O Dramaturgo Dos Imortais
1 Um tal João
Era noite, chovia, os ruídos das gotas debatendo-se contra o telhado deixavam-me irritado e sem ideias concretas sobre o que escrever, ato muitas vezes maçante, mas que de alguma forma libertava min'alma. De repente olhei pela janela, estava lá o astro cintilante,sim, as nuvens não o tinha coberto, mas estranhei o motivo. De qualquer forma tentei me manter atento sobre o que escrevia, qualquer deslize me faria discorrer sobre minha trajetória muitas vezes fúnebre e romântica, não, não romântica dos amantes, sofrida sim, descritiva e reveladora.Não sou arraigado em valores poéticos, muito menos cavalheirescos, mas muitos dos contos meus espelham um ardor amoroso que fere a alma, não sou amante de minhas obras, muito menos acredito que sirvam de modelo, apenas deslizo o carbono sobre o plano e produzo algo que me inspira. Quero expor minha prosa, meus raros e curtos versos, quero transpor o plano da realidade, quero tantas coisas, que caso possíveis fossem, mudariam este lugar-comum habitat de todos. Está escuro aqui, tudo o que consigo recordar até o momento é um breve conto sobre um tal João, que viveu há muito em um lugar não tão distante daqui, eis o que dele é relatado: "Nas vielas tristes e solitárias do velho tempo, uma figura ergue-se das sombras, dedos fantasmagóricos arranham as paredes já gastas pelo tempo, parece humano, mas move-se como aura, já muito tremeluzente fita o céu em busca de perdão, o líquido rubro flui por entre os braços que comprimem o abdômen, não há sinal de ferimentos neste homem, o fluido vital não seria dele, mas o peso recai como se fosse.Mais uma longa distância a frente a chuva ainda não havia cessado, as portas da catedral, fechadas, foram absurdamente comprimidas, as luzes internas tremeluziam sustentadas na cera centenária, imagens de anjos e divindades estavam postas em todos os arredores, o silêncio foi quebrado: — Supremo dos miseráveis, amor perante os céus e sofrimento perante cá os pecadores, és perdão, és amor e glória, sou fardo, vergonha e derrota, derramei sangue alheio, sinto enorme temor de min'alma ardendo no julgamento final, sinto o peso de dez olimpos em minhas costas, já não suporto o odor de carnificina tão presente nos domínios da morte, perdão ó pai, perdão. O som da tempestade ricocheteava em toda a catedral, o indivíduo já se sentia miserável a essa altura. -Olhai!Olhai para o pobre ser que teve sua vida ceifada hoje ó supremo, tenha em seus braços aquela pobre alma que tremeluzia na luz e que agora banha-se em trevas, ponha em mim toda a culpa e suplante toda a dor sofrida no momento em que aconteceu... Um grito de dor ecoou pelo cômodo, o ser estava comprimindo-se no chão, perto do altar. Era manhã, o pároco adentrou a igreja pelas portas estranhamente forçadas e abertas, tudo estava dentro da normalidade, exceto por um pequeno detalhe, um homem estendido próximo ao altar com um fragmento de papel na mão, onde estava escrito: -"Meu nome é João, é triste relatar sobre tal fato, mas vizinhos e familiares talvez estranhem o desaparecimento de Abgail, a gata siamesa que tanto os incomodava com seu insuportável miar, mas sinto-lhes informar que houve um acidente quando minha charrete acometeu seu veludoso corpo ontem pela manhã, quanto a mim já não restaram escolhas senão consumi-la, espero que este ato restaure sua honra e que não seja nocivo a seres humanos"
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