O Eremita

1 Capítulo 1


Estava voltando da escola, perdido em pensamentos, tão longe desse mundo que nem percebi o desnível da calçada causado pelo crescimento da raiz de uma árvore e acabei de caindo de cara, minhas mãos estavam dentro do bolso da minha blusa e por isso não consegui impedir que batesse minha cabeça na árvore que estava ali, me senti envergonhado pela situação, me levantei rapidamente e olhei em minha volta observando se alguém tinha notado aquela cena deplorável, mas não havia ninguém olhando, então continuei meu caminho como se nada houvesse ocorrido. Eu sempre passava por lá e sabia daquele desnível, mas naquele dia em específico eu estava tão distraído que acabei me esquecendo disso.

Chegando a minha casa, minha mãe já estava de saída, me perguntou o que havia acontecido comigo, pois em minha testa havia uma enorme mancha vermelha, eu disse que estava distraído, ela riu, pediu para eu guardar a comida quando terminasse de almoçar e arrumasse meu quarto, então ela saiu para trabalhar.

Em minha casa vivíamos apenas eu e minha mãe, nunca cheguei a conhecer meu pai e nas poucas vezes que tentei tocar no assunto com a minha mãe, ela parecia ficar triste e acabava não falando nada ou trocando de assunto, concluí que ou ele havia falecido ou havia abandonado minha mãe quando ela estava grávida de mim, mas acabei deixando de me importar com o assunto e aprendi a conviver com o fato sem problemas.

Minha mãe era muito ocupada, trabalhava durante o dia como assistente de escritório em um escritório de contabilidade e cursava faculdade de administração de noite, como o escritório ficava próximo a nossa casa, todo dia durante a semana ela voltava e preparava o almoço, almoçava e voltava para o trabalho, assim, quando eu chegava da escola, eu já encontrava tudo pronto e ela já estava saindo ou já havia saído de volta para o trabalho. Em compensação, durante a semana, eu acordava mais cedo que ela para ir à escola, então eu sempre deixava o café da manhã preparado e saía enquanto ela dormia ou logo que ela acordava. Já a faculdade era muito fora de mão para ela, então ela saía do trabalho e ia direto para a faculdade, sem passar em casa antes. Por esses motivos, nós nos víamos pouco, pois nossos horários geravam muitos desencontros durante a semana.

Naquele dia após o almoço eu comecei a sentir um pouco de dor de cabeça, não no lugar da pancada, mas por dentro, como se estivesse latejando conforme a minha pulsação, também me sentia bastante exausto, então eu decidi tirar um cochilo que durou a tarde toda, acordei em torno de 19h, já estava tudo escuro, minha cabeça parecia que estava tomando marteladas, mas eu ainda estava demasiadamente cansado, olhei para o meu quarto ainda desarrumado, mas achei melhor deixar para arrumar no dia seguinte, então eu tomei um copo de água e tentei voltar a dormir.

Acordei atrasado no dia seguinte com minha mãe me chamando na porta do quarto, não entendia o porquê, mas meu despertador não havia tocado aquele dia, engoli meu café da manhã e corri para a escola, só depois fui notar que eu já não sentia mais nenhuma dor de cabeça. Durante o caminho, prestei bastante atenção no local onde eu havia tropeçado e vi a raiz da árvore fazendo com que o cimento da calçada se quebrasse e se levantasse, fazendo uma deformação na calçada, reclamei comigo mesmo pensando porque ninguém não havia consertado aquilo ainda, mas passei reto achando que para fazer algo bem feito teria que fazer eu mesmo. Durante todas as aulas daquele dia, eu senti uma leve dor de cabeça que começou basicamente após eu chegar à escola, achando que era problema de pressão, passei a beber bastante água, cheguei até tomar um remédio para dor de cabeça na enfermaria da escola, mas ela não passava.

Por fim chegou a hora de ir embora e no caminho de volta novamente eu prestei atenção no desnível, mas ele já não estava lá, não que ele tinha sido consertado, não tinha marca de cimento fresco ou algo assim, a calçada inclusive estava com as marcas da rachadura causada pela raiz, mas o desnível simplesmente não existia mais.

Achei estranho, mas continuei indo para casa, pois a dor de cabeça estava começando a ficar mais forte. Chegando lá, minha mãe ainda estava na mesa terminando de almoçar, então comentou que havia gostado da organização do quarto, do qual achei bastante estranho, porém a dor de cabeça estava me incomodando demais para prestar atenção em outras coisas, tomei mais um remédio indicado pela minha mãe e esperei um tempo para o efeito para então almoçar.

Naquele dia durante a tarde eu teria que ensaiar com a minha banda, uma banda de rock da qual eu tocava contrabaixo. Fora os colegas de classe da escola, meus amigos se resumiam nos integrantes dessa banda, formada por um baterista, um guitarrista, um vocalista e eu, por outro lado nós éramos muito amigos, fazíamos tudo juntos e confiávamos demais uns nos outros. Então eu almocei e fui para meu quarto treinar um pouco de contrabaixo antes do ensaio, foi quando eu percebi que meu quarto estava completamente organizado, mas ele não havia sido arrumado pela minha mãe, pois ela não guardava as minhas coisas da mesma maneira que eu, o quarto havia sido organizado por mim, só que eu não me lembrava de ter feito isso. Fiquei bastante curioso com o fato, mas como precisava treinar antes do ensaio de qualquer maneira, acabei por dar pouca importância para isso.

Nós nos encontramos na casa do baterista, como de costume, pois a casa dele tinha um porão do qual ele instalou uma bateria e vários equipamentos de som, algumas caixas e amplificadores emprestados dos outros membros da banda e alguns outros amigos do baterista, que diferente de mim, conhecia muita gente. No porão da casa dele nós sempre ensaiávamos, embora fizesse um pouco de barulho na vizinhança, nós nunca ensaiávamos em horários que os incomodassem muito, então nunca tivemos muito problema com os vizinhos do baterista.

Ao final do ensaio, eu havia pendurado meu contrabaixo em um suporte de parede para guardar meus cabos e equipamentos, mas quando eu abaixei para pegar meu cabo do chão, acabei esbarrando com as costas no contrabaixo e ele caiu do suporte, naquele momento eu percebi o que havia acontecido, então eu protegi minha cabeça com as mãos e fiquei aguardando o contrabaixo cair encima de mim, fiquei aguardando bastante e nada havia acontecido, não escutei nem o barulho do instrumento caindo no chão, então eu desprotegi minha cabeça devagar, vi que os outros integrantes da banda me olhavam com uma cara espantada e quando eu olhei para trás notei que o meu contrabaixo estava flutuando fora do pedestal, sem tocar no chão ou em mim. Fiquei olhando para o meu contrabaixo durante alguns segundos, tão espantado quanto meus amigos, e aqueles segundos pareciam durar uma eternidade, quando eu realmente me dei conta o que estava acontecendo o contrabaixo parou de flutuar e finalmente caiu no chão, todos nós levamos um susto, deixamos o porão do baterista depressa, sem mesmo terminar de arrumar as coisas.

Lembro-me de o pessoal da banda conversar sobre a possibilidade de o porão ser assombrado, mas aquela maldita dor de cabeça havia voltado a me incomodar, achei que era por conta do susto então me despedi do pessoal e fui embora depressa.

Caminhando de volta para casa olhei para o céu e reparei que o tempo estava mudando, aparentemente iria chover. Mesmo com a dor de cabeça me incomodando bastante, comecei a pensar, estava pensando em ir ao médico para ver aquela dor de cabeça, já que ela era bastante intensa e era a terceira vez que eu estava sentindo-a em dois dias, percebi também que ela estava um pouco mais fraca que a primeira vez, depois pensei no meu contrabaixo que eu acabei deixando na casa do baterista, mas lembrei que estava no porão e eu não teria coragem de ir lá buscar, por fim acabei notando que concidentemente estavam acontecendo coisas estranhas ao meu redor, primeiro foi meu despertador que não tocou, depois o desnível da calçada havia desaparecido, então meu quarto é organizado sem que eu me lembre de ter feito, e por último meu contrabaixo aparentemente estava flutuando encima de mim. Fiquei com isso na cabeça por bastante tempo depois daquele dia. Pouco antes de chegar a minha casa começou a chover. Quando finalmente cheguei em casa, que não havia ninguém, já que minha mãe estava na faculdade, com a pressa de sair da chuva, eu peguei de qualquer jeito e acabei deixando minha chave cair. Mas ela não chegou a tocar no chão, senti minha dor de cabeça aumentar um pouco e vi a chave flutuando centímetros antes de tocar no chão. Dessa vez não fiquei tão assustando, mesmo que aquilo parecesse impossível, eu pensei que a chave pudesse vir de volta à minha mão sem que eu me mexesse, e foi isso que aconteceu, cada centímetro que a chave subia em minha direção parecia fazer minha dor de cabeça ficar mais forte, e quando a chave finalmente alcançou a altura da minha mão, pensei que aquilo não era possível, imaginem só alguém conseguindo movimentar algo usando apenas a mente, aquilo estava sendo demais para minha cabeça, então a chave caiu no chão de vez. Peguei a chave no chão, entrei em casa e fui tomar banho, mas minha dor de cabeça estava bastante forte, então após o banho eu me deitei.

Passei o final de semana inteiro dentro do meu quarto, pensando nas coisas, evitando fazer qualquer "esforço mental" para evitar a dor de cabeça, já que era forte e doía demais. Na segunda feira, fui à escola normalmente, inclusive prestei atenção onde ficava o desnível que eu provavelmente arrumei. Na escola, procurei um dos meus colegas de sala que eu sabia que gostava bastante de ficção científica e de fantasia, perguntei a ele sobre telecinese e telepatia, eu já havia ouvido falar desses termos, mas não sabia o que eram. O rapaz me explicou que telepatia era a fictícia capacidade de se comunicar usando a mente, desde que o telepata mantivesse contato visual com o alvo, e telecinesia era a capacidade de mover objetos com a força do pensamento, também desde que mantivesse contato visual com o objeto, perguntei em seguida "e se não for necessário manter contato visual?", pois eu não vi o meu contrabaixo caindo naquele momento, "Eu diria que isso é psicocinese, mas tem gente que discorda, é que telecinese significa apenas "movimentar à distância", então pode haver a telecinese mágica, o que não faria dela psíquica, já a psicocinese é necessariamente com a mente..." contava o garoto entusiasmado, acredito que ele nunca havia conversado sobre isso com qualquer outra pessoa na escola, e ele continuou falando sobre isso, mas eu acabei não prestando atenção, fiquei com a explicação da psicocinese na cabeça. Eu até tentei evitar fazer isso durante a aula, para não correr o risco de outras pessoas me verem ou se assustarem, mas naquele dia não adiantou, sem me tocar eu já estava tentando movimentar minhas coisas sem olhar para elas, deixando minha mão por cima delas e, enquanto olhava para o lado, desejava que essas coisas subissem até minha mão. Depois de bastante tempo me concentrando eu senti meu lápis encostando-se à palma da minha mão, eu olhei para a minha mesa e nenhum outro objeto estava fazendo isso, apenas o lápis, que era qual eu estava tentando me concentrar, só parei porque fiquei com medo de que pudessem ver que eu estava fazendo aquilo.

Três dias depois eu já não sentia nenhuma dor de cabeça para fazer coisas simples, como apertar um interruptor ou levantar um copo vazio e traze-lo até mim, porém existia algo me impedindo mais que a dor de cabeça, algo que não me deixava fazer essas coisas, eu tinha medo, tanto de mim mesmo, quanto de alguém me ver fazendo isso, se alguém descobrisse o que eu conseguia fazer eu não saberia como agir, então eu decidi parar de fazer.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.