O Dragão que não rugia
5 Irmão mais velho
Notas iniciais
— Você tem um péssimo hábito, garoto.
— Drum? Bom dia. Eu acordei mais cedo, hoje.
— Eu percebi. O que está fazendo?
— Nada, não. Eu só estava observando o vale, daqui.
Passaram-se três semanas, desde que Luiz chegou no vale dos dragões. Todos já o conheciam. E sabiam, de sua afinidade com Drum. Com a fama consolidada, ele se recusava a sair da caverna, para evitar aquele contato. O garoto passava a maior parte do tempo, comendo, dormindo ou treinando seu dragão, com seus métodos. Ambos brigavam várias vezes, mas nada que pudesse romper aquele laço especial.
— Eu já estou aqui, há muitos dias. Será que já é hora de voltar? — Questionava a si mesmo.
— Ei, o que vai ser hoje? Não aguento mais os seus treinos malucos.
— Droga. O que estou fazendo? Tudo isto é inútil! Drum, é muito forte, por si só. Meus conselhos, e dicas não servem para nada. Eu alimentei o fato de que era seu treinador, para poder ficar aqui. Mas, já chega. Já me decidi! — Após refletir bastante, Luiz chegou a uma conclusão
Refletindo sobre si mesmo, Luiz não encontrou nenhum motivo, para permanecer no lugar. Drum, era poderoso. E ele, era só um humano fraco.
— Vou dar uma saída.
— O que foi? Achei que não gostasse de sair daqui.
— Eu volto logo.
— É bom mesmo. Tome cuidado, como sempre.
— Pode deixar...
Correndo o mais rápido que podia, Luiz saiu da caverna, com intenção de nunca mais voltar. Queria retornar à casa, para onde nunca deveria ter saído.
— Tem que haver uma saída, em algum lugar!
No meio do vale, Luiz estava perdido, e desesperado. Olhava em volta, e só via dragões. Não havia qualquer sinal, de como deixar o lugar.
— Me desculpa, Drum.
Correndo mais um pouco, Luiz chegou a um campo florido, e enevoado.
— Que lugar é esse? — Pensou.
— Por aqui.
— O quê?! Quem falou?
Luiz ouviu uma voz misteriosa, mas de onde ela vinha?
— Por aqui, vem!
— Onde você está?
Outra voz, falou com ele. Cansado e confuso, Luiz não viu outra alternativa.
— Eu tô ficando maluco...
Seguindo as vozes, Luiz viu duas silhuetas no meio do campo.
— Ei, apareçam!
— Hihihi!
— Ele nos achou.
A névoa começou a dissipar. Os donos das silhuetas, foram revelados.
— Vocês são... Crianças!
— E você, é o garoto dos boatos! — Disse a menininha, com um sorriso no rosto.
— O que veio fazer aqui? — Perguntou o menininho, com os braços cruzados.
— Um menino, e uma menina. Então, eu não sou o único humano, por aqui? Pensei que era especial!
A tristeza de Luiz foi interrompida. Uma presença assustadora, surgiu. O ar ficou mais pesado, e sua respiração, mudou. Luiz sentiu medo de olhar para trás, mas criou coragem, e fez.
— Tá me zoando!
— Humano, o que você fez por aqui?!
Um dragão, cavaleiro, enorme. Possuía pele vermelha, e armadura branca. Tinha um escudo, e uma lança. E também, bastante intimidador.
— Halberd, não seja tão má!
— Ele é nosso amigo!
— A-Amigo?! O que estes fedelhos, estão pensando?
Ao escutar os dois pequenos, o dragão prontamente obedeceu. Baixou suas armas, e curvou-se, frente à Luiz.
— Queira me desculpar. Acreditei que fosse um inimigo.
— T-Tá de boa! – Deu um riso, sem graça.
Pensando consigo mesmo, Luiz sentiu-se aliviado, por ter sido poupado.
— O meu nome é Luiz. E quem são vocês?
— Eu sou Kevin.
— E eu sou Bianca.
— Muito prazer. E você, é...
— Halberd. Halberd Dragon.
— Maninho Luiz, é tão bonito! — Bianca sorriu.
— Mano? Hahaha! Não apresse as coisas!
— Você não gostou de mim?
— Não, Bianca! Não foi isso, que eu quis dizer!
— Já ouvi falar de você. É um garoto, que apareceu aqui recentemente. E tem um dragão, assim como nós. —Diferente de Bianca, Kevin não foi com a cara de Luiz.
— Isso mesmo, cara! Pelo visto, os rumores correm depressa. Sou um treinador, de dragões.
— Não me diga! – Halberd ficou surpresa.
Na mesma hora, os dois pirralhos ficaram impressionados. Luiz, era tão legal! Isso, na mente deles.
— Me diga, Halberd. O que criancinhas como eles, fazem por aqui?
— É uma longa história. Há muito tempo, eu os encontrei. Vagando pelo vale, sozinhos. De jeito nenhum, permitiria que ficassem ao relento.
— Mas onde estão seus pais? Não acham que devem estar preocupados?
— Halberd é nossa mãe, agora! Você não pode nos tirar dela!
— Não, Kevin! Eu não quis dizer isso! Espera... Mãe?
— Eu sou, fêmea.
— Propaganda enganosa...
— Não queremos voltar para o nosso mundo! Estamos felizes aqui! – Bianca chorou.
— Esperem, eu não quis dizer, por mal!
Os dois saíram correndo. Luiz sentiu-se péssimo.
— Me desculpa, Halberd. Eu não queria...
— Está tudo bem. Daqui, a pouco, eles esquecem. Mas, me conte. Como veio parar aqui?
— Bem, eu caí, por acidente.
— Que original!
— Hahaha! — Luiz não sabia como se portar, na frente dos outros.
Pensando nas crianças, Luiz percebeu que eles não estavam errados. Não queriam voltar. Não queriam deixar este lugar. O mundo humano era tão sem graça, muito diferente do mundo dos dragões.
— Eles devem dar bastante trabalho.
— Nem tanto. Eu adoro estar com eles.
— Ainda concorda em mantê-los aqui?
— Não concordo. Mas não sei o que fazer, quanto a isso. Ainda não achei, o portal para o mundo humano.
— Não achou?! Como assim, não achou? Quer dizer, que não tem saída?!
— Não, eu não quis dizer isso.
— Eu já passei tempo demais aqui! Preciso voltar imediatamente!
Luiz ficou transtornado, com a possibilidade de ficar preso, para sempre, no vale.
— Você acha que aqui, é tão ruim assim?
— Não é isso! É só, que...
— Já entendi. Deve sentir falta da sua casa. Sua família, e seus amigos...
— Família? Amigos?
As palavras de Halberd, o fizeram ter uma nova visão de pensamento. Luiz não se importava com a família, pois vivia isolado em seu quarto. E não tinha amigos. Então, por queria tanto voltar?
— Eu, eu...
— O que houve? Você me parece tenso.
— Não importa! Eu vou embora do mesmo jeito — seu grito foi tão histérico, que doeu nos ouvidos de Halberd.
— Por que, Luiz? Por que não se entrega ao desejo de ter amigos? É isso o que você quer. Você enxergou Drum, como um amigo, não foi? Está querendo fugir disso?
— Cale-se, você não tem direito de falar como se soubesse de tudo! Eu não preciso de amigos! Todos eles são manipuladores, falsos. Um dia, vão me decepcionar. E mesmo que eu consiga, algum verdadeiro, ele irá embora! E eu vou ficar sozinho outra vez!
O conflito interno de Luiz, comoveu Halberd. O garoto lidava com sentimentos tão contraditórios.
— Os falsos nunca foram seus amigos. Os que te decepcionaram, podem ser perdoados. Mas os que estão longe, nunca deixaram de ser amigos. Pois foram separados, por ironia do destino.
— Cala a boca!
— Amigos não são eternos. É por isso, que devemos aproveitá-los, ao máximo. Ter amigos, faz bem ao coração. Podemos viver muito bem, em companhia, do que sozinho. Escolha o caminho certo. Imponha sua vontade. Não resista!
Luiz estava resistindo ao máximo. Mas sua mente, já estava em colapso. Um bombardeio de lembranças, invadia sua mente.
— ROOOOOAAAAARRR!
De repente, um rugido estrondoso, ecoou por todo o lugar.
— Essa não! Ele chegou! – Halberd estava assustada.
O vento mudou. A névoa ficou mais densa. Olhos amarelos, brilharam no escuro. Aos poucos, Luiz foi recuperando a sanidade.
— Halberd!!! Chegou o dia do meu triunfo!
— Vá embora de uma vez! Não nos perturbe, mais!
— Quem é ele, Halberd? O que ele quer?
— Ele somente busca, a destruição.
A névoa cessou. O inimigo foi revelado. Um dragão tão poderoso, que somente a sua luz, era capaz de cegar uma região inteira. Um semideus. A majestade. A criatura suprema, Duel Sieger.
— Bianca! Kevin! – Gritou a mãe dos meninos
— Halberd, nos ajude! – Implorou, a pequena Bianca
— Como eles foram parar ali?
Os pequenos, foram capturados. E eram reféns, das garras de Sieger.
— Me desculpe, Halberd!
— Não, Kevin! A culpa é minha! Estou indo para salvá-los!
— Salvá-los? Bela piada. Se tentar se aproximar de mim, vai morrer!
Duel Sieger era enorme, e muito poderoso. Halberd era minúscula, comparado a ele. Que chances, ela teria?
— O que vamos fazer? Kevin e Bianca estão em perigo, e se eu só consigo pensar em fugir! Merda, merda!
De joelhos no chão, Luiz chorava, como se estivesse se rendendo.
— Não se preocupe. Eu vim por você.
Luiz sentiu uma mão, tocar em seu ombro. E a voz, também lhe soava familiar.
— Drum!!!
Drum Bunker Dragon, aparece! E o palco para uma épica luta, está prestes a ser montado!
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