibre desfilando por aí, mesmo numa cidade de egos como aquela.
O carro desacelerou e cortou a faixa horizontal do outro lado da pista, me surpreendendo ao ser estacionado em uma pequena rampa próximo de onde me encontrava. A porta do motorista foi aberta, e de lá surgiu um homem alto de pele morena acetinada com músculos visiveis, que se mostravam definidos e rígidos embaixo de sua camisa verde água. O rosto era o que se destacava por possuir olhos escuros nublados , num brilho sombrio que só poderia se descrito como insano. As sobrancelhas eram grossas e bem desenhadas, o que só atenuava a crueldade expressa em sua face. O maxilar era retangular que fazia um contraste perfeito com seus lábios finos repuxados em uma linha dura de escárnio. Os cabelos erma negros e curtos com alguns fios brancos despontando pela raiz. Era o tipo de cara que você pensaria duas vezes antes de lhe dar as costas. Sem dúvidas ele assustaria até Jack, o estripador.
E era impressão minha ou ele estava vindo pra cá?
Não, não era paranoia de minha cabeça, ele realmente estava vindo nesta direção. E quem se importa? Afinal a rua é pública, e eu não tinha nada a ver com isso.
Dei de ombros e voltei a olhar cansadamente para a rua. O ônibus estava atrasado, e se tinha algo que me irritava seriamente era a falta de pontualidade. Mas não havia nada a se fazer, uma vez que já era de praxe a incompetência e o descaso dos responsáveis pelo bom funcionamento dos meios de transporte público coletivo. E era ilusão esperar melhorias numa cidade onde o capitalismo selvagem era quem ditava as regras.
Um arrepio de eriçar os pelos me percorreu de cima abaixo quando senti algo frio e duro em contato com minha nuca.
_ Mexa-se e estouro seus miolos aqui mesmo na calçada. _ Ouvi uma vos grossa dizer próximo aos meus ouvidos.
Contrariando a ordem emitida virei bruscamente a cabeça, e gelei. Na minha frente se encontrava o motorista do aston martin, apontando uma arma diretamente para o meu crânio, sustentando um sorriso sardônico que me assustou bem mais do que sua 38 direcionada para minha cabeça.
O que era aquilo?
Só havia uma resposta lógica para aquela situação; assalto.
Só não entendia porque alguém que aparentemente era dono de um carro milhonário daqueles assaltaria um sujeito como eu, que mau se mantinha com o salario ganho. A não ser que ele fosse viciado em entorpecentes e quisesse dinheiro pra consumir drogas. Afinal é cientificamente comprovado que crises de abstinência causadas por substancias nocivas afetava a capacidade cerebral de um dependente químico, tornando-os perigosos e instáveis. Talvez fosse esse o caso daquele homem.
Havia também a possibilidade dele ter roubado aquele carro de algum infeliz desavisado, e ser tão, ou mais miserável do que eu.
Qualquer que fosse o caso não alterava o fato de que no momento me encontrava paralisado, sentado em um ponto de ônibus na rua mais movimentada de Tokio, tendo uma pistola de cano maciço apontada certeiramente para minha testa.
Porque ninguém via o que estava acontecendo? E onde diabos estava a policia rodoviária e a guarda municipal quando eles poderiam enfim ter alguma utilidade?
_ Seja um bom menino e se levante. Ah! Já ia me esquecendo, se gritar lhe enfio uma azeitona no meio das fuças._ Disse oscilando entre a ameaça latente e a zombaria.
Levantei cautelosamente sem desgrudar os olhos da arma em riste. Ele se aproximou alguns passos, abaixando brevemente o revólver para logo em seguida encosta-la firmemente contra o meu abdome, numa ameaça muda.
_ Vai andando ragazzo, não tenho a noite toda._ Falou me arrastando impacientemente pelo braço em direção ao seu carro, enquanto sua outra mão pressionava a pele de minha cintura com o metal frio da arma.
A única coisa que se passava pela minha cabeça, é que se ele me puxava para o carro significava que aquilo era algo muito pior que um mero assalto de beira de estrada. Podendo ser um sequestro, ou que deus me ajude, ser um assassino serial killer . Engoli em seco ao me dar conta que há julgar pela cara psicopata daquele homem, a última hipótese era a mais provável.
Eu não conseguia acreditar na minha sorte, ou melhor, na ausência dela. Ser encurralado e quase estuprado por um lunático em uma esquina escura na noite anterior, e agora, em menos de 24horas após a aquela quase desgraça, ser ameaçado por um homem que parecia a morte em pessoa.
Paramos frente ao carro e tive meu braço solto por sua mão, para logo em seguida ele abrir a porta de trás e me empurrar com força suficiente pra cair de cara no banco traseiro do aston martin. Ouvi o barulho da trava ser acionado, impossibilitando qualquer tentativa de fuga.
Ergui os olhos pensando ferrenhamente em uma forma de reverter aquela situação caótica na qual me encontrava. Porém meu coração falhou uma batida e o sangue congelou abaixo de zero, quando meus olhos pousaram sobre a figura que se encontrava sentado bem ao meu lado, me analisando com as sobrancelhas arqueadas e um sorriso cínico.
Puta merda! Era o loiro tarado que havia me atacado na noite de ontem.
_ Sabe Milo, eu preciso reconhecer que você teve bom gosto._ Ouvi a voz grossa do cara que tinha me sequestrado com uma pistola, me olhando de forma avaliativa pelo espelho retrovisor, enquanto dirigia pra algum lugar desconhecido, que naquele momento julguei ser a minha cova.
_ Eu não como porcaria carcâmano ._ retrucou olhando maliciosamente para o meu corpo e lambendo os lábios obscenamente.
Empalideci ao compreender que não seria apenas morto e enterrado em uma vala funda. Seria estuprado antes. Era evidente que ele iria querer consumar o ato fracassado de ontem, e de quebra ainda se vingar pelo chute ganho entre as pernas no processo.
_ Hahahaha... você é um filho da puta Milo._ Devolveu o outro gargalhando insanamente.
Porque isso estava acontecendo comigo? Toda minha vida sempre foi metódica e previsível. E agora parecia uma roleta russa desgovernada, que mais nada ou ninguém poderia deter. Simplesmente pelo fato de ter estado na hora errada, e num lugar mais errado ainda, que me levou a cruzar o caminho com aquele homem perigoso em uma rua qualquer. Então era assim que eu terminaria no final das contas? Morto, estuprado e espancado por um homem cruel que nem mesmo conhecia?
Sim! Este com certeza era o fim da linha para mim. E não via como poderia ser diferente, já que essa é uma escolha que não mais me pertencia.
_ Você parece preocupado ruivo... ou devo dizer Camus?_ Disse com a voz aveludada carregada de pesar, que contradizia com o sorriso venenoso contorcido em seus lábios perfeitos.
Só agora havia notado que a pasta que tinha perdido se encontrava em posse de suas mãos. Então ele a encontrou mesmo, confirmando assim os receios que me assombraram durante todo o dia, e a teoria de que aquele loiro é um ser vingativo, e desprovido de quaisquer escrúpulo de moralidade.
_ Preocupado? Creio que seja impressão sua. Por acaso eu tenho motivos justificáveis para temer algo? _ Segundo a Discovery Channel, demonstrar medo na selva era ser presa fácil dos predadores. Era a primeira vez que apreciava o fato de ser “ Camus glacial”, segundo as palavras do Dite, pois podia contar com o fato de que a expressão do meu rosto permanecia inalterado, em contradição com o terror que internamente me consumia como um câncer maligno em estado terminal.
Ele se aproximou perigosamente com um brilho de deboche, recuei instintivamente contra a porta do carro. Senti seu hálito quente roçando meu ouvido num sussurro que acelerou vertiginosamente o ritmo cardíaco dos meus batimentos, num frenesi alucinado.
_ Deveria ruivo... já que vou foder a sua bunda com o meu pau até estar completamente satisfeito. Logo você vai saber o que o que é ter um homem de verdade entre suas pernas._ Disse categórico com as pupilas dilatadas e em chamas, passando uma das mãos despudoradamente sobre minhas coxas.
Por Napoleão Bonaparte nas margens do rio Sena! Agora era oficial: estou completamente ferrado! E não. Não era uma metáfora. Era no sentido literal do termo.
Sabe, eu realmente estava esperando uma resposta daquelas. Mas ter o seu maior temor dito em alto e bom som, e em imagem 3D confirmado num murmúrio pegajoso repleto de luxuria o que ele pretendia fazer, fez meu sangue petrificar nas veias e meu estômago se revirar em náusea.
Que espécie de louco prepotente era aquele stalke psicopata? Ou será que eu é que era um maldito imã para acontecimentos trágicos? É, só podia ser isso mesmo.
_ Milo você é um maldito cachorro no cio. Tente manter o seu pau dentro das calças e não trepar no banco de trás do carro, a não ser que queira dividir o lanchinho comigo._ Falou o motorista que observava a mim e ao tal do Milo através do retrovisor com um sorriso sacana em seu rosto maníaco.
Fique rígido na mesma hora assustado com a possibilidade de sofrer um abuso coletivo. Definitivamente era algo que não gostaria de vivenciar.
_ Cale-se italiano de merda, se não quiser virar um eunuco imprestável. Sabe muito bem que não divido meus brinquedinhos até quebra-los, ou me enjoar deles._ Disse com as incríveis safiras cintilando em evidente irritação, e num tom de voz dominante que não admitia ser contestado.
Aparentemente a ameaça de Milo foi suficiente para silenciar aquele individuo macabro, não antes dele lançar um olhar zombeteiro para o seu “amigo”.
Soltei a respiração que nem havia percebido tê-la prendido, enquanto um arrepio de puro medo atravessava a minha espinha dorsal quando o significado de suas palavras perfuraram com a eficiência de um disparo letal o meu raciocínio, até então anestesiado pelo choque.
Ele se afastou consideravelmente de meu espaço pessoal, retirando a mão que ainda se encontrava repousada em minha perna, lançando um olhar cheio de malicia que não prometia nada de bom. Engoli uma grande quantidade de saliva a seco e desviei o rosto para a janela, fugindo como um rato covarde de seus olhos sagazes. Me questionei mentalmente do porque de coisas ruins sempre me perseguirem. Seria a sina de todos os donceis como eu? Tratados como putos de esquina por machistas convictos de sua sexualidade?
Através do vidro era possível ver a escuridão que engolia como um buraco negro no espaço os últimos vestígios do crepúsculo, que se esvaia naquela atípica noite de outono.
Entramos em uma rua afastada em algum lugar da zona leste da cidade. Embora não soubesse exatamente a localização , já que nunca havia atrevido a me aventurar por aquele lado especifico de Tokio, conhecido por ser território do maior clã da yakuza do país, com varias ramificações espalhadas hierarquicamente, não só pele Japão, mas em todos os sete continentes do globo terrestre.
O carro parou frente a um imponente portão metálico de mecanismo eletrônico, antes do mesmo ser aberto e adentrarmos a maior mansão colonial que meus olhos já viram até então.
O carro deslizou em baixa velocidade pelo extenso jardim que ocupava toda a área frontal daquela imensa propriedade de proporções absurdas. Mas o que chamou minha atenção foi a quantidade de homens que protegia aquele local, portando armas como; rifles, escopetas, fuzis e outros tipos de armamentos que não devia ter nem no pentágono, ou nas forças revolucionarias da Colômbia. Pareciam cães adestrados em cumprimento de seu dever, aguardando em vigilância a ordem de fuzilamento de seu senhor.
Meu deus! Que inferno de lugar sinistro era aquele? Parecia um covil da máfia. Eu não queria nem pensar nesta possibilidade, que pra minha agonia era muito provável.
Paramos frente a porta principal da mansão e o motorista psicótico desceu indo em direção a um dos vigias armados próximo de um chafariz em estilo barroco no lado esquerdo do gramado.
Ouvi o barulho da porta sendo destrancado e o tal do Milo saltar do veiculo com a agilidade de um felino selvagem. Permaneci no mesmo lugar, com o coração quase rasgando minhas costelas ao meio.
_ Desça._ Ouvi a ordem imperiosa do loiro do lado de fora.
Me encolhi de medo contra o banco, ciente de minha vulnerabilidade. Desejei ardentemente que aquilo fosse só um pesadelo de duração excessivamente longa, que se desmancharia em cinzas tão logo despertasse. Mas eu sabia que aquilo era tão real quanto o oxigênio em meus pulmões, e cada célula molecular existente em meu corpo.
_ Se eu tiver que me fazer repetir novamente, posso garantir que não irá gostar dos meus métodos de persuasão. _ Disse com a voz macia como seda, que me apavorou bem mais do que se tivesse me ameaçado de homicídio por esquartejamento.
Como não queria esperar para descobrir quais eram seus métodos de persuasão, destranquei a porta do passageiro e sai do carro numa postura rígida e defensiva.
Minha respiração acelerou em descompasso quando ele avançou alguns passos até mim de forma calculada. Ocultei com sucesso um gemido de dor no instante que o loiro sádico agarrou brutalmente meu braço, arrastando-me mansão a dentro.
O lado de dentro era infinitamente maior do que se podia imaginar. As paredes eram de uma coloração branco marfim em contraste com o piso escuro do chão. O design dos moveis eram modernos em estilo clássico, em cores pasteis e vermelho sangue. Havia quadros e outras obras de artistas renomados como; Leonardo da Vinci, Renoir, Picasso dentre outros de valor histórico e monetário incalculável.
Fui puxado sem um pingo de delicadeza pelo Milo escada acima, passei por um corredor acoplado em uma grande sala retangular de tetos de vidro, que refletia meu rosto anormalmente pálido, numa imagem distorcida de puro desespero.
Ele me empurrou pra dentro de um dos incontáveis quartos daquela mansão, fechando a porta ao adentrarmos aquele cômodo espaçoso. Senti meu corpo se chocar bruscamente contra a parede, me atordoando, confundindo meus sentidos.
_ Você achou que poderia realmente escapar de mim ruivo?_ Perguntou retoricamente, torcendo com uma das mãos meu cabelo em um aperto de aço, me obrigando a levantar o rosto e encara-lo nos olhos. _ Eu sempre tenho o que quero Camus, seja por bem ou por mal. E, eu quero possuir você desde ontem, quando escapou de mim naquele beco._ Acrescentou de maneira predatória, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo, quando na verdade não era.
Me obriguei a manter a face inexpressiva, não acreditando na arrogância daquele homem em agir como se as pessoas fossem marionetes vazias, que deviam se submeter as suas vontades mesquinhas e egoístas. Mas pensando bem, vindo de um provável mafioso sem escrúpulos da yakuza, fazia todo sentido.
_ Poderá escolher ruivinho _ Continuou ao perceber que nada diria, olhando detalhadamente o meu rosto com um brilho faminto nas íris azuladas, como uma serpente peçonhenta prestes a devorar sua presa. _ Pode se entregar espontaneamente ou eu o tomarei a força. A diferença será a dor. Posso ser gentil com você, caso se entregue de boa vontade, ou então o tomarei a força e sentirá muita dor, mas mesmo assim eu terei o que desejo._ Disse por fim me soltando, e eu quis ser capaz de me fundir com a parede, ou entrar em ebulição e escapar pela fresta da janela, pra um continente de distancia daquele louco egocêntrico mentalmente perturbado.
Eu deveria estar patético. Parado ali feito um idiota encostado na parede, com as pernas tremulas, e olhos vidrados em descrença pela sentença decretada e homologada por aquele filho de satã.
_ Deixarei que você pense por algumas horas. Mas não se iluda, independente de sua escolha vou arrombar o seu rabo com o meu pau antes da noite terminar, quer você queira ou não. _ Sentenciou com os olhos estreitados e com um sorriso sarcástico que me deixou estático.
Ele se virou em direção a saída, após pegar minha bolsa no qual continha meu telefone celular.
_ não tente fugir, seria perda de tempo. Você acabaria sendo pego e enrabado pelos meus homens, que estão sem ver seus parceiros tempo suficiente pra se descontrolarem e se excitarem com um doncel tão gostosinho e disponível dentro de meu território. _ Disse com um sorriso cruel brincando sadicamente em sua face perfeita, antes de se virar e sair me trancando pelo lado de fora do quarto.
Agora era oficial. Eu estava realmente fodido...
Literalmente.
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