O Elixir
15 Sobre diversas ondas
Notas iniciais
Jane
Eu estava em uma montanha russa. Não literalmente claro, era uma montanha russa de sentimentos.
Aquele dia foi o dia mais louco que posso me lembrar, estava repleto de sentimentos opostos surgindo ao mesmo tempo como um Tsunami arrastando tudo antes de voltar ao oceano, e quando parecia estar tudo bem, outro Tsunami surgia, e outro e outro.
Começarei pelo primeiro Tsunami de sentimentos que surgiu logo pela manhã quando Maura me despertou. Até ai sem problemas, eu estava tão cansada que nem percebi onde havia dormido e nem com quem. Quando a vi, nua ao meu lado, as memórias daquela noite estamparam em minha cabeça como um filme, e foi exatamente aí que senti a primeira onda de sentimentos conflitantes me atingir.
Por um lado eu estava mais do que eufórica por saber que aquilo não foi um sonho, ainda era possível sentir o seu toque, o seu cheiro, os seus beijos, os seus carinhos, o seu afeto em cada ponto da minha pele, e cá entre nós, que sensação boa do caralho!
No entanto, ao mesmo tempo em que estava feliz com aquilo tudo, um pensamento de ‘e se’ surgiu me fazendo recuar. E se a Maura leu em algum periódico que sexo ajuda a dormir e resolveu aplicar em mim a terapia? E se aquilo não foi nada mais do que uma experiência científica para ela? E se de repente a minha melhor amiga achou tudo estranho e resolveu se afastar?
Naquele momento, não havia como eu saber, não até questionar a própria Maura.
E quando estávamos na cozinha veio o segundo Tsunami por meio de uma garrafa de tequila. De início pensei que no México tequila era chamada de elixir do amor, o que por si só já era bizarro. Mas quando Maura explodiu daquela maneira quebrando a garrafa, espalhando vidro pela cozinha e confessando seus sentimentos, entrei em conflito novamente.
Eu não sabia se queria rir daquilo, afinal quem toma tequila achando que é uma poção mágica? Ao mesmo tempo em que eu queria rir, uma sensação de que eu estava sendo manipulada me abateu. Claro que eu não acreditava que o elixir, que não era elixir nenhum, tinha algum efeito, mas saber que Maura tentou me manipular não foi nada agradável.
Como se não fosse o suficiente, ainda senti uma vontade absurda de beija-la, afinal, ela disse que me amava da mesma maneira insana que eu a amo, logo a noite passada não foi alguma experiência cientifica e eu não poderia estar mais feliz com aquilo.
Então, entre rir, ficar brava e beija-la fiz o que achava ser mais sensato; encostei Maura na porta da geladeira e a beijei transmitindo tudo o que ardia em meu peito.
Parecia que enfim, eu teria um descanso no passeio de montanha russa, no entanto, o dia estava apenas começando.
E foi na sala de necropsia que o terceiro Tsunami surgiu. Eu não queria estar ali, de certa forma havia uma conexão entre mim e o garoto, além do fato de que fui eu quem o mandou para a mesa de necropsia. Os meus nervos recuavam e era possível ver o suor congelante escorrer pelo meu corpo quando Maura começou a desossar o garoto como se fosse um frango. Contudo, por mais difícil que estar ali pudesse ser, eu não podia simplesmente ir embora, não enquanto a responsabilidade estava sobre meus ombros, não enquanto meu trabalho ainda precisava ser feito. Eu devia isso ao Mike, a sua família, e a mim mesma.
Quando finalmente recuperei o controle, veio o quarto Tsunami.
Cavanaugh proibiu que eu interrogasse os pais de Mike, nem sequer eu poderia estar na sala ou ver através do vidro. Nada, eu não podia participar de nada daquilo deixando toda a tarefa nas mãos da maluca da Athanasiadis.
Era de fato uma ordem sensata; afinal, como eu iria me apresentar aos pais do garoto?
“Olá sou a detetive Rizzoli, fui eu quem meteu a bala na cabeça de seu filho descontrolado.” Isto seria péssimo; o estado seria processado por minha causa.
Embora aquela situação fosse à correta, nunca é bom ser deixada de lado, e eu ficava mais inquieta e ansiosa à medida que as horas terminavam sem nenhuma notícia. Toda a minha agitação cativou os olhares de Maura, e como ela tem feito ultimamente, tentou me acalmar usando a sua ‘técnica terapêutica’; sinceramente, ainda me pergunto onde ela aprendeu aquelas coisas.
Eu não tinha a menor intenção de seguir com aquilo na sua sala, mas já não há a mínima possibilidade de resistir aquela mulher, é como se ela tivesse um campo gravitacional enorme me atraindo, drenando minhas forças, me dominando completamente.
Ah, gosto de ser dominada desta maneira, e pelo visto Maura já percebeu.
Por alguns minutos, esqueci-me da Ana, do Mike, do Cavanaugh, do resto do mundo. Era apenas eu e a Maura naquela sala sobre a sua mesa impecavelmente arrumada, logo meus sentidos estavam direcionados apenas nela não havendo espaço para mais nada.
E agora estou sentada na minha mesa, com um copo de café em minhas mãos relembrando cada detalhe e como tudo aconteceu tão rápido, tão rápido que estou fazendo planos futuros com a Maura enquanto Frankie falava sobre o seu novo caso, ou pelo menos era o que parecia ser, já que eu não estava prestando atenção nele.
Sinto que alguém para ao meu lado fazendo Frankie se calar, ergo o olhar e me deparo com Athanasiadis varrendo o local com seus olhos estreitos.
“É assim a divisão de homicídios?” Falou.
“Desculpe desaponta-la, mas não temos um sofá de couro ou uma smart tv.” Digo.
Ela abriu os lábios para responder, mas Frankie surgiu diante dela a fazendo recuar, tenho que admitir que até mesmo eu me assustei com meu irmãozinho e seu movimento ninja.
“Athanasiadis esse é...”
“Frankie Rizzoli.” Ele me interrompeu sorrindo abertamente, ignorando minha presença ali. “Você deve ser a detetive grega; Ana Athanasiadis certo?”
“Na verdade sou tão grega quanto você é italiano, ou seja, só pelo nome.”
“Ah, o que seria da América sem nossos ancestrais europeus, não é mesmo?” Frankie piscou para ela antes de rir da sua própria piada. Ana, no entanto ergue as sobrancelhas e observa o meu irmão totalmente calada como se procurasse qual o motivo do riso.
Sempre que eu via Frankie ter esses ataques era porque uma mulher que ele se interessou estava por perto, e era quase impossível algo bom sair daquilo. Ana era bonita, não tem como discordar, porém 30 minutos de conversa com ela era o suficiente para fazer alguém como Frankie voltar para a casa chorando.
“Se quiser posso te mostrar tudo por aqui.” Ele continuou.
“Obrigada, mas não quero.” Ela falou prontamente.
É exatamente esse tipo de coisa que eu me referia, Ana era tão franca que talvez nem mesmo ela conseguia se suportar. Eu poderia continuar sentada e observar de camarote aquela tragédia grega, mas havia assuntos mais urgentes, então pedi a Frankie para nos dar um minuto, ele saiu um pouco relutante, mas saiu.
“Então, o que descobriu?” A questionei sem demora.
“Que os Rizzoli são no mínimo peculiares.” Ela inclinou a cabeça para o lado ainda com os olhos presos no meu irmão saindo pela porta.
“Athanasiadis.” A chamei depois de um longo suspiro. “Foco no caso, o que conseguiu no interrogatório?”
Ela puxou uma cadeira se posicionando ao meu lado antes de deixar uma pasta e seu caderno de anotações sobre a mesa.
“Os pais do garoto estavam bem emotivos para dizer uma frase inteira sem chorar, parecia que não ia terminar nunca aquilo.” Ela indicou com a cabeça. “Aí esta parte do relatório que fiz, ainda está incompleto, mas você vai entender.”
“Deixa adivinhar, eles não sabiam do anabolizante?”
“Não. E nada parecia ligar Jason ao Mike, até o pai do Mike, Sr. Tomas Brewer admitir ter um caso com a mãe de Jason, Susan.”
“Que belo casamento da família tradicional este. A Sra. Brewer não sabia disto? Ela conhecia a Susan?”
“Ela tinha suspeita do marido, mas nada certo. Susan vendeu a casa aos Brewer então é claro que elas se conheciam”. Ana fez uma pausa ajeitando os cachos largos em seus ombros.
Olhei para a foto de Susan Smith presa por um clips na página do relatório e algo chamou minha atenção.
“Ela não foi corretora a vida toda”. Falei. “Aqui diz que ela trabalhou para uma empresa chamada Dolphin.”
“A mesma empresa que o Sr. Brewer trabalha como publicitário. É um laboratório de pesquisa em medicamentos.” Ana completou. “Foi lá que de fato eles se conheceram, segundo ele trabalharam em um projeto denominado FlyBird.”
“Que tipo de projeto era este?”
“Teste de medicamentos para síndromes endócrinas...” Athanasiadis abriu os olhos ainda mais e percebi que ela havia compreendido o meu raciocínio. “Acha que a droga veio de lá?”
“É o que vamos descobrir.” Me posicionei diante do computador e abri a página da Dolphin procurando mais informações sobre o tal projeto. Foi então, no final da página que vi o nome de um dos colaboradores e rapidamente senti um calafrio.
“Dr. Doug Cavaradossi.” Murmurei ainda com os olhos presos no monitor.
“Eu sabia!” Falei apanhando o meu celular rapidamente. “Eu sabia que algo estava errado.”
“Para quem está ligando Rizzoli?” Ana questionou.
“Para a Maura.”
“Isto é hora para ligar para a sua namorada?” Ela revirou os olhos antes de afundar as costas na cadeira.
Ignorei completamente qualquer gesto que Ana fazia me concentrando no som do toque do outro lado da linha, alguns segundos se passaram e nada, Maura não atendeu. Franzi o cenho e liguei novamente, e mais uma vez sem resposta. Ergui o olhar até o relógio na parede, era mais de 20h, naquele horário ela não estaria trabalhando, mesmo assim liguei para a sua linha no laboratório, e mais uma vez só ouvi o som do toque sem nenhuma resposta.
Meu coração apertou deixando minha respiração pesada, Maura não costuma ficar sem atender ao telefone.
“Ela não atende.” Falei para Athanasiadis que me olhou aturdida, já que naquele momento a minha inquietação era bem visível.
“Caramba Rizzoli, o que você fez para ela te ignorar?” Ana abriu um sorriso tenso antes de apanhar o seu celular e ligar para Maura, e como o esperado ela também não atendeu. “Talvez ela esteja dirigindo.” Ela falou voltando-se para mim ainda como celular pregado na orelha.
Mas eu sabia que não era isto, conhecia Maura tempo o suficiente para saber que ficar sem atender ao telefone não era um sinal bom. Levantei bruscamente, coloquei minha arma no cinto e caminhei rapidamente em direção à porta com Athanasiadis ao meu lado.
Descemos até o estacionamento procurando por qualquer pista de que Maura deixou o departamento, e a cada passo dado sentia a minha garganta secar sem contar com a dor latente no meu ferimento, mas eu não tinha tempo para me preocupar com dores, pelo menos não naquele momento, não até saber se Maura estava bem.
“Por que ela parou o carro tão longe?” A voz ofegante de Ana ao meu lado era o reflexo de que ela se esforçava para acompanhar meus passos.
“Não havia vaga perto da entrada quando ela chegou.” Falei ainda com o olhar em direção no caminho pouco iluminado do estacionamento, finalmente cheguei à vaga e para meu alívio, ou desespero, o Lexus preto estava lá.
Não havia ninguém dentro dele.
Fechei os dedos em meu pulso e sinto o suor na palma das mãos, naquele momento, a dor latente no meu abdômen ficou ofuscada pelas fortes batidas do meu coração, algo estava errado... muito errado. Athanasiadis se aproximou do veículo observando com seu olhar de policial, o olhar que somos treinadas ainda na academia para ver tudo e todos, procurando algo suspeito ou diferente em uma cena de crime.
De repente percebo que ela estava tratando aquilo como uma cena de crime e eu não tinha condições para lidar com aquilo agora. Dei-lhe as costas, apanhei novamente o celular e desta vez liguei diretamente para Susie. No terceiro toque, ela atendeu.
“Dra.Isles?” Susie parecia confusa. “Ela já saiu faz mais ou menos 30 minutos.”
“Não, ela não saiu.” Pensei olhando ao redor do estacionamento tentando pensar onde Maura poderia ter ido sem o carro.
“Hey Rizzoli.” Ouvi a voz séria de Athanasiadis do outro lado do Lexus e me aproximei rapidamente a encontrando agachada com a lanterna do seu celular ligada em direção ao chão. “Acho que temos um problema.”
Vi o que ela iluminava, vi as gotas vermelhas espalhadas no chão em um rastro contínuo até desaparecer a alguns metros.
Fechei os olhos e senti um novo Tsunami de emoções me atingir em cheio, um Tsunami carregado de incertezas e medo.
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