O Esboço dos Anjos
1 O Cuco e Suas Engrenagens

Quinze minutos. Eu não podia acreditar, teria ele realmente ido embora?
–Finalmente...
“Louis...”
Disse o desgraçado, a maldita voz com sotaque inglês na minha cabeça que não me abandonava e nem me deixava dormir. Eu me comprimi contra a parede mais e mais, com minhas mãos segurando meus cabelos para que eu sentisse dor, para que eu soubesse que não estava morto ainda.
–Cala boca.
“Não seja tão severo consigo mesmo, menino. Pessoas morrem o tempo todo.”
–Cala boca! Cala boca!
–Ei, Maluquinho se você não parar de falar com seu amiguinho imaginário eu vou ai pessoalmente lhe enfiar um frasco de comprimidos goela abaixo! – Era o segurança me olhando pela janela da porta, ele me odiava porque não conseguia cochilar nunca quando era sua vez de me vigiar, eu não tinha medo dos seguranças, dos loucos e nem dos enfermeiros, eu só temia meus pesadelos.
É assim que sou conhecido, o mais novo paciente do Hospital Psiquiátrico Freud – esse lugar já foi uma fazenda bem distante da cidade, mas agora em vez de prender vacas eles prendem gente — Maluquinho, cabeça de panela. Eu sei que sou louco, mas não quer dizer que eu me aceite assim tão fácil. Eu queria poder um dia voltar a ver Manaus, sentir o calor em meus dedos novamente e deitar na grama. Eu não compreendo muito bem o que eu fiz, mas lembro de tudo, não é a mesma coisa. Sabia que era preciso ser feito, mas ao mesmo tempo me sentia como em um sonho bem realista.
“Como foi?”
–Como foi o que?
“Bater no seu irmão”
–Não é da sua conta, me deixe dormir... eu só preciso dormir por um dia.
A porta de ferro que me separava do mundo estava fazendo barulho, significava que já era de manhã e eles estavam me entregando o café, ou a aquela mulher queria falar comigo de novo. A segunda opção era a pior, uma resposta errada e se pode acabar ganhando um remédio que te faça ter vontade de urinar a cada vinte minutos. Aqui no HPF, ir ao banheiro é mais fácil de manhã, mais confortável e até menos perigoso. Afinal, ninguém gosta de ficar a sós com um guarda no banheiro e na silenciosa escura noite.
Aqui existem pessoas muito loucas, muitas delas nem estão internadas.
Dois enfermeiros com minha “camisa favorita” estavam parados na minha frente, uma distância razoável de dois lados opostos do quarto branco, um segurança atrás deles.
–Paciente 26, Louis Soares. A doutora Joyce pediu que você fosse levado para a sala de interrogação.
Em questão de confiança nunca optei pelos seguranças, só em enfermeiros, alguns são normais. Alguns não aplicam injeções como se quisessem arrancar sua veia fora ou raspar seus ossos com a agulha. A doutora Joyce é outra situação, ela pode ser cruel de um jeito que excite ela, posso ver em seus olhos. Tornei-me seu brinquedo favorito depois que o paciente 90 virou problema de outro hospital. Foi ela quem descobriu o tumor no meu cérebro, inoperável e também estável, apenas em relação ao seu tamanho, é claro. Ele não vai me matar e nem me salvar, o que ele realmente é? Bem, digamos que o hospital não quer gastar mais dinheiro com isso.
“Acredite em mim quando digo, acho que seu tumor lhe salva todos os dias.”
Talvez tenha razão, afinal ele é uma loucura da minha cabeça causada pelo tumor, o que faz dele eu mesmo, eu devo me conhecer muito bem. Já estaria morto se estivesse na cadeia, disso tenho absoluta certeza.
–Sim.
“Ótimo!”
–Agora calado!
Os enfermeiros suspiraram e Ernesto, aquele que sempre me trás comida e me dá os remédios da meia-noite, soltou uma risadinha. Muitos enfermeiros tratavam meu caso como um assunto engraçado, ou uma piada interna. O Maluquinho, em homenagem ao personagem dos quadrinhos, pois bati na cabeça do meu próprio irmão com uma panela.
“Não dê atenção a estas míseras amostras de vida, ficar com raiva de mim no lugar deles é irracional.”
–Vamos lá. — Os enfermeiros se aproximaram de mim e me vestiram a camisa de força, eu emagreci tanto desde quando cheguei que seu tamanho foi mudado duas vezes. O segurança estava me encarando e ele aparentava estar totalmente sem paciência para aquele “amarra aqui, abotoa lá” de sempre.
–Droga, eu já disse que não precisa dessa idiotice toda de sair amarrando um moleque magro e fraco desses, se ele tentar escapar eu quebro as pernas dele.
–A doutora gosta de ficar sozinha na sala com ele, é parte do protocolo de segurança, VOCÊ muito mais que todos é que deveria saber. – O segurança grunhiu e foi até onde eu estava abaixado antes.
–Não vejo o que de mais ela vê nesse pedaço de palito.
Ernesto levantou as sobrancelhas, parecia surpreso com a observação do segurança. Um sorriso sarcástico lhe cruzou o rosto, ele era o gato de Cheshire por completo. Ele segurou meu rosto com mais força do que eu esperava e o virou para o segurança.
–Você tá falando sério? Já viu a cor dos olhos dele, quase dourados, isso não se vê em lugar nenhum. – A palavra certa para a cor dos meus olhos é âmbar. – O rosto dele também não é feio... pra ser sincero esse lugar tá acabando com você. – Sempre rindo da minha cara, tinham vezes que eu podia detesta-lo por isso.
Ele mal estava prestando atenção no que o enfermeiro risonho estava falando, curioso se aproximou do canto da parede como se quisesse enxergar algo nela.
–Mas o que diabos é isso?!
Ernesto me deixou com o outro enfermeiro que terminou o serviço de me amarrar, eles pareciam perplexos com o que viam, até me deixaram curioso também, aquela sala de prisão era minha no final das contas.
–Tire uma foto com o seu celular, a doutora precisa ver que ele fez de novo.
Ah, então era aquilo. — Quando eu finalmente consigo dormir e acabo tendo meus pesadelos semanais, algumas vezes eu risco a parede com minhas unhas como um sonâmbulo — Os meus rabiscos interessam muito a doutora, mesmo que nós dois não tenhamos a mínima ideia do que tudo signifique. A grande maioria deles são cálculos matemáticos, algumas vezes gráficos, ela acha que isso esta relacionado à frustação escolar durante meu ensino médio e minha preocupação com faculdades, mas essa teoria foi abandonada. Eu não entendo os cálculos e ela já entregou uma foto a um amigo matemático dela, que mesmo dizendo que os cálculos tinham certa lógica, ele não saberia como resolver algo tão complexo.
–Pode tirar a vontade... não sabia que o Maluquinho sabia latim. – Foi latim dessa vez? Eu estive parado naquele mesmo lugar por horas antes de ir para o outro canto do quarto e nem me preocupei em virar de costas, eu sou mesmo a perfeita definição de um louco, vou passar minha vida confinada.
“Seu latim está ficando bom.”
–Eu não falo latim... muito menos escrevo.
–Você e essa parede têm opiniões opostas. – Ernesto veio me mostrar o que estava escrito, uma frase que para mim não fazia sentido.
“É estranho, não?”
–O que?
–Ele vai começar a falar sozinho de novo, será que a gente deve dar algo pra ele antes de entregar pra doutora? – Disse o outro enfermeiro, Ernesto estava olhando para ele com uma vontade de rir, fez que não com a cabeça e colocou o celular do segurança em seu bolço do jaleco.
“Sua mãe não veio lhe visitar uma só vez.”
–Por que ela viria? Matei um filho dela e tranquei o outro em um hospício.
“Até mesmo os piores pacientes deste local já receberam.”
Os enfermeiros seguraram algumas alças em minhas costas e começaram a me levar, minhas pernas estavam bambas, sentia como se não me mexesse há anos. Sentia dor de cabeça também, o sono não me tocava há muito tempo, aquela mulher sabe disso e não me dá nenhum tipo de sonífero. Tudo o que fazem é me dar antiepilépticos, nada que seja o suficiente para me deixar dormir, preciso de algo que derrube um boi.
–Algum de vocês vai comemorar hoje? — Comemorar?
–Não faça essa pergunta agora. – Ernesto é esperto, a doutora tem uma ditadura aqui e ela não gosta quando os pacientes dela tem consciência de tempo. Ela crê que isso atrapalha seus “métodos”, deve ser outro feriado que não se encaixa a nós das celas. – Espere a gente chegar à enfermaria.
Fomos a caminho da sala de interrogação, passando pelos longos corredores que cheiravam a vômito e urina, enormes mechas castanhas cobriam meus olhos. O segurança olhava para minha cara de maneira desprezível, devia querer me bater como um cão.
–Seu cabelo está bem grande, Maluquinho acho melhor alguém raspar amanhã. Logo logo você vai conseguir fazer uma corda com isso e acabar se enforcando.
Cometer suicídio não me interessava muito, eu não poderia nunca causar mais dor a minha mãe com aquilo, lhe tirar dois filhos... Eu prefiro passar o resto de minha vida trancado naquele cubículo branco, ou talvez até a morte dela. Desse modo não haveria mais nada que me mantivesse na terra.
“Você ama muito sua mãe, não é? Ela deve ter sido uma ótima mãe.”
–Eu acho que foi... bem... não sei mais dizer.
Descemos para o segundo andar do hospício, onde ficavam os mais velhos. Muitos eram idosos abandonados pelos próprios filhos e largados a mercê de medicamentos fortes que uma hora ou outra os matavam de overdose. Fomos para o a sala de interrogação, que ficava no centro daquele andar, um quadrado que ficava no meio de um retângulo gigante, essa era a descrição perfeita para aquela sala do assédio. A doutora e eu ficávamos sozinhos por no máximo uma hora, eu estava rezando para que ela estivesse de mal humor e optasse por me liberar mais cedo.
–Basta se comportar como sempre, Louis. – Ernesto estava olhando para a câmera de segurança encima da porta, esperando que alguém da sede de vigia autorizasse nossa entrada como sempre. Estava demorando um pouco, as luzes do corredor piscavam de vez em quando e eu sentia que tinha alguma coisa de errado com a câmera de segurança, era como se só olhasse para mim. Podia jurar que aquela câmera era rotatória; a lâmpada acima de nós piscou tão forte que queimou e a memoria de seu brilho me aumentou a dor de cabeça. A porta se abriu e eu vi a imagem de Joyce em pé, com seus cabelos pretos um pouco grisalhos amarrados num coque e seu sorriso bem delineado, o batom vermelho vinho que ela sempre usava dava ênfase na pele bronzeada que ela tinha e algo dentro de mim dizia que hoje eu precisava evita-la ao máximo, ou ela me devoraria.
–Oi Louis, pode entrar e se sentar.
Eu odiava aquela sala, era completamente verde limão bem claro, me dava enjoo.
–Doutora... – Ernesto soltou meu ombro e foi até ela, provavelmente para mostrar o celular do segurança. – Foi latim desta vez.
Seu olhar penetrou minha cabeça, mesmo em sua distância de mim, foi quando sussurrou algo para Ernesto que o deixou bem surpreso. A voz em minha cabeça estava em silencio de novo, o que me deixava tranquilo em relação a tudo.
–Louis, gostaria de lhe dar uma boa notícia... – Ela andou elegantemente até a porta, onde eu estava com o outro enfermeiro e com o segurança, o terno feminino que ela usava combinava com seu sadismo e aquilo lhe deixava sofisticada. – o motivo de você estar aqui hoje não é para novas perguntas, nem nada parecido. — Ela estendeu a mão para meu rosto e acariciou uma mecha do meu cabelo, tentei virar meu rosto para longe dela.
–Não me toque... – Ela sorriu maliciosamente para mim ao ver minha reação, tive vontade de cuspir em seu rosto.
–... Senhora. Comporte-se, sua mãe foi chamada para uma consulta coletiva. – Minha mãe vem para o hospital me ver, o que aquela mulher quer com a minha mãe? – Afinal, sabe que dia é hoje?
–Não... senhora.
– Hoje é 24 de dezembro, feliz aniversário. – Ela foi sarcástica como um demônio. – Faz exatos seis meses que você está conosco. Por isso chamei sua mãe, mesmo que ela não tenha te visitado tanto esses meses e nem ligado, – Cada curva e traço em seu rosto criou um ângulo triste e falso. – você tem 18 anos agora. É adulto diante da lei e mesmo que em breve ela queira visitar você mais vezes, vai se tornar bem mais difícil, uma vez que a necessidade maternal dela pode ser... irrelevante de acordo com as observações da médica que trata você. Nesse caso, eu.
Ela retornou ao centro da sala e o segurança me levou até a cadeira mais próxima, me segurei para não me descontrolar de raiva, aquela mulher era tão louca quanto todos nós habitantes do HPF. O segurança estava um pouco incomodado, pois ainda estava sem seu celular e porque a doutora sempre falava de maneira ameaçadora, todos aqui têm medo dela.
“A hora está chegando.”
–Hora de que? Do que você tá falando?
–Perdão? – Joyce me olhou confusa.
–E-eu...
–É tão intrigante quando você conversa consigo mesmo, é como se tratasse de algo secreto e muito importante.
“Ela tem razão. Quanto mais tempo passamos perto dela, mais ela fica obcecada por você, estamos perdendo um tempo valioso.”
Eu sentia meu coração acelerar, como se eu estivesse de pé sobre um carro em movimento, mas não conseguisse me mover.
–Tem algo novo que gostaria de me contar... ? – Ela olhou para a porta atrás de mim, fazendo um sinal para que os outros se retirassem para que ficássemos a sós. Não vou mentir, o ódio e o medo me consumiam naquele momento, ela estava me ameaçando com a minha própria mãe e a voz estava pela primeira vez conversando com ela mesma; eu estava enlouquecendo mais rápido do que acreditava. Eu esperei que Ernesto, o outro enfermeiro e o segurança saíssem, a tranca automática da porta me deu sinal verde.
“Fale sobre sua mãe... estou ocupado.”
–Você está ocupado?! Pela primeira vez em seis meses que pareciam seis anos?!
–Louis, está me deixando com ciúmes.
“Se não fizer, nunca mais verá sua mãe.”
Eu a amava tanto, eu só queria vê-la mais uma vez sem a expressão que ela estava quando ela chegou em casa naquele dia. Joyce não tinha o direito de me afastar dela, mas não era eu que estava em posição favorável de negociar.
“Ela nunca teve esse direito.”
–Não pode. – Minha voz era quase um sussurro. Alguma coisa a minha volta estava estranho.
–Louis?
Eu me sentia sufocar naquela sala, como se houvesse vômito preso em minha garganta. Desde criança eu sentia enxaquecas — pioravam quando eu via televisão, mesmo que eu amasse filmes eu precisava sacrificar essa diversão — mas a cada semana que se passava essas dores aumentavam e eu sentia como se minha cabeça estivesse rachando aos poucos. Quero dormir, só mais um pouco. Aquela sala estava me deixando doente... eu queria simplesmente quebrar suas paredes e correr para casa.
–Faço qualquer coisa, você pode fazer qualquer coisa comigo. – Ela começou a deslizar a ponta de seus dedos sobre alguns papeis na mesa, ela sempre fazia isso quando queria me tocar. Ela me dava nojo.
“Está chegando a hora, você poderá sair desse hospício sem precisar deixar que as mãos imundas dela te toquem.”
–Como assim?
“Eu sei o motivo da morte do seu irmão.”
Aquela foi a primeira vez que eu confiei plenamente naquela voz, ela passou 6 meses como um sussurro que gostava de me perguntar sobre coisas alheias, mas hoje ela direcionou toda a sua atenção para o que eu fiz para estar aqui. Talvez eu finalmente tenha feito as pazes com meu subconsciente através dos remédios.
–Não fale com a voz... Fale comigo.
–A voz sabe por que eu matei meu irmão... — Primeiro sua reação foi de espanto e depois se suavizou, um meio sorriso no canto de sua boca.
–Todos sabem por que você matou seu irmão. Alucinógenos fazem coisas horríveis com o cérebro humano, uma dose exagerada pode traumatiza-lo para sempre. Ainda mais para alguém com uma anomalia como a sua. – Ela pegou com as duas mãos os papeis sobre a mesa e começou a pagina-los, ela retirava algumas fotos e folhas enquanto fazia isso, fotos das coisas que eu escrevia na parede, até que enfim pegou uma última folha e começou a ler em silêncio.
–O que tem escrito ai?
“Você não o matou por que é louco. Ele era um porco inútil e preguiçoso, não valia um barril de urina e ainda era ladrão. Se lembra de quantas vezes ele bateu nela, na sua própria mãe? Depois vendeu as coisas de casa para comprar aquelas malditas drogas... até tentou te matar antes de você finalmente acordar. Devo agradecer a ele, sem aquele idiota nada daria certo.”
–Do que você está falando... ? – Aquilo me assustou, falava sem parar e com um tom mudado, eu não me sentia mais escutando uma voz na minha cabeça.
–Louis. – Joyce chamou meu nome, mas eu mal conseguia vê-la, somente muitos fleches de luz vindos das lâmpadas. Minha visão estava estranha e uma dor horrível começou a tomar conta de meus ossos, dos pés a cabeça. – Maldito gerador, não está aguentando nem esse andar?!
As luzes da sala piscavam e o sistema de som soltava um chiado estranho cada vez mais alto, minha cabeça ia estourar e eu iria morrer lá dentro se não chamasse ajuda, eu sentia como se meu corpo estivesse partindo ao meio. Comecei a gritar como um porco agonizante ao abate.
–Seguranças! Enfermeiros! Alguém, por favor!
“Não há mais volta, meu menino.”
Então cai no chão e o impacto se concentrou em meu ombro esquerdo, me contorcia de dor e não entendia o porquê de tudo aquilo. Minha cabeça chegou ao limite e minhas preces foram atendidas, eu pude dormir como um boi abatido, mesmo que através de uma dor agonizante. Pude escutar uma última voz, a única que sempre me resta.
“Vamos libertar o cuco de seu relógio.”
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