O Duque que me Amou

6 Não flertar entre os ataques


Notas iniciais
Olha quem voltou e não vai embora sem antes dar um final para ODQMA... Meus amores muita coisa aconteceu durante esses anos e precisei me afastar, mas de coração espero que continuem aqui e prometo que não vou deixar de postar. Fiz algumas mudanças leves no enredo como o nome da mãe da Katniss, na sinopse e troquei a capa e tbm coloquei imagens nos capítulos anteriores, vão dar uma conferida. Sem mais delongas vamos ao capítulo e agradeço o apoio de cada leitor, é como um abraço quentinho.


A pena deslizava sobre o papel, guiada pela mão firme de Peeta. As palavras fluíam, cuidadosamente escolhidas para transmitir a formalidade necessária, mas sem esconder o subjacente anseio que o consumia.

Minha cara mademoiselle Everdeen,

Espero que esta missiva a encontre bem. Como acordado, gostaria de propor o início de nossas aulas de esgrima. Tenho dois floretes à sua disposição e o treinamento poderá ocorrer a partir de amanhã, às 10 horas da manhã, em minha residência. Aguardo sua presença.

Atenciosamente,

O Duque de Bro Waroch, Peeta Mellark

Katniss leu a carta mais de uma vez, o coração batendo forte no peito. A formalidade das palavras contrastava com a eletricidade que perpassava cada linha — uma eletricidade que sentia ecoar em seu próprio corpo.

Entretanto, ainda estava de castigo. Mas quem sabe...

— Papai… recebi uma carta do duque. — Começou ela, hesitante, segurando o papel dobrado contra o peito.

Haymitch ergueu os olhos do cachimbo que limpava sobre a escrivaninha de seu escritório.

— Do duque? — repetiu, arqueando uma sobrancelha. — E o que o tal duque quer agora?

— Ele... convidou-me para iniciar as aulas de esgrima — respondeu, tentando disfarçar a ansiedade. — Amanhã, às dez da manhã.

O pai coçou o queixo, pensativo, o olhar vagando entre o rosto da filha e a lareira acesa.

— E acha mesmo que eu a deixaria sair, depois da travessura da semana passada?

— Prometo portar-me como uma dama, papai. — Katniss se adiantou, tocando-lhe o braço. — Ele apenas quer ensinar-me, nada mais.

— Esgrima? — A jovem apenas assentiu, o pai suspirou, vencido pelo tom sincero e determinado que conhecia bem. — Você herdou a teimosia da sua mãe. — Endireitou-se na cadeira dando um suspiro ao olhar para o quadro pintado de sua amada esposa no alto da lareira. — Vá, então. Mas vá com juízo, Katniss. E se o duque ousar algo impróprio...

— Eu mesma o coloco no chão — completou ela, com um meio sorriso atrevido.

O pai soltou uma gargalhada contida e meneou a cabeça.

— É isso que me preocupa, menina.

Katniss sorriu de canto, curvou-se para beijar-lhe a testa e partiu antes que ele mudasse de ideia.

Na manhã seguinte, sem hesitar, ela se preparou. Vestiu suas roupas mais práticas, um vestido de linho marrom sem mangas e de amarras do busto à cintura, por baixo do mesmo, uma blusa de algodão bege. Trançou os cabelos, e, com o coração disparado entre excitação e apreensão, montou em seu fiel cavalo, Tornado, o alazão forte e veloz que a acompanhava desde menina.

O caminho até o castelo do duque era ladeado por bosques úmidos e campos dourados, onde o vento fazia ondular o trigo como ondas de um mar sereno. Ao longe, erguiam-se as torres do castelo de Edenbrooke, como lanças de pedra perfurando o céu da Bretanha. A luz pálida do sol refletia-se nos vitrais e nas janelas altas, criando lampejos dourados entre as nuvens.

Quando Katniss se aproximou, o portão de ferro trabalhado abriu-se com um ranger grave, revelando uma estrada de cascalho ladeada por carvalhos antigos. Além deles, estendiam-se jardins geométricos com arbustos podados em formas perfeitas e um grande espelho d’água onde o reflexo do castelo tremeluzia como um sonho.

O castelo, com sua fachada de pedra clara e torres de telhados azulados, parecia uma fortaleza saída das lendas francesas. Gárgulas de expressão severa guardavam as ameias, e a heráldica dos Mellark — um escudo prateado cruzado por uma espiga dourada — ornava o portão principal. Era grandioso, solene, quase intimidante. Katniss sentiu um arrepio percorrer lhe a espinha, não apenas pelo frio, mas pela sensação de adentrar o território de alguém que parecia observar tudo, mesmo à distância.

Ela respirou fundo, endireitou os ombros e esporeou Tornado adiante. A aventura estava apenas começando.

A jovem desmontou, entregando as rédeas a um cocheiro que surgiu como se por encanto. A grandiosidade da faixada a deixava sem fôlego, mas manteve a postura ereta e o olhar altivo, recusando-se a parecer intimidada.

Foi recebida por um mordomo elegantemente vestido, que se apresentou como Darius e a conduziu por corredores amplos e suntuosos. O mármore claro refletia a luz das janelas altas e os passos ecoavam pelo salão, onde o cheiro de madeira encerada e flores frescas se misturava ao perfume discreto da nobreza.

Peeta a esperava junto à lareira, o fogo realçando o dourado dos cabelos e a serenidade de seu semblante. O sorriso que lhe ofereceu era cortês demais para ser inocente.

— Mademoiselle Everdeen, que prazer recebê-la. — A voz dele era suave, envolvente, com uma nota de expectativa que não escapou aos sentidos aguçados de Katniss.

— O prazer é todo meu, Vossa Graça — respondeu ela, sem inclinar-se, apenas o suficiente para parecer educada.

— Permita-me oferecer-lhe um chá — sugeriu ele, indicando a mesa posta com porcelana fina. — Está fresco, com toque de jasmim.

— Agradeço, mas prefiro começar a lição antes que a manhã acabe. — Katniss manteve o tom firme, sem devolver o sorriso.

Peeta arqueou uma sobrancelha, divertido com a recusa.

— Tão disciplinada… ou seria impaciente?

— Prática. — Ela o cortou, ajustando as mangas da blusa. — Não vim tomar chá, vim aprender a empunhar um florete.

Ele soltou uma risada breve, mais encantada do que provocadora.

— Uma mulher direta. Que surpresa agradável.

— Acredito que o senhor tenha conhecido poucas.

— De fato — respondeu, aproximando-se o suficiente para que ela percebesse o calor que emanava do fogo e dele. — E nenhuma com essa ousadia no olhar.

Katniss o encarou de lado, séria.

— Se for uma tentativa de distração, Vossa Graça, já aviso que sou imune a bajulações.

— Ainda bem — murmurou, sorrindo de canto. — Seria injusto vencer desta forma.

Ela revirou os olhos, mas um mínimo estremecimento a denunciou.

Peeta, então, abriu as portas francesas que davam para o jardim. O ar fresco, impregnado do perfume das rosas, envolveu os dois enquanto caminhavam até o gazebo de madeira clara, onde dois floretes os aguardavam.

— Escolhi este local para que possamos treinar com mais espaço e… privacidade. — Ele pausou intencionalmente na última palavra, mas o olhar que lançou era respeitoso, não lascivo.

— Que conveniente — replicou ela, pegando o florete com destreza. — Assim ninguém verá quando eu o derrotar.

Peeta sorriu, genuinamente encantado.

— Estou começando a acreditar que deveria temê-la, mademoiselle.

— Seria prudente. — Katniss posicionou-se, os pés firmes no chão, o florete erguido. — Pronto, Vossa Graça?

Ele a observou por um breve instante, impressionado com a postura firme e o brilho determinado em seus olhos.

— Sempre. — E então, avançou.

A primeira investida de Peeta foi rápida e precisa, buscando testar a defesa dela. Katniss desviou com agilidade surpreendente, o florete tilintando com elegância. Um leve sorriso despontou nos lábios dela, que já se movia para contra-atacar.

O som do aço ecoou no ar como uma melodia tensa. Ele era elegante, disciplinado; ela, instintiva e impetuosa. Cada toque, cada passo, era uma troca silenciosa de poder.

— Está se contendo, milorde — provocou ela, respirando ofegante. — Não vai me ferir por medo de arranhar o orgulho?

— Temo algo muito pior — devolveu ele, recuando apenas um passo. — Que me acostume a perder para você.

Katniss bufou, disfarçando o leve rubor que lhe subia às bochechas.

— Talvez devesse acostumar-se logo, então.

A lâmina de Peeta riscou o ar, desviando por milímetros do ombro dela. O duque riu, divertido com a resposta rápida e a destreza inesperada.

— Santo Deus, Katniss Everdeen… não sei se ensino ou se aprendo.

— Ensine, Vossa Graça — respondeu ela, firme. — Porque do contrário, será lembrado como o duque que levou uma surra de uma camponesa.

O riso dele soou livre, sincero, e por um instante Katniss precisou lembrar-se do motivo pelo qual estava ali — esgrima, e nada mais.

A tensão, porém, permanecia. Palpável. Elétrica. Ele não cruzou os limites, mas cada olhar e cada sorriso seu pareciam testar até onde poderia chegar sem tocá-la.

E, para seu próprio desespero, Katniss começava a temer que ele descobrisse.

As lâminas se cruzaram mais uma vez, tilintando sob a luz dourada que atravessava o jardim. Peeta avançou, o passo firme, tentando ler os movimentos dela; Katniss recuava com graça felina, o florete firme, o olhar atento.

— Está distraído, Vossa Graça — provocou ela, a voz leve, mas carregada de desafio.

— Impossível concentrar-me quando o inimigo é tão… fascinante. — Ele sorriu, o olhar fixo no dela, como se cada palavra fosse um golpe cuidadosamente estudado.

Katniss arqueou uma sobrancelha.

— Fascinante é a forma como o senhor tropeça nas próprias intenções.

O florete dele vacilou por um instante, o suficiente para que ela o atingisse de raspão no ombro.

— Tocado, milorde. — O sorriso dela era afiado como a ponta da lâmina.

Peeta deu um passo atrás, massageando o local atingido com uma expressão teatralmente ferida.

— Preciso admitir… o golpe foi perfeito.

— Talvez devesse se concentrar mais e falar menos — sugeriu ela, baixando a guarda, os olhos faiscando. — A língua é a primeira a cair em campo de batalha.

— E o orgulho, o segundo — completou ele, com um brilho de humor nos olhos. — Mas confesso que é revigorante ser humilhado por uma dama tão… perigosa.

Katniss suspirou, tentando ignorar o arrepio que a percorreu quando ele deu um passo em sua direção. Peeta segurava o florete pela lâmina, desarmado, o corpo inclinado o bastante para que o perfume discreto de sua roupa alcançasse o ar entre eles.

— Está tentando me distrair de novo — disse ela, dando um passo para trás.

— Eu? — Fingiu inocência. — Apenas admirando sua técnica.

— Técnica — repetiu ela, erguendo o florete até o pescoço dele, a ponta pousando com precisão sob o queixo. — Cuidado com o que admira, Vossa Graça. Pode acabar ferido.

Peeta não se moveu. Apenas olhou para ela — um olhar profundo, azul e perigoso, que a fez prender o fôlego. O silêncio entre os dois se estendeu, denso, quente como o ar antes de uma tempestade.

Então ele sorriu — aquele maldito sorriso, meio galante, meio rendido.

— Se for por suas mãos, mademoiselle, não me importo de sangrar.

Katniss arqueou o florete e o afastou com um giro elegante, encerrando a disputa com um último toque que fez o aço vibrar.

— Aula encerrada — declarou ela, seca, embora o coração batesse como um tambor dentro do peito.

Peeta inclinou-se num leve aceno de cabeça, o olhar brincando entre a reverência e a provocação.

— Se todas as minhas alunas tivessem o seu talento, eu seria um homem derrotado e feliz por isso.

Ela guardou o florete e virou-se para o caminho de volta, tentando não deixar transparecer o leve rubor nas bochechas.

— Felizmente, Vossa Graça, eu não sou uma de suas alunas.

Ele a seguiu com os olhos, imóvel, o sorriso esmorecendo em algo mais contido, quase admirado.

— Ainda não, mademoiselle Everdeen — murmurou, baixo, para si mesmo. — Ainda não.

Katniss montou em Tornado e, antes de partir, lançou-lhe um último olhar por sobre o ombro.

— Até a próxima lição, duque. E, se puder, tente não flertar entre os ataques.

Peeta inclinou-se em uma mesura teatral.

— Prometo tentar... embora temo que seja meu golpe mais natural.

Ela o encarou com uma expressão impassível, mas o canto da boca denunciava um leve sorriso. Então esporeou o cavalo, deixando para trás o castelo de pedra e o homem que, mesmo vencido, parecia vitorioso.

O duque observou até que a silhueta dela desaparecesse entre as árvores. Só então permitiu que o sorriso voltasse, discreto e enigmático.

Katniss Everdeen o desarmara duas vezes naquela manhã — e, pela primeira vez em muito tempo, ele se sentia perigosamente vivo.

O som dos cascos de Tornado ainda ecoava quando Peeta soltou um suspiro baixo, apoiando-se na cerca do jardim. O vento brincava com os fios soltos de seu cabelo e levava consigo o perfume suave que ela deixara no ar — uma mistura de flores silvestres e teimosia.

— Katniss Everdeen... — murmurou, o nome escapando como uma confissão.

Olhou para o florete ainda em sua mão, a ponta marcada por um leve arranhão — o golpe final dela. Sorriu sozinho.

Fazia tempo que não se sentia assim: desafiado, provocado... vivo.

Desde que herdara o título de duque de Bro Waroch, tudo ao seu redor tornara-se uma dança previsível. Jovens damas que o cortejavam por conveniência, homens que o bajulavam por interesse, criados que respondiam antes mesmo que ele pensasse em ordenar. E então surgiu ela — com a audácia de quem jamais se curvou a ninguém.

— "Felizmente, Vossa Graça, eu não sou uma de suas alunas" — repetiu, imitando o tom dela, e soltou uma risada curta, sincera. — E, graças ao céu, não é mesmo.

Endireitou-se e caminhou de volta em direção à mansão. O jardim, agora vazio, parecia perder parte do encanto sem a presença dela. O silêncio que restava era incômodo, um vazio inesperado que o fez franzir o cenho.

Darius o aguardava à porta, mas Peeta fez um gesto para dispensá-lo.

— Não, não preciso de nada. Apenas… ar. — Passou a mão pelos cabelos e entrou.

O eco de seus próprios passos nos corredores de pedra o fez lembrar da voz dela, firme, viva, sem temor. E, por um instante, imaginou como seria aquela energia se voltada não contra ele — mas a favor.

Sorriu de novo, um sorriso mais lento, mais perigoso.

— Ela me odeia — disse para si mesmo, com ironia. — E, no entanto, é a primeira mulher em anos que realmente me olha. Não como o duque, mas como um homem.

Subiu os degraus, retirando as luvas, e deixou-se cair em uma das poltronas do salão. A lareira ainda ardia, e o crepitar das chamas refletia em seus olhos como fagulhas de inquietação.

— Não flertar entre os ataques... — repetiu o aviso dela, balançando a cabeça. — Que espécie de desafio é esse, se me pede o impossível?

Um leve riso escapou. Pegou o florete de novo, girando-o entre os dedos.

— Muito bem, mademoiselle Everdeen... — murmurou, com o tom de quem aceita uma aposta. — Se quer guerra, terá. Mas não com lâminas.

A chama estalou, lançando uma centelha ao chão.

Peeta recostou-se, o olhar distante e o sorriso firme.

Havia lutado com generais, lidado com traições políticas e sobrevivera às intrigas da corte.

Mas nada o havia preparado para o olhar selvagem de uma mulher que não queria conquistá-lo — e, por isso mesmo, já o conquistara.


❆❆❆


O caminho de volta parecia mais longo do que de costume. Katniss segurava as rédeas de Tornado, tentando ignorar o turbilhão que rodopiava dentro da cabeça. O som do vento nos campos, o cheiro de terra e feno fresco — tudo parecia mais intenso, mais vivo.

— Não aconteceu nada — sussurrou, firme, como se repetir bastasse para que fosse verdade. — Foi só um treino. Um treino e nada mais.

Mas o problema era que cada vez que pensava nisso, lembrava-se do sorriso dele — aquele sorriso insolente e calmo, como se soubesse de algo que ela jamais admitiria nem para si.

Ao chegar à propriedade dos Everdeen, desmontou rapidamente, entregando Tornado a Rory, o rapaz que ajudava nos estábulos. Entrou em casa com passos determinados, tentando parecer natural.

Haymitch estava sentado à mesa, lendo um jornal amarrotado, um copo de vinho pela metade à frente. Assim que ergueu os olhos, arqueou uma sobrancelha.

— Vejo que sobreviveu ao duque — comentou, com ironia. — Nenhum ferimento, nem mesmo no orgulho?

Katniss pousou as luvas sobre o aparador e fingiu desinteresse.

— Ele foi... civilizado. — Deu de ombros. — Um tanto pretensioso, mas educado.

— Aham. — O pai voltou a erguer o jornal, mas o canto da boca denunciava um sorriso contido. — E esse “pretensioso educado” por acaso sorriu daquele jeito que deixa qualquer moça com falta de ar?

— Papai! — exclamou ela, corando. — Eu mal o conheço!

— Pois é justamente isso que me preocupa — respondeu, divertido. — Quanto menos se conhece, mais perigoso é o encanto.

Antes que ela pudesse retrucar, uma voz masculina ecoou do corredor.

— Eu te disse, irmã — anunciou Finnick, encostado no batente da porta, com um sorriso malicioso. — Você corre grande risco de se apaixonar.

Katniss girou nos calcanhares, os olhos faiscando.

— Não tem que regar a plantação, Finnick?

— Já reguei — respondeu ele, cruzando os braços e inclinando a cabeça. — Mas posso ajudar a regar o seu bom senso, que aparentemente murchou hoje.

— Muito espirituoso — resmungou ela, virando-se e seguindo para a cozinha. — Espere até eu contar à Annie que você anda desperdiçando talento com piadas ruins.

Finnick riu alto, satisfeito com a própria provocação, enquanto Haymitch balançava a cabeça, entre divertido e resignado.

Na cozinha, o cheiro de ensopado tomava o ar. Ripper, a velha governanta, mexia uma grande caçarola, cantarolando uma melodia antiga.

— O jantar está quase pronto — avisou, sem se virar. — E você está suada e cheirando a cavalo, menina. Vou pedir à Dolores que prepare seu banho.

— Eu mesma preparo meu banho — retrucou Katniss, abrindo a fruteira e pegando uma maçã.

— Teimosa como sempre. — Ripper suspirou, mexendo a colher de pau. — Só espero que o duque tenha paciência pra lidar com essa sua língua afiada, se pretende continuar as tais “aulas de esgrima”.

Katniss engasgou com a mordida, tossindo.

— Quem disse que eu vou continuar?

— Ninguém — respondeu Ripper, com um meio sorriso. — Mas a forma como você voltou... não engana ninguém, minha menina.

Katniss ergueu o queixo, disfarçando o embaraço.

— Foi apenas uma manhã como qualquer outra.

Pegou a caçarola com água quente, equilibrando-a cuidadosamente nos braços junto ao pano dobrado que a protegia da quentura.

Subiu as escadas com passos decididos, a maçã ainda entre os dentes, enquanto as vozes da cozinha ficavam para trás. Mas, mesmo tentando se convencer de que tudo estava sob controle, uma lembrança insistente a perseguiu — o olhar de Peeta quando ela o desarmou, o tom baixo e rouco ao dizer que não se importaria de sangrar por suas mãos.

Katniss soltou um suspiro impaciente.

— Não aconteceu nada — disse outra vez, em voz baixa.

Mas, pela primeira vez, não soou convincente nem para si mesma.


❆❆❆


As manhãs seguintes tornaram-se uma rotina silencioso.

A cada novo dia, Katniss atravessava os campos montada em Tornado, o vento trançando fios soltos de seus cabelos e o sol acendendo reflexos dourados na relva orvalhada. E, invariavelmente, lá estava ele — à espera, pontual como o nascer do dia, trajando roupas leves de treino e um sorriso de quem parecia divertir-se mais com a companhia do que com a espada.

— Está atrasada dois minutos, mademoiselle — observou Peeta certa manhã, quando ela desmontou do cavalo.

Katniss ergueu o queixo, o olhar firme.

— Talvez porque não sou vossa criada para seguir os ponteiros de seu relógio.

— Ainda bem — retrucou ele, rindo baixo. — Se fosse, eu já teria demitido a mim mesmo por distração.

Ela balançou a cabeça, mas a sombra de um sorriso escapou. Era irritante o quanto ele sabia quebrar a rigidez dela com uma única frase.

E assim os treinos se repetiram, dia após dia — o som das lâminas cortando o ar, o tilintar do aço ecoando pelo jardim, o choque de personalidades tão opostas quanto complementares.

Peeta, com seu refinamento e precisão, movia-se como um estrategista. Katniss, com seu instinto e vigor, reagia como uma força da natureza.

Entre uma estocada e outra, o silêncio era preenchido por observações irônicas, provocações sutis e — para o desconforto crescente de ambos — momentos em que os olhos se encontravam por tempo demais.

— Mantenha o pulso firme — disse Peeta, aproximando-se por trás dela em um dos treinos. Sua mão tocou de leve a dela, ajustando a posição do florete. — Assim. Veja?

Katniss sentiu o calor subir-lhe à nuca, o coração disparando por razões que não tinham a ver com o esforço físico.

— Eu sei como segurar uma arma, Vossa Graça — respondeu, sem se mover.

— Imagino que saiba — retrucou ele, quase num sussurro. — Mas talvez falte prática… com o tipo certo de duelo.

Ela se virou tão rápido que o florete quase lhe roçou o ombro.

— O único duelo que me interessa é aquele que posso vencer.

Peeta recuou, rindo.

— E já o está vencendo, temo eu.

Em outra tarde, a chuva os surpreendeu no meio do treino. As gotas começaram tímidas, depois caíram em torrentes, transformando o jardim num campo de espelhos d’água.

Katniss quis encerrar o treino, mas Peeta insistiu:

— Um bom duelista deve aprender a lutar sob qualquer circunstância.

— Inclusive encharcado? — questionou ela, apertando o coque e o florete ao mesmo tempo.

— Especialmente assim. — Ele girou o florete, sorrindo. — A adversária distraída é a mais fácil de derrubar.

Ela estreitou os olhos.

— Experimente.

O duelo que se seguiu foi breve, intenso, e terminou com ambos rindo — Katniss vitoriosa, Peeta ajoelhado sobre o gramado molhado, as roupas coladas ao corpo e um brilho divertido nos olhos.

— Admito a derrota — disse ele, erguendo as mãos. — Mas só porque temo escorregar de novo… e não gostaria de morrer humilhado diante de tão bela carrasca.

— Bela? — Katniss resmungou, tentando esconder o riso. — Parece que o tombo afetou sua visão, duque.

— E a cabeça, talvez. — Ele se levantou, passando a mão pelos cabelos encharcados. — Porque continuo voltando para mais.

Ela desviou o olhar, fingindo concentração ao recolher o florete.

— Então é um caso perdido.

— Irremediável — confirmou ele, com um sorriso que ela não teve coragem de encarar.

Nos dias seguintes, o tempo parecia correr em um compasso diferente dentro dos muros de Edenbrooke. O som das espadas misturava-se ao canto dos pássaros e ao murmúrio da brisa, como se o castelo inteiro testemunhasse algo que nenhum dos dois ousava nomear.

Peeta notava os detalhes: a forma como ela franzia o nariz quando se concentrava; o modo firme com que prendia o cabelo; o riso involuntário que escapava quando ele fingia perder.

Katniss, por sua vez, fingia não notar nada — mas percebia tudo. O olhar dele, o respeito nos gestos, a paciência que nunca vira em homem algum.

Certa manhã, ao fim do treino, Peeta interrompeu a sessão antes que ela pudesse guardar a espada.

— Katniss. — A voz dele soou diferente, mais baixa, mais contida. — Preciso que saiba… é um privilégio ensinar-lhe.

Ela piscou, surpresa.

— Um privilégio?

— Sim. — Ele sorriu de leve. — A maioria das pessoas tenta me impressionar. Você, ao contrário, tenta me vencer.

Katniss cruzou os braços, sem perceber que o fazia para esconder o rubor que ameaçava lhe subir ao rosto.

— Talvez porque eu não veja graça em bajular homens que se acham invencíveis.

— Pois saiba que já não me acho. — Ele a olhou de um jeito que a fez perder por um instante a firmeza do olhar. — Não desde que a conheci.

Por um segundo, o ar pareceu escasso. Katniss baixou os olhos, afastando-se um passo.

— É melhor encerrarmos por hoje, Vossa Graça.

Peeta apenas assentiu, respeitoso, mas o sorriso que se formou em seus lábios era de quem acabara de ser derrotado — e adorava isso.

As semanas de treino seguiram assim: entre lâminas e risos, entre provocações e silêncios que diziam mais do que palavras.

Nenhum dos dois percebia, mas o jogo perigoso que haviam começado deixava de ser apenas uma lição de esgrima — e tornava-se, dia após dia, o prelúdio de algo muito mais profundo.


❆❆❆


As semanas seguintes correram rápidas, tingidas pela rotina dos treinos e pelo cheiro adocicado das colheitas que amadureciam sob o sol de primavera.

Nas aldeias vizinhas, falava-se do Festival da Colheita, o mais aguardado do ano — dias de música, banquetes e feiras, onde os campos floridos eram cobertos por fitas e o vinho jorrava livre como o riso do povo.

Na propriedade dos Everdeen, a preparação era intensa. Gale e Cato supervisionavam o carregamento das caixas de vegetais, Finnick cuidava dos animais e Katniss se dividia entre ajudar Ripper na cozinha e separar ervas aromáticas para levar ao festival. A casa transbordava vida.

Naquela tarde, porém, o ar parecia mais leve. Katniss trabalhava próxima ao jardim quando ouviu um riso feminino ao longe.

Madge Undersee, sua amiga de infância, vinha subindo o caminho de cascalho com o andar gracioso de quem nasceu entre laços de seda, mas sabia pisar na terra sem se importar com a poeira.

— Achei que tivesse esquecido de mim — disse Katniss, abrindo um sorriso e abraçando-a.

— Esquecer de você? Nunca. — Madge segurava uma cestinha coberta por um tecido bordado. — Trouxe mel de lavanda e alguns pães doces que minha tia fez.

— Espero que tenha trazido também paciência — provocou Katniss, olhando na direção do irmão que fingia não as notar. Gale empilhava fardos de palha, o rosto iluminado pelo sol.

Madge seguiu o olhar e corou imediatamente. Katniss sorriu, travessa.

— Ele está te vendo — sussurrou ela.

— Não está — rebateu a loira, baixando os olhos. — Gale Everdeen nunca repara em ninguém.

Mas Katniss sabia que não era bem assim. Gale via, e como via. Na verdade, naquele mesmo instante, ele se aproximava, segurando uma pequena cesta envolta por um laço simples.

— Senhorita Undersee — cumprimentou, com uma reverência tímida, mas o sorriso traía o nervosismo. — Encontrei algo que talvez lhe agrade.

Madge arqueou as sobrancelhas, surpresa, e desatou o laço. Dentro, repousavam flores do campo, morangos frescos e um pequeno livro de capa gasta.

— Eu... eu nem sabia que seu irmão gostava de poemas — comentou Madge, em voz baixa, como quem confessa um segredo à amiga.

— Ele se finge de durão — respondeu Katniss, contendo o riso. — No entanto, é um romântico incorrigível. Herdou isso do papai.

De longe, Gale desviou o olhar, disfarçando o sorriso com um resmungo qualquer. Mas o rubor em seu rosto o denunciava, e Madge, encantada, segurou o livro como se fosse um tesouro.

Por um instante, a tarde pareceu perfeita — o som dos grilos, o cheiro da terra úmida, o riso das duas amigas se misturando ao sopro do vento. Era um daqueles raros momentos em que a vida parecia simples.

Mas a paz é frágil, e o destino raramente perdoa quem o subestima.

O aroma de terra molhada e de vegetais frescos pairava no ar, enquanto a família Everdeen se apressava nos preparativos finais para o festival. Caixas de madeira transbordavam com o que havia de melhor: tomates suculentos, batatas alaranjadas, cenouras recém-lavadas, feixes de alecrim e lavanda. Gale, de mangas arregaçadas, organizava tudo na carroça, o suor escorrendo pela têmpora, enquanto Cato afiava uma velha faca e assobiava distraído.

Katniss, com as mãos sujas de terra e o cabelo preso em uma trança solta, observava o movimento, tentando ignorar a ansiedade crescente.

As semanas de treino com Peeta seguiam seu curso. Entre lâminas e risos, entre provocações e silêncios que diziam mais do que palavras, algo mudava dentro dela. Mas Katniss se recusava a dar nome àquilo, até porque prometera a si mesma, nunca se permitir sentir nada parecido. Afinal, o que importava agora era o festival. A vida. O trabalho.

Mesmo com o ritmo intenso, havia harmonia na casa. Um raro estado de paz.

E foi justamente por isso que ninguém notou de imediato o som que se aproximava — cascos apressados, cortando a tarde morna.

Katniss foi a primeira a erguer o olhar. De longe, avistou um cavalo branco, o cavaleiro envergando o gibão real. O brasão do rei — uma flor-de-lis prateada sobre fundo azul — brilhava ao sol. O presságio atravessou-lhe o corpo como um arrepio.

O mensageiro desmontou antes mesmo que Gale ou Haymitch pudessem se aproximar.

— Trago uma carta oficial, com o selo do General Plutarch Heavensbee para o senhor, Cato Abernathy Everdeen — anunciou o homem, a voz grave ecoando pelo pátio.

O loiro deu um passo à frente. O mensageiro estendeu o envelope a Cato, que limpava as mãos na calça de couro. O selo em cera vermelha estampava o brasão real.

Cato aceitou a carta em silêncio. Rompeu o selo e começou a ler.

O olhar dele, firme no início, começou a escurecer a cada linha. Quando terminou, guardou o papel no bolso, mas o punho fechado denunciava o turbilhão interno.

— O que diz, rapaz? — perguntou Haymitch, com o cenho franzido.

Cato ergueu os olhos, e um sorriso cínico surgiu em seus lábios.

— O rei decidiu que eu sirva à coroa. — Sua voz soou grave, pesada. — Fui convocado.

Finnick se aproximou, alarmado.

— Convocado? Para quê?

— Para a guerra. — Cato dobrou a carta devagar, os olhos faiscando. — O General Heavensbee está reunindo tropas para as Colônias. Quer homens fortes… e Everdeens, pelo visto, ainda servem a algum propósito.

Um silêncio denso caiu sobre todos. Gale largou a caixa que segurava.

Haymitch passou a mão pelo rosto, abatido.

— Guerra… maldita seja — murmurou o patriarca. — Depois de tanto tempo, ela volta a nos roubar.

Katniss observava o irmão em silêncio. O modo como ele segurava o papel, o olhar carregado de orgulho e algo mais — algo escuro, como se aquela convocação fosse tanto um dever quanto uma oportunidade.

E, por um instante, ela percebeu o que ninguém mais via. Cato não parecia temer a guerra. Parecia ansiar por ela.

O Festival da Colheita, que deveria ser um dia de alegria, se transformava em um prenúncio de despedida.

As flores que Madge trouxera murchavam sob o calor e o som distante dos sinos do vilarejo parecia mais um lamento do que celebração.

Katniss sentiu o coração apertar. Mesmo que Cato apostou ela em um jogo de azar para o repugnante capitão, não o odiava. Sabia que guerras podiam durar anos e que nem sempre a mente voltava junto do soldado, isso quando voltava.

A paz que haviam cultivado por tanto tempo estava prestes a ruir.

E, no fundo, uma certeza a invadiu. A vida deles — e o frágil equilíbrio que ela havia encontrado nos últimos meses — jamais seria a mesma.

Notas finais
O que acharam? Estou curiosa pra saber... beijos e até!