O Esboço dos Anjos

5 Dá-me Tuas Asas, Eu as Aceito


Mesmo estando um pouco escuro, quando vi minha casa pela primeira vez desde que fui internado, parecia estar brilhando, mesmo que sem enfeite algum. Eu podia escutar musicas natalinas vindas de todos os lados da vizinhança iluminada, risadas e muito mais, menos da minha casa. Ela era como uma memória fantasma do que uma vez já foi um lar, um lar que já andava muito doente a um bom tempo. Seis meses não conseguiram apagar a luz da minha casa, talvez não para mim, mas para qualquer outra pessoa logo era perceptível a grama alta e as ervas daninhas subindo pelas paredes, no fundo... o brilho de minha casa pertencia a saudade que eu sentia dela.

–Louis... seja rápido, se lembre que só temos 20 minutos para chegar no aeroporto antes do jato. – Katzea me deu uns tapinhas nas costas e voltou para dentro do táxi.

Eu estava com medo de entrar e ser completamente rejeitado por ela, pela minha mãe. Como eu poderia saber sua reação? E se ela chamar a policia, ou pior... e se minha mãe estiver na policia ou no hospital agora mesmo e tudo o que eu fiz foi atrasar Flinn e Katzea... ? Eu apenas caminhei até a porta de casa e toquei a campainha, esperei e esperei, então toquei de novo.

–Já estou indo... – Escutar a voz dela depois de tanto tempo e depois de tudo o que aconteceu me fez derramar uma lágrima.

Ela abriu a porta, seu rosto estava cansado e bem acabado, seus cabelos estavam bem bagunçados e ela estava de camisola. Quando me viu deixou o queixo cair, seus olhos ficaram bem vermelhos.

–Mãe... eu...

–Você fugiu. – Sua voz tremia, ela deu um passo à frente e eu abaixei minha cabeça, eu não tinha o direito de estar à mesma altura que ela. – Por que está aqui?

–Eu precisava falar com você.

Ela olhou para trás de mim, provavelmente para o táxi e para os outros, limpou seus olhos com os pulsos e entrou na casa. Eu a segui e tentei ignorar ao máximo as fotos de nossa família na parede, eu podia sentir cheiro insistente de álcool na sala também. Com certeza ela andou bebendo depois de tudo, como quando Caio disse que iria embora por odiá-la e sumiu por duas semanas – Ele sempre fugia de casa, desde novo, eu queria fazer o mesmo quando estava com raiva, mas quando eu via minha mãe bebendo e chorando, já mudava de ideia – era sempre horrível.

Sentou-se no sofá que ficava de costas para a porta da casa, ou seja, de costas para mim. Ela respirava tão profundamente que seus ombros subiam e desciam, ela estava chorando, pois eu podia escutar suas tentativas de disfarçar os soluços. Eu não queria faze-la sofrer mais do que ela poderia aguentar, é claro que ela não estava chorando por mim... quem era eu naquela casa agora? Não creio que ainda merecesse chama-la de mãe. Alguém que não era obrigada a gostar de mim, mas que mesmo depois de tudo me amou até o fim, o fim da vida de seu verdadeiro filho. Eu a decepcionei.

–Louis... filho, eu nunca acreditei realmente que você seria capaz de fazer aquilo.

–Eu agora sei o porquê do meu nascimento mãe, não matei o Caio... – Quando eu disse o nome, ela estremeceu. – Foi ele, o homem que lhe pagou para ficar grávida de mim. Ele me fez fazer aquilo... por favor acredite em mim. – Eu comecei a chorar, como uma criança que pede desculpas por quebrar alguma coisa.

–Eu não sei e nunca vou querer saber exatamente o que ele te fez fazer, meu filho. Para uma mãe nunca haverá perdão para quem machuca seus filhos... e... eu me apeguei tanto a você, tanto... você é meu filho. Eu não posso odiá-lo.

Ela se levantou e foi até mim para me abraçar, eu a apertei com toda a minha força, ela fez o mesmo. Foi quando eu escutei a buzina do táxi, eu precisava ser rápido, eu fiz um acordo.

–Me perdoa mãe... – Limpei minhas lágrimas em seu ombro, seu cheiro era um misto de palavras no meu coração. Perda, saudade, amor... eu queria que aquele momento congelasse.

–Você está partindo pra sempre?

–Eu não sei.

–Por quê? – Ela me apertou com mais força, estava se engasgando com seu próprio choro.

–Não posso ficar naquele hospício, não posso ficar com você. Existe algo muito grande esperando por mim mãe, mas eu vou dar um jeito de nossos caminhos voltarem a se cruzar...

Ela separou nosso abraço, mas manteve meu rosto em suas mãos, acariciando gentilmente minha face com seus dedões. Ele ficou na ponta dos pés e então beijou minha testa, eu me senti iluminado naquele momento. Foi difícil, porém aos poucos eu comecei a dar passos para trás.

–Eu já te perdoei. – Ela disse soluçando, a mulher que cuidou de mim e me ensinou que cuidar de si mesmo é difícil e cuidar daqueles que você ama parece mais ainda, mas é muito mais fácil... pois as decisões são obvias. Primeiro eles, depois você. Para sempre.

Quando saí daquela casa, eu sentia meu coração sangrar, queria simplesmente cair no chão e implorar para ficar com ela. Quem me dera a vida ser tão fácil, eu entrei no táxi e observei a imagem de minha mãe olhando para mim da janela... se afastando. Ela era uma mulher forte, espero que a aparência não tenha sido a única coisa que herdei dela.

–Como foi? – Katzea perguntou.

–Foi uma despedida. Da pra imaginar como foi...

–Nem tanto. – Disse Flinn. Eu olhei para ele um pouco envergonhado, pois eu tinha me esquecido que o relacionamento dele com sua mãe era péssimo.

–Eu...

–Opa! – Ele fez sinal de silêncio com seu dedo, eu apenas sorri.

O sol nem pensava em aparecer ainda, a cidade estava iluminada com o natal. Eu me lembrava de nunca comemorar o meu aniversário só para mim, já que ele era no natal.

–Estou escutando um toque... – Disse Katzea.

–Meu celular! Deve ser Nile!

Flinn olhou para o porta-malas e grunhiu, dando uma batida na própria testa, Katzea olhava para ele e em seus olhos eu só podia ver uma palavra: “Estúpido”. Ela então cutucou o taxista que olhou para ela pelo espelho.

–Sim?

–O senhor tem célular?

–Bem... sim, por quê?

–É para um uso rápido, não gastaremos os seus... créditos. – Ele hesitou por um minuto, mas logo acabou cedendo aos olhinhos de cachorrinho perdido de Katzea. Aquilo foi trapaça, ela era adulta e ainda podia distorcer sua cara para a de uma menina de 15 anos.

Discou um número e então desligou depois da primeira chamada, esperamos mais um pouco até que de repente o celular começou a tocar.

–É nosso irmão retornando. – Assegurou Katzea ao taxista.

–Sup big bro. > Iai irmãozão. – Ela estava bem alegre falando com ele. – Do you wanna talk to... him? > Você quer falar com... ele? – Ela olhou para mim e então me passou o telefone.

–...Alô?

–Olá Louis. Sou o Nile... só Nile. Eu estava vigiando você pelas câmeras de segurança no dia que escapou do hospício. É um prazer finalmente falar com você, ainda bem que em breve nos conheceremos. Você nos deu um baita susto quando descobrimos que estava vivo, nos pegou tão de surpresa que o plano de seu resgate precisou de um pouco mais de tempo. Sinto muito. Se não fosse por isso você não teria de passar 6 meses internado.

–O prazer é meu, sempre falam muito bem de você.

–Então meu irmãozinho, eu gostaria de lhe explicar com mais exatidão o que irá acontecer com nos 5 assim que nos reunirmos. Não garanto que haverá volta, não sei se você será bem vindo ao seu lar depois disso, porém há muito que você precisa entender.

–Eu estou pronto.

–O chip é uma benção à humanidade, mas uma maldição para nós, suas cobaias. Sorte nossa que o Dr. Frankenstein se apegou de maneira incondicional a nós. Lembro-me que uma vez Ophelia ficou muito doente e quase morreu. Eu, Flinn e Kattie não parávamos de escutar ele repetindo em nossas cabeças “Outro não, outro não, outro não” e as vezes nós sentíamos uma tristeza repentina, ele tinha medo de perder outro filho, por que acreditava que você ainda estava morto e que ele havia falhado conosco. O chip que está na cabeça dele é ligado a todos nós, quando o seu for reajustado você poderá sentir esta conexão que nós 4 temos um com o outro como irmãos. Finalmente estaremos todos juntos e o mundo todo vai poder reconhecer esta experiência como o salto do milênio. – Ele perdeu o ar enquanto falava e tossiu um pouco. – Desculpe, fiquei empolgado...

–Respire e prossiga.

–Certo... bem, nosso pai está em um laboratório clandestino em uma ilha que ele comprou, ele o montou junto da boa parte dos equipamentos que ele usou para criar o chip e de materiais que ele comprou ilegalmente usando o sistema hacker do chip administrador.

–Meu Deus, isso é totalmente ile... –Katzea tampou minha boca com tanta força que eu me assustei.

–Ilegivel...

–Você ainda está na linha? – Escutei Nile falando. Mordi um dos dedos de Katzea.

–Hijo de puta! – Ela limpou seu dedo babado na camisa que eu estava usando. – Quantos anos têm? Três?

–Estou na linha. – Eu adorava ver o rosto dela ficar vermelho, talvez estivesse me acostumando com a ideia de sermos irmãos.

–Louis, vamos ser testados... por muitos governos diferentes e muitos deles vão nos temer, vão querer nos destruir, pois poderíamos com o passar do tempo e com o aperfeiçoamento de nossas habilidades, saber tudo sobre eles. Cada golpe, cada mentira, cada segredo de estado.

–Eu... não sei se eu conseguirei.

–Não se preocupe. Eles se acham perigosos, mas nós é que somos. Eu posso hackear o código de lançamento e a rota de um míssil nos USA do outro lado do mundo e faze-lo atingir sua própria base.

–Isso é incrível.

–NÓS somos incríveis, só precisamos de mais tempo juntos. Vou desligar...

–Até em breve Nile.

–Até em breve, meu irmão. – Ele desligou.

O taxista e os outros estavam me olhando cada um de uma maneira diferente. O taxista parecia surpreso, mas eu mantive minhas respostas um tanto sigilosas pelo telefone, não haveria como ele saber do que estávamos falando.

–Você... é de onde?

–Como assim? – Eu não saberia bem como dizer, já que eu estava fugindo do Brasil. Olhei para Katzea em sentido de alerta.

–Você estava falando em latim pelo telefone. – Ela sussurrou em meu ouvido.

–Ah...! Eu sou... italiano.

–Sim, sim. – O taxista concordou com a cabeça.

Devolvi seu telefone, mal podia acreditar que estava falando outra língua ao ponto de nem sentir a diferença. Sentia-me um gênio, Flinn me olhava com seu sorriso gigante e fazendo um O.K com suas duas mãos, eu estava evoluindo. Também estava me perguntando desde quando acordei... onde estava Marius, quero dizer, a voz dele não havia entrado em contato conosco uma só vez desde quando acordamos. Talvez ele confiasse nas instruções de Nile.

Estava surpreendido com o jeito como Nile falava, ele era o tipo de pessoa que poderia falar para sempre e você adoraria escutar o que ele tem para dizer. Eu sempre fui rodeado de pessoas que tinham uma boa lábia, isso nunca foi boa coisa, mas por enquanto eles eram tudo o que eu tinha.

Quando finalmente chegamos ao aeroporto e pagamos uma fortuna ao taxista, Katzea me entregou o “meu passaporte”, cujo meu nome era Jack Simmons e eu era de Spring Valley, Texas. Eu não parecia nem um pouco norte americano... bem nunca me disseram se eu parecia ou não, mas na minha opinião eu não parecia.

–Vamos lá. – Katzea andava na frente, eu olhei para Flinn e vi que ele parecia um pouco triste.

–Que cara é essa?

–Surfar, cara... surfar! Eu queria ter surfado.

–Quem sabe na próxima.

–Que próxima? Vamos viver num laboratório... Que nem ratinhos. Quem sabe eu invente um simulador pra isso.

Então eu não era o único que estava com medo, eu era apenas o mais recente a estar com medo do que teria de fazer, ou do que teriam de fazer comigo. Poderia estar saindo de um hospício para entrar em outro, de onde eu não poderia escapar... a não ser a nado.

–Louis, faça exatamente tudo o que eu fizer! – Disse Katzea, ela de repente segurou minha mão e me puxou para perto. – Vai ficar tudo bem...

Eu senti o quão quente era a mão dela, mas foi diferente de antes como na floresta, era quente. Como se eu estivesse o dia todo dentro de uma geladeira, que não era o caso de Manaus... eu aproveitei minha chance e puxei a mala que estava na sua outra mão e comecei a arrasta-la.

–Ei!

–Muito lenta, agora eu seguro a mala.

Eu imaginei que ela ficaria furiosa, mas ela deu uma pequena risada e virou seu rosto para a outra direção, eu podia ver que a ponta de sua orelha estava incrivelmente vermelha e sua bochecha também. Eu ri um pouco, então virei para Flinn, ele olhava para o chão enquanto andava, sem expressão nenhuma em seu rosto.

Então chegamos à recepção de compra e reservar de passagens, o aeroporto estava lotado, pois era manhã de natal. Sua decoração estava calorosa e animada, as atendentes estavam usando uniforme vermelho e verde, quase ridículo. Katzea estava falando com a atendente e mostrando nossos passaportes, ela dizia que havia um jato reservado para nós três. A atendente estava estranhando que estivéssemos viajando de jato do Brasil para um local privado no meio do oceano pacífico. Ela levou os passaportes para checar se eram verdadeiros.

–Como assim o computador deu pau? – Podíamos escutar sua voz de dentro da sala atrás do balcão.

–Sei lá, deu um problema nele agorinha mesmo! – Disse outra que já estava lá dentro.

Katzea olhou para mim com um rosto bem sacana.

–Nile. – Cochichou.

Ele estava controlando os computadores do aeroporto?

–Voltou... – Disse a atendente, com a voz abafada pela parede.

–Cheque isto pra mim, por favor.

Demoraram apenas alguns minutos, ela estava atendendo outras pessoas que chegavam até que a atendente que estava dentro da sala chegou com os 3 passaportes. Eu sentia minhas mãos suarem, meu coração estava completamente acelerado, me perguntava o tempo todo: “E se não der certo?”; os outros pareciam tão calmos que só me deixavam mais nervoso.

–Está tudo O.K, por favor, se dirijam à ala de embarque para uma segunda checagem. Depois serão acompanhados ao seu jato, caso ele já esteja aqui a sua espera.

Novamente acompanhamos Katzea até a segunda checagem de documentos que dava entrada à ala de embarque, não sabia que precisava checar mais de uma vez, mas não era culpa minha, seria a primeira vez que eu entraria num avião.

Os seguranças nos olhavam desconfiados, pois não era comum haver pessoas da nossa idade, usando roupas que não estavam muito bem... elegantes e, principalmente, andando de jatinho existirem. Quando nos liberaram, senti meus pulmões se moverem bem devagar, pelo menos eu estava sentindo meus pulmões se moverem. Saímos daquele lugar e atravessamos a ala de embarque até uma saída que descia para a pista de pouso, o nosso suposto jatinho estava a nossa espera, era incrível, até hesitei ao entrar, ele era tão branco e tinha detalhes prateados e azuis piscina, parecia uma nave espacial.

Eu não consegui me mover por alguns instantes. Era como se uma parede de vidro estivesse na minha frente. Eu via o que tinha do outro lado e queria passar, mas não podia.

–Louis. Cara. – Flinn que estava na porta me esperando desceu as escadas do jato e pôs a mão no meu ombro. – Eu também estou com medo de ir pra essa ilha... mas fala sério, agora não tem mais volta. Tivemos sorte de ninguém te reconhecer no aeroporto, nem nenhuma notícia sobre o hospício estar escandalizando ainda. – Seu tom de voz era baixo, ele devia estar preocupado com o piloto, que estava do lado de fora com um assistente. Estavam bem próximos de nós. Eu me preguntava se eram pessoas de confiança de Marius ou eram apenas proficionais contratados de uma empresa de voo qualquer. Então o melhor a se fazer era falar baixo, como Flinn.

–Eu quero ir...

–Então vamos!

–Você, acha que eu consigo... eu digo, como Nile, você acha que eu consigo ter uma amplo controle sobre o chip que nem ele... ?

–Eu acredito em todos nós. – Seu rosto estava um tanto sério, mas logo um pequeno traço de sorriso apareceu no canto de sua boca.

–Obrigado, Flinn.

Ele subiu e entrou no jato. A cada passo que eu dava naquela pequena escada, me lembrava do desespero que tive ao ver meu irmão morto no chão, das noites acordado no quarto branco, das torturas de Joyce, do dia em que conheci Katzea e Flinn e tudo finalmente chega a hoje. Não haverá mais Caio, nem Joyce, nem enfermeiros e seguranças... eu teria de me concentrar em apenas 6 nomes. Katzea, Flinn, Nile, Ophelia e o Dr. Frankenstein, Marius. Nada alem do progresso importava para nós, mas o principio básico daquelas pessoas era se manterem unidos.

Haviam me oferecido asas e eu tinha apenas duas opções, 1ª: Recusa-las e cair em meu próprio inferno, onde eu me torturaria psicologicamente todos os dias, 2ª: Aceita-las e nascer de novo, empurrando para fora de meu ninho o meu passado.

Como um bom cuco sempre faz.