O Dote Argentino

8 CAP.7 - Festa e Vigilância


Violetta hesitou diante do tom de voz gelado, mas conseguiu manter a calma.

– Há uma certa lógica na idéia.

León fitou-a por um longo momento, antes de dizer:

– Sim, é muito lógico que a senhorita confie em um homem, sobre quem não sabe absolutamente nada, como Tomás Heredia, e desconfie de um membro de uma das famílias mais antigas e honradas da Inglaterra e, além disso, dono de uma riqueza tão grande, que o tal dote argentino faria pouca diferença em seus cofres.

A arrogância dele pôs fim ao sentimento de culpa que invadira Violetta pela dúvida.

– Sem dúvida – retrucou — os homens ricos jamais procuram aumentar suas fortunas, ou agem como vilões gananciosos. Somente nós, os pobres, possuímos um senso de moral tão baixo, que somos capazes de fazer qualquer coisa por dinheiro. E, também, somente estrangeiros desconhecidos invadem residências alheias.

León não escondeu o embaraço.

– Não foi isso o que eu quis dizer. Simplesmente, apontei que a sua lógica favorece um estranho, a alguém que a senhorita conhece.

– Acontece que não conheço nenhum dos dois. — Violetta lembrou. – Na verdade, conversei mais com Tomás Heredia, do que com o senhor, uma vez que ele passou alguns dias conosco. No entanto, sei que o senhor é um Vargas e, historicamente, os Vargas nunca foram amigos dos Castilho. Também sei que, geralmente, as grandes riquezas são obtidas por meios desonestos, e que os homens ricos estão sempre tentando aumentar seu patrimônio. Não tenho a intenção de acusar o senhor, ou o Tomás, ou quem quer que seja, enquanto não tiver maiores evidências. Sempre faço o possível para ser justa.

León cerrou os dentes, furioso por Violetta concluir com tamanha facilidade que ele poderia ser o intruso.

– É o senhor quem detesta coincidências. – ela continuou. – Não acha suspeito o fato de a invasão ter ocorrido na noite seguinte à sua chegada aqui? E de ter acontecido duas semanas depois de o senhor ter tomado conhecimento do tesouro... e um ano depois de o Tomás ter vendido os diários?

Os olhos verde esmeralda de León faiscaram.

– Também é suspeito que tenha acontecido uma semana após a visita do Tomás, quando a senhorita mostrou a ele onde procurava pelas cartas. – Emitiu um suspiro contrariado. – Está determinada a me transformar em vilão, não está?

– Não. Gostaria de confiar em meu parceiro. – Violetta declarou com sinceridade. – Por outro lado, é difícil acreditar que o Tomás estivesse mal-intencionado. E não faz o menor sentido que ele tenha esperado um ano para dar o seu golpe.

– Faz sentido, se considerar que, ao vender os diários, ele não sabia se a história era verdadeira, ou se as famílias ainda existiam. Talvez só quisesse o dinheiro da venda dos diários, mas, ao voltar e conversar com o Sr. Simons, descobriu a existência dos Castilho e do tesouro. Então, reconsiderou a questão e concluiu que poderia se tornar um homem rico.

– O senhor está especulando.

– De fato. Foi o que fizemos nos últimos minutos.

– Não fazemos a menor idéia de quem entrou aqui. Nem podemos ter certeza de que as cartas tiveram algo a ver com a invasão.

– Não vejo sentido em outras possibilidades.

– Infelizmente, aprendi que, muitas vezes, o que menos faz sentido é justamente a resposta dos grandes mistérios.

– Está sugerindo que foi mera coincidência? – Violetta inquiriu, ligeiramente irritada.

– Não. E uma possibilidade, mas não acredito. Acho que, agora, mais do que nunca, precisamos encontrar as cartas com a máxima urgência.

– Concordo plenamente. Por isso, sugiro pararmos com as especulações e começarmos a trabalhar.

– Por onde devemos começar? – León perguntou, tirando o paletó.

Trabalharam em silêncio por um longo tempo, até Olívia provocar um sobressalto em todos.

– Vejam!

– O que foi? – Violetta aproximou-se, preocupada. – Que cheiro horrível!

– Acho que é cânfora. Venha ver que roupas maravilhosas!

– Sim, são muito bonitas.

Tratava-se de uma saia, acompanhada por um corpete, de veludo verde, ricamente bordado em dourado. Apesar de um pouco desbotado, o traje ainda guardava seu esplendor.

– De que época seria, Violetta? – Olívia perguntou. – Acha que era usado nas festas da corte? Ou seria um vestido de casamento?

– De uma coisa tenho certeza: trata-se de um traje para ocasiões especiais. Não estou certa quanto à época, mas arriscaria dizer que foi feito nos tempos do rei Charles II, no século dezessete.

– É tão romântico! – a mais nova exclamou, segurando o vestido diante de si.

– Veja isto!

Violetta retirou do mesmo baú um par de sapatos, também de veludo bordado, mas de um azul escuro. Possuía salto grosso e bico quadrado.

– Como alguém poderia usar uma coisa destas?

Olívia riu.

– E enorme!

– Grande demais para ter pertencido a uma mulher. – Violetta concordou. – Com certeza, foi usado por algum lorde Chesilworth.

– Está brincando! – Crispin protestou, incrédulo.

– Os homens usavam roupas muito coloridas, naquela época. – León explicou. – Em minha casa, há um retrato de um antepassado, usando sapatos muito parecidos.

– Vamos experimentar! – Olívia sugeriu. – Por favor, Violetta...

– Está bem, mas tenha cuidado. O tecido está velho e pode se rasgar.

– É grande demais para mim. Vamos vesti-lo em você. .

As duas esconderam-se atrás de uma pilha de caixas.

Olívia ajudou Violetta a trocar de vestido.

– Ah, Vilu... É lindo! – Puxou a irmã para exibi-la a León e aos irmãos. – Vejam como caiu bem em Vilu.

– Realmente. – León concordou, examinando Violetta da cabeça aos pés, com olhar fascinado.

– Se tenho de me fantasiar, recuso-me a ser a única. – ela protestou, embaraçada, antes de retirar uma outra peça do baú. – Ah! Sir León, terá de vestir isto.

Estendeu a ele um casado de mangas bufantes, todo bordado.

Após um momento de hesitação, ele aceitou o desafio. Uma vez vestido, parecia um cavaleiro antigo, faltando-lhe apenas a espada fia bainha.

Violetta prendeu a respiração diante da visão espetacular, então, puxou-o pela mão.

– Venha. Vamos ver como estamos.

Foi somente quando pararam diante do espelho apoiado a uma das paredes, que ela se deu conta de que ainda segurava a mão dele. Soltou-a no mesmo instante, mas seu olhar fixou-se no dele, através do espelho. Não era divertimento o que iluminava as profundezas esmeraldas, mas sim, a chama do desejo, que provocou tremores imediatos em Violetta. De repente, ela se descobriu desejando que os irmãos não estivessem ali.

Com certo esforço, afastou-se.

– Se continuarmos brincando, nunca encontraremos as cartas. – declarou. – Vamos voltar ao trabalho.

– Sim... Claro. – León concordou, aparentemente perturbado. — Violetta, o que devo fazer com os outros objetos guardados neste baú? – León perguntou.

– Examine tudo com cuidado. Afinal, é o primeiro baú, cujo conteúdo data do século que nos interessa.

Violetta conseguiu falar no tom prático de sempre, disfarçando as batidas frenéticas de seu coração.

– Por que Olívia e os garotos não trabalham da parede para cá? – León sugeriu. — A senhorita e eu continuaremos no sentido oposto. E possível que o baú que procuramos encontre-se no meio.

Violetta concordou e voltou a esconder-se atrás das caixas, para trocar o vestido antigo pelo que usava antes. Então, retomou a tarefa metódica de procurar pelas cartas.

Trabalharam a tarde toda, mas não encontraram nada que pudesse se relacionar a Margaret Castilho. Quando Violetta, finalmente, sentou-se nos calcanhares com um suspiro cansado, Leon retirou o relógio do bolso.

– Receio que tenhamos de parar. Ainda terei de voltar à hospedaria e me arrumar para o jantar.

– Ah, meu Deus! – Violetta exclamou, levantando-se de um pulo. – Que horas são? – Quando León respondeu, ela soltou um gemido. – Como pude me distrair tanto! Preciso voltar para casa, imediatamente.

Antes de deixar a Mansão Ferro, certificara-se de que tudo estava sendo feito de acordo. Porém, seria impossível ter certeza de que nenhum problema imprevisto surgiria no decorrer do dia. Agora, atrasada como estava, certamente não teria tempo para se arrumar como gostaria.

Depois de despedir-se, apressada, de León, disse a si mesma que isso não tinha importância. Nunca fizera sucesso em festas e, quando Ludmila estava presente, com sua beleza e vivacidade, não sobravam olhares para Violetta. Nem mesmo um vestido novo ela tinha para usar, naquela noite. O traje de cetim, cor de café com leite que mandara escovar e arejar já tinha mais de três anos. Além disso, a cor não favorecia seus traços, mas ela não contava com alternativa melhor.

Embora não quisesse admitir, a verdade era que daria tudo pelo vestido que sua tia usaria naquela noite. Não exatamente o vestido, mas o tecido. Tratava-se de uma peça de seda cinza-claro, cujo brilho apresentava nuances em lilás e violeta, além de criar à ilusão visual da presença de outros tons pastéis. Seria perfeito para realçar seus olhos castanhos e sua pele clara.

Um dia, quando visitavam Fairbourne, tia Priscilla vira Violetta parada diante de uma vitrine e aproximara-se para saber o que chamara a atenção da sobrinha.

– Que tecido lindo! – Priscilla exclamara.

Por um momento, Violetta animara-se, na esperança de que a tia lhe comprasse o tecido de presente, tendo percebido que seria a cor perfeita para ela. Porém, a Sra. Ferro continuara:

– Ainda bem que você viu, Violetta. Ficará perfeito em um vestido para mim, com detalhes em renda preta, talvez. Venha, vamos entrar.

Com o coração apertado, Violetta observara a discussão de tia Priscilla com a costureira, que não conseguiu demover a freguesa da idéia de enfeitar o vestido com tantos laços, babados e rendas, então o resultado final foi um vestido ridículo. Violetta não acreditava que a tia houvesse feito aquilo por crueldade. Na verdade, Priscilla era tão egoísta, que nem sequer lhe ocorria abrir mão de alguma coisa que gostasse, em beneficio de quem quer que fosse.

Sentiu uma pontada de pesar quando, envergando o vestido fora de moda, com os cabelos presos em um coque simples, olhou para a tia e viu o brilho suave da seda macia. Mas, como não tinha o hábito de perder tempo, lamentando circunstâncias que não poderia mudar, tratou de ocupar-se, garantindo que o jantar transcorresse sem qualquer incidente.

Quando conversava com o sr. Pablo Galindo; preso a uma cadeira por causa do último, de uma série interminável de acidentes ocorridos durante caçadas, sentiu um arrepio na nuca e não pôde resistir ao impulso de olhar para trás.

León estava parado na porta, fitando-a. Ao perceber que fora visto por ela, sorriu e adiantou-se naquela direção. Infelizmente, tia Priscilla foi rápida e interceptou-o no meio do caminho, arrastando-o para outro lado, sob o pretexto de apresentá-lo ao vigário, sua esposa e filha.

Assim, Violetta só conversou com Leon depois do jantar. Sendo o centro das atenções, ele não passou um instante desacompanhado e, além disso, Violetta não queria dar à tia e à prima o menor motivo para dizerem que ela estava competindo com Ludmila pela atenção dele. Embora não partilhasse das ilusões das duas sobre o interesse de León, Violetta sabia que, enquanto elas se concentrassem na tarefa de persegui-lo, sua vida seria muito mais fácil, pois as duas não se importariam com o que Violetta fizesse, ou deixasse de fazer.

Ainda assim, depois do jantar, quando Violetta aproveitava uma pausa na conversa tediosa e estridente da irmã do sr. Gregório, deu de encontro com Leon, que avançara na direção dela.

– Sir León. Desculpe-me! Não percebi que estava atrás de mim.

– Eu me escondi atrás de um vaso, pois tive de agüentar a srta. Di Pietro durante dez minutos intermináveis ainda há pouco e, por isso, decidi ser cuidadoso. – ele confidenciou em voz baixa.

– O senhor é um homem sábio. – Violetta murmurou.

– Não conversamos nem uma vez esta noite. Toda vez que me dirijo na sua direção, a senhorita desaparece. Está me evitando, srta. Castilho?

– É claro que não. – ela respondeu, deixando-se levar sorrateiramente para o hall de entrada. – O senhor é o convidado de honra. Todos disputam a sua atenção.

– Muito mais do que eu gostaria.

– Achei que não deveria tomar o seu tempo, uma vez que passei a tarde toda em sua companhia.

– Mesmo assim, poderia ter tido um pouco de piedade. – ele insistiu, fingindo-se magoado. – Meu sofrimento seria bem menor, se pudesse desfrutar de alguns minutos de uma conversa inteligente.

– Ora, sir León, estou lisonjeada. – Violetta zombou.

– Estou dizendo a verdade, srta. Castilho. Se eu ouvir mais uma descrição dos dotes em pintura, ou ao piano, da filha de alguém, acabarei estrangulando um dos convidados!

Violetta teve de reprimir o riso.

– O senhor ainda não viu nenhuma das telas, nem ouviu uma sonata, dessas moças encantadoras.

– Não, mas ouvi falar delas, assim como conheci as moças em questão. Mediocridade é a única palavra que me vem à mente.

– Dunsleigh é um lugar bastante limitado. — Certo de que Violetta sequer tinha consciência dos próprios atributos, León não se cansava de admirar a maneira como os olhos dela brilhavam quando ela sorria, ou da textura suave de sua pele clara. No entanto, notara o vestido fora de moda, de cor apagada, que ela usava. Imediatamente, foi tomado pelo desejo de comprar um traje elegante, de uma cor que realçasse aqueles lindos olhos castanhos, que valorizasse o corpo esbelto. Algo feito no tecido do vestido da sra. Ferro, sem as rendas e babados, claro. A seda delicada faria maravilhas pela pele clara de Violetta.

Infelizmente, uma mulher decente não poderia sequer pensar em aceitar um vestido de baile, como presente de um homem, exceto seu pai ou seu irmão. Mesmo um colar de pérolas para enfeitar-lhe o pescoço seria impensável, se não fosse dado pelo noivo, ou marido. Pela primeira vez em sua vida, León revoltou-se contra as restrições sociais. Era absurdo que um homem pudesse cobrir com os presentes mais caros uma mulher de virtude duvidosa, enquanto uma outra, virtuosa, mas pobre, não pudesse aceitar nada de homem algum. Ah, como gostaria de dar um presente a Violetta, só para ver os olhos dela se iluminarem de prazer.

– Aí estão vocês! – a voz de tia Priscilla interrompeu-os. Violetta e León viraram-se para ela, ligeiramente sobressaltados – O que pensa que está fazendo, Violetta? – a tia repreendeu-a em tom de falsa brincadeira. – Não pode ficar conversando com sir León no hall, enquanto todos os convidados encontram-se no salão. Sir León, peço que desculpe minha sobrinha. Ela não está acostumada com a vida em sociedade.

– Eu percebi. Aliás, é o que mais me agrada, nela.

Tia Priscilla forçou um sorriso.

– Ora, ora, se continuar usando esse seu charme com estas pobres moças do campo, deixará um exército de corações partidos para trás, quando for embora.

León lançou um olhar conformado para Violetta, quando Priscilla tomou-lhe o braço e arrastou-o de volta para o salão. Violetta observou-os desaparecerem e, então, suspirou. Foi como se o brilho da noite houvesse se dissipado e só lhe restasse esperar pelo final da festa.

O que não demorou a acontecer. Depois que León se retirou, os convidados foram se despedindo, um a um. Pouco depois, a casa estava vazia. Tia Priscilla desabou sobre uma cadeira, como se houvesse trabalhado muito para organizar aquela festa. Porém, recuperou-se depressa e lançou-se em uma discussão frenética com Ludmila, sobre cada gesto de León que, claro, era incapaz de disfarçar sua paixão crescente por Ludmila.

Violetta tratou de se retirar e foi direto para o quarto, onde encontrou Olívia profundamente adormecida. Despiu-se e deitou-se. Deixou o lampião aceso, pois sabia que assim não dormiria profundamente. Acordou menos de duas horas depois e, verificando que Olívia continuava dormindo, saiu da cama em silêncio e vestiu-se. Abriu o baú ao pé da cama e retirou um cobertor, que enfiou debaixo do braço. Então, apagou o lampião e saiu na ponta dos pés.

Assim que seus olhos se habituaram à escuridão, foi até o escritório do tio. De dentro de um dos armários, retirou um revólver e um pacote de balas. Carregou a arma e guardou-a cuidadosamente no bolso da saia.

Nunca tivera de usar um revólver antes, mas como seu pai acreditava que a educação dos filhos, homens e mulheres, deveria ser completa, ela tivera aulas de tiro e, como em tudo mais, saíra-se muito bem. Sentia-se confiante de que seria capaz de se defender, caso fosse necessário. Fez sua última parada na cozinha, a fim de apanhar um lampião, e saiu na direção de Chesilworth.

Ao ouvir a história contada por Ramalho, Violetta decidira quase imediatamente que a única maneira de descobrir quem estava procurando pelas cartas seria voltar a Chesilworth, à noite. Seu plano era simples. Ficaria escondida no pequeno bosque atrás da mansão e, quando uma luz aparecesse no interior da casa, ela se aproximaria para ver quem era o intruso. Levara o cobertor para ter um pouco de conforto, caso a espera fosse longa. A arma serviria como proteção. Inicialmente, pensara em confrontar o sujeito, mas concluiu que, mesmo armada, isso seria muito arriscado. Bastaria saber quem ele era.

Não conseguia acreditar que fosse León, nem o Tomás. León tinha muitos defeitos, mas sendo um homem rico e de posição, não arriscaria ser apontado como ladrão, por causa do que, para ele seria uma quantia relativamente pequena. E, afinal de contas, haviam combinado dividir o tesouro, quando o encontrassem. O Tomás, por sua vez, possuía um dos semblantes mais honestos que Violetta já vira. Como poderia um homem que conversava com tamanha franqueza, ser um vilão?

Bem, todas as suas hipóteses baseavam-se exclusivamente em seus instintos. Violetta precisava de provas.

Quando chegou ao pequeno bosque, atrás de Chesilworth, estendeu o cobertor no chão, apagou o lampião e sentou-se, recostada no tronco de uma árvore. Agora, só lhe restava esperar.

A noite estava muito escura e silenciosa. Os últimos dias haviam sido um tanto cansativos. Por duas vezes, Violetta quase adormeceu, mas forçou-se a despertar. Quando seus olhos já pesavam de novo, ela teve um sobressalto. Após alguns segundos de confusão, deu-se conta do que a despertara de uma vez por todas. Fora o brilho de um lampião, aproximando-se da casa.

Imediatamente, seu coração disparou e ela se pôs de pé, rapidamente. Ao mesmo tempo, enfiou a mão no bolso da saia, fechando-a em torno da arma, o que lhe proporcionou certa confiança.

Começou a caminhar lentamente na direção da mansão. Como não poderia acender o lampião, precisava ser cuidadosa para não pisar em um buraco e acabar ferida.

A luz desapareceu. Ou o intruso apagara o lampião, ou estava dando a volta na casa, provavelmente à procura de uma entrada fácil, uma vez que a janela quebrada fora fechada. Violetta lamentou o fato de Ramalho ter pregado tábuas em lugar do vidro quebrado, pois isso deixaria claro que a invasão fora descoberta e o sujeito poderia calcular que havia alguém à sua espera, na escuridão.

Tal pensamento fez Violetta apressar o passo. Mantendo os olhos fixos no chão, ela, de súbito, pressentiu um movimento à sua esquerda. Porém, antes que pudesse virar-se, um grande peso abateu-se sobre ela, derrubando-a.

Desesperada, Violetta pôs-se a lutar, usando para isso braços e pernas. Uma cotovelada atingiu algo sólido e ela ouviu um gemido abafado, ao mesmo tempo em que as mãos que a seguravam afrouxaram o aperto. Ela aproveitou a oportunidade para tentar escapar, mas ele foi mais rápido e conseguiu alcançá-la. Uma das mãos dele agarraram-lhe o decote do vestido e, quando Violetta girou o corpo, ainda tentando fugir, o tecido rasgou-se até a cintura. A mão dele deslizou por seus seios nus.

– Ah, meu Deus!

Violetta preparou-se para gritar, mas, então, sua mente registrou o timbre daquela voz. Ele a forçou a deitar-se de costas, segurando-lhe os dois braços com firmeza. Por um longo momento, olharam fixamente um para o outro, mas divisando as feições, uma vez que a escuridão era quase total.

– Sir León! – Violetta finalmente exclamou, sentindo-se como se houvesse sido apunhalada pelas costas. – Foi o senhor! O senhor é o ladrão!