O Escape

1 Nas Asas do Vento


Heather seguia por um longo corredor, acompanhava um vulto masculino, sisudo, vestido de um sobretudo preto.

O som dos sapatos de ambos se chocando contra o piso de concreto polido ecoavam em meio ao silêncio. A penumbra dominava o ambiente. Uma estranha energia no ar. O longo corredor, uns três metros de abertura vertical e sete de abertura horizontal, parecia não ter fim.

Parecendo-lhe que andavam há quase vinte minutos, Heather sentia-se um tanto impaciente com aquela demora, para ela, meio despropositada. Entretanto, diante da — talvez aparente — sisudez de quem lhe convocara, e também, do peso daquele ambiente, ela seguia calada, de certa forma, resignando-se.

Procurada para ser morta por contrariar ordens daquele crápula, o chefe dela, diretor da CIA, quanto ao caso Jason Bourne, encontrara no homem do sobretudo sua única chance de escapar do seu destino.

O longo e longilíneo túnel terminava num portal. O homem de sobretudo preto encostou a mão num painel lateral. Depois da leitura biométrica, o portal se abriu. Ele entrou. Heather o seguiu. E, após ela, o portal se fechou.

O túnel seguiu por mais cinquenta metros, até desembocar numa verdejante campina. Heather estranhou aquilo.

— Que lugar é esse?

O homem não lhe respondeu. Olhou para Heather, sério, e seguiu adiante. Aparentemente sem opção, a mulher seguiu.

A campina acabou repentina. E o homem parou bem diante do precipício.

O mar agitado batia contra o paredão de pedras, cerca de quinhentos metros abaixo. O homem aguardou um pouco e, depois, voltou-se a ela, estendendo-lhe a mão.

— No três.

E a observou.

— Está preparada?

— Vamos ter de pular, é isso?

O homem não lhe respondeu. Era-lhe óbvio. Como também para ela.

Heather hesitou, receando estilhaçar-se nas pedras lá embaixo. Em outra situação qualquer, reclamaria, recusar-se-ia a tal. Entretanto, sob aquelas circunstâncias, não havia alternativa.

— Um.

Disse o homem, tomando a mão dela, firme.

— Dois.

Sentiu a mão dela corresponder, pressionando contra a dele — certamente, pelo medo de pular naquele vazio acima das águas primordiais, fora da esfera do universo conhecido.

— Três.

Eles saltaram, projetando-se ao vazio. Em queda livre, a mulher temeu. Longos segundos — longos como dezessete eternidades. Longos, como o sofrimento de Victoria D’Angerville naquele sanatório em Louisville, Kentucky. Longos, como as muitas agruras de Mithry, às quais se submetera voluntariamente como riscos de sua desejada aventura, apesar dos avisos de seus amigos.

Uma sombra veio ao encontro de ambos. Sombra de uma criatura gigante. Um pássaro majestoso os colheu no meio do caminho para baixo. E ambos, Heather e o homem do sobretudo, pousaram suavemente no dorso da criatura.

De pé, próxima ao pescoço do grande e majestoso pássaro, uma garota tinha as rédeas. Ela comandou o pássaro num voo ascendente, de volta para a dimensão Etemenanki.

O pássaro sobrevoou uma vasta e densa floresta, seguida por extensos campos de cultivo. Sobrevoaram chácaras, sítios, colinas e vales, projetando nelas uma sombra voadora. Um suave relevo que descortinava campinas, que encerravam bosques aqui e ali. Uma casinha aqui, outra ali, aparentemente perdidas em meio ao verde.

Algum tempo depois, o verde deu lugar a um mosaico de montanhas escarpadas e profundos cânions, belos à vista, sob os quais rios se ocultavam. Debaixo daquelas grandes massas de terra árida, para além de cactus e certas árvores tenazes, nada crescia. Sob a aridez dos cânions, caudalosos rios cruzavam aquela vasta paisagem inóspita, rumo ao Norte, abrigados do forte sol.

E a aridez do deserto deu, novamente, lugar ao verde, numa suave transição quando, lá ao longe, os primeiros vestígios da cidade despontavam-lhes à vista. Heather acompanhava aquelas paisagens, sem ainda saber onde aquela viagem terminaria.

Sobrevoaram o canal Onirie, duzentos e cinquenta e seis metros de largura em águas claras e profundas. Esse canal podia ser transposto por uma das quatro largas pontes, uma em cada ponto cardeal, as quais podiam ser atravessadas por meio de veículos, bem como a pé. Sobrevoado o canal, uma sucessão de bairros, cada vez mais densos em moradias, descortinava-se.

Vendo que eles se aproximavam de edifícios, Endorsi controlou a altitude do pássaro e, em seguida, passou a guiá-lo de modo mais minucioso. Cruzavam vão após outro, entre prédios altos que, entre si, davam lugar a ruas e a construções menos altas.

Heather se segurava na alça que envolvia o corpo do pássaro, receosa de uma queda brutal daquela altura, sobre edifícios, talvez, pontiagudos. Temia, também, que, porventura, o pássaro se chocasse contra alguma daquelas estruturas. Contudo, Endorsi sabia muito bem o que fazia.

Avistando a praça Betelgeuse, a garota comandou o pássaro para que nela pousasse. Em resposta, a criatura pousou bem ao centro dela.

— Endorsi, nos acompanhe.

— Certo! — ela saltou do pássaro.

O homem ajudou Heather a descer do animal e, ele mesmo, saltou dele. O pássaro, então, voltou ao tamanho de uma rolinha e se achegou à garota que o comandara.

Heather notou, em redor, a amplidão daquela praça, de quinhentos e doze metros de comprido por quinhentos e doze de lado. Notou ao longo do piso, em toda a sua extensão, tênues linhas douradas que se cruzavam, repartindo o soalho de granito em quadrados de um metro de lado. Nos cantos da praça, canteiros redondos abrigavam árvores cujas folhas raramente caíam, e que produziam, cada uma, sete frutos, mês a mês. Em redor delas, bancos e mesas permanentes.

Ela notou robôs limpadores que faziam o seu trabalho, silenciosamente. Havia postes no contorno da praça, junto aos caminhos adjacentes. Ao longe, num dos lados da praça, alguém passava de bicicleta. Havia pessoas a pé; algumas, sentadas nos bancos. Uma garota de cabelos castanhos cortados curto e de aspecto franzino, passava por ali, notando de longe as três pessoas que caminhavam pelo meio da praça.

Os três seguiram rumo a um edifício de vidro. Endorsi, numa leve curiosidade, reparou na recém-chegada. Heather notou-a, porém, sem nada lhe dizer.

Adentraram ao hall, passando pela recepção sem emitir palavra. As recepcionistas se limitaram a cumprimentar o homem, mero protocolo. Tendo passando por ali, seguiram ao hall dos elevadores. Ele se dirigiu ao elevador do meio, espalmou a mão sobre uma superfície de ébano. Quando as bordas da superfície e o backlight do painel de números passaram do azul ao verde, o homem digitou o andar e aguardou.

A cabine se abriu, dando passagem a ele, bem como a Heather, que o seguia, assim como a Endorsi.

A cabine panorâmica, então, seguiu para um dos patamares superiores, acima do vão. Heather via os quadrados daquela praça, da Betelgeuse, cada vez mais diminutos. As pessoas se tornavam como formigas à medida em que os andares se sucediam, diante da vista de quem dali as observava.

Uma vez no andar correto, as portas se abriram.

O homem seguiu pelo corredor adiante, com a mulher e a garota logo atrás. Entraram num salão.

— Lain!

Vinda de um canto onde havia penumbra, uma adolescente, ainda de pijamas, aproximou-se deles e revelou-lhes seu rosto.

— Ela chegou?

O homem assentiu para a adolescente. As duas que vieram com ele não perceberam o sutil gesto.

— Heather Lee — apresentou-a para a adolescente.

Voltou-se à mulher e disse:

— Heather, esta é Lain Iwakura, líder do setor de inteligência na Etemenanki.

Apresentou-lhe também a garota, Endorsi.

— Estou certo de que ela tem muito a contribuir conosco — disse ele para Lain.

E, voltando-se à mulher.

— Heather, seja bem vinda a Etemenanki. Aqui estará segura e será uma de minhas protegidas.

O homem de sobretudo se pôs a sair da sala, voltando às suas responsabilidades. E Endorsi se foi a acompanhá-lo.

— Senhor.

Heather o chamou e, quando ele a viu, ela disse.

— Muito obrigada, senhor…

— Viriato. Chama-me, apenas, Viriato. — disse a ela, tendo removido de sua face a sisudez e com um brilho diferente no olhar, que ela notou.

E ele se foi, escoltado pela garota que os trouxera no grande pássaro e os acompanhara até ali. Heather, porém, ficou a olhar para ele, até que fosse tragado, junto à garota, pelo elevador.

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kunaku senai ichikerumi
ochite iku no sakasama ni
su machi ga asayaka hikaru omoide ~ chikau wa ~
ko no mama chuuryuku kiete meigou he wo chiteiku

kou koni katsu watashi wa dare
senaka ni sasarata ka wo oi nai kuta
hi na mutsushita

mune no inai kako no naka
usa tou hikari motomete wa
kieteku chiishiki itsuno dareka no ~ kodou mo ~
atsunaru kioku kito ikiru suki na wo sarayo hotaruke

warareteku kokoro ga rete
musu ni bi naki wo ko kowareta hakeru ne kizu no me wo ou
anna ni waratteta dareka no dame ni
atae nare kanne ni chiuukaki kesshita

sou nani hiru kanata wa dare
sabita hi kedaru ni osoreta metsunake
nara kurushi wo

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