O Elmo Roubado

2 Um novo amigo, talvez.


Quero voltar para a casa, Quero o sossego e conforto da minha casa. O chalé 11 era uma bagunça sem fim. Ajeitei minhas coisas da melhor forma possível e Percy me chamou para ir jantar. Só então percebi que estava faminta. O jantar era um banquete e tanto. Servi-me de tudo o que senti vontade de comer. Os campistas começaram a jogar suas comidas na fogueira acesa. Fiquei com pena de queimar comida à toa.

– Hey, você deve jogar alguma coisa na fogueira, é um ritual que sempre fazemos. Uma oferenda aos deuses. – Disse um campista do chalé de Hermes. Tive medo de aquilo ser mais uma de suas pegadinhas, mas vendo que todos estavam fazendo o mesmo, fui até a fogueira e joguei um pedaço de bife.


– Muito bem, campistas! – Quiron chamava atenção – temos uma nova campista hoje! Jully venha até aqui.

Meu rosto se cobriu num tom de vermelho. Senti minhas bochechas queimarem, mas mesmo assim fui até lá. Os campistas me olhavam com receio e desdém, como se eu fosse um pedaço de carne mofada no meio do prato.

Finalmente fomos dormir. Uma noite sem pesadelos, para a minha sorte.

No dia seguinte, Annabeth me mostrou todo o acampamento. Tentou me fazer usar algumas armas e eu não tive sucesso em nenhuma. Espada, arco e flecha, nada! O que era desanimador já que todos à volta estavam treinando e se divertindo com suas armas. Annabeth me dava aulas de grego todos os dias. Eu tentava treinar com alguma arma e nunca me adaptava a nenhuma delas. Assim foi por cerca de quatro meses.


Annabeth estava me ensinando a ler em grego quando parou para olhar Percy com um garoto todo de preto conversando entre as árvores próximas ao rio.

– Ele, de novo. Só pode ser problemas. – Ela suspirou como se estivesse cansada.

– Quem é ele?

– Nico, Nico di Angelo.

A conversa dos dois parecia séria. Percy estava tenso e o garoto estava de costas com a mão em cima de alguma coisa que aprecia ser sua espada.

– Percy! – Annabeth o chamou e me puxou para perto dos dois

– Sim, Annie. – Percy respondeu carinhoso.

– Esta acontecendo alguma coisa?

– Não, nada de mais. Nico só veio me informar algumas eventualidades do mundo inferior – Percy deu de ombros.

Nenhum dos três parecia me notar ali, ou sequer se importavam com a minha presença. Isso me fez sentir ainda pior. O garoto, Nico, se virou para mim. Sua pele era pálida, até seus lábios eram sem cor. Os cabelos negros estavam bagunçados dando a parecer que havia acabado de levantar da cama.

– Essa é? – Ele disse ainda com as mãos escondidas na roupa.

– Jully Alvim, chegou a alguns meses.

– Reclamada?

– Ainda não.

– Hum.

Nico prendeu o olhar em mim, pensei que fosse fazer careta, se afastar ou qualquer coisa do tipo, coisa que os outros campistas sempre faziam. Eu nunca havia o visto no acampamento.

– Prazer, Nico di Angelo – Ele estendeu a mão e eu a apertei. Annabeth fez uma careta, como se aquilo não acontecesse com frequência. Alguns constrangedores segundos de silêncio, até que Quiron, o centauro, chamou os três para uma “reunião emergencial particular” – O que, para mim, significou: Jully , você não está incluída nisso.

Os três se dirigiram até a Casa Grande e eu me sentei em uma pedra que havia na beira do lago, eu gostava de me sentar ali. Era o único lugar no mundo – além do meu quarto – que me proporcionava segurança e paz.

Minha mente foi invadida por pensamentos sobre quem poderia ser meu pai, sobre como minha mãe estaria naquele momento, será que ela estava em segurança? Será que alguém na escola teria dado falta de mim? Já haviam se passado quatro meses desde que eu estava aqui. E até então, esse lugar não me parece muito diferente da escola.

– Olá. – Nico apareceu do meu lado. Uma mecha de cabelo estava tampando um de seus olhos. Ele balançou a cabeça e a fez sair dali. Deu um sorriso de lado e se sentou do meu lado suspirando. – Olha, essa pedra era minha propriedade, o meu cantinho do pensamento quando eu ficava aqui no acampamento.

– Ah, eu não sabia, eu – me levantei da pedra tentando formular alguma frase.

– Não, tudo bem – Ele deu uma risada – tem muito tempo que eu não fico aqui, acho que ela pode ser sua agora.

Normalmente, eu não faria questão de discutir por uma pedra. E esse não era um bom começo de conversa. Dei uma risada sem graça e me sentei novamente.

– Você gosta daqui?

– Bem, todos me evitam. Eu sinto falta da minha mãe, não tenho amigos além de Percy e Annabeth, não sei quem é meu pai e fico em um chalé com pessoas hiperativas e que roubam minhas coisas com frequência. É eu adoro aqui. – Ele riu, como se aquilo o divertisse.

– Eu sei o que sente. Olha, eu sou filho de Hades, deus dos mortos. Não tenho muita moral por aqui. As pessoas costumam não gostar de morte. – Ele fez uma careta que me fez gargalhar.

– Deve ser legar saber quem é seu pai. – Eu disse, em um tom tão baixo e melancólico que mais deve ter parecido um sussurro.

– Não se preocupe você está aqui há... Quanto tempo? Três meses? Quatro? Seu pai a renunciará em breve. – Ele brincava com um chaveiro o girando no ar. – Olha, eu posso te ajudar a descobrir quem é seu pai, se você quiser é claro. Eu conheço vários deuses, talvez possa ser útil em alguma coisa. – Ele dizia enquanto coçava a nuca.

– Por que você está falando comigo? – Eu não queria ser indelicada, ele era a primeira pessoa do acampamento que veio falar comigo por livre e espontânea vontade, o que era estranho.

– Hã, bem... Você parece não ter muitos amigos aqui e... Alguma coisa em você me chamou atenção. Sua aura, talvez.

– Hum. Eu... Eu adoraria que me ajudasse a descobrir quem é meu pai. – Disse e sorri. Era bom ter alguém para conversar, mesmo que talvez ele só quisesse saber quem era meu pai por causa da minha aura, ou sei lá o que. Mas ele parecia um cara legal, era difícil ler suas emoções, sua pele era incrivelmente pálida. Devia ser poucos meses mais velho que eu, mas tinha a expressão cansada, como se não dormisse direito há dias.

Notas finais
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