O Décimo andar
2 Boas-vindas do Topo
O apartamento 901 já não parecia mais um depósito de caixas. Marta, com sua obsessão por organização, havia feito milagres em menos de quarenta e oito horas. Os porta-retratos de prata da família já adornavam o aparador de laca, e o aroma de lavanda fresca tentava, sem sucesso, convencer Eloah de que aquele lugar era um lar.
Eloah estava jogada no sofá de couro italiano da sala, encarando o teto gesso. Ela ainda usava os fones de ouvido, embora não estivesse ouvindo nada. Era seu escudo contra o entusiasmo dos pais.
— Ricardo, veja se a adega está na temperatura certa — Marta pediu, ajeitando um arranjo de orquídeas na mesa de jantar. — Quero que tudo esteja perfeito se algum vizinho decidir aparecer.
— Marta, acabamos de chegar. Ninguém vem bater na porta assim... — Ricardo começou a dizer, mas foi interrompido pelo som nítido e elegante da campainha.
Marta deu um sorriso vitorioso. Eloah nem se mexeu, apenas revirou os olhos por baixo do cabelo loiro que caía sobre o rosto. Ricardo abriu a porta, esperando encontrar algum entregador ou o zelador.
Mas quem estava ali era diferente.
— Boa noite. Peço desculpas pela hora, mas soube que o nono andar finalmente ganhou vida — a voz era profunda, calma e carregava uma autoridade natural.
Eloah sentiu um calafrio estranho. Ela se sentou devagar, retirando os fones e olhando em direção à entrada.
O homem parado à porta parecia ter saído de uma propaganda de relógios de luxo. Usava uma camisa de linho azul-marinho com as mangas dobradas, revelando braços fortes e um relógio robusto. O cabelo era levemente grisalho nas têmporas, contrastando com os olhos claros e penetrantes que transmitiam uma serenidade absoluta.
— Sou Arthur Meirelles, morador do 1001, a cobertura — ele estendeu a mão para Ricardo com um sorriso cordial. — Vim lhes desejar boas-vindas.
— Ora, que gentileza! Sou Ricardo Cavalcante, e esta é minha esposa, Marta — Ricardo apertou a mão dele, impressionado com a postura do vizinho. — Entre, por favor.
Arthur deu um passo para dentro da sala. Seu olhar percorreu o ambiente com elegância até pousar na figura de Eloah, ainda sentada no sofá. Por um segundo, o tempo pareceu desacelerar. Eloah, que estava pronta para disparar algum comentário sarcástico, sentiu as palavras sumirem.
Diferente dos rapazes da sua idade no Rio, Arthur não a olhava com hesitação ou timidez. Havia um reconhecimento ali, algo que a fazia se sentir, pela primeira vez na vida, não como uma adolescente rebelde, mas como uma mulher sendo notada.
— E esta — Marta disse, aproximando-se da filha — é a nossa Eloah. Ela ainda está se adaptando à ideia de trocar a praia pelo asfalto.
Arthur caminhou até ela. Eloah se levantou, tentando manter sua fachada de indiferença, mas suas mãos tremeram levemente.
— Muito prazer, Eloah — disse Arthur, mantendo o contato visual. — São Paulo pode ser um pouco sufocante no início para quem vem do mar, mas garanto que a vista lá de cima faz o esforço valer a pena.
— Eu duvido — ela rebateu, tentando recuperar a voz, mas sem conseguir desviar o olhar do dele. — Nada supera o horizonte do Arpoador.
Arthur deu um sorriso de canto, um gesto que indicava que ele aceitava o desafio.
— Um paladar exigente. Gosto disso — ele comentou, voltando-se para os pais dela. — Se precisarem de qualquer coisa, recomendações de restaurantes ou ajuda com a burocracia do condomínio, meu apartamento está logo acima. Literalmente.
— Você mora sozinho, Arthur? — Marta perguntou, já emendando uma conversa social.
— Sim. A cobertura é silenciosa demais às vezes. Ter vizinhos novos será uma mudança bem-vinda.
Enquanto ele conversava com Ricardo sobre o mercado imobiliário e a estrutura do prédio, Eloah permaneceu em silêncio, observando-o. Ela notou a forma como ele se movia, a segurança em cada palavra e o perfume amadeirado que agora ocupava a sala.
A revolta que ela sentia pela mudança não havia passado, mas, de repente, o prédio de dez andares pareceu muito mais interessante do que ela imaginava. O problema era que Arthur Meirelles tinha idade para ser seu pai, e a forma como seu coração acelerou quando ele se despediu e lhe lançou um último olhar antes de sair, indicava que o nono andar estava prestes a ficar perigosamente pequeno.
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