O Elixir
22 Epílogo
Notas iniciais
O sol até aquele momento era um globo perfeito e amarelo liberando um calor trêmulo. Um calor que ele já estava acostumado, mas mesmo assim agradeceu por estar no caminho do ventilador barulhento pregado na parede da loja. O rádio a pilhas ecoava um som sofrido e abafado de uma música qualquer que nem sequer ele fazia questão de ouvi-la, já que sua atenção estava no jornal que lia.
Virou a página e logo se perguntou quando Alma voltaria. Sua mulher saiu para a hora marcada no salão de beleza e o deixou tomando conta da loja, e já havia se passado horas desde que ela saiu. No fim percebeu que quanto mais Alma demorasse para voltar melhor seria para ele, afinal, alguns minutos longe da esposa eram minutos raros e deveriam ser apreciados.
Ouvi o som do sino pregado na porta da loja, alguém havia entrado o fazendo erguer o olhar por cima do balcão. Um cliente ou apenas um curioso pela vidraria colorida na vitrine, seja quem fosse desde que estivesse com dinheiro seria muito bem vindo.
Fechou o jornal e deu uma olhada mais precisa. Era uma mulher usando um vestido azulado com bolinhas brancas e um pequeno chapéu de palha sobre a cabeça. Ela parecia estar bastante interessada nas garrafas azuladas perto da porta, já que nem sequer notou a sua presença por de trás do balcão.
Pelo tom da pele e os cabelos loiros caindo sobre os ombros ele teve certezas que era apenas mais uma gringa, logo ele pensou que seria fácil, pois os gringos sempre estavam dispostos a levar qualquer coisa que tenha uma história mágica, alguma lenda, mesmo que não houvesse lenda alguma. E ele não era do tipo que perdia uma oportunidade destas.
A mulher continuava olhando para as garrafas dispostas nas prateleiras e nem sequer percebeu que ele se aproximava com um sorriso torto enquanto coçava o seu cavanhaque grisalho.
“Olá minha senhora. O que procura para melhorar a vida?” O seu inglês não era dos bons, ele sabia disso, mas aquilo apenas era parte dos negócios, já que os gringos evitavam fazer perguntas para alguém que mal falava a sua língua.
A mulher loira se vira e pela primeira vez ele consegue ver o seu rosto. Um óculos escuro cobria os seus olhos e quando ela o retirou Ramon se esqueceu de respirar.
A mistura de verde com dourado de seus olhos o fez dar um passo para trás. Ele conhecia aquela mulher afinal, não era fácil esquecer a cor daquelas íris tão incomuns para ele.
Será que ela voltou querendo o seu dinheiro de volta?
Não ela não parecia querer dinheiro.
Veio para lhe denunciar? Trazer os policiais até a loja?
Se fosse o caso, onde estaria a polícia? Esperando um momento certo para aparecer? Algum policial que estaria lá fora a espera do sinal para poder entrar na loja e o prender, o arrastando como um cachorro para a carrocinha e a loja que tanto Alma lutou como conquistar seria fechada por sua causa, pela sua mania de se atrair por dinheiro fácil.
Alma o avisou que isso aconteceria algum dia, que algum cliente engado e furioso armaria uma emboscada levando os dois para o fundo de uma cela ou pior algum buraco.
Puta merda! Naquele momento ele se arrependeu por não dar ouvidos aos sermões da esposa.
Ouvi mais uma vez o som do sino da porta, mais alguém entrou na loja e naquela altura gotas de suor começaram a brotar em partes do seu corpo que ele nem sabia que existia.
“É agora!” Pensou.
Quando direcionou o olhar até a porta, viu outra mulher usando uma camisa de linho sem mangas e um short jeans, aquela mulher era um pouco mais alta do que a anterior e o emaranhado dos seus cabelos logos e negros a deixava ainda maior.
Pelo tom da pele da morena, percebeu que ela também não era mexicana e sua curiosidade sobre ela se tornou ainda maior quando avistou a pequena criança segurando uma de suas mãos.
“Ah, te achamos.” A morena fala aliviada se direcionando a loira que sorri ao ver a pequena criança com passos iniciantes caminhar em sua direção esticando um dos braços para mostrar o brinquedo que trazia.
“Adivinha quem trocou um sorvete por uma boneca da morte?” A morena continua a falar apontado para a menina com cabelos curtos, mas tão negros e revoltos quanto os dela. “Eu queria que a morte não fizesse parte dos negócios da família, mas parece que o fruto não cai muito longe da árvore.”
A loira se agachou, pegou a menina com cuidado e a aconchegou em seus braços, de forma carinhosa começou a falar com ela fazendo a pequena criança sorrir abertamente quase levando a chupeta KUKA a cair de sua boca.
“Ah Jane, é a La Muerte.” A loira falou entre o sorriso largo. “Eu achei muito bonita, e a Regina adorou ela, provavelmente por causa das cores.”
“Ainda bem que os instrumentos que você usa para abrir os mortos não têm cores.”
“Mesmo se tivessem eu não deixaria perto dela. Já você e suas algemas... Lembra que as esqueceu sobre a mesinha de centro? Regina pegou, prendeu uma alça no seu pulso e a outra na perna da mesinha, isso tudo enquanto você dormia no sofá.”
“Foi a primeira prisão da nossa filha...” A morena que se chamava Jane ergueu o queixo orgulhosa ao se lembrar do ocorrido. “Com certeza a Regina vai colocar muito bandido atrás das grades.”
“O que te faz pensar que ela vai ser uma policial?”
“Oras, ela me algemou Maura. Quer mais prova do que isto?” Jane gesticulava com as mãos e ao ver a cena a menina começou a gargalhar e desta vez a chupeta em sua boca caiu sobre o antebraço de Maura. As duas mulheres se derreteram com o som da risada da filha e nem se deram conta que Ramon está ao lado boquiaberto.
Ramon ainda estático observava a cena claramente indeciso, não sabia se saia correndo, já que uma das mulheres era realmente uma policial ou se buscava resposta para as perguntas que eclodiram na sua cabeça.
“Errr... Senhoras, perdão. Err é que... n-nossa!” Ele dividia o olhar confuso entre Jane e Maura sem saber exatamente o que dizer.
“Você é casada com ela?” Ele questiona a Jane que franze o cenho com uma pergunta tão repentina.
“Yeah.” Ela diz.
“Mas você ama ela mesmo? Tipo amor mesmo?” Ele volta a questionar como se tentasse se convencer.
“Pode apostar que sim.” Jane sorri confusa olhando em volta esperando alguém aparecer com as câmeras e jogando confetes nela dizendo que ela está na TV.
“Oh nossa! Então foi por causa dela que você comprou...?” Ele se voltou para a Maura que acenou com a cabeça concordando ao mesmo tempo em que tentava esconder o riso.
“Santa Madre de Dios!” Ele gritou levando as mãos a cabeça. “Funciona! Funciona! Funciona!”
Ramon desnorteado e aos berros saiu correndo sem ao menos olhar para trás, atravessou a porta da sua loja deixando Jane e Maura e a pequena Regina sozinhas ali.
“Ok, isso foi estranho.” Jane falou tentando entender o que acabou de aconteceu. “Afinal, o que você está fazendo aqui?”
“Eu só queria uma informação.” Maura falou antes de voltar sua atenção para Regina que se agitava mais uma vez em seus braços brincando com a boneca em suas mãos.
“M-Maaaa.” Regina tentava se expressar mostrando a pequena boneca para Maura. “Maaaaa...”
“Acho que está tentando dizer: Mamãe me leve para ver as pirâmides Maias.” Maura falou imitando a voz de uma criança fazendo com que Regina afundasse o rosto na curva de seu pescoço agarrando-se a ele.
“Tá de brincadeira não é? Regina tem 1 e 2 meses ela não faz ideia do que é uma pirâmide, ainda mais uma pirâmide Maia.”
“Por isso vou ensina-la. Temos que estimular os interesses da Regina. Quem sabe nossa filha se torne uma grande arqueóloga.”
“Arqueóloga?” Jane falou abrindo um enorme sorriso após pensar um pouco. “Gostei como isso soa. Vou assistir os filmes do Indiana Jones com ela.” Ela abriu a porta da loja deixando que Maura e Regina passassem em direção a rua.
Maura ainda parou na calçada se permitindo olhar para todos os lados daquela rua movimentada da cidade do México, por fim ela apenas sorriu como se de alguma forma aquele lugar lhe trouxesse alguma lembrança divertida e agradável.
Ramon ainda corria pelas ruas e vielas da cidade, de tempos em tempos ele parava para retomar o fôlego e se lamentar por não ter mais os seus 20 anos, já que sua barriga adquirida por anos de consumo exagerado, o impedia de correr ainda mais rápido.
Mesmo assim ele se esforçava, atravessou a rua ainda ofegante esbarrando em uma senhora e seu cachorro, e quase caiu no chão ao pisar em uma falha na calçada, conseguiu chegar até a porta e a abriu entrando no salão de beleza totalmente exausto.
Sua mulher, Alma, estava com todos os bobes e prendedores no cabelo totalmente distraída com a conversa sobre o último capítulo da novela que nem se quer viu o seu marido aproximando-se de si.
“Al... ma.” Ele ofegava tentando se comunicar o máximo possível. “Funciona!”
“Por Dios Ramon! Não me diga que deixou a loja sozinha?”
“Escuta Alma!” Ele continuava apoiando as mãos nos ombros dela. “Realmente funciona!”
“Acalme-se homem, não consigo entender o que diz! O que funciona?” Alma falava totalmente agitada com os gestos do marido.
“O elixir é verdadeiro...” Ramon respirou fundo tomando folego. “Aquele elixir vai nos deixar ricos, Alma!”
XXX
Do outro lado da mesa de madeira antiga, Maura conferia cada detalhe da sua apresentação. Depois de passar horas mudando slides, figuras e o texto de lugar, agora ela sentia que sua aula sobre balística, que seria apresentada no congresso de patologia forense daquele ano, estava do jeito desejado.
Já era noite, e a noite Mexicana não era menos quente do que os dias.
Inclinou a cabeça levemente para o lado antes de apanhar a taça com Bordeaux, virou-se e tomou um generoso gole antes de suspirar sentindo o cansaço tomar conta de si. Desviou o olhar até a cama do quarto de hotel e neste momento foi impossível não dobrar os lábios em um sorriso bobo.
Jane estava dormindo, deitada de dorso e com o rosto levemente pendendo para o lado ao passo que Regina, de bruços repousava a cabeça no abdômen da detetive em um sono calmo e tranquilo. Maura suspirou encantada ao ver as duas pessoas que mais amava juntas daquela forma.
Ela termina o vinho, desliga o laptop e se aproxima da cama com cuidado. Viu uma das pequenas mãos de Regina segurando com toda a força uma mecha do cabelo de Jane como se a impedisse de sair da cama, Regina tinha herdado não apenas a cor dos cabelos ou dos olhos, mas também o temperamento teimoso e agitado de Jane. E após esgotar as energias que uma criança poderia ter, sua filha dormia da forma mais angelical que Maura já viu.
A legista se aproximou da menina, sentiu o cheiro suave de shampoo de bebê que sua filha exalava e deixou um beijo no topo da sua cabeça. Depois caminhou para o outro lado da cama, retirou o robe que usava ficando apenas de camisola e deitou-se ao lado de Jane com todo o cuidado necessário para não acorda-la. No entanto, Jane abre os olhos e a encara antes de suspirar.
“Desculpe se te acordei.” Maura sussurra afagando os cabelos macios da mulher.
“Não foi você, eu queria mudar de posição, mas não quero acordar a Regina... Ela acabou de cair no sono.” Jane também sussurra. “Céus! Como um ser tão pequeno pode ter tanta energia assim?”
“Ângela disse que você também era assim nesta idade.”
“Mas eu tinha o Frankie e depois o Tomie para desgastar minhas forças.” Jane sorri levemente antes de voltar a fechar os olhos. “Talvez a Regina queira um irmão, ou uma irmã... Alguém loirinho com olhos verdes e dourados.”
Maura ainda mantinha o carinho no topo da cabeça de Jane.
“Pela lei de segregação independente dos caracteres adquiridos, as chances de nascer uma criança loira com os olhos verdes é de aproximadamente 25%.” Maura sussurrou fazendo com que Jane voltasse a encara-la.
“Você não está me convencendo a mudar de ideia, Maur... só está tentando me deixar louca.”
“Não quero que mude de ideia. É ótimo saber que minha filha pode ter aquilo que não tive, um lar com vários irmãos ou irmãs. Estou apenas dizendo o que as pesquisas apontam sobre os genes para cor dos olhos e cabelo.” Maura deu uma leve piscada para Jane antes de levantar da cama. Foi até Regina e com todo o cuidado a retirou de cima da morena. Viu que a menina se aconchegava rapidamente contra seus braços se prendendo a uma mecha de seu cabelo loiro. Foi difícil se libertar daquilo, daquele calor de um corpo tão pequeno e suave, por fim ela colocou a pequena criança no berço gentilmente e torceu para que ela dormisse por toda a noite.
Voltou-se para a cama rapidamente e deitou-se ao lado da mulher afundando o seu rosto na curva do pescoço de uma Jane sonolenta.
“Já disse que te amo?” Maura sussurrou rente ao ouvido de Jane.
“Hoje?” A morena questiona sentindo a respiração cálida da sua esposa em sua pele. “Não me lembro...”
“Não?” Maura sorri de canto e então deixa um beijo demorado no pescoço de Jane ao passo que uma de suas mãos acaricia o seio por debaixo da regada branca. Jane aperta os olhos e respira fundo apreciando cada segundo daqueles toques atrevidos implorando para que aquilo se intensificasse a ponto de leva-la até a Lua.
“Maur...” Ela murmura em um tom sofrido e rouco. “Você está me excitando.”
“E isso não é bom?” A loira questiona antes de deixar outro beijo arrepiando totalmente a pele da detetive.
Jane então se vira e encara o rosto de Maura, toca o canto dos seus olhos, o contorno suave de suas bochechas, o declive em direção ao queixo e depois os lábios finos e convidativos. A morena suspira extasiada com a visão da mulher que tomou como esposa.
“Eu te amo Jane.” Maura murmurou antes de ficar por cima da detetive.
“Também te amo Maur.” Sorriu sentindo toda aquela vibração de vida que extravasava entre as duas mulheres. Quando Maura se aproximou o suficiente para um beijo sedento, ambas ouviram um som estridente vindo do berço de Regina.
Maura e Jane se entreolharam e riram ao mesmo tempo motivados pelo choro frustrado da filha.
"Ainda quer ter 'vários filhos'?" Jane questionou a legista.
"Não sei." Maura sorriu abertamente.“Deixa que eu vou.” Deixou um breve beijo nos lábios de Jane e foi até o berço de Regina a tomando nos braços.
Depois de uma hora, a pequena menina finalmente voltou a dormir emaranhando os dedos nas mechas dos cabelos loiros e cabelos morenos. Regina dormia profundamente entre as suas duas mães, se agarrando a elas como um porto familiar e seguro. E ambas, também exaustas, Maura e Jane caíram em um sono reparador durante o resto daquela noite.
Ou pelo menos, até Regina despertar mais uma vez...
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