O Esboço dos Anjos
3 O Ninho de Onde Vim

Quando eu pensava em fugir de casa, quando tinha 12, – Aquela época em que nada na sua vida presta e você só pensa em si mesmo, coisa hormonal, ou não. – não imaginava que seria para um lugar pior que a minha casa, sempre imaginava que eu ia me apresentar num concurso de manobras de skate e ia ganhar um prêmio, ser notado por um olheiro e começar a competir de verdade. Com sorte, um dia eu conheceria Tony Hawk. Mas não, eu matei meu irmão, porque ele tentou me matar, então eu fui mandado para um hospício – onde fui abusado psicologicamente e sexualmente pela minha doutora – tudo isso por causa de um enorme tumor no meio do cérebro, então eu fugi desse lugar e fui parar num sítio de criação de coelhos, lá tinha dois garotos muito sinistros – Eles eram irmãos, de acordo com eles, meus irmãos. – e eles queriam me tirar do Brasil, ah... sim... quase me esqueci. Escuto uma voz, a voz de um homem para ser mais exato, essa voz às vezes se confunde com coisas que eu penso ou o contrário, a garota que eu conheci estava esperando escutar uma voz também, enquanto eu esperava cessar essa voz. Agora estou aqui, em uma pousada de uma estrela e meia, num quarto minúsculo do primeiro andar com uma cama e dois colchonetes no chão.
–Toma esse aqui, vê se cabe em você. Trouxe por engano do meu irmãozinho. – Eu estava pegando roupas emprestadas de Flinn, mas ele calçava muito mais do que eu. Fala sério, ele era um palmo bem aberto maior do que eu. Mas pelo menos sua calça jeans e sua camisa do filme Nosferatu estavam de bem.
–Seu “irmãozinho” calça mais que eu. Não tem problema, usando dois pares de meia cabe perfeitamente.
Katzea levantou o colchão da cama, revelando um laptop que estava escondido nela. Ela não voltou a falar comigo desde quando conseguimos sair, mas eu estava curioso sobre a voz, eu queria saber se havia algum jeito de ajuda-los, me livrar da voz e então ter uma vida um pouco menos anormal. Esse seria o trato perfeito.
–Flinn, de onde você é?
–Sou alemão. – Ele abriu o grande sorriso que eu vira na floresta, de fato ele me assustava toda vez que fazia aquilo. – Mas eu falo muitas línguas.
–Então é poliglota igual a Katzea?
–Todos nós somos! Eu, Katzea, Nile e Ophelia.
–Quem são Nile e Ophelia?
–Nossos outros dois irmãos.
Katzea havia falado sobre outras duas pessoas que eu ainda conheceria e que estavam aguardando por mim. Ela estava sentada na cama mexendo no laptop e digitava rapidamente, parecia uma viciada. Eu mexia em computadores de vez em outra no mês, antes de ser internado, havia uma Lan House perto da minha casa, eu trabalhava lá como ajudante do dono. Eu era amigo de infância do filho dele.
–Louis, vem cá. – Ela me chamou, mas eu não sentia aquele tom de raiva que estava antes.
Eu fui até a cama e me sentei ao seu lado, ela apontou para a tela e eu vi uma imagem de uma tomografia cerebral, exatamente igual a que eu recebi antes de ser internado. Um tumor calcificado bem no topo, entre as duas áreas do cérebro.
–Isso é a minha tomografia?
–Não, é a minha. –Ela apertou a tecla de espaço e outra imagem apareceu, na minha opinião era quase a mesma imagem. – Esta é a do Nile, — E foi me mostrando fotos de tomografias, todas com o mesmo tumor e no mesmo local. – Ophelia... – Eram como réplicas. – e Flinn.
–O que isso significa? Que somos irmãos por causa de tumores idênticos? É algum tipo de seita?
Ela fechou o laptop e foi até a cômoda ao lado da cama, o colocou sobre ela e abriu uma das gavetas. De dentro dela Katzea retirou um envelope e o entregou para mim. Ela aparentava desconforto, algo como um pouco de ansiedade. Flinn estava bem sereno, encostado na parede do quarto com os olhos fechados, achei por um segundo que ele havia cochilado. Abriu os olhos e eu pude ver que ele estava sério. O ar dentro do quarto havia mudado desde quando Katzea pegou no envelope.
–Como eu tinha dito antes, você não foi o único que acordou num lugar estranho. Eu e Flinn acordamos um ao lado do outro em assentos de um avião. Eu estava com o meu laptop no colo e nele havia um arquivo em aberto, dizia: O último a nascer, Louis Soares está vivo, os outros já sabem e providenciaram o resgate. Salvem-no. Quando ele estiver pronto, entregue a carta que está com Flinn para ele.
–Eu... não compreendo.
–Vai compreender. Leia a carta, a gente também quer saber o que tem nela. – Flinn fez um O.K com sua mão e eu abri o envelope. Dentro havia uma carta impressa.
–Louis, — Comecei a ler alto. — sinto muito por não ser uma pessoa presente na vida dos meus filhos e ser um tremendo tagarela às vezes, só queria saber mais sobre você. Desde criança eu fui um garoto muito tímido, então eu não sei como começar ou quando terminar uma conversa quando consigo começar uma. Como cientista eu posso ser um pouco frio, para mim é divertido ver quanto tempo você aguenta ficar acordado, quase sádico de minha parte, por isso mais desculpas. Está na hora de você tentar entender por que quero que você saia do Brasil imediatamente, o motivo do seu nascimento e no seu internamento.
Dei uma pausa. Olhei para Katzea e Flinn, ela estava com um rosto triste e seus olhos miravam o chão, já ele estava com um pequeno sorriso no canto da boca, mas provavelmente estava tentando disfarçar o mesmo sentimento que Katzea.
–Pesquisar, experimentar, criar e repetir o procedimento era tudo o que o laboratório onde eu trabalhava nos permitia fazer. – Continuei a ler. – Lá criávamos coisas incríveis e que poderiam servir ao mundo do melhor modo possível, mas que ao mesmo tempo, poderia controla-lo de uma forma esmagadora. Este laboratório fica em uma área subterrânea do sudoeste dos Estados Unidos, muito bem escondido no Arizona, ele tem aproximadamente o tamanho da metade de París, possui tuneis mais profundos também, uma bela coincidência. Eu estava há anos, para ser mais exato, 11 anos, 7 meses e 2 dias religiosamente dedicado á meu projeto de estagiário, claro que eu já não era um estagiário faziam 10 anos naquela época, mas eu seguiria meu sonho mesmo que eu perdesse minha vida com ele. Você sabia que os impulsos elétricos do ser humano são tão fortes que podem, dependendo do tempo e da proximidade, influenciar os impulsos de outro ser humano. Como dois melhores amigos que passaram o dia ao lado um do outro e de repente um fala algo e o outro responde: Eu estava pensando exatamente sobre isso. Como também muitos cientistas já apresentaram suas ideias para pessoas tetraplégicas e paralíticas na tentativa de que estas voltassem a se mover e a mover coisas através de aparelhos eletrônicos. Genial. Bondoso e genial era disso que se tratava meu sonho, eu queria um mundo onde o conhecimento pudesse ser adquirido por todos e de modo universal. Que soubéssemos todas as línguas e como escrevê-las, até as mais difíceis como mandarim e árabe. Contas e fórmulas matemáticas, teorias científicas e que o acumulo de conhecimento não fosse esquecido no submundo cerebral, mais sim armazenado de maneira que pudesse ser utilizado automaticamente, não como a memoria humana que se divide em consciente e subconsciente.
Eu não conseguia acreditar no que estava lendo, eu estava com um mau pressentimento sobre o final daquela carta, virei o verso da folha e tentei ler, mas engasguei antes de começar.
–Não morra antes de terminar. – Disse Katzea. Eu continuei.
–Criei um chip que podia capitar ondas de radio e transforma-las em impulsos neurais e também ondas eletromagnéticas, possuía mais terabytes que o banco de dados central do nosso laboratório, isso era o suficiente para armazenar todo tipo de informação do mundo todo; eu havia criado algo além da mais recente tecnologia mundial. Se o diretor das pesquisas descobrisse o que eu estava criando, ele veria uma mina de ouro surgir diante dele, mas não usaria para os mesmos bons propósitos que eu. Aquele chip poderia se agregar através de minúsculos fios a um cérebro e controlar todas as partes da massa encefálica, podia hackear computadores e até mesmo invadir o sistema de satélites. Ele almejava ter acesso aquele poder. – Minhas mãos começaram a suar e minha voz estava trêmula, aquilo não podia estar acontecendo. – Eu e meus parceiros de trabalho, pessoas da minha confiança, tentamos reproduzir o primeiro experimento de implantação do chip de maneira teórica e em seguida por uma simulação virtual e por ultimo testes em animais. Mas os animais não responderam nem ao menor dos estímulos; também descobrimos que era quase impossível de se realizar em um humano adulto. A caixa craniana era muito grotesca e teria de ser selada com uma placa metálica depois, podendo causar falhas ou até interferências no chip. Foi quando um de meus parceiros se aborreceu a ponto de quase arrancar seus próprios cabelos, eu mandei ele se acalmar, pois estava agindo como uma criança. Foi quando eu tive uma epifania, bebês. Até os 7 anos de vida nossa caixa craniana é um pouco aberta, a solução mais precavida seria essa, mas eu não queria testar em bebês. Porem meu caro Louis, muitas coisas aconteceram para chegarmos onde estamos agora, coisas terríveis aconteceram; muitas pessoas morreram por esse projeto. Incluindo meus parceiros. – Naquele momento eu parei de ler, não sabia o que pensar daquela pessoa, o médico e o monstro.
–Louis, você está bem?
–Não posso mais... – Eu senti meu rosto ficar quente, meu peito estava doendo.
–Por favor continue lendo, — Ela se sentou ao meu lado e colocou seu braço envolta de meus ombros. — eu sei que é difícil continuar, mas a primeira vez que nós quatro escutamos a história de como tudo começou tínhamos 15 anos. Pense em como foi... Você não é mais só um menino.
Sua voz era melódica, quase que tranquilizadora. Quanto mais tempo eu passava com eles, mais eu gostaria de continuar com eles. Eu continuei a ler a carta.
–A experiência não funcionaria em qualquer bebê, — Respirei bem fundo. — inconscientemente eu criei algo que obedeceria somente a mim, pois eu fui o primeiro de nós três que se ofereceu para a incisão do chip. A cirurgia foi arriscada, pois tivemos de contratar uma equipe médica e pagar absurdos de dinheiro por cima da cirurgia, para evitar que a informação vazasse. Meu chip era o que você pode chamar de “o administrador do computador”, suas cópias respondiam a ele. Somente alguém que fosse eu, pelo menos em parte, poderia utilizar as cópias do meu chip com sucesso de conexão, pois um dos prós e contras do chip fez com que ele gravasse meu código genético e mandasse a informação aos outros chips. A resposta já deve ser clara para você, eu teria de fazer um último sacrifício, o experimento precisaria ser feito em meus filhos. Não em meus pais, nem em meus irmãos, somente em meus filhos. cinco mulheres foram contratadas, para gera-los e depois entrega-los. Porem muitos outros problemas aconteceram, eu tive que fugir do laboratório por causa do diretor do centro de pesquisas e depois da morte de meus dois parceiros, através dos tuneis subterrâneos, eu fui obrigado a deixa-los com suas mães após a cirurgia. Não me entenda mal, Louis, o começo de sua historia não é a mesma coisa do que o meio e o fim, eu amava você antes de achar que estava morto, amei você durante 18 anos enquanto achava que estava morto, amei você no momento em que descobri que estava vivo, como seu chip se desativou depois do 4º mês de nascido e sua mãe não manteve nenhum tipo de contato, isso era um dos sinais de pros e contras da morte de uma das crianças, o fim da atividade cerebral desativaria o chip, mas até hoje eu não sei o que exatamente poderia ter causado a sua desativação. Então eu comecei a receber imagens vindas dos seus olhos 17 anos depois, seu irmão tentando lhe matar, o ódio por ele quase superou a felicidade que tive ao ver que você estava vivo, eu tive que tomar controle de você e acabei fazendo o que fiz. Não foi você que matou seu irmão, fui eu. Você deve achar que é um rato de laboratório, mas você não é um, é meu filho, eu quis você e o proposito do seu nascimento era de grandeza e sabedoria, seus irmãos também. Todos vocês estão destinados a serem maiores do que tudo o que já viveu, eu vou garantir isso custe o que custar. Do seu pai, Marius Lee.
“Espero que entenda agora.”
–Por que não me disse antes... ? – Eu me ajoelhei no chão, sentia como se meu mundo estivesse em slow motion, não me importava o que ele dizia, eu apenas me sentia como uma vaca assistindo um vídeo de fabricação de hambúrguer. – Você matou o filho da minha mãe... — Toda a minha vida poderia ter sido por causa de uma experiência que deu errado, eu fui comprado, minha mãe recebeu dinheiro para alimentar o embrião de um homem que ela nunca amou provavelmente. Eu me lembro de ter chorado umas duas vezes enquanto estava internado, eu chorei pela minha mãe e pelo meu irmão, eu odiava tanto ele, mas eu ainda me arrependia tão amargamente por uma coisa que agora eu sei que não fui eu que realmente fiz. Pela primeira vez eu senti vontade de chorar por mim.
Katzea abraçou minhas costas, seu coração batia com tanta força quanto o meu. Flinn se ajoelhou na minha frente e levantou meu rosto empurrando minha testa com seu dedo.
–Não chora não, cara. Vai ficar pior, guarda pra depois. – Ele abriu sua boca com seu sorriso de dentes enormes.
“Eu sinto muito, mas somente por você e sua mãe.”
–Então não deveria tê-lo matado! – Eu me levantei bruscamente, o que fez com que Katzea caísse para trás.
“Ele não me deixou escolhas.”
–Eu o odiava... mas ele ainda era meu irmão, ele ainda era o garoto que me ensinou a andar de skate, que me mostrou como é bom ir ao cinema...
Mas por outro lado... Eu observei meu irmão se destruir, não pude fazer nada além de tentar acalmar minha mãe, eu apenas me esquivava de sua loucura. Dava-lhe todo meu dinheiro quando ele não tinha mais, não questionava quando ele saia de casa no meio da noite. Aprendi a temê-lo. Eu o dava como caso perdido, mas nem mesmo tentei salva-lo...
–Acreditava que ele era um péssimo irmão, mas e eu?
–Eu ainda não sei muito bem o que ele fez com o irmão dele. – Disse Flinn, passei pelo menos um minuto e meio vagando pelos meus pensamentos. Meus dois companheiros de quarto me olhavam como um pobre coitado delirando, mesmo tendo consciência de que eu provavelmente estaria falando com aquele homem... Marius.
–Flinn, coisas como essa não são boas de perguntar.
“Katzea, Flinn.”
–Estava sumido, Dr. Frankenstein! – Disse Flinn levantando os braços e olhando para o teto, ele escutava a voz do mesmo modo que eu... aquilo era de fato real, eu não era louco.
–O senhor nunca mais disse nada, estávamos achando que seu satélite estava orbitando pro lado errado. – Katzea foi até seu laptop. Sua voz era um pouco nervosa e ela não tirava seus olhos de mim, eu sentia como se ela estivesse preocupada, mas ao mesmo tempo tentando se distrair da preocupação. – Ai o Louis decidiu ficar de segredinho e não contou pra ninguém que estava recebendo contato.
“Nile mandou um jato buscar vocês.”
–Ele deve estar de bom humor, fomos na primeira classe para cá, mas não sabíamos que jatinho valia na história! – Ela se animou, mas logo voltou ao seu estado de sempre.
“Estejam prontos para as 5:00 da manhã.”
–Bem... ainda nem são 20:00. Se formos dormir agora, talvez dê pra acordar as 4:00...
–Não! E o passaporte do Louis? E o fato de ele estar sendo procurado?
Primeira classe e jatinho. Eu nunca havia viajado de avião em toda a minha vida, imaginar isso em alto estilo era quase impossível em minha vida. Porem eu não podia sair do Brasil, não sem falar com minha mãe, eu tinha muito que falar. Eu tinha certeza de que ela me amava como mãe, ou me amou uma vez... não poderia partir sem antes vê-la uma ultima vez.
–Não, eu preciso falar com a minha mãe... Por favor vamos até ela agora. Poderemos pegar meu passaporte.
Katzea me olhou com uma de suas sobrancelhas para cima. Depois seu olhar passou a fitar o chão enquanto ela mordiscava a ponta de seu dedão, ela de fato estava pensando na proposta, mesmo que tudo seja mentira.
“Você esqueceu que eu estou dentro da sua cabeça.”
–Droga!
“Ele está mentindo, mas não há problema, Ophelia fez um falso passaporte para você, ela faz isso muito bem.”
–Vai logo se acostumando, cara. No começo o Flinn tinha uma mania feia de criar personalidades distintas.
–Era um dom! – Atestou o tagarela.
–Enfiar uma tesoura na própria perna era um dom também?
Pela primeira vez um ar frio rodeou Flinn, ele olhou com desgosto para Katzea, quase como se não a conhecesse.
–Nunca mais repita isso. – Ele disse, sua voz arranhava sua garganta, baixa, quase como um sussurro.
O frio naquele quarto continuou por um tempo, eu queria poder não entrar no meio de uma briga de irmão tão de repente, mas eu tinha de tratar dos meus próprios assuntos.
–Eu preciso ver a minha mãe.
“Você está sendo procurado, é muito arriscado.”
Por quê? O que é tão urgente que não me sobram 10 minutos para ver minha mãe? Eu passei seis meses esperando por ela, até que ela finalmente criou coragem para ir me visitar. Tudo porque Joyce a chamou. Talvez o que eu fiz tenha feito com que ela lembrasse de que, na verdade, eu sou só um rato de laboratório de quem ela tomava conta. O verdadeiro filho dela está morto.
“Louis, vou repetir a pergunta que lhe fiz um pouco antes de tudo isso acontecer: Estranho, não?”
–O que? – Eu não lembrava muito bem daquela pergunta, mas não me era estranha.
“Sua mãe não lhe visitou uma só vez, mas não foi porque ela não quis, foi porque aquela mulher mandava relatórios semanais dizendo o quão instável você estava.”
–Isso é impossível, ela precisaria comprovar que eu era instável demais!
“O poder dita as regras, Louis.”
Katzea, que antes estava vasculhando algo na mala que ficou na pousada, parou e prestou atenção em como eu reagiria. Flinn foi até a mala e com apenas uma olhada em seu interior encontrou o que ela estava procurando. 3 passaportes.
“Aquela mulher de mãozinhas sujas, nossa vingança contra ela já deve estar estampada em muitos jornais.”
–O que você me fez fazer?!
“Nada! Nada, ela deve estar bem, sadia, sem machucados. Eu apenas invadi o computador dela enquanto vocês falavam na sala de interrogação e peguei todas as imagens dela e do paciente 90.”
–Quem é o paciente 90, quem é essa mulher? – Katzea não fazia a menor ideia do que estávamos falando.
“A psiquiatra de Louis o assediava e também fazia isso com o paciente 90 antes dele.”
Ambos, os dois na minha frente ficaram sem reação. O rosto de Katzea de repente se fechou e eu pude ver o puro ódio em suas feições, novamente engoli seco. Flinn me olhava com a boca entreaberta.
–Sinto muito, cara...
–Papa... ?- Katzea mantinha sua expressão.
“Sim?”
“Dime lo que has echo...- Ela estava com tanta raiva de Joyce, que poderíamos ter sido bons amigos naquele hospício.
“Eu consegui rastrear através do computador de trabalho dela o endereço eletrônico de seu computador particular. Ela possui uma enorme biblioteca de pornografia infantil, abusiva e ainda encontrei muitas outras fotos do Louis. Todas as informações dela estão agora nas delegacias de policia de todo o Amazonas e em boa parte das redes sociais.”
–O que?!
“Claro que suas fotos não... eu as apaguei uma por uma e a cada uma que eu via, guardava em um lugar especial do meu ódio o rosto daquela mulher.”
–Deveria tê-la trancado em um quarto especial e quebrado a tranca automática de um jeito que ela morreria de sede antes de ser resgatada!
–Eu só discordo de você na parte de mata-la.
Ela ficou nervosa, eu estava adorando assistir aquilo. Quase me esqueci dos problemas que estava vivendo ao ver Katzea preocupada comigo, mas eu nunca quis matar Joyce.
–Louis, ela deveria estar lá para te ajudar! Não para...
–Katzea, matar nunca é a solução. Você sabe o que aconteceria se tivéssemos atacado aquele senhor na fazenda? Estaríamos mortos no chão por causa da espingarda dele. Morrer é o fim de tudo, e é eterno. Não queira matar nem morrer.
–Caramba... posso colocar isso embaixo da minha foto de formatura do ensino médio? – Disse Flinn. Ele estava de volta de sua sombra repentina.
–Faça um acordo comigo. Irei aonde você quiser. Tibete se até possível, mas me deixe ver minha mãe mais uma vez.
“Cuidado com os contratos que você faz, pequeno cuco, com vozes que você escuta na sua cabeça. Você lê a bíblia?”
–Sim ou não?
Ele demorou muito para me responder, podia ver que Katzea estava torcendo para que ele negasse. Mesmo que assim o fizesse, o que me impediria de correr o máximo que eu puder para chegar até ela? Ah sim. Flinn correria atrás de mim como um galgo corre atrás de um coelho, e Katzea me espancaria até eu passar mal.
“Sei que vou me arrepender amargamente disso, mas sim. Acho que já causei dor demais a sua família.”
Eu só precisava de 10 minutos com ela, nada mais e nada menos.
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