O Esboço dos Anjos

6 Minha Criação, Minhas Decisões


Notas iniciais
Para todos que eu deixei na mão e que acompanharam esta história desde seus primeiros dias, sinto muito pela demora. Problemas muitos pessoais surgiram e eu não tive muito tempo para escrever, mas agora que voltei e cheia de inspiração, já criei uma outra nova história também e vou começar a correr atrás do prejuízo. Obrigado pela passiência e por favor, se gostam da minha história me mantenham infirmada disso, é muito especial para mim.

A história do cuco é muito antiga e conhecida. O cuco coloca seu ovo no ninho de outro pássaro e depois vai embora; o cuco nasce primeiro que os filhotes do outro pássaro e em questão de algumas horas expulsa os outros ovos do ninho, ganhando a atenção de seus pais adotivos mais facilmente. Conviver com essa vantagem também é conviver com seu defeito, pois se a fêmea do cuco colocar mais de um ovo no mesmo ninho e os dois chocarem ao mesmo tempo, estes batalharão até a morte de um para que o outro possa ter controle absoluto sobre os pais adotivos e sobre o ninho. Sempre é bom ter cuidado com um cuco, ele é possessivo e matará pelo que é “seu”.

–Eu me sinto enjoado...

–Completamente normal.

Eu estava no laboratório ilha de Marius e deitado no divã de seu escritório, ele colocou uma espécie de capacete bem fino em minha cabeça. Ele possuía uma serie de longos fios que o cercavam e que no final de suas pontas havia pequenas ventosas que foram presas com um tipo de cera em meu coro cabeludo.

–Por que preciso usar isso?

–Aumenta o campo de alcance das suas conexões com as minhas.

Ele era um homem de meia idade, seu cabelo era cacheado e de um castanho um tanto claro misturado com fios grisalhos que lhe apareciam nas áreas perto das orelhas. Ele tinha olhos negros e vorazes, mesmo quando me olhava com um sorriso.

Eu estava diante do idiota que arruinou a minha vida e eu estava o deixando mexer na minha cabeça, só porque eu estava curioso. Quem é o idiota nesta sala mesmo?

–Então... como está o seu relacionamento com seus irmãos?

–Não os tenho como irmãos.

–Exceto por Kattie e Flinn, não é? – Filho da mãe. Sempre me esqueço de que ele pode escutar o que a minha boca não quer falar.

–Tanto faz.

Estávamos todos juntos na ilha já faziam 3 semanas, foi Nile que nos recepcionou. Assustei-me ao ver que diferente dos outros eu tinha algo em minha aparência que era semelhante a ele, tínhamos a mesma cor dos olhos, âmbar bem claro. Ele tinha cabelos castanhos claros como os de Marius, mas não cacheados como os de Flinn. Também percebi o quão os olhos de Katzea são parecidos com os de Marius, era como se focemos partes diferentes de um quebra cabeça que montado resultaria no Dr. Frankenstein. Com exceção de Ophelia, ela não parecia nada com ele, tinha um belíssimo tom de pele um tanto morena e sardenta com grandes olhos azuis profundos e cabelos pretos com algumas mechas coloridas. Seu rosto bochechudo com uma pequena boca lhe dava a aparência de um brinquedo. Voltando a Nile que era diferente em aspectos não físicos do resto dos irmãos, ele possuía uma aura que fazia você segui-lo onde quer que ele fosse como um líder. Eu temia aquela sensação, eu não queria me ver em uma correnteza da qual minha única opção era nadar a favor. Porem todo aquele conhecimento e todas as possibilidades que eu tinha de aprender com ele, como ver a situação atual de cada país sem aquelas besteiras alienadas que os governos usam para você achar que está tudo bem aqui e ali, como aprender coreano ou francês em questão de segundos apenas fazendo downloads do computador principal que ficava na sala de Marius. Eu queria aprender, eu queria saber... cálculos, formulas, teses e línguas. Eu me sentia ignorante em relação a tudo que ele sabia, ao mundo em que ele vivia.

–Então é assim que se sente em relação ao Nile, interessante...

–Cala boca.

–Também é interessante que ainda me trate assim, é o único que eu consigo perdoar, mas pelo seu próprio bem e pela nossa sanidade, vou te livrar do seu fardo...

Ele começou a pressionar pequenas áreas do capacete, onde parecia haver botões espalhados, como os de um controle remoto. Eu sentia uma estranha sensação em minha cabeça, como uma vibração, toda vez que ele o fazia.

–Vou vomitar. Pare. – Eu tentei segurar seus pulsos, mas algo me assustou, não conseguia me mover direito. Meu corpo parecia pesar mais de uma tonelada.

–... Tenho que fazer isso, você vai me agradecer mais tarde.

Meus olhos se fecharam. Eu escutava minha própria respiração e meus próprios batimentos de uma forma tão alta que se assemelhavam a um tipo máquina, uniformes e pesados. A sensação era semelhante a um tambor preso em um grande balão de ar, que secava e enchia enquanto o tambor batia em um perfeito ritmo.

Já não conseguia mais abrir os olhos, eu sentia uma dor em minha cabeça que não me era estranha, a mesma dor de cabeça que senti antes de sair do HPF. Uma eternidade havia se passado, eu me sentia desesperado e abandonado.

–Louis! Louis! – Era a voz de Katzea, sua voz era melódica, mesmo que às vezes áspera por sua personalidade. Estava um pouco abafada, mas na verdade eram meus ouvidos, eu sentia que havia água dentro deles... – O que fez com ele?! Papa, ele está sangrando!

Tentei abrir meus olhos, mas eles ardiam como se estivesse sujos e minha boca tinha gosto de ferro. Eu não conseguia respirar bem.

–Vai ficar tudo bem... não se preocupe... – Senti alguém me envolver e meu corpo pesou, eu estava sendo carregado. – Era a voz de Marius.

–Pensei que só repararia o chip, o que você fez?!

Ele andava rápido e eu podia perceber, pois estava me sacudindo e seus passos juntos aos de Katzea ecoavam em minha cabeça. Ah... como ela doía. Tentei mover meus braços, com um pouco de sucesso, mesmo bem fraco pude levar minha mão até meu rosto e então limpei meus olhos. Então finalmente pude ver melhor, minha palma na frente de meu rosto estava ensanguentada, olhei para Marius que me carregava, seu rosto apenas expressava uma coisa: Pânico.

–Pai...

–Ele acordou! – Disse Katzea.

Por que o chamei de pai, eu não o chamo assim.

–Louis. – Ele se ajoelhou no chão e então me deitou gentilmente em seu colo. Katzea estava usando pijamas ao seu lado, que horas eram? Lembro-me de ter chegado ao laboratório por volta das três da tarde. – Perdoe-me... eu fui impulsivo.

–O que quer dizer com “impulsivo”? – Katzea mantinha seus olhos em mim, ela estava quase chorando de medo. Vê-la assim me fazia sentir que eu deveria estar péssimo, talvez morrendo.

–Eu, bem, me chateei com o relacionamento que eu tinha com o Louis... pensei que fazendo o que eu fiz talvez as coisas melhorassem. Eu pensei que assemelhando diretamente meu rosto e meu nome no código do chip à palavra “Pai”, talvez ele se aproximasse de mim. – Seu rosto contorceu-se em desaponto para com ele mesmo. – Mas não foi só isso, eu também... bloqueei algumas lembranças daquele outro garoto.

–Que garoto...? – Do que eles estavam falando?

–Dios mio... Não precisava ir tão longe, Caio ainda era importante para o Louis! – Ela cobriu seu rosto com as mãos e respirou bem fundo. – Pelo menos conseguiu reparar o chip?

–Eu consegui. Porém algo de inesperado aconteceu, o chip perdeu por alguns segundos o controle sobre o cérebro do Louis e então ele

teve um aumento da pressão arterial, sangrou um pouco e aqui estamos... Mas não é nada que cause um dana crucial... ou permanente.

As minhas forças foram se recuperando de minuto em minuto, Marius e Katzea discutiam questões das quais eu não me interessava muito em escutar, eu só esperava ali, deitado. Levantei-me de repente quando senti minhas pernas mais firmes, assustando os outros dois que agora calados me observavam caminhar pelo corredor prateado e elegante do subterrâneo do laboratório. Eu estava procurando um banheiro, escutei os dois andando atrás de mim, me seguiam como se eu fosse um ratinho dentro de um labirinto num experimento de ensino médio.

–Eu não quero que você entre comigo. – Parei em frente à porta do banheiro, ele ficava no meio do corredor.

–Por que eu sou uma menina?! E se você passar mal ai dentro?! – Katzea bufava de raiva. Mas na verdade ela só estava nervosa.

–Não, você não... Estou de saco cheio dele! – Apontei para Marius.

Katzea congelou sua cara de surpresa, segurei-lhe pelo braço e nós dois entramos, deixando meu pai, quer dizer, Marius, do lado de fora. Ou sua pele estava muito gelada, ou eu estava com febre, o que olhando bem para a situação do “acidente” poderia ser ambos; aquilo tudo de exames dia após dia, testes psicológicos e para reflexos, desintoxicação da medicação antiga para começar uma nova. Eu ainda acordava no meio da noite sentindo uma vontade incontrolável de comer ou ir ao banheiro, tinha sempre dificuldade para pegar no sono. Aprendi que você pode sair do HPF, mas o HPF não sai tão fácil de você. Aquilo tudo dia após dia iria acabar me deixando realmente louco.

–Eu... acho melhor você limpar seu rosto.

–Não me diga, estou todo ensanguentado! – Ela me olhou magoada.

–Desculpe, não queria falar assim com você. É que... o nosso pai é um idiota, e eu não entendo por que ele me castigou com isso.

Sentei-me no chão do banheiro e segurei meus cabelos com força, aquela velha mania para me lembrar de que eu era real, minha vida era real. Não era um pesadelo. Mas me fazia sentir como se estivesse em queda livre em direção ao fogo.

Katzea se aproximou da pia e pegou uma das toalhas que estavam penduradas nela, começou a encharca-la e depois foi até mim. Ela começou a limpar meu rosto, mas toda vez que eu tentava poupa-la e aproximava minha mão da toalha acabava recebendo um golpe no ombro.

–Não senhor!

–Nossa... O.K, O.K, você ganhou, divirta-se limpando sangue.

Quando ela terminou, eu olhei para suas mãos que estavam sujas ainda, seu pijama também. Ela parecia uma criança de joelhos na minha frente.

–Pronto, agora você está menos parecido com um lutador de WWE pós-luta.

–Obrigado.

Coloquei minha mão em sua nuca e trouxe seu rosto para perto, encostando sua testa na minha. Fazíamos muito aquilo em nossa família e às vezes entre vizinhos, era um comprimento ou até mesmo um gesto de gratidão e amizade. Era normal manter os olhos fechados durante este tipo de gesto, como uma oração, mas então eu abri um deles e vi que Katzea estava de olhos esbugalhados me encarando.

Sua testa começou a ficar quente, quando eu cancelei nosso encontro de pele vi que ela estava novamente vermelha. Ela era uma garota engraçada, quase bipolar, se é que ser bipolar é engraçado, acho que não. Ela tentava falar alguma coisa, mas eu não conseguia escutar, pois ela gaguejava. Foi então que ela me surpreendeu com outra coisa, seus lábios se encontraram rapidamente com os meus e nossos narizes se bateram enquanto ela segurava meus ombros com suas unhas, em seguida me empurrou e saiu correndo em pânico do banheiro.

–O que acabou de acontecer...?

“Louis, irmão.”

–Espera ai, Flinn?

“Cara não quero ser alarmante, mas eu acho que quero te bater.”

–Como você conseguiu falar dentro da minha cabeça, e o que!?

“Calma cara, é só um jeito de se dizer que você é ‘O Cara’, sacou?”

–Eu... acho que sim.

“Você acabou de comprovar uma das teorias do papai!”

Eu ainda estava atordoado com o que acabara de acontecer, sai do banheiro e olhei ambos os lados do corredor para checar se Katzea estava por perto. Claro que não estava.

–Qual teoria?

“Hormônios, cara! Irmãos produzem hormônios que os fazem não se atrair. Mas nós não... o papai fez um experimento com os embriões antes de coloca-los nas mães...”

–Quer dizer que... O que ele esperava ganhar com isso?! E Katzea, ela... ela...

“É, ela caiu na sua teia, sinto muito. Melhor resolver isso. Tenho que desligar o computador central antes que o Nile veja, ou ele vai me dedurar. Fui!”

Ah... então através do computador central é possível nos vigiar também? Era tudo o que me faltava. Eu não precisava ser apenas um doido rejeitado pela medicina e experimento fracassado... eu precisava de uma garota louca que também era minha meia-irmã para se apaixonar por mim sem motivos aparentes.

Precisava me deitar. Não havia ninguém no mundo mais cansado e confuso do que eu, apenas queria ir para meu novo quarto.

Cada um de nós possuía um quarto espaçoso só seu e com camas muito confortáveis, estantes para livros, escrivaninha com laptop e o que mais desejássemos ter através de encomendas. Eu tinha algumas roupas que foram encomendadas por Nile, mesmo com Ophelia desejando remodelar pessoalmente meu armário. Ela possuía uma obsessão estranha em me estudar e em opinar sobre o que eu gosto de usar, falar e comer.

–Lou-is! – Alguém soletrou meu nome com uma voz fina e perturbadora. Olhei para trás e vi Ophelia saindo do elevador no final do corredor. Falando no diabo...

–Ophelia. – Ela usava uma camisa enorme da banda “Hollywood Undead” que tocava na metade de suas coxas.

–Eu estava procurando pelo papai, senti que havia alguma coisa de errado com ele...

–Eu não o vi desde que fui ao banheiro e, bem, entrei e sai agora. Então não sei pra onde ele foi.

Ela correu até mim, colocando seus braços envolta de meu tronco como uma criança e me apertando em seu abraço. Ela esfregava seu rosto em meu tórax como em um gesto de carinho que amigos de muitos anos fazem, eu estranhei sua ação. Não gostava da aproximação intensa e repentina das pessoas. Algo que me classificava como tímido... ou apenas normal.

–Como Flinn sempre diz, toda viagem vale a pena. – Ela sorriu me mostrando seus pequenos dentes, mas caninos pontudos. – Sabe, eu estava indo falar para o papai que tem algo me fazendo mal no meu quarto, então eu poderia dormir em um dos outro quarto com um de vocês enquanto se resolvia... – Ela se afastou e colocou suas mãozinhas atrás de seu corpo, balançando seus ombros e me olhando debaixo.

–O que houve com seu quarto?

–Eu tenho um problema em meus alvéolos. A temperatura e a pureza do ar têm que estar perfeitas, mas a parte do sistema de ar que passa pelo meu “covil” não tá muito... sadia.

Ela me olhava de maneira suplicante, eu estava tendo um mal pressentimento, um breve arrepio em meus braços que antigamente me atingiam quando eu estava diante da sala onde Joyce “brincava” comigo.

–Você espera dormir no meu?

–Seria ótimo! – Ela vibrou.

–Isso não é uma confirmação. Por que não dorme no de Kat...

–Não! – Ela me interrompeu antes que eu citasse Katzea, agora pensando bem, acho melhor ela ficar sozinha mesmo. Ophelia só perturbaria seu raciocínio. – É que... Seu quarto é... uhm...

Ela estava confusa com suas palavras, estava procurando uma desculpa em sua cabeça, aquilo era ridículo.

–O que tem de mais o meu quarto?

–É novo. – Disse ela confiante, como se eu lhe tivesse dado uma dica do que me responder. – Foi muito bem limpo antes de você voltar... então deve estar em ótimo estado... não é?

–Faz sentido, mas nem tanto assim.

–Por favor, não me faça correr atrás dos outros... estou ficando com sono. Meus pilmões não são mais os mesmos e isso me faz mal. – Eu estaria mentindo se dissesse que não senti pena dela.

Eu também já estava com sono demais para ficar negando-a até encontrarmos outro quarto.

–Certo, você pode vir.

Ela se animou e agarrou minha mão, levando-me até o elevador. Ela apertava meu pulso com força e o elevador parecia se mover tão rápido quanto um cadáver, deste modo minha mão estará no chão em alguns minutos por causa da má circulação.

–Louis, queria que você soubesse que é meu favorito de todos! – Ela me olhou com seus enormes glóbulos oculares azuis.

–Perdão...?

–Dos outros, Kattie, Flinn e Nile. Principalmente Nile, tudo que ele fala é chato, sem diversão.

–Eu não acho isso dele. – Pelo contrário, Nile era um gênio, descobri isso na segunda semana aqui.

Nile me ensinou a tocar piano em 1 hora. Meu chip podia ter uma má conexão com o chip de Marius e com o computador central, mas ele aceitava informações dos meus irmãos. Infelizmente desaprendi tudo em um único dia, pois meu chip ainda possuía seu pequeno defeito de fábrica.

–Acho que tem alguém com inveja... – Ela deu um meigo sorriso.

–Talvez, eu diria que tenho uma inveja positiva em relação a ele.

–Isso tem outro nome, Louis. Admiração.

–Você tem razão.

Ela soltou meu pulso e deu um pequeno paço para traz.

–E Kattie?

–O que tem ela? – Eu levantei minha sobrancelha para ela.

–Você gosta dela?

Sua pergunta me levou de volta para a lembrança do banheiro, como eu resolveria minha proximidade de Katzea? Eu não sabia nem como estava reagindo aquilo, para mim o choque da realidade ainda não havia me tocado. A pergunta era: Como farei minha suposta irmã voltar a sua sã consciência? Para mim aquele tipo de coisa estava a dois continentes e meio de ser normal. Aquilo me fez engolir seco.

–Ela foi a primeira que eu conheci. Mas tem outro motivo... eu não consigo lembrar.

Minha cabeça voltou a doer, mas apenas levemente. Eu então me senti tonto de um jeito que nunca havia me sentido antes, pois haviam flashes de memórias indo e voltando como fragmentos de um filme. Sentei-me no chão e vi uma última imagem. Eu estava de joelhos no hotel, Flinn a minha frente e Katzea, ela me abraçava com tanta força que eu podia sentir seu calor e seus batimentos cardíacos naquele momento. Eu me lembrei de algo que ela havia perguntado a Marius antes do que ocorreu no banheiro, mas talvez Ophelia pudesse me responder.

–Ophelia...

–Louis, Você tá bem? – Ela pôs suas mãos em meus ombros.

–Quem é Caio?