Notas iniciais
Demorei? Bem, eu sei que sim. Mas eu tenho um motivo para isso, a vida. Meu tempo anda muito corrido, é gente, a vida de universitário não é mole não. Junte isso com o estágio e o trabalho e sobra menos tempo ainda para escrever, fazer o que, não tem jeito. Mas eis que como a fênix ressurjo das cinzas com mais um capítulo fresquinho. Sei que prometi que esse capítulo seria um especial do Dite, mas resolvi deixar o dele para o próximo post, então teremos mais esse capitulo de Camus antes da do peixinho. Aproveitando desde já para agradecer a Nuriko, suzyfs e ChoirMyrho pelas favoritações.

Dor, gritos e fogo...

meus olhos percorreram, não pela primeira vez, todo aquele recinto tomado pelas chamas, procurando uma brecha ou um atalho em meio as labaredas aranha céu de escapar daquele incêndio antes de ser alcançado pelo fogo. Forcei minhas pernas trêmulas a postarem-se em pé, porém, a ação enviou ondas agudas de dor insuportável ressonando por todos os ossos do meu corpo. Trinquei os dentes sentindo tamanha dor nas costas e na região lombar que julguei-me por uma fração de segundos ser incapaz de respirar, ou mesmo voltar a mexer-me novamente.

Eu não entendia como eu havia ido parar ali.

Obriguei-me a mover as pernas e os braços novamente, buscando me afastar das chamas que avançavam cada vez mais, cremando e incinerando tudo que se interpunha em seu caminho dês dos móveis ao assoalho de madeira envelhecido do chão, mas meus membros apenas rangiam em protesto e recusavam-se a se mexerem sequer um átimo. A fumaça preta carbonizada mais denso e escuro que véu de viúva empesteava proliferando-se por todo o recluso ambiente, alastrando-se numa velocidade vertiginosamente indescritível, inflamada pela brisa caudalosa que esgueirava-se pelas venezianas e por uma robusta claraboia de vidro fundida no teto por onde feixes prateados da lua cheia em seu auge infiltravam-se fosforescente por entre seus vãos.

Puxei o ar necessário para abastecer meus pulmões, sentindo naquele básico processo tão vital para a manutenção do corpo, o dióxido de carbono ser ingerido junto com o oxigênio, congestionando minhas vias respiratórias e ardendo em brasas as retinas desfocadas dos meus olhos. Senti algo quente e metálico subir em nauseante espiral pela minha traqueia quando forcei o peso do meu corpo estirado em bruço a arrastar-se sob o tampo sujo de fuligem e cinzas do assoalho apodrecido do piso em direção a uma parede bifurcada aos fundos daquele lugar, que de alguma forma lembrava-me um velho galpão abandonado e esquecido pelo tempo, ouvindo a madeira ranger ruidosa e esfacelar-se a cada perímetro vencido, surpreendendo-me ao constatar que esse algo em questão era uma quantidade considerável de sangue sendo expelido pela boca, e foi nesse momento que de alguma forma, eu soube, que eu tinha pelo menos duas costelas quebradas e que uma delas devia ter perfurado um dos meus pulmões.

Tossi e cuspi, espirrando mais sangue pela boca ressecada, sentindo o gás dióxido obstruir minha falange com o fenol tóxico emitido pela fumaça enegrecida, escaldante e espessa. Estanquei os movimentos descoordenados e desengonçados quando um som alto repercutiu propagando-se intrínseco e interminável como camadas em ecos famigeradas por pedras atiradas na calmaria plana de uma ribanceira, ou como unhas longas riscando vidro, paralisei-me, percorri os arredores com a visão periférica e pude vislumbrar o momento exato em que uma extensa viga corroída pelas chamas desprendeu-se do teto, barrando meu caminho ao despencar -se naquela direção no qual me arrastava.

Não havia mais saída. Não mais.

Porque isso estava acontecendo?

Senti meu estômago se retorcer como se tivesse uma máquina a vapor funcionando ali ao invés de um órgão digestivo, e aspirei outra grande leva de oxigênio ansiando suprir a demanda selvagem do pulmão lesado rogando pela necessidade de ar cada vez mais escasso e dificultoso naquela sombreada e fétida cortina de fumaça, contudo, o oxigênio drenado pelas minhas narinas não ultrapassavam o bloqueio viscoso e férrico que havia sido conjurado pelo meu próprio sangue, alojado em engasgue nas vias de passagem de minha própria garganta por aquele cheiro tão forte de enxofre. Minha visão turvou-se, fenecendo-se, apagando-se, e desistir, entreguei os pontos, compreendendo talvez um tanto tardiamente que não havia mais nada a ser feito, se não fossem as chamas a consumirem minha vida com seu fulgor, seria eventualmente a lesão causada num dos meus pulmões, no fim, de um jeito ou de outro, não haveria escapatórias. Meus membros não conseguiam firmar-se, de qualquer maneira, do pescoço para baixo, imóveis, sem sinais notáveis de sensibilidade, o que me fez chegar a conclusão que de alguma forma eu havia quebrado a coluna em algum ponto locomotor da minha espinha cervical.

Compreendi que seria ali que se daria o meu desfecho. Era o fim. A pá que faltava para terminar de cavar a minha rasa sepultura.

Eu estava partindo.

E esta constatação impermeável transpassando-me os umbrais da consciência feito flecha disparada por vil arqueiro na onisciência dos meus pensamentos foscos, não me trouxe como muitos poderiam erroneamente presumir, pesares, revoltas, rancores, discórdias ou culpas por ter vivido ou deixado de viver o meu tempo agora esgotado na ampola. Momentos perdidos e desfeitos no tic tac implacável do relógio incessante, como lembranças dispersas pinceladas na face fria de um papel em sépia, fenecer era a sina natural do vir do pó e retornar as cinzas, e aceitação era tudo o que eu sentia, aceitação de uma redundante realidade que não tinha mais revogues ou apelação naquela causa sendo devorada até as cinzas pelo ímpio réquiem das chamas.

Nada.

Somente a missiva certeza de que fosse como fosse, não haveria mais uma próxima vez, apenas o vazio incessante, e a certeza de que fosse como fosse seria como se eu nunca tivesse existido...

Seria o esquecimento eterno...

o nada... o nada...

Ao contrário do que muitos poderiam supor não acordei sobressaltado, arfante ou suado, como provavelmente a maioria das pessoas em meu lugar fariam, embora o enredo do sonho fosse mais que o suficiente para tal. Tivera sonhos tão parecidos em minha vida, e tão frequentes desde a morte de Dégel, que já havia ganho imunidade com algo desse nível para realmente chegar a me assustar ou impressionar-me com algo tão banal desse gênero. Era como assistir um filme de terror repetidas vezes cujo desfecho você já memorizou com detalhismos fotográficos. Na primeira, pode até dar medo, perturbá-lo, retrai-lo, na segunda, talvez ainda possa dar um repuxe frio na barriga devido às cenas que sua mente acabara de absorver novamente naquela reprise enjoativa, na terceira, já não há mais graça. Apenas remexi-me inquieto e continuei com os olhos fechados sentindo o corpo pousado em algo macio sobre minhas costas e gostosamente aquecido no qual supus ser uma manta devido a espessura aveludada.

_ Ainda é cedo. Volte a dormir.

Franzi o cenho tentando expurgar a sonolência que nublava-me os sentidos em sua letárgica calmaria. Aquela voz.... Em algum lugar, minha mente gritava para que eu despertasse. Após mais alguns segundos de lerdeza restante, meu corpo reagiu como teria, caso eu estivesse atento anteriormente. Num estalo todas as recordações do que acontecera naquela malfadada rua, o quase estupro, o assassinio daquele ser, a partida de xadrez e onde eu me me encontrava situado atualmente, invadiram sucessivas uma após a outra com a velocidade de um gatilho sendo disparado na minha consciência, até então sonâmbula, fazendo-me num rápido reflexo abrir as pálpebras cerradas e focalizar o mundo exterior, esbarrando ao efetivar tal ação com duas reluzentes esferas cobaltos observando-me impenetráveis de cima com as sobrancelhas franzidas numa única linha.

Era Milo.

Desconcertei-me, dando-me conta de que eu estava deitado sobre o divã de um largo sofá com a cabeça pousada confortavelmente em cima de suas pernas cruzadas convencionalmente. Deduzi que ele estivera até aquele momento compenetrado nas entrelinhas de um grosso maço de relatórios portfólios, ou dossiê, trazido entre os dedos de seu polegar canhoto até o nível de seus afiadíssimos olhos opalas. Tentei me remover do apoio de sua coxa sustentando todo o peso da minha cabeça assentada ali, todavia, sendo impedido em meu intento com a pressão de sua mão sólida imposta com certa força na altura do meu peito, forçando-me a continuar exatamente onde eu estava.

Encarei-o confuso, certo de que eu não conseguiria estar mais perdido assim se eu tivesse acabado de acordar em um País estrangeiro.

_ Não há precisão para se levantar. Ainda não amanheceu e pelo que pude notar você estava tendo sonhos agitados. Apenas volte a dormir. _ Disse, olhando-me avaliativamente com uma ruga preenchendo o espaço entre suas sobrancelhas absurdamente bem desenhadas por alguns segundos que me pareceram intermináveis, antes de retornar sua atenção novamente para as páginas seguras em seus dedos.

Voltar a dormir seria com toda certeza tudo o que eu não conseguiria fazer com aquela aproximação e tendo os sentidos embriagados por sua marcante fragrância de colônia cítrica e cigarro sendo tão naturalmente emanados pelos poros de sua pele bronze queimada pelo sol escaldante.

Zapeei os olhos rapidamente pelo cômodo notando que estávamos em uma sala parcialmente imersa pelo breu escuro da madrugada adiantada, iluminada apenas pelas luzes baixas de uma televisão ligada em baixo volume na instante aos fundos, rodando um filme qualquer que pelo som extravagante de tiros e cascos de cavalo, imaginei ser de faroeste. Voltei o foco da minha atenção para cima, não resistindo a curiosidade, e apertei os olhos, tentando ler sem o grau de meus óculos o que se tratava, ou se referia, as letras impressas naquele arsenal de papéis grampeadas por um único clip seguras em sua mão destra, entretanto, falhando no objetivo por não ser capaz de agrupar adequadamente as letras desfocadas para os meus olhos de maneira a dar forma aquelas palavras borradas ás minhas vistas. Conseguindo apenas com a falha tentativa ser pego no flagra pela tenacidade atenta de seus olhos sagazes. Corei, sentindo-me subitamente uma criança bisbilhoteira flagrada bem no meio de uma de suas travessuras, e virei constrangido o rosto rapidamente para a televisão como se o bang bang dos anos 80 que ali passava fosse a melhor produção cinematográfica já produzido por Hollywood desde o surgimento das primeiras telas de TV sem cor.

_ Ora, ora, que interessante, se não é um pivete mexeriqueiro que temos por aqui. _ Burlou ele, arrastando a fala jocosamente de forma engrolada, pastosa.

Como é que é? Pivete?

_ Em termos de comparação a idade eu realmente devo ser um pivete para os seus parâmetros, não é Milo? Quantos anos você tem mesmo? 95? _ Rebati, enfezado, e definitivamente ultrajado, ciente que em quesito idade Milo deveria ser de longe pelo menos uns bons nove ou dez anos mais velho do que as minhas recém completadas vinte estações, há julgar pela musculatura trabalhada e desenvolvida de sua aparência. Meu palpite inicial seria que fosse algo próximo dos trinta, embora seus olhos parecessem muito mais experientes que isso. Implacavelmente inteligentes e afiados.

Ele riu, genuinamente, um riso puro e espontâneo, desinibido de sua habitual malícia, e eu me vi enfeitiçado pelo tilintar límpido daquele som tão raro e avesso ao seu feitio sempre tão carregado, como se de repente um jato de água morna tivesse sido jogada em cima de mim. O meu coração rapidamente veio para minha boca, e eu não sabia o porque dessa reação. Talvez fosse a forma como ele olhava dentro dos meus olhos enquanto ria, e permanecia dessa maneira tanto quanto fosse necessário. Era perturbador ao ponto de de repente parecer que tinha uma colmeia de mariposas sobrevoando como se fosse em um enxame na minha barriga.

Estávamos tão perto um do outro que eu podia sentir o seu hálito quente resvalando sobre meu rosto. Eu havia chegado a um nível onde os meus olhos não conseguiam naquele momento despregar-se de suas feições ou o menor dos trejeitos que ele esboçava. A sensação de formigamento cresceu no meu corpo quando Milo ainda rindo escorregou o polegar abaixo do meu lábio inferior, estacionando sua visão na minha boca entreaberta em busca de ar. Eu vi como ele a observou, até que sua língua viajou para fora para lamber os próprios lábios, umedecendo-os com sua saliva. Eles eram tão vermelhos e volumosos, que sem querer me vi assaltado pela súbita vontade de tocá-los.

_ E ainda tem a bravata de me chamar de velho bem na minha cara. _ Ria-se ele, balançando a cabeça em negação como se não estivesse crendo em seus próprios ouvidos. Despertando-me daquele confuso momento no qual me vi sem nenhuma reação, e grato por aparentemente ele não ter percebido aquele meu breve instante de distração. Eu não saberia o que dizer caso ele houvesse dado nota daquele meu deslize. _ Muito obrigado, Camus, por destruir com apenas uma única frase toda minha autoestima construida com anos de terapia de rua, contudo, precisarei lembra-lo que esse pormenor não pareceu realmente incomoda-lo ontem à noite enquanto eu o fodia em cima da mesa da boate. _ Arrulhou ele, maldosamente, num entoar mortífero, alisando o queixo como se estivesse se recordando de algo muito interessante e agradável, de considerável importância, antes de abrir um sorriso matador e altamente cafajeste que teria feito Don Juan e Casanova parecerem apenas duas pálidas caricatuas.

Senti meu rosto esquentar furiosamente e pegar fogo e quis pular pela janela e sair quicando dali até o condado do Texas no outro lado do continente para ver se apagava tamanha vergonha e ultraje pelo seu despautério.

_ Seu... seu... imoral. _ Ladrei, porque ele tinha que dizer essas coisas tão... tão chulas? Tão baixas?

Ele era mesmo um cachorro ordinário filho de uma cadela do caramba, convencido de merda e narcisista.

_ Pirralho puritano. _ Molestou-me ele, fitando-me com sarro por cima do espesso relatório, embora sua fala fosse calma, era palpável a insidía incrustada naquele seu tom inconfundível de mofa, derretida como se fosse ouro fervido, sedutora e persuasiva, queimando-me a pele mais eficientemente que as chamas do meu sonho.

Prendi a língua entre os dentes e desviei os olhos estrategicamente para qualquer outro ponto da sala que não fosse para o seu rosto com aquele sorrisinho sacana e pretensioso brincando nas formas encurvadas de seus lábios libertinos, devassos, em parte por sentir-me intimidado com aquela sua proximidade, e também, principalmente, com o clima leve e descontraído estabelecido na atmosfera densa daquela sala, como se tivéssemos feito um acordo não verbalizado de trégua. Aquele comportamento receptivo e relaxado dele soava tão fora dos eixos para os seus padrões de bastardo ditador, que eu não saberia dizer se aquilo vindo dele era bom ou mal sinal, genuíno ou propositado, real ou uma faceta oportunista para desencavar algo que pudesse ser do seu interesse. Eu realmente não seria capaz de julgar apenas observando-o. A forma sucinta como ele agia nunca deixava escapar ou antever quaisquer um dos pensamentos que ele pudesse está tendo.

_ O que aconteceu com você? _ Inquiri de supetão, exteriorizando aquelas conjunturas que estavam começando a criar uma sessão de hipóteses infindáveis de 'se' na minha cabeça.

_ Comigo? _ Ele apertou os lábios e olhou para o canto, fazendo-se de desentendido, como se não tivesse sacado a minha pergunta.

_ Sim... você está... diferente. _ Diferente não chegava nem a abranger o quanto era estranho aquela sua faceta cordial, desnecessário então dizer o quão pé atrás eu estava com aquela sua congratulência deveras suspeitas a meu ver. Gentilezas gratuitas definitivamente não era algo que eu acreditasse que fosse parte do seu feitio. Aliás essa palavra dificilmente poderia chegar a ser sequer um termo facilmente aplicado a ele. Se havia uma coisa que eu tinha absolvido sobre ele naquele curto espaço de tempo, era que Milo não dava ponto sem nó e que sempre havia alguma intenção oculta por detrás da maioria de seus gestos aparentemente inofensivos.

_ Posso ser civilizado quando eu quero. _ Falou ele, e sorriu, e dessa vez, a malícia estava lá, à espreita, assinalada no entortar reto de seus lábios repuxados, deitando por terra a veracidade de suas próprias palavras.

_ Essa é nova. _ Falei, sarcástico, trepidando do seu falsete .

Ele mordeu o lábio inferior.

_ Vamos colocar as coisas da seguinte forma, Camus, você não me dá muitas oportunidades para complacências. Sempre me desobedece, me provoca, afronta-me... Pede para ser punido, castigado. _ Confidenciou ele, num suspiro que eu não saberia dizer se fora ou não de impaciência, estendendo sua mão direita no alto de minha cabeça e bagunçando os fios soltos ali espalhados por entre suas pernas e coxas com a sua palma livre. _ Testa minha paciência quando nem mesmo a tenho. Nunca faz o que eu mando, contraria-me, teima... atiça o que há de pior em mim inocente do perigo real que isso implica. Você, Camus, é um pequeno atrevido, impertinente e mimado. _ Emendou, num tom contrariado que vibrava censura e severidade, seguido por outro suspiro, só que esse era indisfarçavelmente de irritação e impaciência. O choque devia estar estampado na minhas feições com aquela sua declaração absurda e estourada, se o olhar gozador dele por sob os cílios negros fosse algum indicativo.

_ Eu não sou mimado. Você que é um bastardo controlador. _ Explodi, incrédulo, não acreditando que ele teve a discrepância de dizer aquilo na maior cara de pau com aquela naturalidade que lhe era tão peculiar, quando no bem da verdade ele é quem era o único pivor de todos os meus atuais tormentos. Ele por acaso era louco? Sim. Porque só sendo um para ter a pachorra de me colocar como a ovelha negra da história e ainda ter a audácia de virar o jogo contra mim com aquela expressão meio serelepe enfiada na cara.

Ou isso ou ele era um maldito egocêntrico.

E eu juntava todas as minhas fichas e as apostava na última opção.

_ Bastardo? Controlador? _ Recitou ele, arqueando uma de suas sobrancelhas.

_ Sim. E não duvide que eu digo coisas bem piores do que isso pela suas costas. _ Alfinetei, mordaz, e torci o nariz.. Se eu não estava nervoso? Imagina. Eu só estava com o coração quase na boca trotando com a velocidade de trezentos cavalos de corrida.

Só isso.

Vi suas feições impertubaveis se tornarem tão impenetráveis quanto um cofre forte de aço, ilegível, difícil de ser simplesmente lido ou decifrado.

_ Corajoso... muito corajoso. _ Disse ele, secamente, numa entonação que soou estranha aos meus ouvidos, áspera, quebrada, após alguns curtos segundos de silêncio de sua parte, pendendo a cabeça sobre o respaldo do sofá e encarando o teto com um semblante desatento, desligado, aparentemente imerso em seus próprios pensamentos.

_ É... obrigado? _ Respondi, um tanto incerto, mais como uma pergunta do que como resposta, não sabendo se pelo seu tom cortante se aquilo teve a intenção de ser uma lisonja ou uma depreciação.

_ Não agradeça, Camus. Isso de nenhuma forma teve a intenção de ser um elogio, passou bem longe disso, na verdade. A falta de coragem, chama-se covardia, seu excesso, chama-se imprudência. Preste muita atenção no que vou lhe dizer, ruivinho, e que futuramente isso possa lhe servir de lição. _ Iniciou ele, alquebrando o silêncio e remexendo-se no assento como se de repente estivesse desconfortável com algo, despertando-se de suas divagações e pousando os astutos olhos nos traços do meu rosto como se quisesse atravessar-me com eles. Seu semblante anteriormente relaxado fora substituído por uma carregada, séria, nunca antes vista por mim. Revirei-me ressabiado e nervoso em baixo do cobertor quentinho, cobrindo-me o corpo, e prestei o máximo de atenção que pude ao que quer que fosse que ele pretendia dizer. _ Todos os excessos são ruins. Excesso de superioridade, torna-o arrogante, assim como sua falta torna-o submisso. Excesso de inteligência torna-o orgulhoso, assim como sua falta torna-o um ignorante. O excesso de alegria torna-o um inconveniente, e o de tristeza, um depressivo. E assim sucessivamente. Tudo, absolutamente tudo em demasia, Camus, é algo perigoso e nocivo. Portanto tenha sempre em mente que a cada ação que você efetuar produzirá instantaneamente uma cadeia em massa de diferentes reações, positiva ou não, isso dependerá única e tão somente do que você tiver efetivado, e, claro, com quem você o tiver feito. Sua coragem é louvável, porém, ela, assim como sua indolente capacidade de se sacrificar em prol de terceiros em prejuízo de si mesmo, torna-o inconsequente, vulnerável, um alvo fácil. _ Ditou ele, pausadamente, empregando toda a potência de seus perfurantes olhos sobre os meus.

Eu estaria mentindo se dissesse que eu não estava surpreso com o conceito que ele tinha de mim, e eu não saberia dizer o que pensar sobre isso, de qualquer forma. Eu não conseguia comportar aquela imagem que ele fazia de mim com a minha real natureza, era como se ele estivesse descrevendo outra pessoa que em nada se assemelhava ao meu verdadeiro 'eu'. Apenas sorri, um sorriso amarelo, forçado. O mesmo sorriso que eu recebia de meu pai quando eu tinha cinco anos de idade e corria pela casa com uma capa preta amarrada nas costas e um capacete de brinquedo enfiado na cabeça dizendo que quando eu crescesse eu seria um astronauta e embarcaria na Enterprise sob o comando de Spock e o capitão James Kirk.

_ Não me sacrifico pelos outros em prejuízo de mim mesmo. Altruísmo não é uma de minhas virtudes. _ Defendi-me, por fim, contestando o absurdo sem cabimento daquela afirmação proferida por ele de forma tão taxativa, categórica.

Ele nada respondeu por longos e intermináveis segundos, limitando-se tão apenas a encarar-me intensamente, sem nenhuma expressão em seu rosto, os lábios nunca se deslocando daquela constante linha fina, e então, sem nenhum aviso prévio, ele riu novamente, só que, um riso seco, deturpado, sem humor, quase cruel.

_ Não? Camus... _ Apesar da proteção da coberta aquecendo-me, estremeci, com a forma na qual ele pronunciara o meu nome, carregada de libido, lascívia. _ vou ter que lembrá-lo que essa é a razão pelo qual você está aqui agora? _ Apontou ele, vasculhando meticulosamente minhas feições com suas perspicazes fendas de raposa ardilosa, à procura de quaisquer vestígio que indicasse que eu houvera entendido o significado de sua frase.

Não respondi de imediato ao que ele dissera, calei-me, compreendendo que suas palavras haviam sido uma alusão por estar ali agora, subjugado e submetido ao seus caprichos e desmandos por conta das suas ameaças feitas as pessoas com as quais eu possuía estreitos laços de amizade. As imagens de Dite, Shion e Dohko impressas naquelas fotos ainda hoje eram capazes de me assombrar os pensamentos em todo seu auge.

Mas teria sido diferente se na ocasião Milo não tivesse à quem lançar mão de suas ameaças para me chantagear? Eu duvidava disto. O mais certo é que ele tivesse me estuprado na negritude daquele beco imundo da primeira vez que eu o havia visto, caso eu não tivesse conseguido escapar naquela ocasião, e provavelmente depois ter-me-ia matado como fizera com aquele homem à poucas horas atrás. Então, não, no fim das contas não teria feito nenhuma diferença, muito provavelmente apenas alterado a ordem dos fatores cujo resultado final daria no mesmo, de todo jeito. De uma forma ou de outra não muda e nem mudaria o fato de que o meu Titanic se afundava e até os ratos já haviam pulado pela proa.

_ Isso é porque você jogou baixo. _ Defendi-me, fazendo questão de metralhá-lo acusatoriamente por entre os cílios semicerrados.

O bastardo era mesmo um crápula miserável.

_ Jogar? Eu não joguei. _ Garantiu-me ele, taxativo, enquanto eu ocupava-me unicamente em observar com apurada atenção detalhes que eu sabia que eu não deveria estar tão atento assim em observar, tais como, a forma dele umedecer e morder os lábios quando algo o desagradava, o leve suspiro de impaciência quando começava a se irritar com alguma coisa, a beleza de seus traços extremamentes calmos naquele instante, os contornos de seu rosto torneado e musculoso de perfil, que somente davam ênfase às suas feições maduras e sérias, dentre outros detalhes oferecidos por ele de forma inconsciente.

Não jogou?

Aham. E eu sou Dalai Lama e o coelho da páscoa tem dois metros de altura e usa estilingue para caçar ovos de chocolate na páscoa.

Ele deve ter percebido o ceticismo crítico estampado em meu rosto já que seus lábios se crisparam num sorriso torto, predatório.

Meus pelos se eriçaram.

_ Eu não joguei, Camus. _ Reafirmou ele, umidificando o lábio superior com a língua. _ Esteja certo que se o tivesse feito você não teria achado graça nas regras com as quais estou acostumado a jogar. _ Encurtou ele, de forma vaga, marcando à folha do relatório onde havia interrompido sua leitura numa perfeita dobra reta, pousando-a em seguida na superfície plana de uma escrivaninha atrelada à um palmo de distância do sofá, facilmente alcançada pela estensão do seu braço.

_ E que regras seriam exatamente essas , Milo? _ Joguei verde, não contendo a curiosidade.

Ele sorriu de forma soturna, divertida, como se estivesse curtindo algum tipo de piada interna, e, sabe, aquilo foi assustador, preocupante, porque de tudo no mundo, Milo sorrindo daquele jeito distorcido, maníaco, nunca – enfatizando o nunca – Quando Milo sorria assim, nunca, jamais, em hipótese alguma, era sinal de boa coisa. Arrependi-me quase que de imediato por ter feito aquela pergunta, prevendo que fosse qual fosse sua resposta provavelmente iria acabar por foder ainda mais com o meu psicológico.

_ Imagine como sendo apenas uma elaborada compilação de um manual de instruções. _ Iniciou ele, limpando a garganta e esboçando um pequeno sorriso de lado, entrelaçando os dedos por debaixo do queixo pensativamente, como se estivesse selecionando o que iria me dizer e o que deixaria propositadamente de fora. Aprumei-me ainda mais em baixo da coberta, enrolando-me nelas, em parte encantado com a perspectiva de conhecer um pouco mais do fio da complexidade do que se passava naquela mente tão inacessível para mim, ainda que em ínfimas parcelas. Dei-me conta que talvez estivéssemos trocando mais palavras naquela madrugada do jamais trocáramos em todas as vezes em estivemos juntos. _ Então as minhas regras seriam divididas e emancipadas em três categorias distintas uma das outras, contudo, semelhantes em suas essências indiscutivelmente ofensivas, tácitas, tendo como claro objetivo acuar e minar a resistência dos inimigos conforme suas capacidades e fraquezas. _ Transcorreu ele, abrindo mais dúvidas do que realmente conferindo respostas.

Observei-o analítico, não era preciso ser um gênio para descodificar o significado oculto daquelas palavras. Era óbvio que aquela falácia toda se referia a alguns dos métodos empregados pela yakuza, tanto como forma de revide como de intimidação contra aqueles que de alguma forma se metiam nos assuntos fechados daquela organização criminosa ou a qualquer um de seus vários clãs remanescentes, mas, talvez, no fim das contas, fosse preciso chegar a ser um para conseguir compreender todas as particularidades que aquilo provavelmente chegava a englobar, de toda forma.

_ Você disse três regras. Que regras são essas? _ Arrisquei perguntar. Esse era um daqueles momentos em que deveria se arrancar toda e qualquer conversa direto da fonte, levando em conta a alta probabilidade de nunca mais haver alguma outra repetição como essa, em que Milo parecia ter abaixado sua guarda e estabelecido uma trégua significativa o bastante para que eu conseguisse me infiltrar tanto quanto fosse possível em algumas de suas defesas.

Ele fechou os olhos por alguns segundos antes de os reabrir novamente, deitando-os em mim de uma forma tão fixa, intensa, que encolheria o pau de qualquer homem menos seguro de si. Sustentei seu escrutínio. Esse com certeza não era o meu caso.

_ Regras foram feitas para serem quebradas, Camus, de um jeito ou de outro, burladas ou até redirecionadas, adequando-as de acordo com a situação, mas vamos dizer que essas em particular funcionam em conformidade uma com as outras, empreendidas como sendo a solução final para casos específicos que acabam por se tornarem incômodos. Regra número 1: algo ou alguém com quem você se importa pode ser usado contra você para aniquila-lo, e se não for possível aniquilá-lo, então aniquilamos o que lhe for mais caro. Regra número 2: sozinho e isolado é mais fácil extermina-lo. Regra número 3: se não for possível matá-lo, então simplesmente fazemos com que sua vida se torne uma amostra grátis do inferno, tão difícil e intolerável a ponto da você querer se matar, ou pareça ter motivos plausíveis para isso, e então apenas encenamos seu suicídio. _ Concluiu ele, simplista, como quem recita uma básica filosofia de vida. Explicou isso sem qualquer emoção, da mesma forma que se explicaria a uma criança as regras de um jogo da velha.

Senti me estômago se embrulhar.

Se eu estava horrorizado? Com certeza. Surpreso? De forma alguma. Eu já esperava que sua resposta fosse acabar sendo algo assim. Ora, eu não sou e nem era um idiota ignorante, era da yakuza que estávamos indiretamente falando, e isso por si só já dizia muita coisa sem precisar alongar-se no assunto.

Se tinha algo de concreto que a minha condição de doncel havia me ensinado da pior maneira possível, era o quão descartável e banalizado a vida humana havia se tornado. Justiça era uma coisa rara nesse mundo. As pessoas se livravam de seus crimes com muito mais frequência do se podia imaginar, empurrando ou simplesmente varrendo suas sujeiras para debaixo do tapete. Quantas vezes eu não havia sido espancado nos primeiros anos do colegial apenas por uma insígnia estúpida de 'aberração', segundo os agressores, e no final não ficara por isso mesmo? Francamente? nem eu mesmo sabia, perdi as contas em algum momento quando havia adentrado para o ensino médio. Mesmo o Dite com toda sua autoconfiança vez ou outra ainda tinha que lhe dar com os insultos recebidos por moralistas pudicos pregando suas hipócrisias sobre valores morais e bons costumes ou um daqueles homofóbicos fanáticos atirando-lhe bíblias na cara como se fosse alguma epítome da verdade absoluta.

Babaquice.

Oras! A verdade nada mais era do que uma infinidade de pontos de vistas diferentes se divergendo entre si. Discuti-la seria tão inútil quanto entrar num consenso unânime sobre qual o sexo dos anjos.

A linha que separa o certo do conceito do errado era muito mais frágil do que se poderia pensar.

_ Pessoas não são peças substituíveis de um jogo, Milo. _ Verbalizei, pausadamente, após vários segundos de silêncio.

_ Não disse que eram, isso é você quem está afirmando, aparentemente você presumi coisas demais. E pelo que vejo, presumi erradamente. Pelo menos quando se refere a mim. _ Cortou-me ele, tencionando a mandíbula em desagrado, aborrecido, parecendo realmente incomodado que aquela fosse de fato minha real opinião sobre ele.

Desviei minha face do desenlance opressor de seus magnéticos olhos suspícazez. Não me dando ao trabalho de tentar negar a verdade que se encerrava em suas palavras. Logicamente que eu presumia muito a seu respeito tendendo sempre para o pior lado. Mas também não era como se pudesse ser diferente, podia?

Quem cala consente, não é isso o que as pessoas dizem? Então o meu silêncio havia sido uma resposta mais do que clara para a sua acertadissíma suposição.

Olhei-o de esguelha e não pude deixar de refletir que talvez houvesse algum fundo de verdade na afirmação de Lestart de que 'os monstros se parecem exatamente como todo mundo'. Sobre a parca iluminação florescente banhado naquele estoico ambiente a figura de Milo parecia ainda mais surreal e impressionante. Lembrava-me de um quadro renascentista de um anjo em queda de algum lugar em meio ao jardim do Éden pintado na idade das trevas, que de anjo eu sabia não possuir sequer um único fio de cabelo. Desci os olhos para o seu maxilar rígido, forte, ligeiramente quadrado, combinando com os expressivos olhos oceânicos, o nariz bem esculpido, delienado, e os lábios fartos sempre repuxados naquela constante linha de escârnio, zombaria, completavam com perfeição a moldura fornecida por sua figura deslumbrante. Era linear. Como alguém podia ser tão desconcertantemente belo assim e ainda ser um pulha sem uma gota de escrúpulo, um assassino da máfia perfeitamente apto a matar? Parecia injusto. Pela sua aparência ninguém jamais desconfiaria ou faria esse tipo de juízo à seu respeito. Ele era estereótipo perfeito do que a sociedade iludida fazia questão de chamar de cidadão exemplar, acima de qualquer suspeita. Eu inclusive não duvidaria que na frente de terceiros Milo se portasse como um filantropo preocupado com as causas sociais e cívicas, fazendo donativos e volumosas contribuições para algumas instituições beneficentes em decadência ou alguma outra ONG não governamental. Quem acreditaria nas minhas palavras caso eu dissesse alguma coisa contra uma alma tão 'generosa' e 'angelical'? Isso mesmo. Ninguém. Principalmente se fossem acusações levantadas por um pária doncel, também chamados pelos crentes de 'criaturas do demônio' e outros derivados.

Mesmo naquele momento eu podia sentir sua presença na pele. Sua energia poderosa queimando naquele ambiente recluso e fechado como a lava mais incandescente tirada das profundezas de um vulcão ativo, irradiando uma força palpável e um magnetismo sexual que me deixava inquieto.

Chacoalhei a cabeça para espantar esses pensamentos. Eu estava viajando demais.

_ De onde você é, Milo? _ Mudei bruscamente de assunto, temendo que aquele clima ameno se perdesse como água entre os dedos e ele reerguesse novamente as várias camadas de concreto que o cercava. E em parte porque eu também estava inegavelmente ganancioso para saber um pouco mais sobre ele. Todo meu conhecimento sobre ele se resumia a informações entrecortadas, como saber que o seu sobrenome era Kalomires, que ele era o lider oyaban de uma das ramificações da yakuza e que ele não tinha um aliança de casado ou de compromisso no dedo anelar de sua mão direita. E não. E eu não queria saber porque diabos eu me dei ao trabalho de checar esse detalhe.

_ O que o faz pensar que eu não seja daqui? _ Estalou a língua sugestivamente, fazendo-me corar, devolvendo minha pergunta com outra e apoiando preguiçosamente os cotovelos flexionado atrás da cabeça com um sorriso maroto esgueirado-se no canto de seus lábios.

Batuquei os dedos na almofada do sofá em baixo da manta e ri abafado pelo nariz mostrando todo o meu desdém.

_ Vejamos. _ Começei eu, sinalizando e enumerando os fatores com os dedos da mão, debochadamente. _ Será que é pela falta de um par de olhos puxados tipicamente asiáticos que eu sei que você pode ficar chocado mas eu sinto em ter de informar que você não tem? Ou será que foram seus cabelos louros, que aliás devo dizer que não são muito Nipônicos de sua parte que o denunciaram? _ Disse irônico, rolando dramático os olhos. Seus lábios tremeram segurando o riso.

_ Impertinente. _ Disse ele, abrindo um sorriso reluzente e dando um peteleco na ponta do meu nariz com a ponta do seu dedo anelar. Retribui o sorriso. _ E não. Eu de fato não tenho ascendência Japonesa. Pertenço à mais antiga civilização existente sobre o cimo da terra. _ Discorreu ele, vertendo orgulho patriota.

Isso explicava a quantidade quase compulsiva de livros sobre a Grécia que eu havia visto mais cedo enfileirados nas instantes do seu escritório.

_ Mesmo? E eu aqui pensando que Atlântida fosse só um mito... _ Debochei, lembrando-me que mais cedo ele havia troçado de mim quando disse que era Francês e não desperdiçando a chance de lhe dar o troco agora . Ele percorreu a mão nos cabelos e riu anasalado.

_ Ora Camus, não sabia que você tinha senso de humor. Mas sim, como você mesmo disse Atlântida é um mito. Aliás um dos vários mitos originados na minha terra. _ Gabou-se ele com esnobismo, superioridade.

Puxei o cobertor até o acima do queixo e ri gostosamente da empáfia pomposa de sua fala presunçosa, arrastada, silabando as palavras num sotaque quase sulista.

A arrogância dele devia ser maior que os 324 metros de aço da torre Eiffel.

Elevei os olhos para cima sentindo minhas entranhas formigarem ao deparar-me com o faiscar febril de seus olhos parecendo vidrados em meu rosto, escorreguei para ainda mais dentro da coberta, querendo ser engolido e sumir por debaixo dela.

Seus olhos se estreitaram minimamente com meu movimento.

_ Não se esconda de mim, ruivo. _ Rugiu ele, num tom enrouquecido, puxando bruscamente a manta que me encobria até pouco abaixo do peito que começava a bater descompassado.

_ Eu não estava tentando. _ Disse apressadamente, fechando a cara e virando-a emburrada para o outro lado. O que era uma senhora mentira, era exatamente isso que eu estava tentando fazer. Mas ele não precisava ter a confirmação disso pela minha boca.

_ É claro que não. _ Ironizou ele.

Justiça fosse feita. Era atordoante os variados graus de humor que ele conseguia transcorrer em um espaço tão curto de tempo. Eu não tinha como negar que Milo podia ser uma companhia interessante e até mesmo agradável quando ele se mostrava menos inflexível e controlador e mais aberto a conversações maleáveis. Pelo menos até o momento que ele abrisse a boca e lhe presenteasse com seus comentários ácidos embebidos de veneno. Se ao menos ele ficasse com a boca fechada permanentemente eu até poderia arriscar dizer que ele seria uma companhia quase perfeita. Eu acho que eu tinha um rolo de fita adesiva guardado em algum lugar numa das gavetas do meu quarto que poderia facilmente dar cabo desse problema inoportuno.

Tive um sobressalto quando uma felpuda bola de pelos aterrissou de repente em cima da minha barriga, pegando-me desprevenido, baixei o olhar encontrando o responsável pelo susto e pelo súbito aumento de peso encarando-me fixamente com um par de severos olhos amarelos. Acompanhei interessado o felino mover-se graciosamente e saltar de cima mim até alcançar o braço estofado do sofá, deitando e enroscando-se ali próximo a mão de Milo que descansava jogada em desleixo sobre o respaldo.

_ Ele é seu? _ Perguntei.

_ É. _ Foi direto, sem tecer mais que uma única sílaba como resposta, levando a mão estendida na pelugem do animal num afago, arrancando-lhe um ronronar deleitoso de satisfação enquanto fechava os olhos para aproveitar melhor o carinho que lhe era dispensado pelo dono . _ Parece surpreso com o fato. _ Não havia sido uma pergunta, e sim uma constatação feita de maneira casual, desapaixonada, nada mais que uma mera colocação sendo exposta.

_ Um gato? _ Ceticismo definiria muito bem o que eu pensava. Levantei o cobertor puxado por ele anteriormente até encobrir-me por completo naquele casulo aquecido pela minha temperatura natural, abrigando-me ali do ar frio que refrigerava a sala no adiantar das horas daquela madrugada outonal.

_ E porque não? _ Verdade fosse dita, ele conseguia a proeza de me irritar quando devolvia minhas perguntas com outra. Era quase como se ele estivesse jogando constantemente comigo, o que parando para pensar não era algo de todo improvável.

__ Não sei bem ao certo. _ Dei de ombros ao ar. _ Mas até que pensando bem faz sentido você gostar logo de gatos se levarmos em conta que na cultura ocidental gatos são considerados animais egoístas, frios, rancorosos e vingativos, sendo até mesmo associados a Baphomet, ídolo adorado pelos templários na idade média, considerado o sétimo general na hierarquia do exercito do Diabo. É, combina com você. _ Disse-lhe maldosamente.

_ Bobagens. Eles são apenas animais mau compreendidos. _ Olhou-me sugestivamente com uma expressão blasé quase comportada. _ São criaturas dedicadas à sua prole, perceptivos, inteligentes e dotado dos mais aguçados instintos de sobrevivência, além de grande senso de observação que os tornam automaticamente em excepcionais estrategistas em situações de risco. _ Disse, sendo enfâtico no seu ponto de vista, ainda alisando os pelos cinza tempestade do bichano com os dedos.

_ Ou seja, desleais e traiçoeiros. _ Bati o pé lhe olhando-o como se ele fosse um estúpido por não enxergar aquele ponto. Vinquei a testa. Por que eu tinha a sensação de que não estávamos mais falando sobre gatos?

_ Defina o que você entende como sendo desleal e traiçoeiro. _ Pediu ele, austero e exigente, com um 'quê' de algo indefinido na ordem.

_ Não confiável. _ Minha resposta veio imediata.

Ele me fitou de forma analítica, caustica, como se estivesse me avaliando, inquirindo, estudando-me, antes de enviesar os lábios num sorriso de lado que pareceu forçado à meu ver, falso.

_ Eu prefiro o termo, precavido. _ Disse ele, ainda ostentando aquele odiável sorriso dissimulado. Bufei com isso. Pior, mas muito pior mesmo do que as lágrimas de crocodilo, eram os sorrisos de crocodilo.

_ Como disse. Você se parece com um gato. _ Reafirmei, atribuindo um oriundo desprezo na entonação. Ele sorriu, um sorriso sujo e mau intencionado suplantado nos contornos de seus lábios cheios e crispados até a extensão de sua clavícula.

_ Então você me acha um 'gato'? _ Volveu ele, maciamente, como veludo sendo deslizado sobre a camurça, escorrendo malícia abundantemente em cada sílaba proferida como seiva de árvore recém cortada.

Arregalei os olhos e senti minhas bochechas se afoguearem

_ O que? Não. Mas que idiotice é essa? Foi só uma metáfora, eu não quis dizer isso nesse sentido tão literal do termo. _ Esbravejei afoito sem parar para recuperar o fôlego e verdadeiramente fulo com sua lábia ardilosa em distorcer deliberadamente minhas palavras e ainda conseguir torná-las favoráveis para ele mesmo.

Ele parecia se divertir com minha indignação.

_ Porque ficou tão agitado, Camus? Eu não disse nada demais, fora você mesmo quem declarou em alto e bom som que me acha um 'gato', pelo contrário eu estou até relativamente surpreso com essa demonstração tão entusiasta de fervor de sua parte. _ Provocou ele, sedutor, abrindo um sorriso branco e limpo e empesteado de segundas intenções.

_ Não ponha palavras em minha boca. Você entendeu muito bem o que eu quis dizer e sabe que não foi nesse sentido. _ Falei exasperado, fuzilando-o com os olhos. Até porque se Milo fosse um animal na minha opinião ele seria uma pantera, uma negra e muito perigosa, ou então um guepardo. _ O que eu quis dizer foi... bem, foi no sentido de...

_ Sim? _ Incitou ele, induzindo-me com aquele familiarizado tom de diversão, o mesmo tom de divertimento que não raras vezes o Dite usava comigo quando a situação se encontrava agradável e vantajosa para o seu lado, o mesmo tom de manipulador filho de uma puta.

Rilhei os dentes. Ok! Mudança de estratégia.

Afinal o que é um pingo pra quem já tá molhado mesmo?

_ Milo, se você realmente fosse um gato, seria o de Cheshire de Lewis Carroll. _ Informei-o, dobrando os joelhos debaixo da coberta. Tiros soaram, e imaginei que uma batalha estava sendo travada no filme, mas como não estava interessado não cheguei a conferir. O volume dos efeitos sonoros, principalmente os de ação era mais alto que o normal, e acabei remexendo-me desconfortável com o barulho. Céus! Porque faziam isso? Era irritante.

_ E onde exatamente entra a semelhança entre mim e o gato de Alice no Pais das maravilhas? _ Perguntou-me, pendendo entre o curioso e o divertido.

Estalei a língua antes de responder.

_ O gato de Cheshire tem o sorriso mais psicopata e assustador que o de Hannibal Lecter. _ Expliquei.

_ O sorriso do gato de Cheshire não é assustador, Camus, e essa nem é a intenção da fabula de Carroll. _ Riu-se ele escandalosamente, recolhendo sua mão dos macios pelos de seu gato de estimação , recebendo do mesmo um miado de protesto por ter sido privado do mimo recebido pelo seu dono.

_ É sim. Eu o descreveria como psicopata e assustador. Principalmente depois de ter assistido sua perfomance na adaptação de Tim Burton nas telas do cinema. _ Fui teimoso, recusando-me a ceder ou arredar pé no meu ponto de vista.

_ Em outras palavras, você relaciona o meu sorriso como sendo o de um psicopata com de um personagem de contos infantis. _ Constatou ele com o corpo convulsionando pelo riso, quedando a cabeça para o lado.

Senti meu rosto corar, sentindo-me subitamente infantil com aquela colocação. Quantas vezes eu ainda precisaria fazer papel de idiota em um único dia na frente do homem mais confiante e cheio de si que eu já tive o desprazer de conhecer?

_ Eu não disse isso. _ Fiz bico. _ Mas acho que você sabe o que dizem, não é? Se a carapuça serviu....

A melhor defesa ainda era o ataque.

_ Não serviu, ficou muito pequeno para o meu tamanho. _ Zombou ele.

_Oh, porque será isso não me deixa surpreso? _ Devolvi, esfregando os olhos com as costas das mãos e reprimindo um bocejo trazido de volta à tona pela sonolência, sob a vigia atenta de suas ofuscantes pedras turquesas perfurando-me. A insinuação de um meio sorriso brincou na curva voluptuosa de seus lábios cheios, simétricos.

_ É melhor que você vá dormir, Camus, ou daqui a pouco as exigências do sono vão começar a deixá-lo incoerente. _ Disse-me ele, soprando uma de suas mechas douradas que caíam insistentemente sobre os olhos.

_ Não estou com sono. _ teimei, e tive quase que instantaneamente minha mentira desmascarada por um longo bocejo, que além de traíra e x-9 fez questão de ser bem ruidoso.

Merda.

_ Vê o que eu quis dizer sobre você ser teimoso e mimado? _ Suspirou ele, parecendo desolado. _ Volte dormir que amanhã o levarei cedo de volta pra sua casa. _ Comunicou ele, e mesmo tendo amarrado a cara por conta da sua censura inicial não pude evitar ficar feliz por saber que logo nas primeiras horas da manhã estaria de volta ao refúgio familiar do meu apartamento.

_ Certo. Eu vou tentar. _ Cedi, inseguro, temente que ele voltasse atrás em sua palavra quando o dia alvorecesse, e fechei os olhos envolvendo-me mais confortavelmente sobre o coberta.

Eu tinha consciência que sua presença tão próxima não facilitaria para que eu de fato conseguisse adormecer, e uma parte de mim mesmo acusava-me de estar muito entregue na mão do inimigo, como uma broca furadeira perfurando meu crânio insistentemente em contínuos alertas sobre o quão passional eu estava me deixando ser, mas a verdade é que eu estava realmente muito cansado para de fato chegar a me importar com isso, e mesmo que fosse do contrário eu sabia que não havia nada que eu pudesse de fato fazer quanto a isso na minha atual situação, de qualquer maneira.

Se está no inferno, apenas continue andando.

_ Eu gosto da cor ametista do seus olhos, eles são expresivsos. _ Balbuciei baixinho, em meio caminho da inconsciência, confuso se eu havia apenas pensado ou dito isso em voz alta. No entanto, como nada houve além do silêncio como única resposta, presumi que eu havia apenas pensado.

_ Você realmente está com sono. _ Escutei o burburio ao longe, rompendo o silêncio instalado.

_ Hummm... _ Murmurei, sem realmente chegar a registrar o que fora dito. Remexi-me sentindo uma mão fria sendo espalmada em minha testa. _ Você também tem um sorriso bonito Milo, quando eles são espontâneos. Apenas tente não sorrir como o gato de Cheshire. _ Conclui, convocando minhas últimas palavras antes de voltar a emergir no negrume do sono.