O Duque que me Amou
5 Talvez, talvez, talvez
Notas iniciais


Katniss nem fazia ideia do que tinha dentro da garrafa, ao surrupiar da mão de um senhor que bebia e ria com o grupo de músicos. Ela limpara mais ou menos o bocal e tragara de uma vez só, o líquido que desceu queimando por sua garganta. Sacudiu a cabeça inúmeras vezes, tentando afastar os pensamentos do recente ocorrido. Mais uma golada e sua mente começou a se anuviar. Muitas vezes bebia escondida com seu irmão companheiro. Contudo, sentira seus membros um pouco mais lentos do que o de costume. Decidira terminar a garrafa que se encontrava pouco menos da metade. Ao tentar dar alguns passos, cambaleou e quase foi ao chão se não fosse o apoio da garota.
— Bahhh... – grunhiu ela, desagradando-se de seu estado.
— Katniss, o que aconteceu com você? – questionou Rue, apoiando a jovem da melhor forma que conseguia.
— Nãooo... aconteceu nadaaa... – negou a morena com a voz embriagada.
— Você bebeu algo forte – acusou, notando a garrafa presa entre os dedos de Katniss. A garota a tomou das mãos da mesma e cheirou o conteúdo. Ela podia ter apenas treze anos, mas conseguia identificar alguns tipos de bebidas, afinal, era irmã caçula de Thresh. — Isso é água ardente. Venha comigo, tenho algo para aliviar sua embriaguez.
Katniss se afastou de Rue, colocou as mãos nos quadris, ergueu o queixo e respirando fundo afirmou:
— Estou completamente sóbria.
Obviamente a jovem sentia dificuldade para falar com desenvoltura. A falta de coordenação e equilíbrio estava explícita, e para piorar, sua capacidade de julgar não era tão confiável.
Mas quem a julgaria?
— Você não está em seu estado normal – insistiu Rue. — Levarei você para nossa cabana e chamarei a mamãe...
— Nãooo! – exclamou. Katniss não queria chamar ainda mais a atenção. — Quer me ajudar? – A garota anuiu veemente. — Me ajude a chegar até o riacho... sabe?
A festa ainda seguia animada e Katniss queria voltar a dançar como outrora e esquecer o episódio com o duque. Contudo, sentia-se diferente. Permitiu um pequeno sorriso dançar em seus lábios. Ela tinha que admitir, a expressão confusa no rosto dele fora impagável.
— Sente-se aqui. – Rue estendeu seu xale sobre um amontoado de folhas secas e colocou Katniss sentada. — Não saia daí – ordenou ela. — Já volto.
Poucos minutos depois a garota voltou com uma cumbuca contendo algumas ervas maceradas. Ao estender à Katniss seu nariz torceu pelo forte aroma. Quando bebericou, sentiu-se retorcendo por dentro.
— Argh! – reclamou sentindo nojo do sabor. — Que droga é essa?
— É um tônico que mamãe dá para quem está de ressaca.
— Não estou de ressaca – insistiu veemente. — Deixe-me quietinha aqui para recuperar meu fôlego e logo volto a dançar – discursou ela.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Se for sobre meu estado, esqueça.
— Não é sobre isso. – Sorrindo Rue se ajoelhou ficando de frente para a morena e a fitou. — Quem era aquele loiro bonito que dançava com você?
Loiro bonito?
Céus!
— Que loiro? – Se fez de desentendida.
— O loiro que não tirava os olhos de você, enquanto dançavam, oras!
— Rue... – Katniss pensou em uma desculpa. Não encontrou. Então, optou por uma explicação plausível. — Ele é o novo duque de Bro Waroch.
— Hmmm... – refletiu a garota. — Vocês ficam bem juntos. – Com isso, Rue soltou um risinho e se retirou, deixando a morena atordoada. Como se já não estivesse por conta da bebida.
Katniss sentiu seu estômago protestar e num rompante; se ajoelhou e com a cabeça inclinada para frente, diante do riacho, vomitou.
❆❆❆
— Não faz ideia de como sinto saudades de você dia após dia – desabafou Finnick, enquanto tinha sua amada nos braços. — Desejo que nos casemos logo, amada minha. – Ele a puxou pela cintura a fazendo ofegar de emoção.
— Também sinto saudades – concordou Annie. — Assim como você, desejo nos unir, mas sabe que e mais complicado do que parece.Os dois conseguiram se afastar da multidão. E ali na escuridão, sendo iluminada apenas pela lua que brilhava no céu enegrecido, se perderam em um beijo ardente, cheio de paixão e promessa.
— Buuurp...
— Você escutou isso?
— Isso o quê, Finn?
— Um arroto forte.
— Deve ser alguém que bebeu demais – deduziu a ruiva. — Agora deixe-me te mostrar o quanto amo você. – Ela passou os dedos entre os fios sedosos dos cabelos de seu amado e chegou o corpo mais próximo ao dele. A temperatura estava elevada e os dois apenas desejavam sentir pele com pele. Somente os beijos não eram suficientes.
— Hique! Hique! Hique!— Os soluços, seguido da voz grave de um homem, praguejando algo ininteligível, ficava cada vez mais audível aos ouvidos do casal. — Euuu sou um idiotaaa... hique-hique...
— Acho que conheço essa voz – arriscou Finnick, indo na direção desta.Peeta cambaleava ziguezagueando as pernas. As roupas, antes elegantes, estavam molambentas. Camisa para fora da calça. As botas sujas de barro e talvez algo a mais. Os cabelos desgrenhados parecendo um porco-espinho. Finnick tinha as sobrancelhas erguidas em total descrença.
— Vossa graça? – assustou-se Annie.O duque ergueu a cabeça e forçou os olhos na direção dos dois.
— Ka-katniss é vocêêê...? Hique-hique...
— Cristo! O que minha irmã aprontou desta vez? – Finnick foi de encontro com Peeta que praticamente se jogou pra cima dele. — Opa!
— Eu-eu sempre estrago tudooo... – balbuciou ele.
— Vossa graça, o problema não é você. A questão é, ter escolhido a jovem errada para cortejar – enfatizou.
— E-ela nãooo ééé... erradaaa... – retrucou o duque. — Hique-hique...
— Acho melhor o levarmos para sua cabana, Annie.
— É melhor mesmo, se não.... Ai nãooo... – Não deu tempo de a ruiva concluir sua sentença, pois, no mesmo instante; vossa graça colocava tudo de seu estômago para fora.
— Vossa graça vai ter que me dar uma calça e botas nova. – Finnick fora prejudicado pelo incidente, mas se limparia no riacho depois de levar o duque para a cabana. Após acomodarem Peeta numa esteira, Annie sugeriu que, fossem tirados o casaco e a camisa que se encontravam sujas. — Já volto. – Ao se aproximar do riacho, Finnick não deixou de reparar em alguém encolhido sobre o chão. Quando se aproximou notou ser sua irmã. Ele bufou, mas antes que a tomasse nos braços, foi se limpar. — Annie, querida te trouxe mais um paciente. – O jovem fazia o maior esforço carregando a irmã nos braços.
— Ah, minha nossa! A coloque aqui na cama – ditou ela. — Ela está ferida?
— Acredito que esteja no mesmo estado que o nosso ilustre aí – apontou com a cabeça para o rapaz deitado. — Em que enrascada esses dois foram se meter, em? – questionou colocando a irmã sobre a cama de Annie.
— Vamos descobrir quando acordarem. A propósito, você precisa descansar – sugeriu Annie.
— Não quer aproveitar o finzinho do festival? – perguntou erguendo sugestivamente as sobrancelhas.
— Finnick!
— O quê? Os dois estão... estão apagados – enfatizou ele.
— Melhor dormirmos por aqui e pela manhã preparo algo para eles. – A ruiva logo começou a abrir uma outra esteira de palha sobre o chão e a forrá-la para dormirem.
— Não acha estranho ambos estarem nesse estado? – divagou em voz alta.
— Tudo é possível meu amado, Finn.
❆❆❆
Pela manhã, Katniss sentia uma enxaqueca dos infernos. Ao se sentar na beirada da cama, olhou a sua volta e notou que era a cabana de sua grande amiga. Não viu ninguém ali. Entretanto, seus olhos se paralisaram em um ponto. O duque se encontrava deitado sobre uma esteira e da cintura pra cima estava sem nada.
Deus do céu!
O abdome era torneado e tão pálido. Ela não quis ficar o encarando por tanto tempo, mas era impossível não olhar. Quando tentou se levantar, a própria gravidade a derrubou na cama.
Na esteira, Peeta resmungo algo ininteligível ao acordar em um salto.
— Será que ainda estou sonhando? – questionou para si mesmo, ao notar Katniss ali.
— Fique bem longe de mim...
— Se não o quê? – retorquiu ele, se levantando. No entanto, cambaleou e, diferente de Katniss não caiu, pois se apoiou no batente de madeira. — Por que me odeia tanto?
— Você não sabe de nada – disse ela, cruzando os braços na altura do busto. Em um claro gesto de defesa. Afinal, ali parado e sem camisa estava um metro e oitenta de beleza.
— Sempre me afugenta. Imagino que deva sentir repulsa total por mim. Estou errado?
— Faz muitas perguntas, vossa graça.
— E para cada pergunta ,há sempre uma resposta – contrapôs-se. Ele não queria forçar nada, mas estava decidido em fazer algo para definitivamente se unir a ela. Tinha que achar uma maneira de cumprir o que estava no testamento. — Tenho algo a lhe propor. – Iniciou. Katniss o encarava com o cenho franzido. — Primeiro, dá para parar de olhar pra mim, como se quisesse me matar? – Ela amenizou sua expressão. Ainda assim, não iria facilitar para ele. — Certo... podíamos nos ajudar, sabia?
— Como assim? Do que está falando?
— Sei lutar esgrima – frisou. — Eu poderia te ensinar. – Ela começou a se interessar e ficou atenta para o que viria a seguir. — E, como você é excelente com o arco e flecha, poderia me ensinar. Deste modo, você aprende mais uma autodefesa. – Ele prestara muita atenção em Gale quando relatara o ocorrido com Bligth. Ela tinha uma obstinação para as artes masculinas e ele iria explorar isso a fundo, até conquistá-la.
Katniss se levantou devagar para não cair novamente. Estava desconcertada por ele ainda estar sem camisa e parado bem à sua frente.
— Digamos que eu aceite – considerou por um momento. — Eu não tenho um florete.
— Eu tenho dois. Posso te dar um – ofereceu-se.
— Não vou admitir nenhuma gracinha. Está me entendendo? – Katniss iria deixar bem claro a ele sua postura.
— Ah, claro… – pigarreou, fingindo estar arrependido. — Perdoe meu atrevimento na noite passada. – Na verdade, vossa graça não estava arrependido e faria tudo e um pouco mais, apenas para ver a jovem rendida.
Vagarosamente para não cair, Katniss deu alguns passos em sua direção e lhe estendeu a mão, simbolizando um acordo. Que difícil estar em sua presença estando daquela maneira. Ele estendeu a mão e apertou a dela com firmeza.
— Dá para vossa graça colocar uma camisa?
— Se ela estivesse por aqui, colocaria com certeza – admitiu, olhando para todos os lados.
No mesmo instante, Annie adentrou com um enigmático olhar.
— Bom dia, Katniss! – Então dirigiu-se ao duque. — Bom dia, vossa graça. Tive que lavar sua camisa e seu casaco. Enquanto secam, pode vestir essa camisa do Finnick – disse ela, estendendo a peça.
— Obrigado.
— Também preparei um café da manha bem revigorante para vocês dois. – Ela soltou uma risadinha. — Afinal, irão precisar depois de uma ressaca dessas.
Katniss sentiu suas bochechas ficarem vermelhas. Ao contrário de certo cavalheiro que, apenas sorriu com o comentário nada sútil de Annie.
❆❆❆
Era difícil para Katniss, explicar ao seu irmão o que realmente havia acontecido. Finnick não parava de expressar inúmeras caricaturas de possíveis acontecimentos.
— Permita-me esclarecer, monsieur Everdeen. – Intrometeu-se Peeta. — Sei que não é apropriado, porém, convidei a mademoiselle para um drink. Acho que exageramos e depois ela saiu cambaleando e não a vi mais.
Katniss o encarou em total descrença e obviamente Finnick entendeu que se tratava de uma mentira. No entanto, preferiu se concentrar nos problemas que poderiam se acumular se não partissem dali.
— Tudo bem, mas precisamos ir para casa, irmã. Nosso pai e irmãos devem estar preocupados.
— Tudo bem, vamos para casa. – Katniss não queria encarar Peeta por mais nenhuma hora. Já passara tempo demais em sua presença.
— Vou acompanhá-los – disse ele, rapidamente.
— Vossa graça, suas roupas ainda não secaram – afirmou Annie.
— Deixo aqui para doar a alguém que esteja precisando. Tenho mais roupas do que consigo contar.
— Muito obrigada, vossa graça – agradeceu ela, com o sútil e gracioso sorriso plantado em seus corados lábios.
No caminho de volta, Katniss permaneceu em silêncio. Tinha receio de começar a falar e ser mal interpretada ou até mesmo servir de piada para os dois cavalheiros.
Peeta ate quis acompanhá-los até a propriedade, mas Finnick achou melhor dispensar tal cortesia. Agradeceu reverentemente a ele e se despediram tendo uma promessa de se verem em breve.
Os dois irmãos até tentaram ser sorrateiros, porém, um senhor Everdeen com o semblante fechado como o de uma tempestade, os aguardava.
— Qual dois quer começar a me contar a verdade?Aterrorizados, Finnick e Katniss se entreolharam e por uma breve fração de segundos tentaram reformular uma história. Entretanto, por mais doloroso que pudesse ser, contar a verdade, seria a melhor opção naquele instante.
— A culpa é toda minha, pai – confessou Katniss. — Eu fugi para a floresta… hã… queria ficar sozinha, mas o Finn foi atrás de mim e me fez voltar com ele hoje pela manhã. — Obviamente ela ocultara boa parte do ocorrido original.
— Deixe-me ver se entendi – analisou o pai. — Ninguém deixa um bilhete avisando que entrariam na floresta e passariam a noite por lá. Sendo que, existem muitos perigos a espreita?
— Pai… – Finnick tentou protestar.
— Os dois estão de castigos por tempo indeterminado e dobrarei a tarefa de ambos, a partir de hoje. Quem sabe assim, não terão tempo de aprontar comigo. – Haymitch esfregou a mão direita sobre o peito. — Estou velho e podia ter tido um infarto por estar louco de preocupação com vocês. E outra, os dois palermas irmãos de vocês, não me deram nenhuma pista ou sugestão de onde estavam.
Finnick e Katniss sutilmente tornaram a se olhar descrendo de que foram acobertados pelos irmãos mais velhos.
Assim que o pai os liberou para iniciarem as tarefas, procuraram por Gale e Cato. Os irmãos admitiram estarem preocupados com Katniss ter sido raptada por Bligth.
— Devemos muito a vocês – falou Katniss, aliviada pelos dois não desconfiarem do esconderijo dela e de Finnick.
— Claro que nos devem…
— Cato o importante, é que, ambos estão bem – argumentou Gale, recebendo um abraço da irmã.
— Você é o melhor irmão do mundo.
Gale apenas olhou em direção a Finnick com um sorriso vitorioso.
— Quem é o favorito agora?
— Talvez você – disse o rapaz enfatizando a palavra. — Talvez, talvez, talvez… – repetiu, fazendo o mais velho cerrar os punhos, afastando as pernas o convidando para um embate.
Katniss começou a rir. Não havia dinheiro no mundo que pagasse momentos como aquele em que se divertia com seus irmãos.
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