O Encontro da Luz e das Trevas
1 Capítulo 1
Aquele era um dia comum no Plano do Sol Eterno. Lá, o Sol era sempre visível, poderoso, com sua luz iluminando todo o Plano Divino. Num local onde a luz solar dominava fortemente, as plantas crescem frondosas em todos os cantos e mesmo assim, nas matas mais densas, as sombras são fracas e de aparência diluída. Mesmo a “noite” no Plano tinha as mesmas sombras fracas e “diluídas”.
No Plano Material, um grupo de aventureiros acabara de perder um dos colegas para um casal de irmãos semi-demônios. A irmã fora desintegrada e o irmão fora rendido, marcado por incontáveis golpes das lâminas e clavas; quase morto. O paladino do grupo desembainhara a espada para dar o golpe de misericórdia, mas fora barrado pelo clérigo do grupo, seu mestre.
Discutiram. Após a inflamada discussão, o clérigo resolve vingar-se do amigo recém-morto. Prende o semi-demônio amarrando num tronco cerimonial por correntes de energia mágica divina. Ele desembainha a espada e golpeia veloz nos braços e pernas. Sangue vermelho escuro jorrou dos ferimentos na terra à frente do adversário derrotado, que mantinha o sorriso rubro junto do olhar mordaz.
Com a lâmina da espada, o clérigo traça um círculo no entorno do tronco, desenhando símbolos na Escrita Divina antiga. Num último ato, dá uma estocada no abdômen do inimigo e o sangue jorrou e correu pela trilha. Enquanto entoa o cântico monástico do ritual, o clérigo inclina a espada para que o sangue descesse pela folha. O ferro do sangue aglutinou-se na forma de uma taça cerimonial. Ao fim do cântico, o sangue que aparecera na taça fora derramado e a espada fincada na poça; o clérigo junta as mãos em posição de oração para finalizar o ritual do Mausoléu Sanguinário da Não-Reencarnação do deus do Sol. Atrás do sacerdote, uma silhueta negra e profunda ergue-se na forma de um mausoléu, onde o seu poder absorveu o corpo do inimigo aos poucos: primeiro o espírito e o sangue, segundo a carne e entranhas e terceiro e último os ossos totalmente alvos, sendo levados numa nuvem de poeira branca.
Ao fim do ritual, sobrara apenas o tronco cerimonial.
No Plano do Heriol, O Deus do Sol; com a luz do Sol a iluminar todos os cantos e “diluindo” trevas, uma sombra profundamente negra e obscura caminhava pelas planícies verdejantes. Mesmo que o Sol não se conformasse com aquele disparate, aquela afronta, e aumentasse a intensidade da sua luz, a sombra densa não se “diluía”. Para os nativos do Plano do Sol Eterno, o homem que desceu pelas campinas segurando um cajado nodoso e escuro era uma aberração. Uma fonte de maldade. Na ponta superior do cajado havia uma lâmina de energia escura, similar à de uma foice, com uma tonalidade tão escura quanto à sombra e tão opaca quanto.
Dirigindo-se ao encontro do Palácio do Sol Dourado, o ser sombrio foi detido pela guarda de elite do governante daquele palácio. A Guarda de Elite do Palácio era composta pelos guerreiros santos mais poderosos, honrados e conhecidos quando em vida. Todos emanavam a mesma aura dourada de luz, mostrando para um visitante incauto que aqueles não eram “guerreiros comuns”. Mas a figura negra sorriu por debaixo do capuz com desdém. Achava aquilo nada mais de pompa e extravagância do irmão e rival. Com a simples força da sua vontade, a lâmina negra opaca da foice dissipou-se e a figura negra encapuzada parecia empunhar apenas um longo bastão.
Numa segunda e, sob sua ótica, divertida força de vontade, dera um empurrão nos Guardas do Palácio. Foram todos arremessados pelos menos uns doze metros. Num andar arrogante, Celestia andou pelos salões diversos que levavam ao Salão do Trono Dourado Solar. Lá, Heriol observava sem demonstrar as ações do irmão rival em seus domínios, de maneira calma.
Heriol, assim como a irmã Celestia, também preferia tomar a forma de um humano, usando vestimentas simples; mas mostrando um contraste em cor e marcado pela ausência do capuz. Na cintura, estava atada a Maça do Sol: sua arma pessoal era uma clava carregada de poderes incríveis, parecendo uma estrela. Junto da arma pessoal, Heriol carregava o Cajado da Face do Sol: um cajado druídico com um disco de ouro com o símbolo sagrado de Heriol no topo. O olhar sereno irritava o visitante sensivelmente, notado pelo anfitrião.
Sem delongas, começaram a dialogar:
— Seja bem-vindo ao meu Plano e lar, irmã.
— Poupe-me da sua mania de polidez. – cortou Celestia – Acho que o “Todo Onisciente Heriol” notou que seu amado servo fez uso de um ritual necromântico dos mais cruéis. Seu ritual. Eu achava que este ritual era reservado para somente os seus servos mais poderosos e escolhidos cuidadosamente para fazê-lo somente nas datas do Dia do Sol Negro. Admiro-me em ver que ele consiga conjurar e ministrar o ritual numa noite.
Se o Deus-Sol sentiu raiva ou nojo, não demonstrou. Mas em vez disso deu continuidade à conversa:
— Aquele clérigo em específico é um protegido e escolhido meu. – o tom da voz era calmo e cálido – Aprendeu tudo para aprimorar ao máximo suas habilidades em combate, uma vez que morrera jovem. Seu poder espiritual era grande, mas não suas perícias em combate. Depois de sua morte e de ter sido acolhido aqui, foi treinado para ser um dos meus Guardas do Palácio.
A Deusa-Noite rira ante aquele argumento... Uma risada fria e maligna, carregada com a escuridão da noite.
— Heriol, deixe suas ladainhas de lado. Ambos sabemos que você se arrepende de ter ensinado a ele este ritual, uma vez que você é o deus patrono das Videntes do Sol. Você possui uma das inúmeras facetas que tens voltada para a arte da vidência. – o pragmatismo no contra-argumento era assustador – Portanto, não ouse fingir que “não viu”, mesmo que ele tenha feito aquilo durante meu domínio sobre O Dia.
O deus do Sol não mostrou tristeza, mas sim saudosismo. Notando a expressão do irmão, Heriol explicou:
— Lembra-se do início da Criação, Celestia? – seu tom de voz mantinha-se calmo e cálido – Quando brigávamos para ver quem dominaria O Dia?
Mais uma vez Celestia riu cinicamente:
— Seus eufemismos sempre me fazem rir irmão... – havia, de fato, um levíssimo vestígio de graça na sua voz – Nós guerreávamos para ver quem dominaria O Dia. Ambos criamos nossos generais: você os seus coalt; eu as minhas serpentes negras... Engraçado não acha? Mesmo sendo irmãos e representando lados opostos de um mesmo conceito, nossos generais saíram praticamente iguais: os seus como serpentes verdes com asas emplumadas nas cores do arco-íris e os meus como serpentes totalmente negras, com asas coriáceas prateadas. E ambos gigantescos.
“De fato, notei alguns voando rapineiros acima de mim, muito próximos do Sol para que eu não os conseguisse ver... Ledo engano deles.”
— Concordo contigo, irmão. – respondeu serenamente – Nas raríssimas ocasiões em que visitamos um ao outro, nossos respectivos generais e guardas de elite de nossos lares vem em nossa defesa, como filhos que desejam nada mais que o bem do pai. Confesso a ti que ainda me resigno com o veredicto decretado por Freya: doze horas d’O Dia para o Sol e doze horas d’O Dia para a Lua. Confesse para mim e ficará nestas paredes: ainda sentes ódio por ele ter decretado isto, não?
— Às vezes eu me assusto com o quanto você me conhece... Naquela época, Wotan era o que nos apoiava ao mesmo tempo, somente para ver mais e mais guerra sem sentido e ir contra o irmã. Não fosse alguém abrir a boca, nossa juíza nunca decretaria o que decretou.
“Mas não vim aqui reviver nem lembrar a nossa guerra particular. Vim para discutir – e ela fez um trono negro como piche aparecer. Sentou-se nele e manifestou um cálice prateado no braço direito do trono – o futuro do seu protegido.”
Vendo o pragmatismo, Heriol fez um cálice similar ao da irmã, porém dourado, aparecer. Gesticulou para que a visitante desse início à seção.
— É bem simples o que venho propor a ti irmão: libere a alma dele da sua proteção e deixe-o para mim que ele ficará para sempre ao meu lado. Como meu guarda de elite e guarda-costas.
A deusa morde a ponta do dedo indicador e deixa o sangue divino cair no cálice.
— Entendo... Mas, Celestia, se eu o libertar de minha proteção, como você o manterá? – rebateu Heriol – Ficando ao seu lado preso por amarras fortes e cruéis, forçado a carregar o fardo do seu encargo?
“Se ele manifestasse, por exemplo, um desejo infindável de visitar União ou outro Plano, você o deixaria? Se ele quisesse vir visitar o seu deus patrono, você o deixaria?”
— E o que o faz pensar que eu deixaria você manter o posto de deus patrono dele? Disse que seria meu guarda de elite e guarda-costas. Meu. Não dei brecha alguma para interpretar que ele ficaria sob sua vista.
Um segundo infinito de silêncio e retomam a conversa:
— Imaginei que fosse responder isso irmã... Assim como você se assusta da maneira que eu o conheço tão bem, eu ainda me surpreendo como posso esperar tanto de ti... Sinto em contrariar quanto a largar a alma do jovem como seu deus patrono. – havia, ali, naquele instante, certeza e solidez na sua voz – Se fazê-lo, o que você fará com ele? Corromperá sua alma a ponto de torna-la tão negra quanto sua lâmina?
“Celestia, minha irmã... Não toma-me como tolo, pois conheço-a desde o início da Criação. Dê-me uma, apenas uma razão para fazer o queres e fazê-lo-ei.”
A descrença emoldurava a face do deus da noite. Celestia então responde:
— Antes de tudo, devo colocar em pauta um detalhe: a verdade inenarrável dos fatos ocorridos, Heriol. Este clérigo fez o seu ritual mais poderoso e cruel, o único que visa a Morte e bem durante o meu domínio sobre O Dia. Quando criado, o seu ritual do Mausoléu deveria ser usado somente por clérigos escolhidos por ti e nos Dias do Sol Negro. Foram essas as Regras Absolutas decretadas pela nossa querida irmã-juíza Freya. Meu sangue já reside no Cálice dos Pactos, pois não sairei da sua casa sem que algo seja feito. Decida algo em relação a esta afronta de uma vez por todas Heriol, ou nossa irmã-juíza pode resolver intervir como na nossa “última disputa”.
Mal tinha dito aquelas palavras, o som de passos metálicos ecoava pelo Palácio. Um dos guardas de elite vinha correndo em direção aos dois deuses. Ajoelhou-se e disse, esbaforido:
— Radiante, mais um de vossos irmãos divinos adentrou no vosso Plano. Os Patrulheiros Vigilantes nos informaram... que a sua aparência era de uma humana altiva, de cabelos negros, vestida em uma amadura de batalha prateada... e com um manto alvo como as nuvens em suas costas... e portava consigo um escudo e uma espada longa... ruma em linha reta até vosso Palácio.
Um invisível esgar de raiva e resignação passou por seu rosto e Heriol diz:
— Muito obrigado. Pode se retirar. – o guarda sai tão rápido quanto aparecera e Heriol passa o indicador sobre o pulso, deixando extravasar o sangue divino no Cálice dos Pactos dourado – Celestia, em vista das circunstâncias desfavoráveis ao nosso encontro, pactuemos para uma trégua temporária, até que eu resolva o necessário. Após este incidente, se a alma dele estiver maculada, você terá minha palavra pelo Pacto que retomaremos a partir do ponto de interrupção. Aceitas?
— Aceito – respondeu a Deusa-Noite, pragmática.
— Então, bebamos nosso sangue do Cálice dos Pactos.
— Não se esqueça irmão, que promessa é dívida e que palavra é lei. – curiosamente, estas mesmas palavras se encontravam na lateral da boca de ambos os Cálices.
Ao fim desta curta conversa, o guerreira armada aparecera. Era alta, forte, imponente e sua aura era de poder séria. Ele chega a adentrar o Salão sem nem mesmo aceitar ou esperar o convite do irmão Deus-Sol. Não deixando de lado a atitude, Celestia comenta acidamente:
— Vejo que o encargo de juíza a está fazendo subir a cabeça, achando que pode simplesmente entrar nos domínios dos outros deuses sem que fosse no mínimo convidada a entrar, Freya.
— Cale-se Celestia. Estou aqui porque senti que dois dos Cálices dos Pactos tinham sido manifestados. Fui ver no Tribunal Central e eram os seus. O que pretendem Pactuar? – o pragmatismo de Celestia era nada ao lado da juíza dos deuses.
— Será que devo lembrar a ti, irmã Freya, que este é meu lar? – a cada palavra dita, o Deus-Sol irradiava cada vez mais e mais poder – Que aqui é minha casa e eu dito as regras. Pelo que me lembro bem, não é de sua autoridade decidir o que deve ou não ser feito com os Cálices, muito menos invadir o Plano de cada um de seus donos para saber com quem Pactuam e sobre o que seria o assunto.
— Mas onde está o se-
— Eu não terminei. – cortou Heriol – Por sua natureza, por suas esferas de influencia e atuação dentro da Criação, foi determinado que você seria o Mediador entre os impasses que ocorressem e fossem difíceis de se resolver. Não fora dada, em momento algum, autoria para ti vires e simplesmente intervir como bem entender.
— Heriol, controle a língua. Sempre o respeitei por ser um deus ponderado e sábio, mas estás a passar do limite. – comentara Freya.
— Ultrapassar o que? Sua mediada de limite? E limite do que seria isto? Confrontá-la quando estás a brincar de juíza com o Panteão como um todo, forçando sua vontade?
— Que esteja de sobreaviso a ambos: não ousem quererem derrubar-me, ou começaremos uma guerra santa.
— Para que, se você já a faz com Wotan volta e meia? – tripudiou Celestia.
Numa coluna de luz, Freya desapareceu tão repentino quanto apareceu. Celestia aproveitou e tomou como deixa para mandar o Cálice dos Pactos de volta ao Tribunal Central e dissipou o trono negro. Heriol fizera o mesmo com seu Cálice e se levantara, estendendo a mão para que o irmão apertasse-a amigavelmente. Relutante, o aperto de mãos acontecera e Heriol disse:
— Tens a minha palavra de que ele será visto de maneira mais rigorosa, irmão. E acho que é melhor para nós dois deixarmos que nosso Juiz pense ter nos atrapalhado.
— Que assim seja. Heriol, qual a sua data para uma nova conversa?
— Que tal daqui a alguns meses? Do jeito que gosta de se intrometer nos assuntos políticos de outras divindades, ele pode bem pensar que estávamos tentando Pactuar para entrar em guerra.
— De fato, observar pormenores nunca foi sua marca mais exacerbada. – comentou Celestia quando estava saindo do Plano. Antes de ser engolido por uma onda de sombras, Heriol comenta:
— Na próxima, irei eu a teu encontro, em tua casa. Espero ser bem-vindo.
— Não espere hospitalidade, mas será, de fato, bem-vindo a me visitar, irmão.
E assim as trevas engoliram a Deusa da Lua enquanto o Deus do Sol observava tudo com um leve sorriso.
Longe dali, no Plano Material, o clérigo e seus companheiros de aventura deram continuidade à missão, até se encontrarem com certo elfo.
— Fim -
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