No meu sonho, eu estava caindo. Caindo no que mais parecia ser um túnel sem fim. Enorme, largo, escuro. Não era a primeira vez que caía, e embora já soubesse o que ia acontecer em seguida, estava tremendo de medo. Eu odiava a sensação da queda.

Assim que meu corpo desabou no chão, eu senti o frio que normalmente habitava aquele lugar. Porém, dessa vez, ele parecia algo mais sólido. Perigoso, glacial, mais gelado do que eu me lembrava e mais cortante do que jamais estivera. Estranhei, pois ontem mesmo havia estado ali, repetindo o mesmo processo que fazia desde os meus 9 anos de idade.

Eu já tenho 15.

Suspirei, observando como o ar aquecido de meus pulmões se transformava em névoa na frente do meu rosto ao se encostar com o ar gelado de fora. Olhei em volta. Paredes de rochas úmidas e chão de mármore negro eram as únicas coisas que ocupavam aquele espaço. E é claro, a porta.

Encarei-a durante alguns segundos, assimilando cada detalhe. Cenas de guerras estavam cravadas em sua madeira vermelho-sangue. A maçaneta dourada parecia brilhar levemente. Provavelmente ela estava trancada. Ela sempre estava trancada.

Fiquei parada, meu cérebro travando uma luta feroz contra o medo. Se eu não fosse tentar abri-la, esse sonho jamais acabaria. Já aconteceu antes.

"Pare de tremer." — Pensei, provavelmente mais uma tentativa falha de meu cérebro para controlar o medo. — "É só um sonho, assim como todos aqueles outros. Você sabe como isso acaba."

Relutante, coloquei meus pés em movimento lerdo, porém constante. Eu podia sentir meus dentes batendo com força um no outro. Só não sabia se era pelo frio ou pelo medo.

Encostei na maçaneta fria e a torci, esperando que o mundo desabasse e eu começasse a cair novamente, até finalmente acordar. Pelo menos era assim que sempre acontecia.

Mas parecia que alguém tinha planos diferentes para mim naquela noite.

Assim que a torci, um calafrio percorreu a minha espinha e eu percebi que aquele não seria apenas mais um sonho. Aquela noite, não seria apenas mais uma noite.

Quando a tranca se abriu, meu coração deu um pulo junto com os meus pés. Soltei a maçaneta, dando um passo para trás.

Então era assim que iria acontecer? Depois de 6 anos sonhando aquela mesma coisa toda noite, a porta finalmente estava aberta? Não sei porque, mas de algum modo eu esperava que ela nunca se abrisse.

Como se sentisse o meu receio, a porta começou a se abrir sozinha. Enquanto eu observava com a respiração entre-cortada, lentamente ela se movia, revelando o corredor que me esperava à frente.

Por um momento quase escutei o medo. Algo me dizia que se eu entrasse ali, a minha vida nunca mais seria a mesma. Mas era exatamente isso que eu queria. Respirei fundo, pela primeira vez escutando o cérebro. Dei um passo, adentrando sonho à dentro.

...

Uma palavra que descreveria aquele corredor? Caótico.

As paredes tinham cor de sangue, exatamente igual a porta. Mas a semelhança não parava por ai. Cenas de guerras também as decoravam, exceto que aquelas pareciam se mexer de acordo com que eu andava. Porém, o que mais me assustava era o lugar em que eu estava pisando.

Olhei para o chão e o fôlego escapou de meus pulmões. Era feito totalmente de espelhos. Observei mais atentamente e me vi como se fosse o infinito. Foi ai que eu percebi que o teto também era dessa maneira.

Pode não aparentar, mas o efeito era assustador. Enquanto eu caminhava, tinha medo que cada passo fosse me trazer uma queda. Aquilo era hipnotizante. Eu não conseguia parar de olhar, mas também não conseguia parar de andar. Era como se meus pés tivessem vida própria. E assim eles foram, me guiando, entre diversas curvas em um corredor sem fim.

Eu andei. Andei muito mesmo. Durante o que pareceu mais longas horas eu me movimentava, sempre atenta a qualquer barulho. Chegou um ponto em que meus olhos doíam com o efeito dos espelhos. Então, quando eu achei que eles estavam prestes a pular das órbitas, aquele corredor se abriu em um grande salão.

O lugar era grande e o teto muito alto. Lembrei daqueles documentários que ás vezes eu era obrigada a assistir no orfanato, que diziam sobre antigos templos gregos. Aquele espaço parecia aquilo, com a diferença de estar novo e totalmente conservado. Meus olhos doíam ainda mais com o brilho daquele ambiente, que parecia uma mescla de dourado e branco. Mas a arquitetura não foi o que mais me chamou atenção.

A primeira coisa que notei de verdade foram os tronos. Ao todo eram doze. Grandes, majestosos. Cada um diferente do outro, mas em todos eu sentia uma espécie de conexão. Andei até o centro da sala, que também era o centro do U que os tronos foram expostos. Observei cada detalhe, totalmente maravilhada. Foi então que eu percebi que algo parecia errado.

Foquei mais a visão e vi a parede do outro lado da sala. Normal, tirando o fato que tinha um trono em minha frente. Olhei mais atentamente e percebi que eles não estavam realmente lá, embora parecesse. Eram mais como fantasmas em vez de serem reais. Apenas um era sólido.

Vermelho, coberto com arame farpado. Parecia grotesco. Com certeza foi o que menos me chamou atenção. Porém, agora ele estava ocupado. Ocupado com alguém que eu tinha certeza que não estava lá no momento em que entrei no salão.

Pulei para trás quando um homem grande, com o rosto cobertos de cicatrizes e olhos de fogo me disse, com a voz cheia de rancor:

– Eu estava te esperando, Callie.

Notas finais
Espero realmente que tenham gostado do primeiro capítulo. POR FAVOR, comentem se acham que falta alguma coisa, se está péssimo ou se gostaram. Agradeço ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.