O Elmo Roubado
18 Um gigante dançarino
Notas iniciais
NICO
- Ótimo. A porta está trancada. – disse depois de forçar a porta várias vezes.
- Deve ter uma chave em algum lugar. Ou um pé de cabra... – Jully olhava ao redor tateando as paredes.
Resolvi usar o cérebro. A porta era feita de madeira. Dã. Peguei minha espada e fiz um buraco em forma de triângulo grande o suficiente para eu e Jully passarmos.
Um corredor largo levava até uma outra porta. Mas no meio do caminho havia um gigante um tanto familiar.
- Oto? – pedi para os deuses para ser apenas mais uma alucinação.
Aquele gigante e seu irmão haviam me capturado uma vez e me prendido em um vaso por cinco dias – sem oxigênio – e eu não morrera por pouco.
- Oi, Nico! Velho amigo! – ele se virou e Jully fez uma cara confusa. O gigante usava roubas de ballet e sapatilhas furadas de onde saiam seus dedos de cobra. Exatamente como no dia em que fui libertado. – Essa é sua namorada? Oi, moça bonita!
- Pensei que estivesse morto, junto com seu irmão. – em um impulso coloquei-me na frente de Jully. Não iria arriscar deixa-la ser capturada por um gigante-bailarina e ser presa num jarro sem ar.
- Sim, eu estava. Mas agora voltei, Éris me trouxe de volta para ser “O guardião do corredor!”. Eu posso treinar ballet aqui, sabia? Em breve vou decorar isso tudo. Colocar uns espelhos ali. Uma barra aqui nesse canto. Talvez eu abra uma escola de ballet. Seria magnifique! – O gigante deu dois pulinhos tocando os pés de lugar. Já havia visto Jully fazer isso. O nome era algo como “chângimã”
Jully ainda olhava com um careta para o monstro. Não sei se era por ele estar vertido com roupas de ballet ou por ele ser um gigante imortal.
- Isso no seu pé são cobras?
- Ah. Sim, são. O que você tem contra, menina?
- Hã, nada. É só que, bem, se você é uma bailarina, digo, bailarino, elas devem te atrapalhar.
- É, um pouco. Mas eu me acostumo. O que você sabe sobre ballet?
Uma ideia louca me surgiu. Se conseguíssemos distrair Oto poderíamos passar para o outro lado do corredor. Jully poderia o fazer isso.
- Jully sabe tudo sobre ballet! – Disse tentando elaborar alguma coisa sobre ballet. O que era difícil.
- Sabe, é? – Oto disse estreitando os olhos e olhando para ela.
Jully pareceu ler minha mente porque deu início ao plano.
- Claro que sim. – ela disse tomando postura e olhando para Oto com superioridade – Sou formada pela Royal Ballet School, meu bem. Dancei o paddé de Giselle com Rudolf Nureyev. Já ouviu falar?
Pelo que Jully já havia me dito, Rudolf foi um bailarino famoso da década de cinquenta. Acho que nem a mãe dela existia nessa época, mas Oto pareceu não perceber isso.
- Sério? – os olhos do gigante brilharam e as cobras em seus pés começaram a ficar inquietas.
- Mas é claro, querido. A russa, Irina Kolesnikova, fez parte do corpo de baile enquanto eu era solista em Harlequinade. Nunca ouviu falar?
Eu me perguntei como ela conseguia decorar e pronunciar aqueles nomes.
- Eu deveria estar morto quando isso aconteceu. – Oto colocou a mão na cabeça.
- É o ballet sofreu algumas alterações. Talvez eu possa te ensinar, mas acho que não vai ser possível já que você quer nos matar...
- É verdade. Eu vou matar você, Nico – ele apontou para mim. – mas vou te fazer minha prisioneira para me ensinar tudo o que perdi sobre ballet!
- Hum. Sinto muito. Não vou deixar você matar Nico nem me prender!
- Vocês não podem me matar! Eu já te capturei uma vez, Nico di Angelo, posso te matar facilmente.
- Veremos. – Saquei minha espada e ataquei o monstro que desviou com o braço. Pegou minha jaqueta e me ergueu no ar.
- Ah, Oto. Um bailarino lutando usando força bruta? Estou começando a achar que você é só mais um aspirante.
Oto me jogou no chão e Jully me olhou e moveu os lábios em um “corra!” ou “morra!”, mas acredito que ela não queria que eu morresse. Corri em direção à porta e esperei algum sinal de Jully.
- O que você disse?
- Eu disse que você é um as-pi-ran-te. – Jully disse bem devagar.
- Talvez eu devesse te matar também.
- Claro, use força bruta e me mate. Continuará sendo um aspirante à bailarino.
JULLY
O gigante urrou e veio em minha direção dando chainés até ficar poucos metros de distância de mim.
- Hum, nada mal. Mas seus braços estavam altos de mais. Claramente indicando que seu balancé é péssimo. Mas para um aspirante está bom.
- Você vai morrer!
- Vou morrer de desgosto vendo esse seu pé em en dedans horrível! Sério, quem era seu professor de ballet? Já ouviu falar em en dehors? A gente usa isso em ballet clássico, sabia?
Peguei minha adaga, para caso o gigante resolvesse atacar. Ele deu uma pirueta e tentou me atacar com a sua espada.
- Você é lento também. Parece que está dançando a variação de A Bela Adormecida.
Acertei-lhe com um chute no nariz e o gigante cambaleou.
- Nico, agora!
Nico cravou sua espada nas costas do gigante e ele se dissolveu em pó.
- Vamos rápido, antes que ele se recomponha. – Nico disse me puxando para a porta.
Notas finais
Royal Ballet School
paddé de Giselle: clássico de repertório do ano de 1840.
Chainés: Uma série de voltas rápidas feitos em linha reta fazendo círculos com o corpo (girando/piruetas).
Harlequinade: clássico de repertório do ano de 1890.
Balance: quando o(a) dançarino(a) fica parado. Seja com um ou dois pés no chão. É o equilíbrio. Equilibrar o corpo.
en dedan: pés virados para dentro ou para frente (como normalmente ficam)
en dehors: pés virados para fora (muito utilizado no ballet)
pirueta (Pirouette) : giro dado por dançarinos(as) em que apenas uma perna fica no chão e a outra fica esticada (estilo Michael Jackson), ou a outra perna fica dobrada com o pé próximo ao tornozelo ou ao joelho.
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