O Esboço dos Anjos
7 Perfeição

Era minha antiga escola, eu podia escutar o som de crianças rindo histericamente e de adolescentes tendo conversas infinitas. Eu sabia que era um sonho, pois eu estava usando a roupa da qual eu fui dormir e isso estava fora de questão, nunca esqueci nada antes de ir para o colégio, nem mesmo um lápis. Comecei a andar pelo pátio.
Tinha algo de muito estranho com aquele lugar, ele estava sujo e as pessoas por quem eu passava me olhavam com ira ou apenas se afastavam de mim. Meu amigo Fê que eu não via desde que fui para o hospital começou a fugir de mim, mas eu corri atrás dele.
–Espera! Fê, sou eu!
–Vá embora! – Ele gritava de volta.
Eu o persegui pelos corredores do colégio, mas o perdi em uma das salas, eu tinha certeza de que ele estava na nossa sala de terceiro ano e eu estava bem diante dele. O que me levou a pensar isso foram barulhos, tosses eu acho, vindo desta sala; pois o peculiar não era o barulho vindo desta, mas sim o fato de que a escola toda de repente entrou em um silêncio mortal.
–Fê...? – Perguntei enquanto abria a porta.
Senti meu sangue congelar antes de alcançar meu cérebro. Fê estava deitado no chão enquanto alguém que estava encima dele e de costas para mim lhe surrava o rosto, – O pior de tudo era não conseguir agir naquele momento. – depois de quase lhe arrancar a mandíbula aos murros, a pessoa alcançou debaixo de uma das mesas uma panela e com uma violência que eu nunca tinha visto antes, esmagou o rosto de meu querido amigo na minha frente, até que seu rosto se tornasse irreconhecível e o chão estivesse pintado de sangue. Eu sentia vontade de vomitar todos os meus órgãos naquele momento.
–... Bastardo, miserável... – O ódio me fazia querer esmaga-lo com as carteiras.
Eu corri até a pessoa e me joguei sobre ela, agarrando-lhe o pescoço com minhas duas mãos. Porém, para minha surpresa, aquela pessoa era eu. Não apenas meu rosto, mas seu porte e até mesmo as roupas que ela usava. Esse cara era como um clone.
–Pobre anjo caído, condenado a perseguir a divindade escondido nas sombras, sem perdão pelo que você fez.
–Eu não sei do que você está falando.
–Não, do que NÓS estamos falando. Eu sou os muros que cercam seu chip, seu consciente, seu subconsciente e até se assim preferir sua alma. Nós somos aquilo que escondem de você e aquilo que você esconde deles... você se lembra de Caio? Ele também era um muro, mas ele foi quebrado em vez de escondido.
–Isso não importa! Por que você matou meu amigo?! – Tentei socar seu rosto, mas ele agarrou meu punho e deslizou seu outro braço por cima do meu que ainda segurava seu pescoço, dando-me uma cotovelada bem no nariz.
A dor me fez cair para o lado, mas o estranho não fugiu, apenas ficou de pé me observando enquanto eu me levantava. Eu tentei segura-lo, mas ele desviou e agarrou meus cabelos, batendo meu rosto repetidas vezes na parede. Eu já estava ficando desorientado, minha cabeça doía como se estivesse rachada. – Eu temia que ela realmente estivesse. – Então ele puxou minha cabeça para baixo, para que eu caísse deitado bem ao lado de meu amigo.
–Tão fraco...
–O que você quer?
Ele começou a nos rodear com sua mão no queixo, ele era assustador, mesmo sendo minha exata cópia. Então ele parou de repente e olhou para mim com uma sobrancelha levantada.
–O que você vê quando olha para nós.
–Eu me vejo...
–Isso já sabemos! – Disse revirando os olhos. – Mas e as roupas? O cabelo? Os pequenos detalhes?
Olhei bem para ele, então me lembrei de ter usado aquele conjunto de roupas apenas uma vez e usado num aniversário... na verdade foi no aniversário de Fê, por isso o conjunto era novo...
–A roupa que eu comprei, pra ir ao aniversário do Fê.
–Isso... agora me responda, quem você nos viu matar?
–Ele... meu amigo Fê... – Virei-me para olhar o estado de seu corpo, eu queria vomitar, era horrível, meu amigo de infância que foi como um irmão para mim... era um sonho, era só um sonho. Eu sabia que aquilo era um pesadelo, mas era tão real e assustador, geralmente é no momento que você descobre que está sonhando que se acorda.
–Não... você vê seu amigo, mas na verdade é o que o seu subconsciente arranjou para substituir algo que foi bloqueado, roubado. Este não é Ferdinando Holanda.
Aquilo não fazia sentido, substituir o que?
–Se não é ele... quem é?
–Pergunte ao seu “Deus”, antes que ele complete o que esconde.
–O que está acontecendo?
Ele se aproximou de mim e me estendeu sua mão, eu a segurei e me levantei.
–Ele tem um plano, Louis. Em breve ele tornará todas as suas criações em perfeitos bonecos obedientes. — Ele se afastou de mim e foi até a porta, mas parou antes de sair da sala.
–É mentira...
–Antes de seguir o conselho dos outros é melhor seguir o seu próprio. Então, como você sou eu e eu sou você, confronte o nosso criador com as nossas teorias.
Eu o segui enquanto ele se direcionava para o fim do corredor do ensino médio. Estava tudo estranhamente silencioso e claro, diferente dos meus sonhos comuns, perturbadoramente coloridos ou escuros. Aquele que se dizia ser eu foi sumindo na direção da luz do fim do corredor, eu me ofuscava cada vez mais com a mesma e no fim, quando fechei meus olhos sem suporta-la me vi cercado da escuridão de meu novo quarto.
Algo estava agarrado a mim, era quente e macio... o cheiro de sabonete era suave, haviam longos cabelos que quase cobriam minha visão, alguém tinha seu rosto afundado em meu pescoço e eu já tinha 99% de certeza que era Ophelia. Ela movia seus lábios em minha pele, aquilo me deu calafrios, o que havia de errado com essas irmãs?
–Sai de cima de mim...
Ela levantou apenas sua cabeça, mas mesmo não enxergando bem seu rosto eu podia sentir que ele estava bem próximo ao meu.
–O que... ?
–Você tem 10 segundos, ou vou te jogar no chão.
–Isso seria ótimo. – Ela me beijou, mas eu a empurrei, diferente de Katzea que me deixou completamente sem reação, eu não gostava do ritmo o qual Ophelia se aproximou de mim desde o momento que eu cheguei, ela sem duvidas não havia ganhado minha primeira boa impressão e além de todas as coisas ela era minha irmã.
–Saia.
–Ah Louis, esse pode ser o nosso segredinho...
–Estamos todos ligados uns aos outros por um maldito computador menor que uma uva passa, não existem segredos nesta ilha e acredite em mim, já fui atacado de varias formas na minha vida, mas nunca enquanto eu dormia. – Eu estava assustado com meu sonho e chateado com Ophelia, minha respiração estava muito rápida por causa disso tudo. – Já não basta Katzea...
–Katzea?! – Ela se levantou bruscamente e ligou as luzes, seus cabelos estavam despenteados e seu rosto estava vermelho de raiva.
–Ophelia, faça um favor a si mesma entendendo que eu não quero nada com mais nenhuma psicótica.
–Humph! Você cometeu um dos grandes erros da sua vida. – Era como se ela estivesse isolando cada palavra dita, a Ophelia que tinha uma carinha de boneca sumiu em uma questão de 30 segundos, seu rosto estava deformado de raiva e eu podia sentir a força em suas palavras. – Sabe, eu até ia te contar umas coisas sobre esse “Caio”, sobre os segredinhos que você acha que não existem... mas agora vou assistir de camarote você trilhando o seu maldito caminho que no fim resultara em nada!
Ela caminhou até a porta batendo os pés com força no chão e quase tropeçando no colchão que ela mesma trouxe para meu quarto.
–O que você quer dizer com...
–Guarde minhas palavras, — Ela me interrompeu. – você virá atrás de mim.
Ela disse, então abriu a porta e desapareceu na escuridão dos corredores.
Eu perdi meu sono pensando sobre o que o clone disse, ele era só uma parte de um sonho bem realístico que eu tive, mas então por que eu estava com medo de ele estar certo? Foi Ophelia, ela complementou bastante, agora a palavra “Segredo” não saía de minha cabeça. Eu precisava conversar com alguém sobre isso. Eu queria sair do quarto, mas o receio de que Ophelia estaria do lado de fora com aquela expressão demoníaca no rosto já me fazia mudar de ideia, ficando deitado olhando para o teto por cerca de meia hora. Então a melhor maneira de se agir era fazer isso pelo computador. Todos tinham endereços falsos e identidades falsas para chats que Nile e Flinn criaram. Eles me mostraram que a Deep Web é o único lugar seguro para nossas conversas, Nile conseguiu desenvolver um vírus maravilhoso em cerca de 5 horas, capaz de destruir o computador de qualquer um que errasse nossa senha mais de 3 vezes ou tentasse utilizar outro programa para invadir a sala de conversa. Claro que não destruiria no sentido literal, o computador central faria uma cópia de todo o conteúdo do computador do tal “invasor”, em outras palavras ele só estava muito ferrado. Se o computador do invasor não representasse um ameaça, ele seria poupado.
Seria muito mais que sorte se alguém estivesse acordado as 4:00 da madrugada, pois estávamos fadados a pesquisa e aprimoramento naquela ilha, então tudo o que fazíamos eram lições de línguas, cálculos, raciocínio lógico, computação, história e geografia das nações. O cansaço mental era o que nos fazia dormir até as 11:00 horas, mas milagrosamente Flinn estava acordado, ou era um cyber sonâmbulo.
–Flinn. – Eu ajustei o volume de meu microfone e das caixas de som.
–Hum... — Sua voz era de quem havia acabado de acordar. -... iai cara.
–Você já estava acordado ou acordou agora?
–... Acordei agora, é que acabei dormindo encima do laptop de novo... mas qual é, o que fez VOCÊ acordar agora.
–Ophelia me beijou também.
Alguns barulhos como o de alguém se posicionando em uma cadeira chamaram minha atenção.
–Não pode pegar todas as suas irmãs! Pra começo de conversa não é legal nem ficar com uma MEIA-IRMÃ, o que você tem que eu e Nile não temos? Poxa você deve... como eles falam no Brasil... ? Manjar! Você deve manjar da habilidade de ser maneiro. – Flinn soltou sua matraca. – Katzea ama Ophelia como se fosse uma filha, isso complicou seu caso com a Kattie em 100%, falando nisso, o que você fez depois que ela te beijou?
–Disse pra ela dar o fora.
–Nossa...! Que frio.
–Mas ela me disse que faria eu me arrepender de uma forma que eu iria atrás dela depois. Não creio que ela esteja apaixonada por mim, mas sim que só tenha certo grau refinado de interesse em mim e muitos graus de mimos para receber de forma tão ruim um não.
Flinn não me respondeu depois daquilo, eu escutei sua porta se abrir pelo som de seu microfone. Eu escutava algumas vozes abafadas, podia reconhecer até mesmo a de Katzea no meio delas, mas o que é que estava acontecendo? Uma voz soava de maneira agonizante, choro, foi se tornando alto o suficiente para que eu escutasse do outro lado da minha porta, aquela voz era sem dúvidas a de Ophelia. A porta de meu quarto então se abriu e era Flinn com seu rosto apavorado.
–O que houve Flinn?
–Ophelia. – Ele se aproximou de mim e colocou sua mão na testa como se não compreendesse o que iria falar. – Ela começou a passar mal no quarto da Kattie, disse que você a atacou...
–Mas que sacanagem é essa? – Levantei-me da cadeira, aquela miserável. Meu rosto borbulhava de raiva, o que aconteceria se Katzea acreditasse nela?
Flinn fechou a porta atrás dele, provavelmente para que não escutassem que ele veio me avisar.
–Eu... sei lá.
–Você acredita em mim ou nela?
–Eu acredito em você cara, só que temos um problema bem grave...
Katzea chutou a porta de repente, fazendo com que Flinn fosse jogado no chão. Atrás, apoiando suas mãos nos ombros de Katzea estava Ophelia, com sua camisa praticamente acabada e rasgada, seu pescoço possuía vários arranhões leves que não sangravam, mas cuja vermelhidão podia ser percebida. Ela mesma se machucou para poder me incriminar.
–Eu vou matar você, ressuscitar você e depois mata-lo de novo até que isso me seja satisfatório! – Katzea grunhia de raiva. – E você! — Ela olhou para Flinn com desgosto, como se ele fosse um inseto. – Você ousou ficar ao lado dele, eu e Ophelia que sempre ficamos ao seu lado desde anos antes desse idiota aparecer na droga das nossas vidas! Você ousou ficar ao lado DELE!
–Kattie...
–Calado!
–Não. Não mande o Flinn se calar! – Eu tentei me aproximar dela, mas como sempre os movimentos de Katzea são imprevisíveis, ela me chutou bem no meio de minhas pernas, eu caí no chão completamente sem ar.
–-Não se aproxime! Eu... eu... eu não sei mais quem é você! – Katzea começou a chorar, seus olhos tremiam como se ela no fundo não estivesse triste por Ophelia, mas sim por ela mesma. – Pra falar a verdade ninguém aqui te conhece pra valer não é, Louis? Te contamos tudo sobre a gente, mas você quase não nos conta nada...
Ophelia continuava em seu falso colapse, enquanto Katzea estava próxima a ter um verdadeiro.
–Katzea, chame o nosso pai, se ele de alguma forma puder ver as minhas memórias ou as da Ophelia...
–Não! Eu não confio em você! Não mais...
Por quê? Ver ela me olhando daquele jeito fazia com que eu me sentisse tão asqueroso, decepcionante, monstro, mesmo que mentira. Novamente os malditos flashes se voltavam para a cena do hotel em Manaus, onde ela me abraçava enquanto nós dois estávamos de joelhos... sim, acho que foi ali que comecei a gostar muito de Katzea, ela era minha irmã. Eu não deixaria Ophelia tira-la de mim. Katzea era minha.
–Ophelia. – Eu me levantei, acho que nunca olhei com tanta raiva para alguém antes, pois o falso medo nos olhos dela se tornou pânico.
Dizem que a raiva dá forças, eu acredito fielmente nisso, pois corri na direção delas duas e de alguma forma consegui desviar de um soco de Katzea, eu a empurrei e ela caiu, mas Flinn a segurou para que ela não se machucasse. Ophelia correu de mim, ela era rápida e o corredor estava um tanto escuro, mas eu continuava a correr atrás dela e alguns segundos antes de chegarmos à entrada da escada no fim do corredor Flinn e Katzea já estavam correndo atrás de nós. Ela gritava e gritava enquanto ia para o subsolo, mas eu não via sinal nenhum de nosso pai ou de Nile, provavelmente estavam no laboratório.
Ela não era mais rápida do que eu, só estava um braço mais distante, ainda não sabia ao certo o que faria se a pegasse; quem sabe sacudi-la e taca-la nas paredes até que ela falasse a verdade? Não, eu estaria transformando isso numa verdade. Eu podia ver a porta do laboratório aberta, ela com certeza estava indo para lá com as minhas mesmas esperanças de encontrar Marius, mas tropeçou nos próprios pés e caiu um pouco antes de chegar. Ao me aproximar ela tentou me chutar e me arranhar diversas vezes, eu escutava o som de Katzea e Flinn correndo nas escadas no lado oposto do corredor, então agarrei Ophelia e a coloquei sobre meu ombro e corri para o laboratório, mas não havia ninguém. Olhei para trás e vi os outros dois na metade do corredor, me aproximei da entrada da porta e apertei o botão de emergência que fechava a porta de aço do laboratório, estávamos lacrados lá dentro.
–Me solta! Me solta! – Ophelia estava gritando como um porco. Eu a coloquei no chão e nós dois nos encaramos.
–Você é uma maldita cascavel.
–Senhorita cascavel para você.
Eu dava um paço e ela recuava dois, não podíamos escutar Flinn nem Katzea, pois as paredes e a portar eram a prova de som. Encontrei uma cadeira e me sentei, ela continuava com medo de mim, mas fez o mesmo.
–Você vai contar a verdade a eles.
–Ou o que? – Ela sorriu e por um segundo pensei estar falando com Joyce.
–Ou vou atacar você de verdade.
–Era tudo o que eu precisava. – Ela piscou.
Eu estava sendo impulsivo, estava agindo e falando antes de pensar melhor, mas quanto mais eu demorava maior a probabilidade de Katzea estar a procura de Marius.
–O que você ganha com todos me odiando?
–Trocas... – Ela começou a se parecer mais com a antiga Ophelia, animada como uma criança que acabara de ganhar seu presente de natal.
–O que você quer trocar?
–Logo tudo acabará, Louis. Nossos treinamentos, testes e aulas, então papai ira configurar o sistema de nossos chips e já não seremos nós mesmos.
–O que?! – Eu me levantei, aquela informação estava queimando minha cabeça.
–“Por que será que ela acha o Nile chato”, você deve ter se perguntado isso em algum momento já que todos o idolatram. Só que eu sei uma coisa que ninguém mais sabe. Ele já foi reiniciado.
–O que... ?
–Reiniciar uma personalidade sem apagar muitas de suas lembranças, para que elas se mantenham fieis aos seus familiares. Mas isso depende. Da nossa troca.
–Onde... está o nosso pai?
–Dormindo profundamente, ele chega a passar dias acordado e então programa seu chip para não acorda-lo por um dia inteiro.
Eu estava me desesperando, toda aquela minha curiosidade havia me levado até o topo de um penhasco, todos estávamos lá por motivos diferentes e íntimos, todos eram porcos indo para o abate. Eu não me imaginava sendo outra pessoa do que eu sou, mas como Ophelia faria diferença na decisão de Marius?
–Onde nossa troca se encaixa nisso?
–Antes de eu ser reiniciada e talvez nunca mais ame ninguém, – Ela então mante seu rosto sério, mas eu pude ver que seus olhos de fato mantinham um ar de tristeza verdadeira pela primeira vez. – eu queria que você me amasse como você ama a Katzea.
–Não é como se...
–Não minta mais. Quando vocês chegaram, que eu vi você pela primeira vez, foi estonteante. Você tem olhos que matariam qualquer uma sabia. – Ela sorriu e então fechou seus olhos por um instante, deixando uma lágrima escorrer. – Vocês são tão bonitinhos juntos, me enoja, mesmo que ela goste de mim eu queria que ela caísse de uma escada, batesse o rosto e ficasse horrível... só para você não sorrir ao ver o rosto dela vermelho.
Ela então começou a chorar de fato, eu me aproximei dela, mesmo que ainda chateado eu coloquei minha mão em sua cabeça e a massageei.
–Eu não sei o que é amar uma mulher, a minha mãe foi a única pessoa do sexo feminino o qual eu me dediquei de todo o coração... eu não sei se amo Katzea...
–Você ama sim.
–Você precisa aprender a receber um não Ophelia. Nem tudo no mundo pode chegar às nossas mãos de bandeja.
–Mas... eu não direi a verdade, vou piorar tudo!
–Você não seria a primeira mulher a me assediar, enquanto eu puder resistir, você não vai ter o que quer.
–Então eu não posso ter o seu amor, nem por uma noite?
–Não pode, não terá.
–Então Katzea nunca será sua.
Eu respirei fundo, ela tinha razão, a possibilidade de eu estar me apaixonando por Katzea aos poucos do mesmo jeito que Katzea estava por mim era plausível. Estávamos em um empasse e eu tinha coisas mais importantes para desvendar com a tal história de reiniciar nossos chips. Eu precisava admitir que além de fazer as pazes com Katzea, eu precisava de um novo aliado.
–Lia. Eu tinha uma tia que tinha esse nome e ainda serve como apelido para você.
–O que... ? – Ela me olhou com lágrimas ainda descendo de seu rosto, mas confusa.
–Pretendo aceitar seu acordo.
–Você ainda está mentindo.
–Não, mas eu exijo ainda mais uma coisa do seu acordo.
–O que é?
–Seja o inimigo do meu inimigo.
Ela se levantou e me estendeu sua mão, ao segura-la a puxei para meu abraço e beijei seus lábios. Seus Braços apertaram meu tronco e eu sentia sua boca se derreter aos movimentos da minha, ela respirava bem lentamente. Se o acordo era fazer aquilo, eu faria o mais rápido possível para que a menor quantidade possível de lembranças fossem armazenadas.
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