O Elevador

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Boa leitura!

Cleveland, Ohio.

Julho de 1999.

Eram onze horas da noite quando adentrei a sala da casa e o som da música alta misturado com o barulho de pessoas conversando invadira meus ouvidos de forma intensa. A casa não era pequena, mas todo o terceiro ano estava presente e talvez pessoas que eu nem conhecia também, então, de certo, a casa de Michele havia se tornado um cubículo com a quantidade de jovens festeiros presentes ali. Era a nossa festa de despedida da escola, finalmente havia concluído esse ciclo na minha vida e confesso que estava ansiosa para o incrível universo que seria a faculdade de cinema que planejava cursar desde que me entendo de gente. Continuei andando e me esquivando de pessoas que dançavam, agarravam-se e claro, dos engraçadinhos que sempre quiseram ter algo comigo e eu nunca quis. Não, não é nada sobre eu ser maravilhosamente linda e eles serem sapos a procura de um beijo. A verdade é que esses garotos da minha sala nunca fizeram o meu tipo. Gosto de homens interessantes e inteligentes, vulgo, meu professor de história, Carlos. Acho que só de pensar nele eu solto algum tipo de suspiro idiota, mas convenhamos, o cara é incrível. Lindo, 42 anos, inteligente, sabe apreciar uma boa música. Seu único defeito: Casado. É, eu sei, ele é comprometido e blá blá blá... Minhas amigas vivem me chamando de louca por me sentir tão atraída por um homem proibido, e pior, que eu nunca terei, pois, ele não faz ideia do que causa em mim.

Vejo que a festa está mais animada do que nunca e graças a Deus disse ao meu pai que dormiria por aqui mesmo, visto que ela não acabaria cedo e eu não teria carona para voltar para casa. Ele insistiu em vir me buscar, mas consegui convencê-lo a me deixar dormir aqui, afinal, é a minha última festa do colegial e de quebra ele não andava bem de saúde há algumas semanas. Meu pai, Tom, é um daqueles homens linha dura que sempre pensam no trabalho acima de tudo. Ele e meu tio Sam são formados em administração e se associaram desde jovens para montar um escritório de contabilidade. A Contábil Mills trazia o nosso sobrenome em seu nome e crescia a cada ano. Meu pai vive dizendo que esse “patrimônio”, como costuma chamar, será meu futuramente e que como filha única terei que assumir os negócios da família. Meu tio, Sam, nunca teve nenhum filho e leva uma vida de eterno solteirão, já foi casado com três mulheres, então, acho difícil querer filhos a esta altura do campeonato. Onde eu me encaixo nisso? Bom, será mais difícil fazer o meu pai entender que não quero este tipo de negócio para a minha vida quando não terei nenhum primo ou prima para empurrar para a forca em meu lugar. É uma pena, pois, da faculdade de cinema eu não desistirei por nada e meu pai terá que aceitar isso.

♪ (All The Small Things — Blink-182) ♫

Finalmente encontro as minhas duas amigas Andrea e Michele, a dona da casa. Logo Michele me passa um copo com bebida e percebo que a noite só estava começando. Dançamos muito e rimos das coisas que vivemos durante todo o ano, eu realmente sentirei falta das minhas amigas e de como é fácil dar boas risadas ao lado delas. Constantemente víamos a porta abrir e mais gente chegar. Lembra-se da história do cubículo? A este ponto já me sentia em uma lata de sardinha. Neste momento já estávamos apoiadas na escada que levava da sala aos quartos.

— Lana, você tinha tinta por todo o seu cabelo! – gritava Andrea quase cuspindo a bebida de tanto rir.

— Tudo por culpa do idiota do Adolfo que não conseguia nem dar um passo na frente do outro sem cair. – bufo.

— Você tinha que ver a sua cara com aquela tinta na cabeça fazendo a linha Carrie — A estranha! — até eu ri do que Michele falou.

— Olha, só não foi Carrie — A estranha porque você nunca foi do tipo que sofria bullying e sim do tipo que fazia! – Bernardo chega pousando a mão no meu ombro e me dando um beijo no rosto.

— Lá vem você com esse papo de que eu fazia bullying com você na sétima série. – defendo-me retribuindo o beijo.

— E a Carrie sempre foi feia, não é? Não seria o seu caso. – elogiou-me Brian que havia chegado juntamente com Bernardo. Pude ouvir um “hmmm” das meninas e reviro os olhos.

— Depois ela fica bonita, seu burro. – fala Andrea dando um gole em sua bebida.

— Fica? – indaga Michele.

— Ei, vocês viram que estão fazendo desafio de bebida na outra sala? Quem topa? – perguntou Brian cortando o assunto.

— Da última vez que você bebeu tivemos que te levar para casa ouvindo você cantar Dancing Queen do ABBA, então, melhor você deixar a bebida por nossa conta. – falo relembrando o acontecimento e recebendo gargalhadas da galera.

— Vem, vamos dançar mais! – levanta-se Andrea puxando a mim e a Michele para a outra sala deixando os meninos na escada.

Fomos embalados pelo novo sucesso de Blink-182 — All The Small Things, que nos caiu muito bem naquele momento. Gritamos e pulamos juntas até cairmos ofegantes no sofá embaladas pelo riso, mas logo fecho a minha cara ao perceber a presença do menino mais cobiçado da escola, Robin Locksley. Altura considerável, olhos azuis oceano, pele alva, loiro e uma daquelas boquinhas rosadas que mais se assemelham a boca de neném. Eu? Bom, eu não o suportava. Talvez pelo fato dele ser adorado por todas as meninas de dezessete anos da minha turma ou simplesmente por ele ser tão narcisista. Quando se tornou capitão do time de futebol pude jurar que seu ego inflou mais que a bola que carregava nas mãos, garoto estúpido.

— Convidou o príncipe da Cinderela? – fuzilei Michele com os olhos.

— Como não? Eu recebi até ameaças das meninas da nossa turma, ele não poderia faltar. – defendeu-se erguendo as mãos em sinal de rendição.

— Lana, você é definitivamente a única menina que não acha ele o cara mais gato de toda Cleveland. – fala Andrea ajeitando o cabelo – Ele está vindo pra cá, arrumem-se.

Olho torto para ela e reviro os olhos ao vê-las se ajeitando.

— Eu não disse que o acho feio, simplesmente não faz o meu tipo. Acho que antes de beija-lo ele pergunta se passamos balm nos lábios para não ressecar a boca de boneca dele. – falo dando de ombros.

— Claro, um cara casado de meia idade faz o seu tipo, esqueci. – jurei que Andrea havia feito uma cara de nojo e o seu sarcasmo foi quase palpável.

— 42 anos não é meia idade e sim a maturidade ideal que um homem precisa alcançar para deixar de ser boboca que nem esse aí. – disse erguendo meu dedo indicador.

— Calem a boca, ele está vindo! – sussurra Michele endireitando-se no sofá.

— Oi garotas! – fala Robin aproximando-se da gente com o seu sorriso capaz de deixar as meninas pateticamente apaixonadas.

Agradeci mentalmente ao ter certeza que desse feitiço eu estava imune quando vi as minhas amigas se derretendo e eu apenas permaneci esparramada no sofá.

— Oi Robin, que bom que veio! Quer tomar alguma coisa? – Michele levanta-se e logo trata de entrelaçar um de seus braços nos músculos do Barbie.

— Eu não iria perder essa festa por nada. – pisca.

Como eu já disse, patético. Reviro os olhos novamente.

— Deixa que eu pego para você! – Andrea levanta-se também e entrelaça seu braço no outro braço livre dele.

Fico pasma com a cena. Pareciam fêmeas em busca de um macho para acasalar na temporada do cio. Era assim na selva, certo? Na selva. Eles se preparam para ir até a mesa de bebidas e Michele vira o rosto para mim, que, permaneço do mesmo jeito.

— Não vem, Lana? – pergunta-me ao me olhar de esguio por cima do ombro.

— Talvez quando ele evoluir o terceiro braço. – dou o sorriso mais amarelo e irônico que sou capaz.

Ela nega com a cabeça e os três desaparecem em meio às pessoas que dançavam. Suspiro e viro o resto de bebida que havia em meu copo. Sinto a minha cabeça girar levemente e percebo o quanto sou fraca para bebida.

São duas da madrugada e a esta hora todos estavam levemente — ou não — alterados. Agradeço mentalmente pelos pais de Michele estarem de férias na Florida. Quando os gatos saem, os ratos fazem a festa. Ri comigo mesma ao lembrar-me do ditado.

— Que nojo. – pensei alto.

— Nojo de que, Lana? – pergunta-me Brian envolvendo seus braços em minha cintura.

— De sermos ratos. – o respondo e ele me olha confuso. Dou de ombros e prossigo:

– Já conseguiu ficar com a Lucy?

Foi a vez dele de dar de ombros.

— Talvez eu não queira mais a Lucy. – aperta-me mais contra ele.

— O que? Ela te deu um fora e você não está conseguindo lidar com isso?

Ele faz uma careta.

— Não, talvez esteja interessado em outra pessoa. – ele me olha.

— Outra pessoa? Quem seria a grande sortuda da vez? – ironizo.

— Não sei, talvez uma certa garota que gosta de homens idosos.

Solto uma gargalhada tombado minha cabeça para trás segurando-me nele com meus braços que estavam entrelaçados em seu pescoço.

— Que azar o seu, ou o dela, não sei.

— Acho que o meu. – ele sussurra apertando os olhos como quem me conta um segredo.

Dou risada novamente, mas, mais contida dessa vez.

— Você está bêbado, Brian. Cale a boca.

Começamos a nos mexer no ritmo da música, nem tão lenta e nem tão devagar, na verdade eu não faço ideia o que estava tocando naquele momento. Brian tentou me beijar algumas vezes, mas em todas eu me esquivei. Ele era um menino bacana e bonito, éramos amigos desde crianças e o via como irmão, e, convenhamos, não dá para beijar alguém que você viu tirando melecas e comendo depois na quarta série.

Três horas e as pessoas começam a ir embora, mas ainda sobraram algumas que juraram virar toda a noite na farra. Eu que já estava um pouco bêbada resolvi subir até o quarto de Michele para dar um jeito na minha cara. Subi as escadas com um pouco de dificuldade e finalmente adentrei o mesmo. Ele estava vazio, limpo e bem mais silencioso que o resto da casa lá em baixo. Encostei a porta e fui até o seu banheiro. Acendi a luz e olhei-me no espelho. Eu estava péssima. Meu cabelo estava colado na testa e me senti um porco suado antes de seu sacrifício pré-bacon. Lavei o rosto e prendi o meu longo cabelo escuro em um rabo de cavalo alto. Sai do banheiro um pouco melhor, confesso, mas ao passar pela cama da Michele para voltar à festa, senti uma vontade imensa de descansar um pouco e jurei deitar por apenas cinco minutos. Deitei na cama e tirei meu tênis, acho que eu era a única menina que não veio com seus sapatos coloridos. Sorte minha, azar o delas que a essas alturas estavam com bolhas horrendas. Aconcheguei-me mais no travesseiro, me cobri por completa — era uma mania minha, só conseguia dormir coberta dos pés a cabeça — e entreguei-me ao cansaço fechando os meus olhos.

(...)

Acordei ouvindo risinhos e sussurros juntamente com certo peso do lado direito do meu corpo. Apertei os olhos e minha cabeça parecia doer. Descubro o cobertor do meu rosto e me deparo com Michele e Robin agarrando-se ao meu lado.

— Mas que merda é... – falo confusa com a cena deplorável.

— Lana! – grita Michele ao perceber a minha presença livrando-se instantaneamente da boca de Robin – O que está fazendo aqui? – ela ainda gritava assustada.

— Dormindo, não está vendo?! – disse irritada, afinal, ser acordada quando se está bêbada é ruim, mas ser acordada quando se está bêbada por sua amiga que se amassava com o cara que você mais odiava do colégio é terrível.

— Mas... Não te vimos ai. – foi a vez dele falar já se levantando de cima dela permitindo que ela se levante também.

— Que horas são? – pergunto me sentando na cama enquanto tento não olhar para Michele que ajeitava seu vestido e para Robin que ajeitava a sua calça. Eca.

— São quatro da madrugada e eu vou volta lá para baixo, tchau. – Michele dispara fechando a porta.

Com o susto eu não havia percebido o quão vermelha ela estava.

— O que deu nela? – Pergunta ele.

O olho e faço sinal de negativo com a cabeça enquanto reviro os olhos.

— O quê? – Pergunta-me novamente.

— Nada, pode sair, por favor? Se não percebeu, eu estava dormindo aqui neste quarto antes de vocês se agarrarem ao meu lado. – respondo com cara de poucos amigos.

— Por que não gosta de mim, Mills?

— Nhã?

— Sério, você é a única garota que...

Antes que ele terminasse a frase eu o interrompo:

— Que o quê? Que não baba por você? Que não suspira ao te ver passando pelos corredores da escola? Que nunca pedi para ficar com você? Que não balança os mamãe sacodes ao te ver fazendo um gol? – falo tão rápido que perco o ar por alguns instantes.

Ele arregala os olhos surpreso e depois sorri de canto.

— Na verdade eu só iria dizer que você é a única garota que eu nunca conversei. – ele continua com o seu risinho no canto da boca e isso me irrita mais ainda.

— Não temos nenhum assunto em comum, garanto.

— Como tem tanta certeza assim? – encosta-se no guarda roupa.

— Porque tenho.

— Por que acha que tem?

— Porque futebol, bronzeamento artificial e coisas do gênero não faz muito parte do meu dia-a-dia.

Ele sorri novamente.

— É, tem razão. – Robin me olha analisando-me e sinto o meu rosto queimar de raiva.

— O que está olhando?

— O quanto você é branca. Realmente, bronzeamento não faz parte da sua vida.

— Ah, isso.

— Então, do que você gosta, Lana Mills?

— Coisas.

— Que coisas?

— Coisas das quais você não gosta.

— Como sabe que eu não gosto?

— Porque sei.

— Por que acha que sabe de tudo?

— Porque... Ah, deixe-me dormir. – desisto e deito novamente na cama virando-me de costas para ele.

Percebo que ele continua estático e me viro novamente para olha-lo.

— Essa é a hora que você sai e me deixa dormir. – o recordo.

— Tô cansado.

— Vai pra casa.

— Tenho que esperar o meu primo e ele foi um dos que jurou amanhecer o dia aqui.

— Hm.

— Posso sentar? – pergunta-me enquanto senta ao meu lado na cama.

— Já sentou.

— Não vai mais dançar? – pergunta-me Robin sentado ao meu lado.

— Não vai mais transar com a minha amiga? – devolvo a pergunta.

— Não estávamos transando. – ele ri.

— Ainda.

Ele dá de ombros e eu solto um riso irônico.

— Sério, Lana — posso te chamar assim, não é? — Queria saber o que você tem contra mim. Estudamos juntos desde o primeiro ano e nesses três anos você me olha como se eu tivesse atirado pedra na cruz.

— Até parece que você se importa com isso, Locksley. Convenhamos, você não costuma ser amigo de pessoas como eu e eu definitivamente não convivo com pessoas como você.

— Você tira essas teorias malucas de onde? – pergunta-me.

— Não são teorias, são fatos comprovados.

— Certo, Senhora sabe tudo, você poderia me explicar que tipo de pessoa é você fora a parte de não curtir bronzeamento artificial e futebol?

Suspiro cansada e percebo que ele não irá me deixar em paz antes das seis — horário combinado para todos irem embora — e sento na cama.

— Ok Robin, vamos lá. Não é que eu tenha algo contra você... – tirando o fato de você ser um chato, metido, narciso, fútil, provocador, mais fresco que a Barbie e pegador, penso rapidamente – Nós simplesmente não temos nada em comum. Por que iria me aproximar de alguém que não conseguiria conversar por mais de um minuto?

— Estamos conversando há quase dez minutos e bom, eu não concordo com você.

— Não?

— Não. Acho que você não me conhece o suficiente para julgar que não podemos ser amigos.

— É, pode ser. Mas, agora já não há mais tempo para isso. É uma pena. – ironizo e ele percebe – Graças a Deus estarei ingressando na faculdade em menos tempo que eu posso imaginar.

— O que vai prestar?

— Cinema.

— Nossa, legal...

— Sim, muito legal. Sou apaixonada por cinema desde que me entendo de gente e sonho trabalhar com os diretores mais magníficos da história do cinema e... – meus olhos já estavam brilhando quando me calo assumindo novamente a minha postura de poucos amigos – Bom, mas o que você pode saber sobre isso, né? – desdenho.

Ele me olha um pouco feio, mas depois sorri.

— O que? Acha que um cara como eu não pode apreciar coisas deste tipo?

Fico em silêncio e ele prossegue:

— Lana, sempre achei você um pouco presunçosa, mas agora eu tenho certeza que você é.

Eu quase deixo o meu queixo cair e jurei que pude formar o “O” perfeito com minha boca ao ouvir tamanha estapafúrdia. O quê? Agora eu estava sendo chamada de presunçosa pelo menino mais metido do colegial. Que piada.

— Nhã? Eu? Presunçosa? Ah, por favor. Olha só de quem está vindo essa afirmação.

— Você se acha melhor que eu.

— Eu não me acho melhor do que você. – minto novamente.

— Sempre com suas ideias diferentes, tratando os meninos da nossa turma como se fossem crianças do jardim I e você, ah, você sempre foi a mais madura e mais culta. – pude sentir um pouco rancor em sua fala.

— Olha, pra quem disse que não me conhece você parece ter uma opinião bem forte ao meu respeito.

— Estamos quites então, certo?

De fato, sim. Todo mundo sabia o que eu achava sobre ele, mas confesso que me surpreendeu saber que ele também havia seu conceito formado a meu respeito.

— Vai prestar o que na faculdade? – puxo assunto, bom, já que tínhamos duas horas pela frente e ele parecia decidido a permanecer ali, não me pareceu tão má ideia.

— Direito. – responde-me sem muita empolgação.

— Ual, quanta animação pelo novo curso. Parabéns.

Ele sorri cabisbaixo.

— Não é bem a minha primeira escolha, mas meus pais insistem em dizer que preciso ter um bom futuro...

O interrompo:

— Ah, disso eu entendo. Meu pai vive falando da faculdade de administração que eu devo fazer para dar continuidade aos negócios da família. – termino a oração imitando a voz do meu pai.

— Contábil Mills?

— Sim.

— Acho que seu pai cuida dos negócios do meu pai.

— É, eu sei. Enfim, eu não vou baixar a cabeça assim como você vai para o que seus pais querem. Já tratei de deixar claro que nasci para fazer cinema e trabalhar em grandes produções. – falo cheia de mim.

— É, você parece ter a coragem que eu não tenho.

Nova York, Nova York.

Maio de 2012.


♪ (Guilty — Al Bowlly) ♫

Chego ao meu apartamento e a primeira coisa que faço é me desfazer dos meus saltos que me causam bolhas constantemente. Coloco minha bolsa e pasta no sofá e me direciono ao meu quarto. Estou exausta depois de um longo dia de trabalho. Tudo bem que ainda são quatro horas da tarde, mas acordei cedo para uma reunião e não parei até agora. Vou até o meu quarto e ligo a torneira da banheira. Hoje eu tiraria o resto do meu dia de folga, afinal, é sexta-feira e posso me dar ao direito depois de uma semana intensa. Vou até a cozinha e coloco uma taça de vinho tinto para mim. Ao passar pela sala ligo o som na música que havia sido desligado e logo ouço as primeiras teclas do piano abafado de Guilty do Londrino Al Bowlly soarem por toda a minha casa.

— Ah, nada como uma boa música... – suspiro voltando para o banheiro.

Coloco a taça ao lado da banheira onde eu possa alcançar e logo me dispo por completo. Prendo meus curtos fios em um coque alto e adentro a água graciosamente morna. Deito-me deixando apenas a minha cabeça para o lado de fora da água e fecho os meus olhos relaxando. Levo uma das minhas mãos até a minha aliança de casamento e a rodo no meu dedo sem tira-la. Maldita mania. Sinto-me um pouco louca ao ainda andar com este pedaço de ouro no meu dedo, mas, que culpa eu tenho? Faz três meses desde o divórcio e mesmo tendo praguejado centenas de vezes sobre o meu matrimônio falido, eu ainda não consigo me desvencilhar desta aliança. Pelo contrário, meu ex-marido já conseguia tira-la desde o nosso primeiro ano de casados para os seus encontros às escondidas. Precisei de três anos casada com um cafajeste para perceber que estava sendo a boboca do ano na bobocolândia sem enxergar as boboquices dele.

Desperto dos meus devaneios com o meu celular vibrando em cima da cama. Penso em não atender, mas havia acabado de fechar negócio com Robert Kierfe e eu não queria perder a oportunidade de ser a contadora de um dos homens mais ricos de toda Nova York. Levanto-me rapidamente e enrolo a toalha em meu corpo.

— Alô?

— Boa tarde, Senhorita Mills. Aqui quem fala é Cler, sou a assistente do senhor Robert Kierfe e ele me pediu para verificar se a Senhorita enviará o e-mail com o contrato ainda hoje.

— Olá, Cler. Claro, ficamos acordados que hoje eu enviaria e eu já enviei. Acabei de voltar do escritório.

— Acho que houve um engano, pois, nós recebemos um e-mail, mas não há anexo algum.

Penso rapidamente e juro ter anexado este bendito contrato.

— Só um momento. – digo.

Dirijo-me rapidamente ao meu computador pessoal e verifico os e-mails enviados. Droga. O anexo não está lá, eu devo ter me esquecido. Bela cabeça a minha, não?

— Ouça Cler, realmente não foi enviado. Eu poderia encaminhar na segunda-feira com o contrato?

— Temo que não, Senhorita Mills. Precisamos desse documento ainda hoje para passarmos relatório para os demais sócios da empresa.

— Ok, tudo bem. Estou voltando para o meu escritório e antes das sete estará na caixa de entrada do Senhor Robert.

— Muito obrigada, boa tarde. — despede-se.

Raios! Belo dia para esquecer-me de anexar o contrato ao e-mail mais importante do dia para o homem mais importante do ano. Parabéns, Lana. Adeus folga. Me seco rapidamente, coloco um pouco de maquiagem no rosto e me visto com uma saia preta na altura dos joelhos, uma blusa justa na mesma cor da saia seguida por um terninho nude. Caminho até a sala ainda de cara feia e calço o mesmo salto que havia jogado no tapete quando cheguei. Pego minha bolsa, pasta e desço.

Prefiro ir de taxi para não precisar tirar o meu carro da garagem, afinal, seria coisa rápida e eu logo voltaria para tentar aproveitar um resto de noite livre que me restara. Moro em uma rua bastante movimentada e logo estendo meu braço para um taxi que avisto passando. Ele me ignora, ponto para ele. Reviro os olhos e continuo com o braço estendido. Outro taxi passando, ótimo. Ele me ignora, ponto para ele. Bufo. Francamente, uma cidade tão grande como Nova York que se orgulha de sua frota absurdamente gigante de taxis amarelos pelas ruas deveria rever os seus conceitos antes de se taxarem como bons. Vejo um dos moradores do meu prédio descendo de um taxi e rapidamente adentro o mesmo quando ele desce sem dar chance de ser ignorada novamente. Dessa vez, ponto para mim. Digo o endereço e em poucos minutos estamos na frente do empresarial Commercial Station.

O prédio de vinte andares continha exatamente vinte salas comerciais, cada uma por andar. Aluguei uma sala há três anos desde que resolvi mudar-me para Nova York quando me casei. A empresa que herdei do meu pai era totalmente solidificada em Cleveland, mas toda a facilidade que eu tive ao assumi-la lá converteu-se em trabalho árduo na cidade mais famosa dos Estados Unidos da América. Ralei como meu pai e meu tio para conseguir clientes de grande porte e agora depois de três anos começo a ver os frutos do meu trabalho, antes tarde do que nunca, não? Tomei o elevador, 17° andar.

— Mills! Pensei que estaria em casa. – fala Jéssica, minha assistente, assim que me vê adentrar.

— Eu também pensei que estaria. – desabafo – Mas, espera, eu pensei que VOCÊ estaria em casa! – respondo surpresa sentando em minha mesa – O que faz aqui ainda? Quando saí você já estava ajeitando a bolsa para ir embora também.

— Cancelamos a viagem de final de semana. Marcus está um pouco doente e preferimos não arriscar, acabei ficando aqui e realmente só percebi que se passaram mais de duas horas agora.

— Sei que parece loucura um chefe falar isso para seu subordinado, mas você precisa trabalhar menos, Jéssica. Vá para casa ficar com o seu querido maridinho. – a encorajo em tom divertido.

— Olha só quem fala, desde que... Você sabe o que... Só te vejo neste escritório. Você tem trinta anos, Lana, precisa viver. – ela me olha erguendo a sobrancelha.

— Desde que... Você sabe o que... O que tem me feito pensar menos na quantidade de chifres em minha cabeça é este trabalho, além do mais, isso tem nos rendido grande lucro, você não pode negar. – falei naturalmente como se... Você sabe o que... Fosse natural para mim. Tudo mentira.

— É, mas trabalho demais enlouquece.

— Concordo, então trate de ir embora.

Ela ri se levantando de sua cadeira e me manda um beijo no ar.

— Não demore muito aí, Lana. – alerta-me.

— Sim senhora. – Mando outro beijo para ela.

Quando Jéssica se vai, ligo o computador e logo encontro o arquivo do contrato em meus documentos. Rá, rá. Envio novamente o e-mail - agora com anexo — para Robert e resolvo dar uma pequena olhada em alguns contratos recentes. Distraio-me com o trabalho e sou despertada de minha concentração por uma dor em minhas costas. Levanto a cabeça e gemo baixo levando minha mão até meu ombro. Já eram quase oito horas da noite e eu nem havia percebido que passei tanto tempo aqui. Os planos de banheira, vinho e música já eram. Fecho tudo rapidamente e pego meus pertencentes. Tranco a porta da sala e vou para o pequeno corredor que havia antes de chegar ao elevador. Aperto no botão para chamá-lo enquanto olho o meu celular. Antes da porta se abrir por completo percebo um papel colado na porta do elevador, mas não consegui ler o que estava escrito antes que ela se abrisse por completo. Dei de ombros e entrei. No meu percurso até o térreo sou surpreendida por uma pessoa que entra quando estamos no 10° andar. Ajeito-me, pois estava quase escorada no espelho pensando ser a última de todo o empresarial a sair. Normalmente na sexta-feira às seis da noite já não tem mais ninguém por aqui. Conheço bem os horários de quase todo mundo, afinal, desde meu divórcio tenho vivido mais aqui do que em minha própria casa.

O homem que entrou tinha um porte mediano e ficou de costas para mim, não pude ver seu rosto e voltei minha atenção para o meu celular novamente. Ao chegarmos no 5° andar sinto o elevador parar bruscamente e suas luzes apagarem. Seguro na parede espelhada e arregalo os meus olhos com o susto.

Cleveland, Ohio.

Julho de 1999.

— Por que não diz a mesma coisa para eles? – pergunto.

— As coisas não tão fáceis assim, senhora sabe tudo. Minha mãe até que me incentiva a seguir os meus sonhos, mas o meu pai não abre mão do futuro que ele mesmo escolheu para mim.

— É... Talvez essa seja a única parte boa de só ter um dos pais para convencer. – encosto-me ao espelho da cama e puxo minhas duas pernas para mim abraçando-as com os meus braços.

— Faz tempo que a sua mãe morreu?

— Sim, ela morreu quando eu tinha cinco anos.

— Sinto muito.

— Tudo bem, já faz tempo.

Percebi que não estávamos nos encarando enquanto falávamos, quer dizer, pelo menos eu. Fiquei surpresa por ter passado mais dez minutos, o que totalizava vinte minutos, de conversa com Robin Locksley, e isso, meus caros, já é bem mais tempo do que eu poderia imaginar conversar com ele em um ano.

— Qual seu diretor preferido?

— Woody Allen.

— Gosto do Scorsese.

Acho que quase quebro o meu pescoço ao olha-lo bruscamente tamanho foi meu choque.

— Você gosta do Martin Scorsese? – pergunto pausadamente como quem descobre que Darth Vader é pai de Luke Skywalker em Star Wars O Império Contra-ataca.

— Sim? – responde retoricamente com a mesma certeza que Mia Farrow teve que estrelaria os filmes de Woody Allen na década passada – Isso é tão absurdo assim?

— É! Não! Quer dizer... Ele é meu segundo diretor preferido. – confesso.

— Deixe-me adivinhar... Taxi Driver é seu filme preferido dele? – me olha desconfiado.

— Sim! – quase grito atônita erguendo as mãos para cima. Ele ri da minha reação e eu me ajeito novamente na cama um pouco envergonhada pelo meu escândalo. Realmente falar de filmes e diretores me causava esse tipo de comportamento histérico – Como soube? – pergunto mais contida.

– Não sei... Realista demais. É a sua cara.

— Isso é ruim?

— Não, apenas, às vezes pode ser bastante depreciativo.

— Eu sou depreciativa?

— Eu não disse isso, Lana. Hm... De Niro está incrível. – fala mudando o rumo da conversa.

— Sim, o cara é monstro! – não insisto em permanecer nela.

— Monstro? – Ele me olha confuso.

É a minha vez de rir.

— Ah, eu costumo chamar esses feras de monstros do cinema, não como algo ruim, mas como algo bom... – explico-me articulando com as mãos.

— Entendi, monstro.

— Cala a boca. – dou um pequeno soco em seu musculoso ombro que acabo de descobrir porque as meninas faziam tanta questão em segurá-lo constantemente. Isso é chumbo.

Ele finge falsa ofensa com a agressão.

— Ei! – reclama – Isso doeu!

— Não doeu não. – falo convicta de que o meu pequeno soco pareceu uma pena fazendo cócegas em seu braço de cimento.

Ele se deita na cama colocando os dois braços por trás da cabeça e suspira.

— Sono? – pergunto olhando para ele.

— Um pouco.

— Por que está aqui, Robin Locksley?

— Porque não estou lá embaixo.

Dou um riso amarelo e reviro os olhos.

— Sério, por que não está aproveitando a sua festa e pegando todas as meninas que suspiraram por você durante todo o colegial? – pergunto.

— Porque já peguei todas.

Fiz uma cara de quem iria vomitar de seu tamanho egocentrismo e acho que ele percebeu, pois logo tratou de dizer que estava brincando.

— Ei, é brincadeira, senhora sabe tudo. – ri.

Dou de ombros e deito com a barriga para cima também.

— Se arrepende de algo que não fez nesse tempo de escola? – ele me pergunta.

Penso um pouco.

— Talvez devesse ter discutido mais com o diretor.

— Nossa, você enchia o saco dele toda hora, coitado.

— Coitado?! – me viro para ele ficando de lado e elevo dois oitavos da minha voz – Aquele cara fez de tudo para acabar com o meu projeto de criar uma turma de teatro durante todo o terceiro ano!

— O que esperava? Você queria fazer peças com os alunos seminus. – ele se vira para mim também ficando apoiado em um de seus braços.

— Isso foi apenas uma vez, não dava para representar animais estando perfeitamente vestidos, ué. – digo naturalmente.

— Você não existe, Lana. – me encara.

Por alguns segundos encontro o olhar dele e sinto-me... Constrangida? Esquisito. Pigarreio e deito-me novamente de barriga para cima cortando o nosso contato visual e ele permanece do mesmo jeito.

— E você?

— Eu o que? – ele pergunta.

— Se arrepende de não ter feito alguma coisa na escola? – esclareço.

— Não sei...

— Claro, você teve a vidinha perfeita durante o colegial. – solto um riso irônico.

— Por que acha isso, Lana?

— Porque sim. Você sempre foi o queridinho da sala, o capitão do time de futebol, namorou as meninas mais bonitas, até o coroa masculina do baile você levou para casa. Dentro do jogo do que é ser alguém bem sucedido na adolescência para os padrões da nossa escola, bom, esse você zerou.

Ele soltou uma gargalhada e eu o olhei. Seus olhos perfeitamente azuis apertaram-se em uma fenda e sua boca revelou os dentes mais brancos que eu já na vida. É, algo eu teria que confessar, Robin Locksley também havia zerado o jogo no quesito beleza. Sem perceber eu também estava sorrindo ao vê-lo rir. Opa, pode parando Lana Mills. Preciso lembrar-me de que ocupo orgulhosamente o posto de única menina de dezessete anos a não me derreter ao vê-lo. Fiz uma nota mental para me lembrar disso.

— Por que isso te incomoda tanto, Mills? – ele me pergunta cessando o riso.

— Isso o quê?

— Eu, o futebol e o bronzeamento artificial.

— Eu simplesmente acho que existem coisas mais importantes na vida. Não é porque somos novos que precisamos ser bobocas. Entende? – o olho – Sei que parece estranho, mas, as coisas sentidas e subjetivas têm muito mais significados para mim.

— Acho que entendo, mas, você não acha que o besteirol também é importante? – o olho um pouco confusa e ele prossegue – Vai chegar um dia em que toda essa fase de besteirol vai passar e vamos nos tornar pessoas sérias e com responsabilidades. Teremos nossas próprias casas... Digo, daqui a alguns anos nós seremos os pais que querem escolher o curso dos filhos.

Nova York, Nova York.

Maio de 2012.

— Isso só pode ser brincadeira... – sussurro apavorada com as minhas mãos ainda na parede do elevador que agora estava totalmente escuro.

— Ei! O que houve? – pergunta-me o homem.

— Não sei, do nada ele parou! – respondo sem me mover.

— Os botões estão desligados. – o ouvi apertando os mesmos de forma aleatória.

— Espera, vou ligar para a segurança. – digo já desbloqueando o meu celular – Droga! Não está dando área aqui.

— Eu vou olhar o meu. – ele desbloqueia o dele – É, o meu também está sem sinal.

— Ótimo, plena noite de sexta-feira presa em um elevador totalmente no escuro. – agradeci mentalmente por não estar sozinha, pois com certeza já estaria aos prantos.

Ao terminar de falar, uma luz um pouco amarelada acende no elevador, mas os botões continuam desativados.

— Acho que voltou! – diz o homem olhando para as luzes.

— Não – olho para as luzes também – essas não são as luzes normais dele, devem ser as de segurança.

— Ai meu Deus... Agora sim eu entendi. – fala o homem com pesar e eu finalmente o olho rapidamente.

— O quê? – pergunto assustada.

— Havia um papel na porta, mas eu ignorei, só pude ler o final e era algo parecido com a palavra “manutenção”, mas como nunca havia vindo neste prédio antes, pensei que... Sei lá, pensei que não era nada importante e que estava lá há muito tempo.

Logo me recordo do papel colado na porta do meu elevador também e nego com a cabeça sentindo-me a pessoa mais burra do mundo.

— Então é isso? Essa porcaria vai ficar assim até de manhã e não teremos como pedir ajuda? – me abano com a mão e encosto o meu corpo no espelho ficando de frente para ele e batendo levemente e repetidamente a minha testa contra o vidro de olhos fechados.

— Ei, calma, talvez o sinal do celular volte. – tentou inutilmente me tranquilizar.

— Não, nos meus três anos aqui o meu celular nunca funcionou neste trecho.

Ele suspira.

— Bom, então acho que vamos ficar um pouco por aqui conversando. – por um segundo o seu senso de humor me irrita – Sou Robin Locksley, prazer.

A sensação foi de ser atingida por uma descarga elétrica. Ok, calma. Quantos Robin Locksley podem existir nos Estados Unidos da América? Muitos, não é?

— Robin o quê? – abro os olhos bruscamente e viro-me para ele sem filtrar a minha reação.

Santo Deus, era ele.

— Locksley? – responde-me confuso – Tudo bem com você?

Certo, ele não me reconheceu. Isso é bom?

— Sim, claro, tudo bem. – dou um riso nervoso numa tentativa inútil de parecer casual.

Ele sorri e percebo que seu sorriso continua pateticamente apaixonante. Mereço?

— Como se chama? – ele me pergunta quando percebe que eu não havia me apresentado.

Acho que agora ele acha que tenho retardos mentais, ótimo.

— Lana, Lana Mills. – respondo com a voz um pouco falha e mordo a bochecha desviando o olhar sem jeito.

— Lana? Lana Mills? Espere... Lana de Cleveland? – ele agora parecia tão surpreso quanto eu e parecia me analisar – Nossa! Você está muito diferente! – se aproxima como quem vai me abraçar.

Diferente? Velha? Gorda? Magra? Seja mais específico, por gentileza.

— Sim, eu mesma! – dou um leve sorriso e um tanto desajeitada retribuo o abraço rápido de praxe – Diferente? Diferente como?

— Seu cabelo está curto, você está... – agora ele me olhou dos pés a cabeça e me senti observada por um estádio de futebol – De salto! – fala como se fosse a coisa mais absurda do universo.

— Ah, o salto! – suspendo um levemente com mais um riso sem jeito mirando-o – É, chega uma hora que não dá para evita-los. Mas, me fala de você... Como você está? O que faz aqui em Nova York? Quanto tempo, hein! – mudo o foco do assunto.

— Eu moro aqui, na verdade. Mudei-me há dois anos. E você? – ele ainda me estudava.

— Eu também moro aqui, saí de Cleveland há mais ou menos três anos. Tenho um escritório neste prédio.

— Jura? Ah, é a primeira vez que venho aqui, vim deixar uns desenhos na editora Life, no 10° andar, mas acabei me atrasando e já não havia mais ninguém. – agora me dou conta de que segurava alguns papéis na mão.

Cleveland, Ohio.

Julho de 1999.

Suspiro pensando no que acabo de ouvir. Robin Locksley teria razão sobre todo esse lance de viver o besteitol? Digo, sempre me achei a pessoa mais sensata da escola por ser diferente de todos e mais madura que a maioria das meninas da minha idade.

Nosso papo é interrompido pela música alta e gritos lá de baixo. Eles estavam literalmente aproveitando os últimos momentos da festa. Ri ao ouvir Brian praticamente berrando Dancing Queen.

— Eles estão animados. – fala Robin de forma divertida e se levanta da cama indo em direção ao rádio que havia no quarto.

— O que está fazendo? – ergo uma das sobrancelhas o observando.

— Procurando algo melhor para ouvir do que os berros do Brian. – ele olhava todos os CD’s que havia na estante acima do som.

♪ (A Whiter Shade Of Pale – Procol Harum) ♫

Finalmente ele escolheu um e logo os primeiros acordes de A Whiter Shade Of Pale eram entoados no pequeno som de Michele.

— Procol? – pergunto sorrindo.

— Por que não? – ele pula de volta na cama e meu corpo também pula com o impacto.

— Adoro essa música. – sussurro apreciando-a.

— Temos mais uma coisa em comum então. – sussurra também se virando para mim.

Nós dois gostávamos da música e a estávamos respeitando. Isso me surpreendeu. Ok, deixe-me explicar isso sobre “respeitar a música”. Toda vez que estou ouvindo alguma música muito boa, eu quase nunca ouso falar em voz alta enquanto ela está sendo tocada. Gosto de ouvir todos os detalhes que a canção traduz e acredito que devemos respeitar isso. Uma das coisas que mais me irritam são pessoas que não conseguem apreciar uma boa música calado. Robin respeitava músicas, ual. Isso vai para a lista de coisas que eu nunca imaginei que Robin Locksley poderia fazer.

Continuamos em silêncio ouvindo a canção e eu me senti esquisitamente à vontade para fechar os olhos e assim o fiz. Talvez tenha sido loucura minha, mas jurei sentir o olhar dele sobre mim. Enquanto permanecia de olhos fechados, senti uma sensação maravilhosa de relaxamento. Ouvi Robin sussurrar algo que não consegui ouvir.

– O que disse? – perguntei abrindo os olhos levemente.

Ao abri-los, me deparei com o rosto dele mais próximo do meu e quase me assustei.

— Eu disse que você é linda. – sussurrou um pouco mais alto dessa vez.

Ok, se a intenção era me deixar sem graça, ele havia conseguido. Senti um misto de sensações ao tê-lo tão próximo de mim que iam de raiva até uma ansiedade esquisita que crescia na minha barriga. “Mas que merda é essa, Lana?” Pensei. Era demais para mim me sentir atraída por ele, ou melhor, era inaceitável. Faz ideia de quantas vezes eu comeria a minha língua por todas as vezes que me orgulhei para as minhas amigas quando arfava o peito dizendo que nunca senti e nunca sentiria um pingo do que elas sentem por ele? Robin percebeu meu conflito ao perguntar se eu havia perdido a minha língua. É, meu caro, acho que perdi, ou melhor, a comi.

— Não precisa sentir vergonha por isso, apenas te elogiei. – continuou.

— Eu não estou com vergonha. – eu apenas estou estupidamente irritada comigo mesma por me igualar 1/3 das meninas da escola – Não viaja.

— Não?

— Não.

— Parece vermelha. – ele aproxima o rosto mais um pouco do meu e leva uma de suas mãos até uma de minhas bochechas. – Estão quentes.

Mal-di-ção. Agora eu estou vermelha? Se eu pudesse me derreter como água e escorrer pelo colchão seria mais prazeroso. Entenda, o grande problema não é sentir vergonha ou atração, a grande questão é que estou lidando com Robin Locksley, meu Deus, isso não pode piorar. Desperto dos meus pensamentos quando vejo seus lábios vindo em direção aos meus. Ok, piorou. Engulo em seco e desvio levemente o meu rosto fazendo sua boca erra o alvo e selar minha bochecha ridiculamente ruborizada.

— Qual sua... – solto um leve pigarro estática como uma estátua – Qual a sua primeira opção? – pergunto e ele me olha confuso – Qual sua primeira opção de curso? Eu te interrompi antes.

Ele suspira e volta para o seu lugar.

— Desenho, gostaria de trabalhar como desenhista.

Nova York, Nova York.

Maio de 2012.

— A Editora Life sempre fecha às 18h. Desenhos? Que desenhos? – perguntei deixando a curiosidade falar mais alto.

— Meus desenhos. Trabalho com ilustrações de capas de livro. A editora solicita a arte de acordo com a história e eu, bom... Eu desenho. – sorri.

— Nossa! Então você conseguiu.

— Consegui o que?

— Trabalhar com o que sempre sonhou, parabéns Robin.

— Ah, isso... É, eu criei aquela famosa coragem que você me disse para ter e depois de muitos conflitos o meu pai finalmente entendeu que nasci para desenhar. As coisas nem sempre foram fáceis, mas posso dizer que vivo bem nesse ramo. E você? Em que trabalha?

Parece que levei um soco na cara ao ouvir as palavras de Robin. Então quer dizer que ele seguiu o meu conselho sobre não desistir dos sonhos e eu mesma desisti dos meus? Senti-me tão inútil quanto escovar os dentes antes do café da manhã. Mordi meu lábio inferior um pouco envergonhada.

— Trabalho como contadora de algumas empresas daqui de Nova York. – respondi finalmente.

— Ual, isso é... Incrível.

Juro que não sei se isso foi um incrível do tipo “Nossa, muito bom” ou “Que surpreendente surpresa desagradável”.

— É, por fim segui os passos do meu pai. – disse, mas sem tanto orgulho.

— Você tem uma sala aqui?

— Sim, meu escritório é aqui e até hoje o meu tio Sam mantém o Cleveland também.

— Você deve estar podre de rica, hein. – brinca.

— Que isso! – acabo rindo – Estamos em crescimento ainda. Ai... – gemo baixinho.

— O que foi? – ele me olha curioso.

— Meus sapatos estão me matando.

— É melhor tira-los, não sei quanto tempo passaremos aqui. Eu te ajudo... – ele se aproxima de mim e segura em uma das minhas mãos dando-me apoio.

Rapidamente me livro dos meus torturadores diários e levanto o meu olhar com ele ainda próximo de mim. Robin não havia mudado em quase nada. Seu cabelo estava mais escuro e seu rosto perfeitamente liso estava tomado por uma barba fechada e ganhara algumas linhas de expressão nas proximidades dos olhos. Os anos foram generosos com seus músculos, pois permaneciam praticamente intactos. Não pude deixar de notar que ele não usava nenhum anel de compromisso. Será que já tinha filhos? Ele me olha também e parece analisar-me, estudar-me. Será que eu mudei muito? Tirando o cabelo que antes era longo e agora está curto, acho que não mudei tanto. Talvez velha demais para os meus trinta anos. Ah, eu devo estar mais magra também. Já disse mais velha?

— Obrigada. – agradeço me desvencilhando de sua mão.

— Não por isso. – ele sorri – E como vai o seu pai?

— Ah... Ele faleceu.

— Nossa, Lana. Eu sinto muito.

— É, eu também. – abaixo o olhar – Pelo menos ele me viu fazer o que sempre sonhou para mim, ou seja, assumindo os negócios da empresa.

Falar do meu pai ainda não era tão fácil para mim. Ele sempre foi um homem durão, mas o seu amor por mim era algo que eu nunca poderia colocar em prova. Com o seu jeito de ser ele me criou com tudo que há de melhor e sempre lutou para que não me faltasse nada. Quando a minha mãe morreu eu tinha apenas cinco anos e ele tentou de todas as formas suprir o vazio que a perda dela me causou. Agora que ele morreu, quem iria suprir o vazio dele?

— Tenho certeza que ele se orgulhou muito de você antes de partir. – fala Robin de forma sincera.

— Quem diria, não? Acho que nem ele pensou que iria viver para me ver assumindo as coisas. – solto um riso falho.

Coloco a minha bolsa e a minha pasta no chão e sento logo após juntando as minhas pernas e apoiando os meus braços em meus joelhos. Robin me olha e repete o movimento sentando-se ao meu lado.

— Posso sentar? – ele me pergunta.

— Já sentou.

Cleveland, Ohio.

Julho de 1999.

— Desenho? Você definitivamente não faz a linha desenhista. – falo em tom de brincadeira.

— Lá vem você com as suas opiniões formadas baseadas em absolutamente porcaria nenhuma. – ele pareceu irritado.

— Ei, foi a minha vez de brincar. – defendi-me.

Ele fica quieto e eu prossigo:

— O que desenha?

— Um monte de coisa.

— Por exemplo?

— Mulheres peladas.

“Arg! Só podia ser” penso enquanto faço uma careta.

— Hm, interessante. – digo.

Ele ri.

— Estou brincando, Lana. Desenho várias coisas, mas confesso que tenho uma fixação esquisita por desenhar sorrisos.

— Sorrisos? – pergunto.

— É... Sei lá, eu vejo um sorriso que me chama a atenção e desenho. É mais forte que eu. – sorri timidamente.

Robin Locksley tímido, isso também vai para a lista.

— Que tipo de sorriso te chama à atenção?

— Vários tipos, na verdade. Tem aqueles sorrisos de criança enquanto está rindo sinceramente de algo e eles me fascinam porque nunca vi uma criança rir de forma forçada, é sempre genuíno. Sei bem porque moro ao lado da Senhora Beverly.

— A que a filha a abandonou deixando cinco netos para criar? – pergunto arregalando os olhos.

— A própria. Sou vizinho dela e acabo convivendo com a pirralhada e, acredite, fazer algum daqueles pestinhas rir não é tão fácil devido a falta que sentem da mãe, mas quando consigo... – os olhos dele parecem brilhar e os meus também.

— Os desenhas?

— Sim, cada um daqueles cinco sorrisos travessos. – ele parece lembra-se de cada um.

— Gostaria de vê-los. – digo abrindo um sorriso.

— Também há outro tipo de sorriso que me atrai muito...

— Qual?

— Tipo o seu. – ele leva o olhar até os meus lábios ainda esticados pelo sorriso.

— O meu? – franzo o cenho.

♪ (Lover, You Should've Come Over — Jeff Buckley) ♫

— É. Acabo de descobrir que seu sorriso é tipo esses de criança. Demora a sair, mas quando sai é genuíno e encantadoramente lindo. – ele leva uma de suas mãos até os meus lábios e novamente pareço corar – Essas linhas de expressão aqui... – contorna com o dedo indicador as linhas na lateral dos meus lábios – São lindas. Esse seu sinal aqui... – ele leva o dedo até um pequeno sinal que tenho no canto inferior esquerdo da boca – Dá identidade ao seu sorriso e o torna único. Mas o que completa toda essa obra de arte são os seus lábios milimetricamente esticados e que agora me parecem tão convidativos. – ao terminar a frase a sua mão contorna levemente a minha boca, que, agora, estava totalmente fechada e sem umidade alguma.

Sinto minha respiração falhar ao vê-lo aproximando-se de mim novamente. Seu toque suave causa arrepios por meu corpo e eriça os pelos invisíveis do meu rosto. Não, não, não... Não faça isso, Robin. Por mais que a minha cabeça urre dizendo: ”Afaste-se agora, Lana!”, o meu corpo parece não obedecer a nenhum tipo de comando. Aos poucos vou fechando os olhos. Não, não, não... Não faça isso, Lana. Ao senti-lo tocar os meus lábios lentamente, abro os meus sutilmente e deixo uma baforada de ar quente escapar e revelar o meu nervosismo. Ele segura com a outra mão em meu rosto delicadamente como quem diz: “Está tudo bem” e finalmente umedece os meus lábios secos com os seus macios e úmidos. Quando nossas vozes são caladas pelo beijo, posso ouvir a música que tocava. Jeff Buckley cantava: “Too young to hold on and too old to just break free and run / Jovem demais para esperar e velho demais para me libertar e correr”. A canção entoava e nós a dançávamos com os nossos lábios. O que começou inseguro foi se tornando entregue, rendido, liberto. Não sou capaz de explicar de forma lógica o que se passou comigo naquele momento. Os meus sentidos foram aguçados e ao mesmo tempo perdidos, entende? Não, eu sei que não e realmente é pedir demais. Não há explicação. Libertei-me contra todos os meus motivos que não me deixariam entregar os meus lábios para ele. Era tarde demais para negar a tensão que sentíamos naquele momento. Tarde demais para correr. Tarde demais para perguntar sobre algum assunto qualquer. Sentíamos-nos por completo e ilogicamente nos conectávamos. Nossos movimentos eram sincronizados como se houvéssemos ensaiado para algo que sequer sabíamos que seria apresentado um dia. Isso existe? A sensação não foi de beijar o carinha gato da escola, não, havia algo mais ali. Tive certeza disso quando nos afastamos devagar e nos miramos intensamente. Os seus olhos azuis cortavam-me, despiam-me de todas as minhas proibições. Beijamos-nos de novo e de novo e de novo...

Nova York, Nova York.

Maio de 2012.

— Há quanto tempo está casada? – perguntou-me olhando para a aliança que repousava em minha mão.

Ah, não, o assunto proibido. Tossi nervosamente. Ok, o que diria? “Não estou mais casada, mas ainda uso a aliança porque não consegui superar?” Droga, droga, droga. Eu deveria ter ouvido Jéssica e ter me livrado disso. Quis mentir, mas mentira tem perna curta e isso só me causaria um constrangimento maior futuramente. Umedeci meus lábios e finalmente respondi:

— Eu não estou mais casada. – disse sem encara-lo.

— Mas você...

— É. – suspirei e ele ficou em silêncio – A verdade? Ainda não consigo tirar isso do meu dedo. – olho para baixo enquanto a rodo sem tira-la. Ah... Essa mania.

— Ainda o ama?

— Não. – disse rapidamente.

Ele me olha e posso ver em sua testa uma grande interrogação. Solto um riso curto e amarelo.

— Eu sei, é estranho não amar alguém e ainda usar a aliança. É só que... É difícil aceitar mais um fracasso na minha vida. Sinto que quando tira-la o meu casamento que deveria ter sido perfeito com direito a filhinhos afundou realmente. – sou franca, até demais.

— Mais um fracasso, Lana? Por que diz isso?

— A minha vida, Robin. A minha vida é um fracasso. – finalmente o encaro.

— Eu não vejo assim, olha só você... Você tem um patrimônio incrível. Isso é para poucos. – diz Robin me encarando também.

— Isso não é pra mim! – cuspo as palavras levantando-me – O que adianta ter uma vida pateticamente perfeita e dinheiro na conta se eu não me sinto realizada? – minha voz eleva-se dois oitavos e eu gesticulo com os braços – A verdade é que isso tudo é uma grande merda! – ando de um lado para o outro no pequeno elevador – Não me olhe assim, Robin. Não me olhe com essa cara de pena! – nego com a cabeça rapidamente.

— Lana, eu...

O interrompo:

— Já tem gente demais para sentir pena de mim, Robin. A minha secretária tem pena de mim! Meu tio solteirão tem pena de mim! Talvez até o desgraçado do meu ex-marido tenha pena de mim. Eu não preciso de mais ninguém sentindo pena, eu não preciso! – sinto meus olhos arderem e uma vontade incontrolável de chorar me consumir.

Descarreguei a frustração que trazia comigo há meses em um homem que não via há 13 anos, era inacreditável que eu estava fazendo isso. Baita teatro em Lana, parabéns novamente. Ergui os meus olhos para cima tentando não deixar nenhuma lágrima escapar. Minha respiração estava desregular e talvez minhas mãos estivessem tremendo um pouco. Eu definitivamente não conseguia encara-lo. De repente sou tomada por uma das mãos de Robin que se entrelaçava em minha cintura e me puxava contra ele. Sua mão livre subiu até a minha cabeça e me fez encostar-se a seu peito. Permaneci firme por alguns segundos, presa, travada. Ele me apertou mais contra o seu corpo sem dizer nenhuma palavra. Aos poucos fui me permitindo baixar o olhar até que uma lágrima pesada contornasse minha face. Ao senti-la soltei um soluço ainda sem chorar e senti uma dor terrível em meu peito. Soltei mais outro soluço de choro baixinho e o que eu protelei por meses pareceu querer sair, sim, o meu choro não chorado há meses quis sair. Aos poucos fui dando permissão e em segundos estava aos prantos. O abracei em retorno e meus dedos apertavam a sua camisa com força. Que dor. Os dedos dele acariciavam os meus curtos fios escuros e o pude ouvir murmurar um “Shi...”. A quem eu queria enganar? Nós nos reencontramos e vamos agir como ex-colegas da escola? Não, às coisas não deveriam ser assim.

— Perdoe-me, Robin. Perdoe-me por não ter cumprido a minha promessa. – falava em meio ao meu choro – Eu senti tanto medo... Eu sou uma covarde. Perdoe-me.

— Ei, ei... Está tudo bem, Lana... Está tudo bem. – sua voz era terna e acolhedora. Por que sempre tão perfeito? Ah... Robin Locksley.

O abracei mais forte e ele pareceu se aconchegar mais em mim. Ele havia mesmo me perdoado? Seu cheiro inundou as minhas narinas e o cheiro dele permanecia o mesmo. Uma nostalgia doída pesou sobre mim.

Cleveland, Ohio.

Julho de 1999.

Estávamos deitados e abraçados, seu cheiro era tão acolhedor. Minha cabeça estava sobre o peito dele e uma de suas mãos acarinhavam minhas costas. A sua mão livre uniu-se a minha e nossos dedos entrelaçaram-se. Tão perfeitos juntos, tão encaixados, chegava a ser irônico.

— Quando acha que vai para a sua nova universidade? – perguntou-me logo depois de depositar um beijo no topo da minha cabeça.

— Breve. Já enviei a minha carta para a Ohio University. Assim que receber a aprovação — estou contando com isso — vou me mandar daqui. Você já enviou a sua?

— Ainda não... – Sussurrou Robin. Sua voz estava tão macia.

— Ei... – ergui o meu rosto pra que pudesse olha-lo – Por que não vai comigo? Mandamos a sua carta também e com sorte você será aceito em algum curso onde possa exercer seus talentos como desenhista! – falo entusiasmada.

Ele sorriu graciosamente.

— Você está louca, Lana? Meu pai nunca me deixaria largar tudo e ir para a Ohio University fazer um curso que ele não aprova.

— E quem disse que ele precisa saber? – falo travessa – Vamos comigo para Athens! Moraremos lá em alguma republica e cursaremos o que quisermos! O que me diz? – selo nossos lábios – Hein?

Ele me beija enquanto sorri.

— Lana, você está de brincadeira, certo?

— Não, Robin! Estou falando sério! Você não pode arruinar a sua vida porque te falam para fazer isso. Você precisa lutar pelos seus sonhos. Uma hora o seu pai aceitará. Eu te ajudo com a carta, o que me diz? Hein? – eu estava eufórica com a possibilidade. Nem eu poderia crer no meu instantâneo desejo de ver os sonhos de Robin realizados, e também, um pouco da pequena, porém existente, sensação gostosa de tê-lo por perto.

Robin finalmente percebe que estou falando sério e para de sorrir. Ele parece pensar em minha proposta. Era estranho isso tudo. Em um momento eu o queria tão longe e agora desejava tanto que ele me acompanhasse em minha nova vida. Eu realmente havia conhecido um pouco de quem era ele. Robin, tão cheio de sonhos, talentos e uma parcela ridícula de besteirol.

— Lana, eu não sei... Parece loucura demais. – negou com a cabeça.

—Eu sei, vamos viver uma loucura! Não foi você mesmo que me disse que precisamos nos permitir enquanto ainda podemos? Permita-se, Locksley! – eu tinha um brilho diferente no olhar.

Ele me olhou e mordeu o lábio inferior. Estava em dúvida.

— Ah, não me olhe com esses olhinhos, Lana, assim é jogo sujo...

Sorri e passei o dedo indicador pela pontinha de seu nariz.

— Eu... Hm... Quer saber? Eu vou, eu vou com você, Lana! – me disse convicto e eu quase não acreditei no que ouvi.

— O que? VOCÊ VAI COMIGO? – gritei sentando-me na cama em um pulo.

— Eu vou? – sorriu confuso e eu o olhei torto – Eu vou com você sim, senhora sabe tudo! Agora deixe disso e venha aqui... – me puxou para ele e soltei um grito que logo foi calado por mais um beijo.

— Calma, calma! – me afasto dele com dificuldade – Temos que acertar tudo. Essa semana podemos enviar a sua carta e esperamos os dois receberem a resposta para irmos.

— Parece ótimo pra mim, isso tudo ainda é uma grande loucura, mas, ah Lana, tem algo em você que me faz perder o medo...

Fizemos planos mirabolantes até às seis da manhã quando por fim a grande festa havia terminado. Uma pessoa é capaz de mudar da água para o vinho em apenas um dia? Ou melhor, em apenas uma noite? Parece que sim.

Nova York, Nova York.

Maio de 2012.

Depois de me recompor e enxugar as minhas lágrimas, nos desvencilhamos e eu o olhei.

— Quando você me avisou que havia finalmente recebido a sua carta e que podíamos ir para Athens, fiz as minhas malas o mais rápido possível, mas antes que eu fosse ao seu encontro naquele dia, o meu pai me contou que havia ido ao médico e... – suspiro pesadamente – Eles disseram que ele estava com câncer. O meu mundo caiu ali, Robin. Meu pai precisaria de mim, ele não teria mais ninguém se eu o deixasse. Perdi toda a consciência com a notícia e ao olhar para o relógio e lembrar-me que você estaria me esperando para pegar o ônibus das nove e ver que já passavam das onze, eu... Ah, Robin. – parece que as lágrimas queriam voltar novamente – Eu ainda fui até a sua casa no outro dia, mas você não estava mais lá. Você havia cumprido o combinado que eu mesma te propus... Você... – começo a chorar novamente – Depois de alguns anos cuidando do meu pai, toda a minha coragem de cursar cinema e seguir os meus sonhos não existia mais dentro de mim. Eu via o meu pai todos os dias numa cama precisando de mim e seria egoísmo demais deixa-lo para seguir as minhas paixões. Nos últimos anos de vida dele eu decidi me formar em administração e ele pôde morrer sabendo que eu segui os passos que ele sempre sonhou pra mim.

Robin me olhava com pesar. No canto de seus olhos havia umidade. Lágrimas?

— Lana, eu não imaginava... Eu sinto muito por tudo. Eu te esperei até quando pude, eu realmente não entendia porque de tanta demora e eles chamaram pela última vez para entrarmos no ônibus e eu apenas fui... Na verdade eu tinha esperança de que você acabasse me encontrando em Athens algumas horas ou alguns dias depois. Eu não poderia perder aquela oportunidade de ir naquele ônibus, não havia mais volta para mim. Eu te esperei durante semanas, Lana... Praticamente todos os dias eu entrava escondido em alguma aula de cinema à procura do seu sorriso. Pensei em te ligar, claro, mas eu sabia que deveria haver algum motivo para você ainda não ter chegado e eu esperei o quanto pude, mas um dia eu desisti. Eu tive certeza que você não viria mais e eu confesso que eu te culpei muito, eu senti raiva de você, mas depois que me formei e comecei a trabalhar com o que sempre desejei, percebi que isso só aconteceu por sua causa. Lana... – ele segura o meu queixo e enxuga as minhas lágrimas – Se eu estou aqui agora é por sua causa. Você me incentivou a isso e eu nunca pude te agradecer. Talvez fosse esse o motivo da minha tormenta em não vê-la novamente. Depois daquela festa, aqueles três meses que vivemos sonhando com a nossa nova vida, te conhecendo mais como amiga e aprendendo cada dia a te amar mais, foram muito importantes para mim, e finalmente eu posso dizer: Obrigado, Lana.

Fiquei em silêncio apenas ouvindo as palavras de Robin. De alguma forma saber que mesmo com toda essa rasteira que o destino nos deu, ele era grato a mim. Que engraçada a vida, não? Eu com toda a minha certeza não consegui ter a vida que sonhei e Robin com toda a sua incerteza trilhou os caminhos dos seus sonhos.

— Robin, eu...

— Não precisa se explicar mais, Lana. – sussurrou – Não precisa...

♪ (Nunca foi tarde [Lover, You Should've Come Over] – Versão Paulinho Moska) ♫

Aos poucos ele aproximou o seu rosto do meu e toda a nostalgia dolorosa que eu estava sentindo se converteu em uma nostalgia boa, um desejo, uma saudade. Fechei os olhos lentamente e fomos-nos aproximando novamente. Suas mãos foram até o meu rosto e seus polegares acariciavam as minhas bochechas úmidas. Roçamos os nossos narizes um no outro, devagar, sem pressa alguma. Nossos lábios tocaram-se levemente e todo o meu corpo respondeu aquele pequeno toque. Inebriávamos-nos antes mesmo de algum beijo. É estranho perceber que sente saudade de algo que pensou já ter esquecido. Robin Locksley era um ponto de luz na minha história que todos os apêndices no meio da minha caminhada tentou apagar, mas agora em uma nova noite os primeiros raios de sol pareciam revela-lo novamente.

Fomos surpreendidos quando o elevador reacendeu as suas luzes habituais e concluiu o seu percurso até o térreo abrindo a porta a nossa frente.

— Vocês estão bem? – falou uma voz.

Abrimos os olhos lentamente e nos afastamos devagar. O técnico.

— Vocês passaram a noite aqui? Desligamos tudo para fazermos a manutenção hoje às seis da manhã.

— Seis da manhã? – disse Robin olhando-me em cumplicidade.

Sorri para ele e logo levei a minha atenção para o homem a nossa frente.

— Sim, nós ficamos presos.

Saímos do elevador lentamente e caminhamos atravessando a grande porta do empresarial. A cidade estava calma, era sábado de manhã e os raios tímidos do sol começavam a esquentar as ruas frias de Nova York.

— Eu... – ele diz.

— Eu... – falo na mesma hora.

Rimos juntos.

— Você primeiro. – falei.

— Eu estou com uma exposição de arte em uma galeria aqui da cidade.

— Jura? Ual!

— É, se quiser ir até lá... – ele mexeu no meio dos papeis que tinha na mão, tirou um panfleto tamanho 10x15 e entregou-me – Aí tem o endereço e os horários. Espero te ver lá... – sorriu para mim e começou a dar os primeiros passos afastando-se de mim sem que percamos o contato visual.

Por fim, virou-se de costas para mim e continuou caminhando pela grande calçada. Não parecia ter pressa.

Olhei o panfleto em minhas mãos e nele estava escrito “Sorrisos – Uma exposição de Robin Locksley” e abaixo uma de suas artes e... Espere... Um sorriso pintado a lápis grafite com o... Seria possível? Era o meu sorriso! Lembrei-me de sua fala: “O sinal dá identidade ao seu sorriso” e bom... Eu sorri, como ele diz, genuinamente.

"Jovem demais para esperar e velho demais para me libertar e correr." (Jeff Buckley)


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Notas finais
se quiserem ouvir as músicas da história, seria bem interessante, pois, foram elas que me inspiraram a cada cena.
Obrigada por lerem! Mwah, Cecily.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!