O Esboço dos Anjos

2 3 Badaladas, 3 Cucos


Sentia que estava sentado, minhas costelas doíam um pouco e eu, exausto, não tive coragem de me mover. Havia um cheiro estranho e forte de fumaça, era como couro queimado misturado com o cheiro de alguém fazendo almoço, não conseguia abrir os olhos, pois minha cabeça ainda estava sendo atacada por uma leve dor de cabeça.

–Caio... não fume com a mamãe dentro de casa...

–Não sou o “Caio”. – A voz era de uma garota, eu abri rapidamente os olhos e tentei ficar de pé ao mesmo tempo, cai de cara no chão, ainda usava a camisa de força. Consegui na segunda tentativa.

Eu não estava no hospício, estava cercado de árvores e plantas, o cheiro do húmus era bem forte e eu podia escutar a sinfonia dos insetos. Eu poderia estar em alguma parte da reserva, de frente para uma garota bem estranha assando um pequeno animal em uma fogueira. Já era final de tarde, há quanto tempo eu estava... ?

–Quem é você? Por que eu estou aqui?! – Ela me olhou como um lobo, eu não dava a mínima se ela era uma garota ou não, chutaria o rosto dela se em vez de me responder tentasse me machucar.

–Sou Katzea. Katzea Salieri.

Ela era tão pálida que poderia refletir a luz do sol, morreria sem um protetor fator 60. Tinha olhos bem negros e iguais aos seus cabelos que batiam em sua cintura, devia ser um pouco mais baixa que eu, mas estava com certeza em melhor forma. O jeito como ela pronunciava seu nome também era diferente.

–Eu não sei o que está acontecendo...

–Isso é o estranho, não entendo o porquê de você ser o único que não sabe o que está acontecendo. Depois do chamado, ele só nos disse que você estava vivo recentemente.

Chamado? Ele quem? Eu acabei de escapar de um hospício, depois disso eu vou ser preso para o resto da minha vida, pelo menos vou estar longe daquela mulher. O que tornava tudo mais estranho ainda é: como eu escapei do HPF mesmo? Tudo o que lembro é da dor, muita dor, de Joyce praguejando também. – Coisa rara de acontecer – talvez o novo gerador tenha falhado.

–Como eu saí daquele hospital? Você... ?

–Não tirei o seu corpo de lá.

–O meu corpo... ?

–Sim. – Ela se levantou, usava uma jaqueta bege suja e uma camisa da Disneyworld Park branca com um Mickey bruxo desenhado, sua calça jeans preta tinha um rasgo no tecido do joelho. – Você veio andando até aqui, como combinado.

Como um sonâmbulo, eu acho que ela quis dizer, como passar por tantos seguranças sem ser impedido ou pelo menos visto? Eu não escutava a voz, será que meu outro eu entrou em colapso e finalmente me abandonou?

–Combinado de que?

–Temos muito que conversar, mas pouco tempo, coma o coelho e depois vamos embora. – Ela se aproximou de mim, tirou do bolso de sua calça um canivete e cortou todas as partes que amarravam minha camisa de força e então parou seu olhar em meu rosto. Limpou a sujeira que eu adquiri caindo de cara no chão, mas mesmo depois disso ela continuou me olhando.

–Algum problema com a minha cara?

–N-não, — Ela virou-se de costas para mim rapidamente e foi até a fogueira em passos largos. — só seu cabelo. Está grande, se quiser meu canivete emprestado depois, pode corta-lo.

–Onde nós estamos exatamente...

–Faz sempre tantas perguntas, Dios mio! Meu primo de 5 anos de idade não fazia tantas perguntas assim. – Ela bagunçou os cabelos com as duas mãos, estava nervosa, com certeza não era daqui.

Não escutava o som dos micos, não estávamos em uma reserva – elas são barulhentas de dia, mas a noite você pode sentir o suspense – eu olhei em volta e vi de longe, nos observando, um cachorro vira-lata. Adoro vira-latas, são os mais carentes e fiéis, em minha opinião.

–Me desculpe senhorita, mas eu acordei com uma garota que eu nunca vi na vida no meio do mato, depois de uma crise no hospício em que eu fui colocado depois de matar o meu próprio irmão. Eu tenho perguntas que eu quero que você responda agora, não depois.

–Por favor, Louis... – Ela olhou por cima de seu ombro para mim, seus olhos eram como um universo vazio e solitário, ela me parecia bem triste. – Você acha que é o único que acordou em um lugar estranho. Antes de te responder eu preciso receber as minhas próprias respostas.

Cada vez mais suspeita, ela se sentou perto da fogueira e vestiu uma luva acolchoada, retirou o animal empalado e juntou o espeto de ferro a uma base de madeira ao lado da fogueira. Um pouco mais distante havia uma mochila, também da Disney, – o que ela era? Fanática? — ela a abriu e retirou uns pratinhos descartáveis.

–Segure para mim. – Ela me chamou para perto da fogueira, eu estiquei minhas mangas e usei o que sobrou das amarraduras para deixa-las assim, próximas do meu cotovelo. Sentei-me ao seu lado mas ela logo se levantou ao me entregar os pratos, 3 três pratos, mas éramos só dois.

–Para quem é o terceiro prato? – Estava cortando o coelho com o canivete quando olhei para ela, eu não usaria aquele canivete no meu cabelo, não usaria mesmo.

–Para a pessoa que destruiu o gerador do HPF. – Ela olhou para mim e deu um sorriso travesso, me estendeu a mão e eu lhe entreguei o primeiro prato. – Ele vai chegar logo, eu sei disso.

Enquanto eu lhe entregava os pratos e ela os enchia de tiras de carne do coelho, o céu escurecia e eu estava ficando preocupado em estarmos no meio do nada e de maneira tão desprotegida. Ela se sentou ao meu lado e começamos a comer. Comer com as mãos já estava quase se tornando um costume para mim, já que no Freud alguns cuidadores não se importavam nem se você estava comendo a própria merda. De vez em outra, Ernesto me deixava levar uma “colher-garfo” comigo para o quarto branco, eram de plástico, então eu não poderia fazer nada demais com elas, eu só queria garantir que uma vez a cada dez refeições eu comeria sem parecer um animal.

–Está muito bom. – Eu não comia carne de verdade há um bom tempo. – Obrigado pela comida.

Ela ficou vermelha, e sem responder nada só colocou um tira de carne na boca e fez uma careta como se eu estivesse brincando com a cara dela. Katzea parecia ser o tipo de garota que não recebia muito elogios. Eu não pude segurar meu riso, ela me olhou furiosa.

–Do que você ri?

–Por um segundo seu rosto parecia um tomate. – Seus olhos se arregalaram, mas era verdade, seu rosto era bem redondo e de repente ficando vermelho, ele se tornou um tomate.

–Niño estúpido! – Ela quis se levantar, para me bater provavelmente, mas o prato da pessoa que ainda não tinha chegado estava sobre seu colo, foi por pouco que ela lembrou.

–De onde você é?

Ela hesitou um pouco. Continuou comendo sua carne, fiz o mesmo, por um segundo aquilo me fez lembrar de minha mãe. Eu fiz um cartão de dias das mães para ela quando tinha 4 anos e ela me disse que eu só estava desperdiçando a tinta das minhas canetas coloridas que eram para trabalhos da escola, que era caro para ela compra mais. Aquilo havia me magoado muito, até os 10 anos eu não fiz nenhum desenho ou cartão para ela, então achei aquele cartão antigo e dobrado na carteira que ela sempre levava consigo. Estava junto de uma foto minha e de Caio juntos num parque de diversões – Foi um dos únicos dias que esqueci o quão egoísta meu irmão era. Ele me ensinou a andar de skate – Talvez ela tenha dito aquilo para mim por estar cansada do trabalho, ela sempre trabalhava duro na loja de consertos de nossa vizinha, mas as recompensas sempre iam para a casa ao lado. Nosso luxo era a água, luz, uma TV que eu mal podia tocar, alguns jogos de tabuleiro com peças faltando e a comida saborosa que só minha mãe conseguia fazer, eram de dar inveja a qualquer dona de casa. Eu tinha o antigo skate do meu irmão também, depois de um tempo ele não queria mais saber daquele skate e nem da escola ou de qualquer outra coisa que não fosse a maldita namorada dele que estava sempre lhe vendendo drogas.

–San Diego.

–San Diego?!

–Algum problema? – Ela terminou seu prato e pegou de sua mochila um saco plástico preto, colocou o prato usado dentro.

–É nascida e criada?

–Sim.

–Você fala português muito bem. Tem algumas recaídas, mas fala bem. Pelo menos não tem sotaque de quem fala inglês.

–Nem todo mundo de San Diego fala inglês. Eu sou fluente em português, espanhol, inglês, alemão e latim. Minha mãe era mexicana, meu padrasto é de San Diego.

–Incrível, como sabe tantas? É tão nova. – Eu nunca tinha conhecido uma poliglota tão nova antes, na verdade eu nunca tinha conhecido nenhum poliglota. Ela novamente ficou vermelha, eu não pude me conter e acabei rindo de novo.

–Quem ri tão alto? Desse jeito vão nos encontrar. – Uma voz atrás de mim fez com que eu me estremecesse. Olhei bem devagar para trás e me deparei com um garoto de cabelos cacheados e loiros, sua pele era bronzeada e ele tinha o rosto coberto de sardas, mas o mais impactante era seu tamanho, era enorme, deveria ter 1,90 M.

Primeiro ele olhou para Katzea e lhe abriu um largo sorriso, depois olhou para mim e seu sorriso abriu mais ainda, pensei que sua boca fosse rasgar, seus dentes eram de certo modo grandes, ele estava me assustando.

–Você saiu ileso, mas que sorte! – Ele se aproximou de mim e me abraçou com a força de uma sucuri, senti meus ombros estralarem. – Estou tão feliz! Logo vamos estar todos juntos e tudo vai poder começar! — Ele me sacodia de um lado para o outro, meu prato caiu no chão, ainda bem que só faltava uma mordida.

–Eu... acho que não nos conhecemos. – Tentei me libertar de seu abraço assassino, em vão, mas ele logo se conteve.

–Foi mal, — Com a mão na testa ele dava pequenas risadas nervosas, quantos anos a cabeça dele tinha? 12? – Meu nome é Flinn Steinner, você pode me chamar só de Flinn, ou só de Steinner, tanto faz, é um prazer te conhecer cara. Caramba! Todo mundo achava que você estava morto e ai: Caboom! O papai falou tipo: Ei! O Louis tá vivo. Então eu fiquei: Nossa, fala sério?!... – Do que diabos ele estava falando, parecia uma metralhadora.

–Flinn. – Katzea respirou bem fundo.

–... Ele bem que podia ter avisado antes, se não a gente não gastava tanto dinheiro indo e voltando do Brasil. Minha mãe não tá nem ai pra onde “viajo” com os meus amigos, mas foi diferente pra Katzea e...

–Flinn! Cala a boca!

–Desculpe.

–Tome, assei um coelho. – Ela lhe entregou o prato que estava em seu colo.

–Não devia ter roubado. –Flinn se sentou no meio de nós dois.

–Esse sítio é uma criação, eles nem vão dar falta dele.

–Então isso é um sítio, para ele você respondeu.

–Eu disse que te responderia algumas coisas depois de comer...

Flinn não comeu a carne, ele a devorou quase sem mastigar. Ele parecia o típico garoto atleta que é o queridinho da sala, mas eu não fui muito com o entusiasmo dele.

“Não crie opiniões sem conhecê-los bem.”

–Você! – Então ainda não tinha partido, mas que droga, eu poderia me considerar esquizofrênico para o resto da vida. Nunca se deve cantar vitória antes da hora.

Katzea e Flinn me olharam assustados, mas é claro, era a primeira vez que me viam conversando com minha cabeça. Eu só precisava ignora-lo o máximo que minha paciência permitisse, eu me livrei da maior dor de cabeça da minha vida, uma hora ou outra eu conseguiria me livra dessa voz sem parecer mais louco do que já estou.

–O que foi?

–Nada...

“Policiais estão procurando por você e por mais seis pacientes que fugiram do hospício hoje por causa da falha no gerador, uma viatura parou no sítio em que vocês estão. Avise aos outros para acessarem a conta bancaria de Katzea, quatro mil euros foram depositados. Saiam do país ainda hoje.”

Mais o que? Eu estava assistindo a algum filme na minha cabeça, com certeza. Passei um dia inteiro sem tomar os remédios que o HPF me dava e acabei piorando, era a resposta óbvia. Meu dia não podia ficar melhor. Droga...

–Cara, você já é amarelo, mas por um segundo você praticamente não tinha cor. – Flinn estava me olhando e eu podia ver certo grau de preocupação em seu rosto. – O que houve?

–Eu só estou tendo uma reação ruim com a ausência dos meus remédios...

–Sinto muito... – Ele olhou para o chão, seus olhos se moviam como se procurasse algo. Ele encontrou o prato de plástico que eu deixei cair e o apanhou, juntando ao dele. – Katzea, você trouxe algo para servir de lixo?

Ela pegou a sacola preta ao seu lado e passou para Flinn, ele colocou tudo dentro e depois a amarrou. Aquilo nele era um traço bem educado, diferente da explosão de palavras e do abraço mortal. A voz tinha razão, novamente, fiz mal em julga-lo.

–Bem... Louis, precisamos ter uma conversa bem séria agora. Tudo o que você ouvir agora, foi dito para nós quando tínhamos 14 ou 15 anos.

–Nós você quer dizer, você e o Flinn.

–Não, eu quis dizer eu, Flinn e mais duas pessoas que você ainda vai conhecer.

–Algum de vocês é brasileiro?

–Não, isso é tão legal, eu nunca pensei que um dia eu viajaria pro Brasil! É quente e as comidas são gostosas! – Flinn estourou de novo. – Têm muitos lugares bonitos de se visitar, pena que a gente não pode ver muita coisa né, Katzea? Eu queria surfar, mas Manaus é bem no meio do norte, mas eu vi um macaco-prego pela primeira vez! Ele arrancou um pedaço do meu cookie.

–Flinn, morde a língua!

–Desculpe.

–Louis, fomos mandados para cá pelo nosso pai.

–Eu achei que vocês fossem só uns amigos... é que você não se parecem tanto. Não dava pra imaginar que os dois fossem irmãos.

–Isso vai ser um pouco duro de engolir, Louis, o fato é que... – A voz dela estava um pouco trêmula, alisava uma mão na outra como se temesse algo, talvez alguém.

–Você é nosso irmão também, cara! – Não, chega dessa brincadeira. Eu vou só me levantar e voltar para casa, tentar me despedir da minha mãe e fugir, não quero voltar para o HPF. Tenho que garantir o perdão dela, eu preciso do perdão dela.

–Eu vou embora, isso não faz sentido. Eu só tive uma mãe, que também me serviu de pai, a única pessoa que cuidou de mim e me criou.

Antes que eu ficasse mais irritado, escutamos um som estranho. Katzea chutou areia encima de nossa fogueira e quase instantaneamente a escuridão nos cercou. Tudo o que eu podia ver era alguns pontos de calor que continuaram na fogueira. Um cachorro latia alto e longe, mas o que escutamos não era o som de um animal. Jurava que era...

–Uma sirene. – Disse Flinn. – Temos que sair daqui...

Eu senti alguém agarrar meu pulso e me puxar, eu levantei e fui praticamente arrastado no meio da escuridão. Corremos sem parar, eu podia sentir que quem segurava meu pulso era Kateza, sua mão era fria e suas unhas estavam fincadas em minha pele. Muitas vezes as árvores nos arranharam, mas elas foram sumindo e nós chegamos a um campo aberto. As luzes de uma casa podiam ser vistas de longe, as de uma viatura também. Ao redor do gramado havia alguns pequenos postes de madeira com lampiões pendurados neles, faziam papel de uma espécie de fronteira entre o gramado daquele sítio.

–Godamn it... – Flinn bateu sua mão no próprio rosto.

Eu sentia algo muito ruim por dentro, era como se eu estivesse novamente na sala de interrogação. A voz disse que um policial estaria vindo. Não pode ser um delírio, não pode ser, é mera coincidência. Obvio que um policial já estaria no meu rastro, alguém deve ter me visto e tirado uma foto minha com a camisa de força, vagando pelas redondezas...

–Vamos agir com calma, quais as nossas opções? – Katzea andava de um lado para o outro. Ela tinha uma mania de bagunçar os próprios cabelos, eram tão lisos e finos que acabavam voltando para a mesma posição.

–Correr de volta pro mato, nos entregar e decepcionar amargamente o papai, cometer suicídio ou esperar um milagre, ou seja, o policial ir embora. – Flinn segurou os ombros dela, impedindo que ela desse mais um passo, agradeço a ele por isso, aquilo já estava me deixando um pouco nervoso.

O policial conversava com um homem do lado de fora da casa, nós estávamos torcendo para que ele voltasse para a viatura ou pelo menos fosse para o outro lado da casa. Eu podia escutar meu próprio coração, que merda eu estava fazendo, se eu me entregasse talvez não me desse tão mal.

–Se eu me entregar vocês talvez escapem.

–Você não está entendendo, Louis. Você é uma peça que falta no nosso quebra cabeça.

–Não somos irmãos, Katzea, olhe para nós. – Não me importa o plano de união familiar de ninguém, só o meu.

“O gravador está na mochila.”

–Gravador? – Ótimo, só me faltava a voz voltar a falar coisas sem sentido, como nos primeiros meses que passei no hospício, sempre querendo saber minha cor favorita, se eu já tinha ouvido falar de uma banda chamada The Cure, — É claro que sim, eu adoro essa banda – meu filme favorito, as vezes falava sobre biologia e química... eu odiava aquela voz.

–O gravador.

–Estamos salvos. – Flinn estava com a mochila de Katzea em suas costas. Ela se jogou sobre a mochila e a abriu como um leão abre uma zebra. Retirou um gravador com uma fita já dentro.

–Não...- Isso foi estranho, quase estranho demais. Isso foi igual à antes, a voz estava certa. – O que tá acontecendo, eu... eu... deixa pra lá.

–O que foi, cara? Você tá pálido de novo.

–A voz na minha cabeça, ela...

–Voz na sua cabeça?! – Katzea, parou de rebobinar a fita do gravador e olhou para mim, com seus olhos de lobo. – Você estava escutando uma voz na sua cabeça, esse tempo todo, e não falou pra gente?!

Ela foi até mim e segurou minha camisa pela gola, ela puxou meu rosto para perto do seu. Eu senti muito medo dela naquele momento, ela estava ameaçadora, seja lá o que eu fiz, fiz errado.

–Katzea... calma... – Flinn colocou sua mão no ombro dela.

–O que a voz disse?

–Avisou sobre o policial e disse que depositou quatro mil euros na conta de Katzea, mandou que saíssemos do país. Depois falou sobre o gravador.

–Ai meu Deus, você tá tão morto. – Flinn soltou o ombro de Katzea e se afastou. Engoli seco.

Tudo aconteceu rápido, ela socou meu rosto com tanta força que tudo girou e as estrelas pareciam cair do céu. Ela tinha uma ótima esquerda, meu encontro ao chão foi vergonhoso, pelo menos não fiquei tão chocado, não era a primeira vez que eu apanhava de uma garota. Acho que Joyce era uma situação diferente.

–Niño estúpido! Estamos esperando respostas dele a mais de dois dias e ele estava falando com você esse tempo todo! E você achava que era só um delírio da sua cabeça?!

Ela gritou, foi um erro, um erro enorme. O policial olhou na nossa direção e eu senti meu sangue congelar, o que fazer agora.

–Corram. – Eu me levantei e corri na direção das arvores.

Novamente estávamos no escuro, eu tentava manter o fôlego, mas eu ainda estava muito cansado desde quando acordei. Eu olhei para trás e vi uma luz se aproximando, era Flinn segurando um lampião. Ele voltou para pegar aquilo, eu não sabia dizer se ele era um idiota de ter voltado ou um gênio de ter se lembrado dos lampiões. Ele corria muito rápido, passou por Katzea que estava bem atrás de mim e depois já estava na minha frente.

–Katzea! Solte o gravador quando eu der o sinal, então vamos fazer uma volta. – Ele estava louco?! Correr tudo isso para voltar?

–Sim!

–Não! – Eu não ia ficar calado. – Se fizermos isso vamos dar de cara com o policial... – Eu não conseguia correr e falar ao mesmo tempo, eu perdi minhas forças naquele maldito hospício.

Continuamos correndo por alguns segundos até que Flinn jogou o lampião contra uma arvore, pegando fogo ao quebrar.

–Vai! – eu só pude escutar o gravador tocando o som de um bebê gritando e agonizando, era horrível, ela o jogou para trás e o som foi ficando abafado ao longo que nos afastávamos. Era uma isca para o policial.

Fizemos uma volta e depois de um tempo chegamos ao gramado, sem sinal de ninguém por perto. Passamos por um pequeno celeiro cheio de coelhos em gaiolas que deviam ser para galinhas, acho que o instituto de defesa animal deveria visitar aquele lugar de vez em quando. A casa era grande, passamos pelos seus fundos, nenhum sinal dos moradores. Foi quando chegamos na frente da casa, havia um senhor idoso que estava segurando uma espingarda sentado numa cadeira de balanço, bem de costas para nós.

Katzea se aproximou dele, eu segurei seu braço. Olhei bem no fundo dos olhos negros dela, não queria que ela se machucasse, mas também não queria que ela machucasse um senhor idoso. Eu passei por ela e fiquei parado atrás dele, quando ele me notou tentou se levantar primeiro e quase perdeu o equilíbrio, eu agarrei facilmente a espingarda de suas mãos e apontei para ele.

–Não roubamos nada, nem queremos machucar ninguém. Só nos deixe sair.

–E-eu... — Ele levantou as mãos e eu podia ver suas pernas tremendo um pouco.

–Senhor, — Retirei a munição da espingarda e joguei ambas para longe. – como eu disse, não vamos machucar ninguém.

–S-sim... — Ele ainda estava com as mãos para cima.

Corremos até a frente da casa, ainda corremos muito mais pelas ruas mal iluminadas dos outros sítios até chegarmos em minha cidade. Katzea não falava comigo e Flinn estava com medo de falar comigo e levar uma surra também, eu tirei minha camisa e andava só com a calça do HPF, que não tinha nenhuma referência do lugar, como eu estava descalço, estava igual a um mendigo. Meus pés estavam cheios de bolhas provavelmente, mas no momento a única coisa que me deixava com medo em relação a ele era sua dormência. As casas e prédios foram aparecendo aos poucos, Katzea e Flinn se aproximaram de um prédio estreito e mal cuidado de três andares com uma placa de luzes neon.

–Pousada Cerejas Congeladas. – Disse Flinn. – Legal né?

–Muito...