O Elixir
3 Sobre um crime e uma garrafa azul
Notas iniciais
Sua fala é interrompida quando o irmão de Jane surge ficando entre nós duas.
“Finalmente chegaram. Oi Maura, que bom que esta aqui a coisa esta bem feia lá dentro!” Frankie meneia a cabeça levemente para mim e a única coisa que consigo fazer é abrir um sorriso fraco para ele.
“Feia como?” Jane questiona por fim.
“Melhor ir ver.”
Caminhei rapidamente para o interior da casa sabendo que logo atrás de mim Jane andava batendo os pés no chão de cimento.
Dois policiais se aproximam e um deles me saúda como se eu fosse alguma deusa grega, era esta a maneira que todos a minha volta demonstravam respeito, me vendo como uma entidade superior, a rainha dos mortos, e não como uma humana comum. Parece que por mais que façamos velhos hábitos jamais são mudados.
Ele me oferece um par de Propé que sem demora coloco em meus sapatos antes passar por debaixo da fita amarela e adentrar na sala da casa.
Era uma sala grande, com cortinas fechadas em que a luz das câmeras dos técnicos ajudava a iluminar o local. Pessoas caminhavam por toda a parte apanhando objetos e murmurando entre si, uma típica cena de crime e neste momento, percebi que estava de volta para a minha rotina.
Olho para a esquerda e vejo uma escada com revestimento de madeira e aos seus pés o líquido vermelho e viscoso manchando aquele belo piso. O corpo estava ali, e era ali que eu deveria ir. Agacho e olho com mais atenção vejo a posição do dorso no chão de madeira com a barriga para cima e os pés apoiados no primeiro degrau, vejo o rosto pálido com os cabelos loiros cobrindo parte dos olhos, um inchaço seguido de equimose na região do pescoço e a perfuração na região do esterno, um ferimento causado por uma bala.
“Susan Smith.” Ouço a voz de Frankie frio e totalmente profissional logo atrás de mim. “44 anos, corretora, divorciada e com dois filhos, o mais velho, Jason com 13 anos e Isa com 9 anos.”
“E o ex-marido?” Jane questionou ao lado de seu irmão enquanto ainda calçava as suas luvas nitrílicas.
“Robert Delawy, mora em Nova York e ainda não conseguimos localizar.”
“Bem, acho que o sr. Delawy tem algo para nos dizer. Os filhos moram com ele?”
“A mãe tem a guarda das crianças.” A voz de Frankie perdera o tom habitual se tornando bem mais profunda fazendo com que tanto Jane quanto eu voltasse à atenção para ele.
“Onde estão as crianças?” Perguntei antes de perceber que Frankie encolhia os ombros.
“Lá em cima.” Respondeu pesadamente.
Jane foi na frente, subiu as escadas como uma flecha ,com os olhos rubros tomados pela fúria. Quando consegui alcança-la, ela estava parada no corredor com os músculos tensos, congelados e com os olhos presos ao chão onde novamente, o líquido vermelho chamava a atenção.
Ela não emitiu nenhum som, e nem precisava, pois quando me aproximei vi o que a havia paralisado. A pequena menina deitada de bruços com os braços esticados como se tentasse se segurar ao fio da vida enquanto se afogava em uma poça do próprio sangue. Assim como Jane, me espantei com aquele cenário macabro, mas impedi que emoções tomassem o controle e rapidamente me tornei a profissional e então, agachei ao lado do pequeno corpo para examinar o tamanho do estrago. Os cabelos loiros, tão claros quanto os da mãe, estava manchados de vermelho assim como todo o seu tronco, ao todo, contei nove perfurações não por arma de fogo, aquilo foi feito por arma branca algo pontudo o suficiente para causar ferimentos tão profundos.
“O que esta menina fez para merecer algo assim?” Jane rangeu os dentes antes de se aproximar para o lado do corpo visivelmente furiosa.
“Ela tem varias equimoses no rosto e nos braços.” A toquei levemente os membros buscando por fraturas. “Sem dúvidas ela recebeu vários golpes seu braço está quebrado, talvez tenha o colocado a frente para se proteger do agressor.”
“E os ferimentos, foram feitos com o que?”
“Não tenho certeza, são finos demais para alguma faca e parecem profundos também; preciso analisar com mais calma.”
Jane levantou-se e caminhou com cuidado para a lateral do corredor no qual apanhou um objeto.
“Finos e longos como uma chave de fenda Philips?” Ela ergueu o objeto ensanguentado e entregou-o a mim onde guardei no saco de provas.
Foi quando a ouvi falar um palavrão, a essa altura já devia estar acostumada com o seu linguajar, e eu estava. Mas naquele momento fui totalmente tomada pela surpresa e me afastei do corpo pálido da menina e segui a detetive para dentro de um dos quartos. O espanto todo de Jane, assim como a fúria incandescente em seus olhos, veio com a presença do terceiro corpo; o garoto, Jason, estava caído rente a uma parede com o rosto voltado para o chão e parte de seu escalpo aberto extravasando o conteúdo de massa cinzenta. Ao contrario de sua irmã e sua mãe, Jason não possuía ferimentos de espancamento, pelo menos não aparentemente.
“Mas que porra aconteceu aqui?” Jane esbravejava palavrões enquanto seus olhos percorriam as manchas de sangue espirado na parede.
“Eu avisei que estava bastante feio.” Frankie surgiu com as mãos apoiadas no codre de sua arma.
“Podia ter me dito: Olha Jane tem duas crianças e a mãe delas cobertos de sangue, por favor, não se assuste!” Ela respirou fundo antes de voltar sua atenção para o corpo. “Ele foi espancado também?”
Toquei a lateral de sua cabeça contornando o espaço do ferimento até a região superior, era possível sentir os fragmentos de ossos estalando por debaixo da pele.
“O crânio esta bastante fragmentado, provavelmente pelo ferimento a bala, não vejo equimose ou sinal de fraturas só arranhões nos braços e também no pescoço. Com certeza ele lutou com o agressor.”
Ela inclinou a cabeça como se sentisse alívio com as palavras que eu disse.
“Pode ter DNA do agressor nas mãos dele.”
Concordei com um leve aceno de cabeça. Jason possuía os cabelos rente um pouco mais escuro comparados com sua mãe e irmã além de um rosto um pouco afeminado. Era um garoto franzino para a idade que tinha, se eu tivesse o conhecido com vida, jamais diria que ele possuía 13 anos. Mas o que mais me chamou atenção foi o revolver próximo ao corpo dele. Por que o atirador deixaria a arma para trás ao lado do corpo da vítima?
Meus pensamentos são interrompidos com a voz claramente furiosa de Jane falando com seu irmão.
“Vamos ver com os vizinhos se ouviram alguma coisa, pelo tamanho da bagunça disto aqui, acho difícil ninguém ter ouvido nada. E vamos dar um jeito de achar o ex-marido e obriga-lo a vir a Boston.”
“Acha que foi o pai deles?” Perguntei enquanto os policiais se moviam rapidamente entre os cômodos.
“E você não acha?”
“Não gosto de achar nada, gosto mais de ter certezas sobre algo.”
Jane revirou os olhos bufando igual um touro diante de um toureiro.
“Enquanto não tivermos outro suspeito o tal Delawy esta no topo da lista. Mas não vamos ignorar outros monstros, se é isto que você esta pensando.”
Minha atenção volta para as marcar de sangue espirada na parede e aposição de Jason ao chão, aquilo me intrigou, algo não encaixava; mas antes de dizer algo, precisava ter certezas, as certezas que apenas a necropsia poderia me dar.
“Seja lá quem fez isto.” Continuei a dizer. “Escolheu a cidade errada, a cidade de Jane Rizzoli a caçadora de monstros.”
“Hey, eu não os caço sozinha é uma parceria aqui. Rizzoli e Isles as caçadoras de monstros!”
“Hmm... Parece título de filme B.”
Ela olhou para mim e sorriu e como quase natural, o seu sorriso cálido provocou o meu.
XXX
Pode soar estranho, mas eu senti falta daquilo; de estar na cena do crime de pensar e repensar o que aconteceu naquele lugar, de saber que assim como eu, Jane estaria do meu lado com o mesmo objetivo: a verdade e a justiça para as vítimas. Quando eu estava trabalhando com ela não sentia meu coração desolado, nem ao menos me lembrava do suposto namorado que ela arranjou na minha ausência, apenas conseguia sentir a euforia e a agitação de nossas mentes se unirem em um objetivo maior.
Era maravilhoso, e agora que estou sozinha em minha sala sem ter o que fazer, sinto que deixei algo para trás.
Ainda levaria alguns minutos para a chegada dos corpos até o necrotério, já havia preparado os papéis necessários e tudo o que me restava agora era esperar. Mas quanto mais minha mente fica ociosa, mas meus pensamentos se voltam para Jane e na necessidade de estar junto dela.
Levanto-me da minha cadeira e caminho em direção as poucas malas que trouxe comigo, apanho uma delas e a abro procurando o chocolate mentolado que comprei em uma loja no mercado municipal. Entretanto, no instante em que abro o zíper meu olhar cai no brilho do vidro azulado, havia esquecido completamente daquela garrafa com líquido misterioso.
O líquido misterioso que te dá o amor que você almeja ou mais ou menos isso. Quanta bobagem, como se tal coisa fosse possível. Mas, e se...
Apanho a garrafa e a observo com mais cuidado, o rótulo amarelo estava escrito com letras vermelhas, ‘o elixir do amor’, e logo a baixo uma pequena instrução de uso:
‘Tomar 3 copos de 60ml de uma vez.’
Caminhei rapidamente até o fim do corredor do laboratório onde havia um bebedouro, apanhei um copo plástico e voltei para minha sala fechando a porta para que ninguém entrasse sem minha autorização.
As instruções diziam 3 copos de 60ml o que daria ao todo 180ml de elixir, na minha mão estava um copo com 200ml e na outra a garrafa azul. Sentei-me novamente na minha cadeira e apoiei os cotovelos sobre a mesa e permaneci olhando para a garrafa enquanto batia levemente os dedos sobre a madeira. O vendedor alegou que os antigos povos usavam isto, o que muito provavelmente era alguma receita cultural passada por gerações entre os Maias.
Mesmo duvidando de tudo aquilo, abri a tampa e levei a borda da garrafa até minhas narinas, o cheiro forte e adocicado de álcool evaporou como se fosse alguma onda batendo diretamente contra minha face. Na certa aquela mistura havia álcool e sabe-se lá mais o que; mas aquela altura, não estava mais importando com o que aquele líquido era feito eu estava depositando uma fé totalmente cega em algo que eu sabia que poderia não funcionar.
Mas por questões científicas eu precisava testar.
Coloquei o líquido madeirado no copo tomando o cuidado para não passar os 180ml, pensei em Jane e sem hesitar tomei tudo em uma única vez. Senti o líquido entrar em meu corpo abrindo passagem pelo meu esôfago o rasgando, fecho os olhos e balanço a cabeça antes de respirar novamente. Sinto o meu sangue correr mais rápido e meu estômago aquecer levando o calor a se espalhar por todo o meu corpo. Aquilo foi tão intenso que retirei o jaleco que usava e abri alguns botões da minha camisa de linho azul.
De certo, aquela bebida era forte, porém adocicada, não sentia o gosto amargo em minha boca, somente o calor incomum e por alguns momentos me questionei se Jane também sentia aquele calor e aquilo me fez sorrir. Olhei novamente para a garrafa e não havia mais instruções, nem nenhuma palavra escrita em espanhol ou inglês que pudesse dizer qual o próximo passo.
Minha cabeça parecia flutuar, então apoiei meu queixo em uma das minhas mãos e suspirei mordendo meu lábio inferior.
“Ok, e agora eu espero?”
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