O Enigma do Outro Mundo - Parte 2
4 Capítulo 4
Cerca de quarenta minutos depois, eles atravessavam na Issaquah-Hobart Road. No ponto onde eles se encontravam, os pinheiros quase formavam paredes, presentes dos dois lados da estrada. A luz da lua cheia ajudava a iluminar o caminho. As raras pequenas caixas de correio ao longo da estrada, indicavam a presença das poucas residências no local.
— Achei que você estava exagerando quando disse que este lugar era no meio do nada — MacReady comentou olhando ao redor.
— Só não é pior do que o pólo sul.
Childs parou o carro perto da placa de uma empresa de perfuração de poços e instalação de bombas de água. Estacionou ao lado de dois caminhões para colocar em ação o plano elaborado durante a viagem.
— Escute Mac: nós estamos muito perto. Eu vou apanhar a lona no porta-malas.
Quando ele retornou, MacReady se deitou no banco de trás cobrindo-se com a lona.
Retornaram para a estrada e avançaram cerca de 500 metros, até chegarem ao Centro de Pesquisas Avançadas B.
Dois prédios de apenas um andar, ocupavam uma área equivalente à uma quadra. Um deles era enorme e o outro do tamanho de uma grande casa. Dois guardas armados cuidavam da entrada do local. Childs parou o carro ao lado da pequena guarita, onde um dos guardas se encontrava. Entregou sua credencial como se a sua presença fosse esperada.
— Boa noite Sr. Childs — disse o guarda após ler as informações da credencial — Não temos registro de que o senhor planejava uma visita às instalações hoje à noite.
— Vocês não receberam o memorando urgente pelo fax?
Os dois guardas se entreolharam.
— Escutem, eu sei que isso foge do protocolo, mas eu estou atrasado para uma reunião. Se vocês puderem me ajudar eu prometo que irei mencioná-los em Seattle.
O outro guarda se aproximou do carro, analisando o seu interior. MacReady permanecia imóvel debaixo da lona no fundo do banco de trás.
O portão principal se abriu enquanto o guarda fazia um sinal com a mão para ele avançar.
— Ei espere! — gritou o outro guarda do portão.
Childs pisou no freio bruscamente. MacReady sentiu seu coração acelerar ao ouvir os passos do guarda no pátio de cimento.
— O senhor esqueceu a sua credencial — o guarda disse entregando o documento pelo janela do carro.
Debaixo da lona, MacReady pode respirar aliviado.
— Até agora tudo bem — Childs disse conforme conduzia para o estacionamento.
Longe do alcance dos olhares dos guardas, MacReady saiu do carro com sua mochila aproveitando a baixa luminosidade da área. Correram para o prédio mais próximo e esconderam-se atrás de uma parede. MacReady apontou para o alto, indicando para Childs que ele pretendia alcançar a janela, com cerca de dois metros de altura.
Ele tomou um impulso e agarrou o parapeito com as mãos. Com ajuda de Childs ele conseguiu subir e ficar de pé no estreito espaço disponível. Quando ele olhou para o interior da instalação, seus piores pesadelos se tornaram realidade.
— Malditos!
A espaçonave que eles haviam encontrado no pólo sul estava ali, diante de seus olhos. Vários homens com equipamentos científicos se misturavam entre guardas fortemente armados. Do chão, Childs fazia sinais com as mãos para que ele descesse. Pulou imediatamente caindo de qualquer jeito.
— Um guarda está vindo nesta direção. Temos que nos mover depressa!
Correram na direção do prédio menor evitando as áreas iluminadas pelos poucos postes existentes. Quando chegaram, encontraram abrigo atrás de uma parede.
— Eles estão com a espaçonave Childs — MacReady disse ofegante, enquanto se recuperava da corrida — Os desgraçados deram um jeito de trazer aquilo de lá.
Atônito, Childs não sabia o que dizer. Após notarem dois homens saindo do prédio menor, MacReady continuou.
— Precisamos descobrir algo a respeito do terceiro sobrevivente. Este prédio parece não ter vigilância. Esses homens não eram guardas — ele disse após observar a porta de entrada — Se o meu palpite estiver certo, deve ser uma espécie de arquivo.
— Espere! — Childs alertou — Não temos certeza se este prédio é um arquivo. Não podemos agir impulsivamente baseados num palpite.
— Qual a sua sugestão?
— Podemos dar a volta…
Antes que ele acabasse de falar, MacReady saiu correndo na direção do portão principal do pequeno prédio. Sem alternativas, Childs acompanhou seu movimento.
MacReady forçou o portão deslizante de metal da entrada, fazendo com que ele abrisse facilmente. As luzes automáticas iluminaram o ambiente revelando apenas uma entrada no chão, onde uma porta permanecia aberta.
Os dois entraram pela abertura descendo rapidamente a escada. No subsolo, descobriram um longo corredor com paredes arredondadas. Trocaram olhares de dúvida antes de avançarem pelo caminho, rumo ao desconhecido.
No final do corredor, se encontraram diante de uma grossa porta de metal, parecida com a caixa forte de um banco. Ansioso por respostas, MacReady empurrou a porta, que se encontrava entreaberta.
Dentro da sala, uma espécie de contêiner, com cerca de um metro de altura, se encontrava instalado no centro. Sem entender do que se tratava aquilo, os dois caminhavam lentamente pela área. Conforme se aproximavam, foram percebendo que o material utilizado naquela caixa de metal era algo isolante. Alguns tubos e fios estavam ligados à equipamentos que ficavam mais ao fundo, perto de algumas mesas e computadores.
MacReady notou o espesso vidro que cobria o topo do contêiner. Childs se mantinha logo atrás dele. Ao se aproximar da tampa de vidro, MacReady notou que o isolamento era reforçado. Percebeu que havia uma fraca luminosidade no seu interior antes de colocar a sua atenção no seu conteúdo.
Nada no mundo seria capaz de prepará-lo para aquilo.
Um homem negro, com uma faixa azul na cabeça, vestindo uma camisa cinza de mangas curtas sobre outra branca de mangas compridas permanecia deitado, dentro do gelo. Seu braço esquerdo parecia com um tentáculo misturado com a pata de um crustáceo.
— Nauls? — ele disse sem acreditar no que a sua própria boca havia dito.
Com o olhar estático, Childs permanecia ao lado dele sem palavras.
— O filho da mãe copiou Nauls e fugiu antes que eu explodisse todo o lugar.
— Ele também tem instinto de sobrevivência — Childs acrescentou.
Nenhum deles teve coragem de se aproximar além de onde se encontravam. O terror criado por aquela descoberta estava muito além do que as suas mentes poderiam suportar.
— Escute Mac, acho melhor sairmos daqui o quanto antes. Não podemos fazer nada com todos estes guardas por aqui. Precisamos nos organizar para fazermos alguma coisa a respeito.
Hesitante, MacReady sabia que Childs tinha razão. As latas de spray e o acendedor de fogão que ele trazia na mochila estavam longe de ser a solução ideal. Concordou com ele e retornaram para o carro.
No caminho de volta os dois procuravam chegar a um acordo sobre qual seria o próximo passo. MacReady defendia a ideia de procurar os contatos que Tyson, seu colega de trabalho, tinha em Seattle. Ele lembrou que certa vez, durante um vôo de helicóptero em Alberta, Tyson tinha comentado que havia se envolvido com uma garçonete chinesa que fazia parte de um grupo relacionado com o tráfico de armas. Childs não aprovava a ideia, mas não conseguia apresentar uma solução alternativa.
Após convencer MacReady a passar a noite em seu apartamento, Childs mudou o rumo para Pioneer Square. MacReady permanecia com a mente congestionada pelas imagens da espaçonave e do corpo de Nauls dentro do gelo. Permaneceu incapacitado de notar os arredores do bairro até que Childs anunciasse que eles haviam chegado.
Entraram no apartamento por volta da meia-noite. MacReady só percebeu o quanto seu corpo estava cansado quando sentou no sofá da sala. Após sentar ele notou um porta-retrato na mesa de centro onde Childs, sua esposa e seu filho estavam juntos, em algum lugar paradisíaco.
— Preciso usar o banheiro. Vou tomar cuidado para não acordar sua esposa e seu filho.
— Não se preocupe. Eles não estão em casa — Childs respondeu antes de se encaminhar para a cozinha para esquentar uma refeição no microondas.
Enquanto lavava as mãos, ele notou uma caixa de comprimidos de fosfoetanolamina no cesto de lixo. Sabia que tinha visto o nome daquele medicamento em algum lugar, mas não foi capaz de recordar onde.
Após o jantar, exaustos, os dois continuaram a discussão para chegar a um acordo a respeito do plano para o dia seguinte. Childs sugeria que eles deviam avisar os militares e deixar que eles cuidassem de tudo. Por sua vez, MacReady dizia que não confiava no governo. Ele preferia resolver tudo com as suas próprias mãos. Childs acabou por convencê-lo de que o risco não valia a pena. Se alguma coisa desse errado, os dois poderiam passar os restos dos seus dias na cadeia.
— OK, vamos fazer do seu jeito — MacReady disse antes de acender um cigarro, perto da janela.
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