O Dragão que não rugia
8 Adeus, vale dos dragões
— Vamos, não temos muito tempo!
Kevin puxava Luiz, pelo braço. O antissocial não entendia a situação, e estava sendo afastado de Drum.
— Parem! O que está havendo? Me expliquem, bem devagar.
— Você é muito lerdo, garoto! — Bianca explicou — Apareceu um portal, que liga este mundo ao mundo humano.
— O quê?! Mas como assim, do nada? Vamos deixar o vale, sem mais nem menos?
— Ué? — Kevin surpreendeu-se — Pensávamos que soubesse. Afinal, já estava se despedindo de Drum.
— Drum? Essa não! Cadê ele?
Luiz virou-se para trás, e não o encontrou.
— Ele já entendeu a situação, e já foi embora! Não foi, Kevin?
— Foi. Ele aceitou numa boa.
— Não! Eu preciso me despedir dele. Me recuso a deixar este lugar, sem antes falar com ele!
— Mas o portal vai se fechar! — Bianca estava impaciente
— Que se dane! Eu não vou! Se quiserem ir, podem ir. Eu não me importo.
— Halberd nos disse que, quando Sieger fosse derrotado, um portal se abriria. Essa é a nossa melhor chance. Quer mesmo desperdiçar a chance que ela nos conseguiu?
— Bela tentativa, Kevin. Mas eu não ligo para sentimentalismo tolo. Halberd morreu como uma heroína, e eu a admiro. Mas ainda estou seguro, na decisão que tomei.
As duas crianças sorriram. Ficaram felizes com a decisão de Luiz.
— Se cuida, maninho Luiz.
— Diga para o Drum, que mandamos um abraço.
Luiz abraçou os dois, e os viu partir.
— Agora, eu preciso achar aquele dragão!
Procurando em volta, Luiz não achou qualquer sinal de Drum. E acabou presumindo, que o mesmo havia voltado para a caverna.
— Eu sabia que você estava aqui.
— Que legal. Vai querer o quê?! Uma medalha, por achar o dragão perdido?
Deitado em sua cama, Drum deu as costas para Luiz. O garoto sentia-se triste, por ter que partir.
— Por que você não voltou?
— O mundo humano não tem nada demais. Resolvi ficar um tempo por aqui. Sabe como é, né...
— E quem te disse, que eu te quero por aqui?
— Bela piada, Drum. Haha.
— Eu não estou brincando.
E realmente não estava. Luiz reparou isso, em seu olhar. Determinado a pôr um fim naquele drama, Drum Bunker levantou-se da sua caverna, e foi para a fora da caverna.
— Desculpa, tá? Eu não sabia que estava de mau humor.
— Tudo bem. Eu gosto de vir para fora, e admirar o pôr-do-sol.
— E justo agora? Tá parecendo um clichê de filme romântico.
— A vida é um constante clichê. Não dá para se original todas as horas.
— Tem razão. Se não fosse clichê, não teríamos derrotado o Sieger.
— Pois é.
— Nós mandamos ver!
— Mandamos.
— Salvamos o vale.
— Com certeza.
— Ah, pode parar! Eu sei que a nossa conversa, pode ser mais dinâmica do que isso!
— Conversa? Pensei que não gostasse de conversar com ninguém. Por que insiste em conversar?
— E você era um relaxado! Por que lutou contra o Sieger?
Os dois se encararam, e ambos riram. Que coisa, não? O garoto antissocial, estava interagindo. E o dragão que não rugia, voltou a mostrar sua ferocidade. Desde que se encontraram, ambos estavam fazendo mudanças, um no outro. E agora que iriam se separar? Voltariam ao normal?
— Quando cheguei no vale, fiquei feliz. Muito feliz, na verdade. Dragões sempre foram minhas criaturas favoritas. Na infância, eu imaginava um mundo como este. O que me levou a desenhar você. Meu próprio dragão
— Ainda acredita nisso?
— Ah, me desculpe. Eu esqueci que você não acredita em mim.
— Eu acredito.
— Além disso, não tem nenhuma lógica... O quê?!
— Quer dizer, este não é um mundo de fantasia, como disse? Não precisa fazer sentido.
Drum deu um sorriso longo e largo. Luiz estranhou.
— Até que você tem razão. Podemos, realmente, supor que você é o meu dragão. Porém, isto não significa que eu esteja preso a você, ou você a mim.
— Concordo. Nós somos livres para fazermos o que quisermos.
— Eu poderia ir embora, sem ter que tirar satisfação com você.
— De fato.
— Eu poderia sumir, e nunca mais voltar.
— É... Você pode.
— E eu poderia até me suicidar, e você ainda assim, não poderia fazer nada!
— Não exagera...
— Tá, foi mal.
Luiz estava envergonhado de ter que dizer aquelas coisas. Ele não era bom com palavras.
— Você é frio, o bastante, a ponto de fazer tudo sem me consultar. Radical, você hein.
— Pois é. Eu sou mesmo!
— De que adianta a mísera opinião de um dragão?
— Ei, calma lá.
— Calma? Você pensa, que eu não saquei? Quando você saiu da caverna, naquela hora, você estava fugindo sem me dizer nada!
Luiz engoliu a seco, e corou. Como se safar?
— É verdade! M-Mas eu posso explicar!
— Você pode. Mas eu, quem não quero saber.
— Mas eu tenho bons motivos, para!
Drum já voltava para a caverna, mas foi impedido pelo apelo de Luiz.
— Me diz. Agora, eu quero ouvir.
— Eu não tive bons motivos. Mas, eu sei explicar! Me escuta!
O dragão estava de costas para o dono.
— Eu tive medo, tá? Você foi a única pessoa, digo existência, que me deu alegria de viver em muito tempo. Eu fiquei confuso, e tive medo.
— Medo?! Medo de quê?
— De me envolver demais. De ficar aqui, por mais tempo. Por que eu sabia, que se ficasse, a gente ia se separar. E eu não suportava a ideia, de ter que passar por isso de novo!
— Do que está falando?
Luiz estava alterado, e havia mudado o tom da sua voz. Porém acalmou-se, e assumiu o controle.
— Tudo é uma questão de tempo. Para um namorado, amigo ou uma pessoa querida, dizer adeus. Nós vamos se separar, vamos dizer adeus, e nunca mais nos veremos novamente. Tem ideia do quantas vezes, eu passei por isso? Não sou obrigado a ter que aguentar isso de novo!
— Mas Luiz...
Drum, finalmente, estava o entendendo. Ele se fazia de forte, para evitar o sofrimento.
— Eu vou entender, se você disser que nunca mais vai olhar na minha cara. Mas agora, eu vim pra te dizer uma coisa: Foi legal.
— O quê?
— Foi legal, o tempo que passamos juntos. Eu gostei de verdade. Nunca me diverti tanto, estando perto de alguém. Não vou falar de cada momento, pois demoraria bastante. Se possível, queria que dias assim sempre ocorressem na minha vida.
— Então, não vá embora. Fique aqui comigo! Podemos ser companheiros para sempre, e vivermos mais aventuras juntos!
A expressão de Drum mudou. O dragão ficou comovido, com as palavras do garoto.
— Ai, ai, Drum. Você continua ingênuo. Querer, é uma coisa. Poder, é outra. Se tivesse a opção de escolha, eu queria ficar com você. Mas, não posso. Como vou poder amadurecer, apropriadamente, se continuar aqui? Como poderei mudar? Eu estaria abandonando, as pessoas que me esperam no outro lado.
— Luiz... Não me diga que...
— Já é hora de crescer, e abandonar os conceitos antigos. Família, amigos.... Eu posso criar novas definições, de tais grupos, se eu estiver lá. Esta mudança de meus pensamentos, só foi possível graças a você. Eu lhe devo muito, e jamais poderei retribuí-lo.
Drum olhava para Luiz, e não viu mais um garoto. Em sua frente, presenciava um homem. Repleto de sabedoria, e convicções.
— E o medo que sentia das pessoas? Agora, a pouco, você me disse que não queria passar por mais decepções.
— Eu disse. E ainda me sinto assim. Mas a culpa não é minha, e sim deles. Eu vou ser eu mesmo, até o fim. A qualquer momento, eles poderão me abandonar, mas quem disse, que não poderei fazer o mesmo?
Luiz deu um sorriso malvado. Drum surpreendeu-se.
— Ei, não vai me dizer que vai querer se vingar?
— Entendeu errado. Se as pessoas querem ser meus amigos, por que não deixar? Por que não me enturmar? Vai ser até bom. Se eles me deixarem, estarei preparado. Terei sempre um pé atrás, sem jamais me entregar a alguém. Um dia todos vão sumir, mas eu vou estar ali. Firme e forte, sem deixar que emoções tolas me controlem.
— Você não pode! Precisa de amigos, e depositar sua confiança! Isso só vai te fazer mal!
— Quanta besteira. Pensava que no fim desta história, eu abriria o meu coração, e sairia daqui completamente transformado? É uma pena. Isso não vai rolar.
Luiz era um enigma. Um livro fechado. Quais seriam suas reais intenções? Quais os seus reais gostos, e desejos? Talvez nunca saibamos...
— Isso se aplica a mim também? Digo, seu próprio dragão?
— É claro! Se todos os outros, me deram as costas; por que você não faria o mesmo?
— Você me criou. Eu fui feito, para ser fiel a você.
As palavras de Drum, o impactaram como um raio. Foi como a chuva, num canteiro seco. O sol brilhante. A esperança. Que sentimento ardente, e caloroso, brotava naquele momento? Luiz sentiu uma sensação incrível de bem-estar. Ao olhar, nos olhos do dragão, Luiz não conteve mais seus sentimentos. As lágrimas já escorriam. Chega de bancar o forte.
— Drum!
— Luiz!
O garoto correu para o abraço. Foda-se a maturidade, e a compostura. Acolhido em seus braços, Luiz sentiu um carinho acolhedor, como o de um pai. Voltou a sentir confiança. Não teve mais medo. A insegurança se foi. Era a melhor, das existências.
— Você já sabe que me pertence, não é? Não tema. Eu estarei aqui, para sempre.
— Mas se eu voltar para o meu mundo, nunca mais vou te ver. Eu não quero isso, Drum!
— Não tema. O portal para este mundo, estará sempre aberto. E se não houver nenhum por perto, crie-o. Não há distância, que nos impeça!
Luiz chorou, com sorriso no rosto. Era um dragão, muito convincente.
— Vá para casa. Eu lhe mostrarei o caminho.
— O que vai fazer?
— Esta broca tem mais utilidades, do que você pensa, sabia? Veja.
Segurando sua arma com as duas mãos, Drum disparou um raio vermelho no céu. O portal se revelou. Era hora de voltar.
— Vou sentir sua falta...
— Será sempre bem-vindo aqui.
— Você é o melhor amigo, que eu já tive.
Abraçaram-se novamente. Mas não havia muito tempo. O portal estava prestes a se fechar.
— Vai logo!
Pegando Luiz pelo pescoço, Drum o arremessou para o portal.
— AAAAAHHHHHH!
Quando abriu os olhos novamente, Luiz já estava no mundo humano.
— Prepare-se, sociedade. Eu estou de volta.
O novo Luiz apareceu! Que mudanças ocorreriam, a partir de agora?
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