O Elmo Roubado
3 Uma missão é anunciada
Notas iniciais
NICO
- Está havendo algum problema aqui no acampamento? Annabeth disse que você não vem aqui com frequência, só quando há problemas e você aparenta estar cansado...
Ela disse com cautela, como se não quisesse me ofender quando disse que eu estava “cansado”. Pedi aos deuses para minha cara não estar tão ruim quanto eu imaginava.
- Hã, nada de mais. Meu pai teve seu Elmo da Escuridão roubado. Mas já estamos resolvendo isso. – Tentei parecer confiante, mostrar que estava tudo bem mesmo e que eu tinha o controle da situação. Mas eu estava um pouco nervoso. – Então, do que você gosta?
- Do que eu gosto? Eu gosto de música, teatro, de ler, assistir filmes, comer, adoro chocolate, batata frita e sorvete. – Ela tentava pensar em mais alguma coisa – Dançar. Eu amo dançar. Faço ballet desde os dez anos de idade.
- Ahm, eu já pensou em Apolo? – O rosto dela se contorceu em um careta.
- Não curto muito o sol, nem sou boa com arco e flecha. Pelo que Annabeth me explicou essas são as características mais marcantes dele, certo? E, também não sou loira... – Ela começou a brincar com a barra de sua blusa. Esse era um assunto delicado para ela, era notável. Era difícil pra todo mundo, principalmente depois que você é reclamado. Ela estava triste e eu sabia que o acampamento não era a causa de todo a magoa. Respirou fundo e olhou para mim.
- Por que você não vive aqui, como a maioria dos semideuses?
- Bem – me ajeitei na rocha da melhor forma possível – filhos de Hades não são queridos em lugares assim. Eu tenho o chalé 13, mas aqui não é meu lugar. Passo maior parte do tempo no mundo inferior, junto de meu pai.
- No mundo inferior tipo, o inferno? – Ela arregalou os olhos
- É, mas lá não é como mostram com fogo em toda parte e meu pai não é um cara vermelho com chifres e rabo. A menos que você o aborreça...
- Isso é incrível! – A reação dela me surpreendeu. Normalmente garotas temiam e detestavam o Mundo Inferior e faziam questão de deixar claro. E consequentemente, me temiam e detestavam. Surpreendeu-me também Jully não ter saído correndo quando me aproximei. Ela era uma garota normal, fisicamente. Cabelos negros desciam até pouco abaixo do ombro. Ela tinha olhos grandes e negros. Seu olhar era confuso, como se estivesse aprendendo alguma coisa a todo segundo. Jully era uma garota bonita, eu posso dizer. – Tem possibilidades de eu ser filha de Hades também?
- Tem gosto por morte? – Eu ri e ela me acompanhou – Meu pai não está muito “ativo” há algum tempo. Mas não podemos descartar essa possibilidade. Então, eu ganharia uma irmãzinha. – Bati levemente minha mão em sua cabeça a fazendo sorrir.
- Isso seria legal.
- Bem, vamos esperar até alguma coisa acontecer. – Disse sorrindo e recebendo seu sorriso de volta.
Conversamos mais um pouco, sobre o passado dela e sobre planos futuros.
O jantar foi anunciado, nos despedimos e ela foi para o chalé 11 e eu para o meu, ficaria ali por uma semana, até Quiron decidir o que faríamos sobre... Sobre tudo.
NICO
Três dias depois estava andando pelo acampamento fui até onde a senhora O'leary costumava ficar. Antes de entrar, ouvi sons de piano. Pensei que fosse algum filho de Apolo tocando, mas não lembrava de ter um piano. Enfiei minha cabeça pela fresta da porta e vi Jully apoiada em uma barra de ferro, olhando para o espelho se alongando. Ela estava com um coque frouxo preso com uma rede de renda. Usava uma calça de lã roxa que valorizava suas curvas — curvas que até então eu não havia notado-, um collant preto que realçava sua cintura e uma sapatilha salmão. Ela fazia movimentos graciosos ao som de um pequeno estéreo que estava no chão. Quiron deve ter a autorizado usa-lo.
Se ela não tivesse uma mãe, eu palpitaria que Jully era filha de Afrodite.
Quatro dias se passaram. Jully e eu estávamos mais próximos, e cada dia mais perto de descobrir quem era seu pai –que não era Afrodite. Acordei mais cedo que de costume. Antes do café fui até Quiron, saber sobre sua decisão.
- Ainda não temos certeza de nada, Nico. Não podemos mandar campistas para uma missão se nem sequer sabemos aonde ir.
- Não podemos consultar o oráculo? Por favor, Quiron, meu pai precisa de seu elmo de volta.
Ele suspirou. Pareceu pensativo. Como se avaliasse as possibilidades que eu tinha de morrer na missão. O que me mandaria para o lugar em que eu fico... hã... o tempo todo?
- Tudo bem, chame Rachel.
Reunimos-nos na Casa Grande. Quiron, eu, Rachel, Annabeth, Percy e alguns outros campistas. Pensei que a missão não envolveria mais ninguém além de mim. Ninguém nunca mostrara interesse em ajudar meu pai até então.
Em alguns segundos, Rachel se contorceu e começou a falar em uma voz que não era dela:
“Quatro campistas a Oeste irão:
Dois filhos da morte e um da destruição.
O quarto, os pesadelos controlará,
Roma e Grécia em união,
A dona da discórdia derrotarão
Resistirão ao desejo e luxúria
E o amor determinará
Se o Elmo salvo novamente permanecerá”
Rachel caiu de joelhos no chão. Os outros campistas a ajudaram a ficar de pé enquanto Quiron alisava a barba.
- Devemos entrar em contato com o Acampamento Júpiter. – Ele declarou e saiu da sala, ainda pensando.
Definitivamente, eu não seria o único nessa missão. Rachel pediu para ver Jully, o que nunca havia acontecido antes.
Quando ela chegou parecia estar nervosa. Annabeth deve ter lhe falado sobre o oráculo. Todos se retiraram da sala, Rachel pediu para que eu fizesse companhia para Jully, o que eu não entendi muito bem. Seria porque estamos muitos próximos esses dias? Creio que sim, mas não importa.
Rachel pegou as mãos de Jully e seus olhos brilharam. Pensei que fosse se curvar e falar naquela voz novamente, o que assustaria muito Jully, mas ela não o fez. Apenas sorriu para Jully.
- Você tem muito poder, Jully Alvim. – Ela dizia com um olhar profundo, era difícil de descrever, mas era como se ela estivesse vendo a alma de Jully. – Mais poder do que imagina! – O Sorriso de desfez na mesma velocidade em que se formou – Mas tem que aprender a manuseá-lo com cuidado. Não tem problema, vai aprender! – Ela sorriu novamente. Nico, você se importaria se eu pedisse para ficar aqui no acampamento mais cinco dias?
- Hã, eu ia até meu pai informa-lo sobre a missão, mas tudo bem. Eu fico aqui.
- Ótimo! – Ela soltou a mão de Jully e bateu duas palmas – Hoje o jantar será maravilhoso! – Ela voltou o olhar para Jully – Para todos nós! Agora, Nico chame Quiron aqui, precisamos chamar sua irmã no Acampamento Júpiter, não é mesmo?
Tinha me esquecido completamente, fiquei tão impressionado por ser mandado em uma missão com mais outras três pessoas que ignorei completamente o fato de tentar descobrir quem eram os outros. “Dois filhos da morte” até onde sei apenas eu e minha irmã, Hazel do acampamento Júpiter. “Um da destruição”? Bem, não creio que haja um deus para a destruição propriamente dita. “Controlador de pesadelos”? Não faço ideia do que seja.
Chamei Quiron que logo mandou uma mensagem de íris para o Acampamento. Em dois dias, Hazel viria até aqui – acompanhado de seu amigo/protetor/namorado Frank.
Passamos o dia pensando. Nenhum dos outros campistas sabia da existência da missão. Até porque, nenhum se interessaria em arriscar morrer pelo Deus da Morte.
Durante o jantar, Rachel olhava com curiosidade para Jully, como se esperasse que ela fizesse algo incrível como dar três mortais para trás com o prato de comida na mão sem deixar nada cair. Todos terminaram suas refeições, mas a pedido de Rachel, Quiron não liberou ninguém para ir dormir. Alguns campistas começaram a cochilar em cima da mesa. Outros cochichavam sobre o porquê de estarem ali. Nenhum membro da mesa principal falava nada. Até que Rachel se levantou.
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