O Elixir
11 Sobre uma manhã e anti-inflamatórios
Notas iniciais
Maura
Meu braço dormiu.
O caminho da circulação sanguínea para o meu nervo está obstruído pela pressão, logo a sensação de dormência me despertou naquela manhã. Quando dei por mim, estava nua, com parte do lençol enrolado em minhas pernas levemente doloridas. Abri os olhos e descobrir porque meu braço estava me incomodando tanto.
O brilho dos fios negros, o emaranhado cacheado que cobria a sua cabeça deixada por cima do meu braço dormente. Jane dormia profundamente e todas as lembranças da noite anterior brotaram acelerando os meus batimentos cardíacos; por muitas noites eu havia sonhado com aquilo, e agora que a vejo tão serena junto a mim, rodeada pelos meus braços, mal consigo acreditar que aquilo foi real.
Tudo graças aquele líquido madeirado de gosto estranho que comprei no México, talvez tenha sido a melhor coisa que comprei em toda a minha vida.
Abro um sorriso bobo, e com cuidado retiro o meu braço apoiando a cabeça de Jane sobre o travesseiro branco. Ela não se mexe, permanece dormindo e eu já não consigo desviar os meus olhos de seu corpo perfeito. Eu poderia passar horas a observando dormir, eu poderia passar o dia deitada ao seu lado, eu poderia mima-la para sempre.
Por que eu amava aquela mulher de tal maneira que jamais imaginei amar alguém, o tipo de amor que se ver em livros e acha impossível acontecer em um mundo humano como o nosso.
Ouço um som vindo da minha cozinha me despertando para a realidade novamente, de início pensei que fosse o Bass, mas o som se modificou então supus ser a Ângela fazendo o café da manhã, ou ela estava procurando pela filha.
Aproximo-me novamente de Jane deixando que meus seios toquem a suas costas nuas, as pontas de meus dedos contornam o seu ombro antes de eu deixar um beijo demorado na sua pele macia.
“Jane.” Sussurro rente ao seu ouvido tentando acorda-la. “Está na hora de levantar.”
Ela não responde, então deslizo minha mão por todo o seu braço e deixo a marca molhada dos meus lábios em seu pescoço fino.
“Baby...” Sussurro novamente. “Sua mãe está aqui.”
Ela espreme os olhos e respira fundo se virando para mim. Os seus seios apontam em minha direção e sinto minha boca salivar de desejo novamente.
“O que?” Sua voz saiu claramente embriagada de sono.
“Angela está na cozinha, ela vai entrar aqui em algum momento. Quer que ela nos veja assim?”
Jane abre os olhos rapidamente e se ergue agitando os cabelos com as mãos.
“Droga, por que você deu toda essa liberdade para a minha mãe em sua casa?” Ela volta-se para mim e percebo o seu olhar surpreso percorrer todo o meu corpo antes de cair sobre meus olhos. “Maur... a gente...” Ela puxa o lençol se cobrindo até o pescoço.
“Gosto de sua mãe por aqui, e sim a gente transou.” Levantei-me da cama e vesti o primeiro robe que encontrei antes de ver o estado perplexo que Jane estava, com seus lábios abertos e o rosto mais vermelho do que nunca. Aquilo me fez sorrir, afinal nunca a vi tão sem jeito como naquele momento.
“Vou distrair sua mãe enquanto você se arruma.” A deixei sozinha, certamente ela precisava de alguns minutos para pensar e não seria o certo atrapalhar isto.
Chego à cozinha e me deparo com Ângela deixando sacolas sobre o balcão.
“Quanta coisa, Ângela.” Digo me aproximando da cafeteira agilizando o ritual de todas as manhãs.
“Maura, querida, onde ela está? Procurei a Jane pela casa toda e não a encontrei.” A mãe da Jane não disfarçou a aflição em sua voz. “Por acaso ela dormiu com você?”
Como responder aquilo? Sim Ângela, nós dormimos, acordamos, transamos e depois voltamos a dormir. Não, não parece ser uma boa ideia, ainda mais agora que Ângela demonstrava estar muito preocupada.
“A-A Jane está bem.” Virei-me mais uma vez tentando evitar os seus olhos sobre mim. “Essas coisas são para ela?”
“Oh sim! E para você também querida, tem pães frescos ali e torta aqui.” Ela puxou uma das sacolas e sorriu me entregando a caixa com a torta de maçã dentro abrindo rapidamente o meu apetite.
“Jane sempre me tira o sossego desde que inventou essa coisa de ser policial.” Falou aflita novamente retomando o assunto anterior. “O que deu naquele garoto para fazer algo assim?”
“Não sabemos.” Respondi ainda interessada naquela torna. “Apenas a necropsia vai poder nos dizer.”
“Sim, mas os noticiários já estão falando horrores do garoto.”
“O que estão falando?” Jane apareceu vestindo a sua roupa de trabalho; tenho que admitir que ela conseguiu se arrumar bem mais rápido do que imaginei. Ângela, no entanto corre até a filha e a abraça como se nada mais importasse no mundo.
“Ma! Para, estou bem.” Jane tentava se soltar dos abraços insistentes da mãe algo totalmente impossível no momento, e eu observava aquilo com um sorriso aberto totalmente aliviada por saber que, naquela manhã, tudo parecia estar no seu devido lugar.
“Ai!.. Ma” Jane falou novamente colocando uma de suas mãos no curativo.
“Você sente dor se eu te aperto?”
“Não, Ma, só gosto de dizer ai.”
De fato, parece que nada mudou, no entanto, eu sabia que tudo havia mudado para mim agora que a vejo, quero envolve-la novamente em meus braços a ponto de não deixa-la ir, quero me envolver no calor de seu corpo, no seu toque, nos seus beijos... Uma noite não seria o suficiente para expressar tudo o que guardei por todos esse tempo.
“Ma, o que falam nos noticiários?” Jane perguntou se afastando finalmente de sua mãe.
“Que era um garoto problemático, maluco e psicopata que apenas queria atirar em seus colegas.”
“Ridículo.” Ela falou por entre os dentes. “Jornalistas são sensacionalistas, sempre optam por aquilo que ira chocar mais.”
“Não vá dizer que era um garoto inocente, Jane.”
“Ele só tinha 14 anos, Ma.”
“E um revólver e disparou contra você. Só de lembrar me dá calafrios. Você nem se preocupa com sua mãe!” A mãe de Jane volta a tocar seus cabelos enquanto ela tenta inutilmente se afastar do carinho.
O cheiro de café se espalhava pela cozinha quando Ângela deixou a casa alegando um compromisso urgente. Jane suspirou antes de puxar uma cadeira e se sentar ao meu lado, permaneceu em silêncio batendo os dedos no balcão de forma aleatória e irritante.
“Você precisa tomar o anti-inflamatório agora.” Falei e ela virou o olhar negro para mim.
“Ok.” Ela cruzou os braços e focou em meus olhos como se estivesse procurando por algo. “Maur... O que foi aquilo?”
“Aquilo o que?”
“Aquilo, aquilo...” Jane respirou fundo. “Aquilo noite passada.”
“Hmm... Você não conseguia dormir então te ajudei. O cérebro liberar uma grande quantidade de endorfina após o orgasmo o que induz ao sono. Você adormeceu rapidinho e nem quis acordar hoje... Diga-me, foi uma boa noite de sono? Por que eu posso repetir o tratamento quando quiser.”
Jane riu com o rosto totalmente enrubescido me fazendo suspirar levemente com seu riso.
“É, eu dormi bem sim.” Ela esticou suas mãos e envolveu as minhas em um manto caloroso e confortável. “Mas estamos bem certo? Não quero que tudo fique estranho entre nós, não quero ficar longe de você.”
“Não percebe Rizzoli? Não há como eu ficar longe de você, nem se eu quisesse.” A minha voz se tornou um murmúrio, quase uma prece, e acho que ela nem sequer ouviu. Mas me enganei, Jane não apenas ouviu, mas sorriu gentilmente antes de se aproximar e beijar levemente minha testa. Senti os seus lábios em minha pele me marcando mais uma vez, e acho que sou eu quem está com o rosto vermelho agora.
“O anti-inflamatório é o da caixa vermelha?” Ela questionou se afastando indo em direção ao armário da cozinha. Detém-se por alguns instantes em silêncio, só depois compreendo o que havia deixado ela completamente muda.
“O que é isso?” Ela volta-se para mim com aquela garrafa azul nas mãos.
foi então que estremeci, ou congelei ao ver novamente o elixir, agora nas mãos de Jane. Eu o havia deixado dentro do armário e esqueci-me de guardar em um local onde ninguém possa vê-lo. Ela claramente percebe o meu incomodo franzindo o cenho desconfiada.
‘O elixir do amor’ Le o rótulo pausadamente antes de retirar a tampa e respirar o aroma do líquido. “Você trouxe isto do México?”
Meus lábios se abrem, mas não consigo dizer nenhuma palavra.
“S-Sim.” Consigo, em fim, falar algo. “Deixe isso ai.”
“Nossa, você parece que viu um fantasma.” Ela inclina a cabeça para o lado totalmente interessada na garrafa. “Isto deve ser bem perigoso, para te deixar assim.”
“Jane...” Dei um passo à frente tentando trazer sua atenção de volta a mim, mas tudo foi inútil, já que naquele instante ela ergueu o elixir e o tomou.
Um gole foi o suficiente. Bebeu e seu rosto se fechou como se tivesse odiado o sabor, naquele momento várias possibilidades passaram pela minha cabeça e todas eram bastante ruins.
“Argh... É só tequila.” Disse.
“Tequila?”
“É Maura, uma tequila de nome bizarro.” Ela ergueu as sobrancelhas. “Você não sabia que era tequila?”
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