O Dote Argentino

6 CAP.5 - Procurando as Cartas


– Sir Leon! – Violetta exclamou incrédula.

– Srta. Castilho, é um prazer vê-la de novo. – ele disse, com um brilho estranho no olhar.

Violetta deu-se conta de que sua aparência não poderia ser pior. Suada e empoeirada, envergava um de seus vestidos mais velhos, e os cabelos apresentavam-se em total desalinho. Olhou para a entrada do sótão e viu Ludmila, que a observava com um sorriso malévolo. Teve vontade de esganá-la, pois só então compreendeu por que a prima se dera ao trabalho de enfrentar o calor para ir até Chesilworth. Ludmila sabia o estado em que sir Leon encontraria Violetta.

– Devo dizer que estou surpresa, sir Leon. – murmurou, tentando salvar a dignidade. – Não esperava vê-lo de novo. Especialmente, aqui.

– Estava voltando da festa de lady Arrabeck, quando me ocorreu que Dunsleigh seria um excelente lugar para fazer uma parada.

– É uma grande coincidência estarmos justamente no seu caminho de casa. – Violetta comentou com ironia, pois sabia que ninguém, em sã consciência, passaria por Dunsleigh para ir da propriedade de lady Arrabeck até a Mansão Haverly.

– Não é mesmo? – Ele exibiu um sorriso inocente.

Ora, Violetta pensou, Leon só poderia estar ali por causa do tesouro. Sentiu-se grata por ele ter inventado uma desculpa, a fim de não revelar o verdadeiro motivo de sua visita.

– Por favor, desculpe a minha aparência. – ela disse. — É impossível limpar o sótão sem me sujar inteira.

– Não há de que se desculpar. Como sempre, a senhorita está encantadora.

Sentindo o rubor tomar conta de suas faces, Violetta desviou o olhar.

– Deixe-me apresentá-lo a meus irmãos. Este é Crispin, lorde Chesilworth. Hart, seu gêmeo, e Olívia. Crianças, este é sir Leon Vargas.

Leon cumprimentou um a um e, ao beijar a mão de Olívia, declarou:

– Vejo que temos mais uma beldade na família.

A expressão no rosto da menina deixou claro que Leon já a conquistara. Atrás deles, ainda parada ao lado da entrada, Ludmila suspirou ruidosamente, abanando-se com afetação.

– Está quente demais, aqui dentro. – protestou. – Não sei como suporta ficar aqui, Violetta. Tenho certeza de que eu desmaiaria.

– Ah, você sabe que não costumo desmaiar à toa. – Violetta retrucou. – Talvez fosse melhor você descer. O salão é bem mais fresco.

– Boa idéia. — Ludmila concordou, satisfeita. — Podemos ir para casa, sir Leon. Violetta e as crianças se juntarão a nós, quando terminarem o trabalho.

– Agradeço a preocupação, srta. Ferro. – sir Leon falou, lançando-lhe um olhar rápido e desinteressado. – Creio que deve voltar para casa, se o calor a incomoda, mas vou ficar por aqui. Pelo que vejo, a srta. Castilho está precisando de ajuda.

Ludmila ergueu uma sobrancelha.

– Vai ajudá-la a limpar o sótão?

– Se é esse o trabalho a fazer, sim.

– Ora, mas... não posso voltar sozinha para casa.

– Seu cavalariço poderá acompanhá-la.

– Bem, é diferente... Ele não é um cavalheiro.

–Não confia em seus próprios criados? – Leon indagou surpreso.

– Sim... Não foi isso o que eu quis dizer... Eu...

– Se está com medo de voltar sozinha com Jessup – Olívia sugeriu com ar inocente – talvez seja melhor esperar lá embaixo. Terminaremos dentro de poucas horas, não é, Vilu?

– Sim. Acho boa idéia, Ludmila. – Violetta concordou, lutando contra o riso.

Depois de lançar um olhar fulminante para a prima, Ludmila foi sentar-se sobre o baú mais próximo.

– Por onde devemos começar, srta. Castilho? – Leon já perguntava, aparentemente esquecido da presença da outra.

– Bem, acabei de examinar este e já ia abrir o próximo. O senhor poderia começar pelo seguinte.

– Ao trabalho. – Leon declarou com bom humor e abriu o baú, levantando uma nuvem de poeira.

Violetta ajoelhou-se diante do baú ao lado. Ainda encontrava dificuldade em acreditar que Leon estava em Chesilworth. Por outro lado, já não se importava por estar suja e desalinhada, pois importante mesmo era a presença dele ali.

– Decidiu acreditar em mim, senhor? – perguntou em um sussurro.

– Nunca desacreditei na senhorita. Apenas achei que havia sido enganada.

– Ah, então, em vez de mentirosa, considerou-me uma tola.

Ele lhe lançou um olhar divertido.

– Seria impossível pensar algo assim sobre a senhorita.

– O que o fez mudar de idéia?

– Digamos que, por enquanto, estou disposto a me abster de julgamentos.

Na verdade, que ele jamais sequer sonharia em contar a ela, era que, embora continuasse duvidando da existência do tesouro e dos tais mapas, Leon ficara profundamente entediado, na mansão de lady Arrabeck, após a partida de Violetta. Passara o tempo todo lembrando-se da inteligência dela, de seu senso de humor e, mais que tudo, do corpo esbelto em seus braços.

Disse a si mesmo que já estava velho demais para sair à caça de tesouros. Além disso, não acreditava na história fantástica sobre o dote argentino. Por outro lado, convenceu-se de que não lhe faria mal algum passar algumas horas na companhia agradável de Violetta Castilho. Na verdade, nem mesmo a idéia desanimadora de ter de suportar, também, a companhia da Sra. e da Srta. Ferro, o haviam feito mudar de idéia.

– Tenho certeza de que não vai demorar a se convencer da verdade. – Violetta afirmou. – Depois de ler os diários, vai se dar conta de que são autênticos. Além disso, os baús foram armazenados em ordem e já estamos a mais ou menos cinqüenta anos da época de Margaret. Logo encontraremos os pertences do pai dela.

– Se é que ele guardou as cartas.

A possibilidade de o pai furioso haver jogado fora as cartas era algo em que Violetta nem queria pensar.

– Vamos encontrá-las. – persistiu.

Continuar a esvaziar os baús, à procura de um pacote de cartas. Leon divertia-se com achados antigos, como um livro de etiqueta que o fez rir às gargalhadas.

– O que está fazendo? – Ludmila inquiriu, irritada. Não compreendia a atitude de Leon. Quase explodira de felicidade quando o mordomo anunciara a chegada dele, pois concluíra que o desejo dele por ela era tão intenso, que ele até se esquecera do plano que ela arquitetara com a mãe.

Porém, Leon logo começara a perguntar por Violetta e insistira em cavalgar até Chesilworth. Fora muito cavalheiro ao assegurar Ludmila de que ela não precisaria acompanhá-lo, mas ali estava uma oportunidade que mulher nenhuma, em sã consciência, deixaria passar. Agora, era incompreensível a insistência dele em permanecer ali, naquele lugar sujo e abafado, rindo com Violetta de coisas que, aos olhos de Ludmila, não tinham a menor graça.

Ludmila estreitou os olhos, observando a maneira como Violetta sorria para Vargas. Os olhos cinzentos pareciam iluminados e ela estava quase... bonita! Mesmo desgrenhada e coberta de poeira! Tal constatação deixou Ludmila apreensiva e irritada. Seria possível que Violetta acreditasse que Leon estivesse interessado nela?

– O que está fazendo, Violetta? – repetiu. — Por que estão examinando cada um desses baús?

– Achei que poderíamos encontrar algo interessante. – a prima respondeu em tom vago.

– Está deixando sir Leon coberto de poeira!

– Não me importo, srta. Ferro. – ele replicou de bom humor. – Estou me divertindo um bocado.

E era verdade. Apesar do calor e da sujeira, Leon nunca fizera nada tão divertido, antes. Era delicioso examinar o conteúdo dos baús e partilhar seu divertimento com Violetta. Além do mais, ela era, sem dúvida, a única mulher que não se importava por ser surpreendida naqueles trajes. Ignorando a própria aparência, ela conversava com ele naturalmente, divertindo-se, também.

Olhou para Ludmila cuja aparência impecável começava a sofrer os efeitos do calor. Apesar de estar vestida como uma lady e comportar-se como tal, se comparada com Violetta, parecia fútil e desinteressante.

Cada vez mais irritada, Ludmila decidiu que uma atitude mais drástica se fazia necessária. Assim, pôs-se de pé.

– Não suporto mais o calor excessivo. – declarou. — Vou descer.

– Como quiser, Ludmila. – Violetta falou. – Fique à vontade.

– Até logo, srta. Ferro. – Leon despediu-se distraído, pois sua atenção concentrava-se em um pacote de cartas que acabara de retirar do baú.

Entusiasmado com o achado, nem percebeu o olhar faiscante que Ludmila lhe lançou, antes de descer a escada ruidosamente.

– Violetta... – murmurou baixinho.

Ela virou e sentiu o coração acelerar ao deparar com o pacote de cartas.

– Receio serem recentes demais. – disse, embora apanhasse os envelopes com dedos trêmulos. Porém, assim que examinou a caligrafia, suspirou. – São de Edna Castilho. Já encontrei dúzias de cartas dela. Era uma filha muito dedicada, que escrevia para a mãe regularmente, depois que se casou.

Tendo visto as cartas, os gêmeos aproximaram-se, ansiosos.

– Ah, Edna de novo! – Hart protestou.

– Pensamos que vocês haviam encontrado as cartas de Margaret. – Crispin falou.

– Não. Estes baús são de períodos mais recentes. – Violetta explicou.

– Por que não deixa alguns baús de lado e começa a examinar os de períodos mais distantes? – Leon sugeriu.

– Já tentamos, mas a ordem não é perfeita. Chegamos a encontrar objetos de períodos diferentes em um mesmo baú.

– Além disso, – Olívia acrescentou com um sorriso divertido — Violetta não abre mão de seu senso de ordem.

– Estou apenas tentando impor um mínimo de ordem a este caos. – a irmã defendeu-se. – Se dependesse de vocês, em dois dias, todo o conteúdo de todos os baús, estariam espalhados pelo sótão há muito tempo.

– Provavelmente, mas já teríamos encontrado as cartas.

– Se não houvessem se esquecido de procurar entre livros e roupas.

Habituado às discussões das irmãs sobre questões de ordem, Crispin ignorou-as e dirigiu-se a Leon.

– Vai nos ajudar a procurar pelo dote argentino?

Notando o brilho de esperança nos olhos do menino, Leon descobriu-se incapaz de desapontá-lo.

– Sim, desde que consigamos encontrar as cartas.

– Ainda bem! Eu tinha esperança de que o senhor acabaria se mostrando um homem de bom senso, mesmo depois de Violetta ter dito que não era.

Leon lançou um olhar irônico para Violetta.

– Foi isso o que ela disse a meu respeito?

– Crispin! – Olívia advertiu-o. –Vilu não disse isso!

– Ela disse que o senhor não tinha imaginação. — Hart revelou. – Mas disse que o senhor não tinha culpa de ser um Vargas.

– Srta. Castilho, estou magoado. – Leon declarou, contendo o riso.

– Não seja ridículo! – Violetta revirou os olhos. – Eu disse isso ao senhor, em primeiro lugar. Porém, – virou-se para os gêmeos – já chega de contar tudo o que eu disse. Não é educado contar aos outros o que as pessoas falam.

– Especialmente, quando estão maldizendo alguém. – Crispin completou, também contendo o riso.

Violetta fingiu que ia agarrá-lo, mas o menino esquivou-se com agilidade. Todos riram e, então, ela sugeriu:

– Agora, é melhor vocês três voltarem ao trabalho. A menos que prefiram fazer companhia a Ludmila, lá embaixo.

Rindo às gargalhadas, as crianças retomaram seus lugares. Violetta e Leon voltaram ao trabalho e, durante as duas horas seguintes, prosseguiram no exame minucioso dos baús. Foram interrompidos duas vezes pelo cavalariço de Ludmila, que subiu para comunicar o desejo da patroa em ir embora, mas só pararam de trabalhar quando a luz que entrava pelas janelas estreitas começava a se tornar insuficiente. Então, desceram, ainda mais empoeirados.

Encontraram Ludmila sentada na cozinha, tamborilando os dedos na mesa com impaciência. Sem esconder o descontentamento, ela se pôs de pé, de cenho franzido.

– Finalmente! Violetta, você não tem a menor consideração por ninguém, a não ser você mesma!

– Eu não a obriguei a ficar aqui. – Violetta argumentou. – Poderia ter voltado para casa, quando quisesse.

Ludmila estreitou os olhos, como se estivesse prestes a ter um de seus ataques de raiva. Mas, então, pareceu dar-se conta de que tal comportamento não seria apropriado à ocasião. Com grande esforço, exibiu um leve sorriso para Leon.

– Sinto muito que tenha sido submetido a isso, sir Leon.

– Como já disse, eu me diverti um bocado.

– O senhor é muito gentil.

Com isso, Ludmila aproximou-se e quase enroscou o braço no dele, mas mudou de idéia ao constatar que o paletó dele encontrava-se imundo.

– Por favor, srta. Ferro, não se aproxime de mim. – ele pediu com gentileza. – Estou sujo demais.

Então, Leon aproximou-se de Violetta e tomou-lhe o braço, conduzindo-a na direção da porta.

Lá fora, o cavalariço ajudou Ludmila a montar, mas Ludmila anunciou que preferia caminhar, levando seu cavalo pelas rédeas. Ludmila ficou furiosa, pois planejara ficar a sós com Vargas, durante a cavalgada de volta e, no entanto, viu-se isolada do grupo, uma vez que era a única a percorrer o trajeto a cavalo. Embora Violetta e Leon lhe dirigissem alguns comentários corteses, seria impossível participar da conversa tediosa dos dois, sobre um livro que ela jamais ouvira falar. Seu consolo foi lembrar-se de que os homens não gostavam de mulheres intelectuais.

Quando chegaram à Mansão Ferro, foram recebidos por tia Priscilla, que se adiantou, sorridente, para Leon. Porém, ao perceber o estado de sujeira das roupas dele, arregalou os olhos.

– Meu Deus! O que... Bem, vamos entrar. – convidou solícita, sem querer pensar no que aconteceria ao revestimento adamascado de seus sofás.

– Não, obrigado. – Leon falou. – Preciso retornar à hospedaria e trocar de roupa.

– Não vai nos dar o prazer de se hospedar em nossa casa? Não me diga que veio até aqui, para ficar um único dia!

– Não, sra. Ferro. Pretendo passar algum tempo em Dunsleigh, mas jamais me atreveria a chegar para uma visita, sem notificá-la com antecedência.

– Isso não é problema. A Mansão Ferro está sempre pronta a receber hóspedes. – tia Priscilla mentiu.

A discussão prosseguiu, mas Leon venceu a disputa, recusando-se com grande gentileza a abusar da hospitalidade da sra. Ferro e, também, declinando o convite para jantar naquela noite. Só não escapou à promessa de voltar a visitá-los no dia seguinte.

Assim que ele desapareceu na distância, ela levou as mãos ao peito, com expressão de êxtase.

– Quem poderia imaginar que sir Leon Vargas viria a Dunsleigh, com o único propósito de nos visitar?

– Lilah Davenport ficará roxa de ciúme, quando souber! Ludmila, esse foi o melhor sinal que poderíamos ter recebido. Ele, simplesmente, não conseguiu ficar longe de você.

Olívia revirou os olhos.

– Realmente, ele demonstrou imensa dificuldade em ficar longe dela, esta tarde. – alfinetou.

Ludmila finalmente perdeu a compostura.

– Sir Leon é educado demais para partir logo depois de ter chegado a um lugar! – afirmou. – Provavelmente, foi por culpa sua que ele não quis ficar para jantar, ou se hospedar em nossa casa. Deve ter ficado com medo de que você tivesse outra armadilha para forçá-lo a trabalhar em meio à sujeira e ao calor.

– Desconfio que ela tenha tido medo de outro tipo de armadilha. – Violetta replicou calmamente.

– Como se atreve!

– Querida prima, receio que você se exponha a esse tipo de comentário. Não é necessário um grande atrevimento.

Com isso, Violetta entrou em casa.

Violetta seguiu-a, furiosa.

– Por que mais ele viria até aqui, se não fosse para me ver? Espero que você não esteja alimentando ilusões de que ele tenha algum interesse por você!

– Acontece que ele veio até aqui para ver Violetta. – Crispin interferiu, irritado pelo ataque à irmã.

– Não se intrometa. – Ludmila ordenou em tom de desdém. – Você não passa de um moleque, que não sabe de nada.

– Sei muito mais do que você pensa!

– Crispin. – Violetta advertiu-o, lançando-lhe um olhar que o fez calar-se imediatamente. Então, voltou a encarar a prima, impassível. – Não tenho qualquer ilusão com respeito a sir Leon. Agora, se me der licença, preciso tomar um banho.

Subiu para o quarto; deixando Ludmila parada no hall, sem saber o que dizer.

Leon fez a prometida visita pela manhã e tia Priscilla não se deu ao trabalho de avisar Violetta de que ele havia chegado. Assim, ela só foi informada da presença dele, quando Olívia entrou no quarto com a notícia.

– Aquela mulher é uma bruxa! – a menina praguejou, corando de raiva. – Ela está tentando, deliberadamente, escondê-lo de você, pois sabe que ele não veio para ver Ludmila.

Violetta respirou fundo, na tentativa de fazer o coração recuperar seu ritmo normal. Olhou-se no espelho, mas logo lembrou-se de que não importava o que vestisse, ou como penteasse os cabelos, pois Leon não estava preocupado com isso.

– Acho que tia Priscilla realmente acredita que ele veio para ver Ludmila. Afinal, nós sabemos o que ela pensa da habilidade da filha para atrair todos os homens do mundo!

– A maior habilidade dela é se iludir, – Olívia retrucou – mas ela não mandou avisar você de que ele está lá embaixo, só para impedir que você se divirta.

– Nossa tia é uma pessoa um tanto egoísta. – Violetta concordou. – No entanto, desta vez, acho que ela está diante de alguém muito mais habituado a conseguir o que quer. E, como sabemos que Leon não está exatamente apaixonado por nossa querida prima, – exibiu um sorriso malicioso — talvez seja interessante esperarmos para ver o que vai acontecer.

– Tem razão. – Olívia também riu e sentou-se na cama. – Ele é bonito, não é?

– Sir Leon?

– Ora Vilu, de quem mais eu estaria falando? E não tente fingir que nem reparou naquele sorriso maravilhoso.

– Sim, ele se torna atraente, quando sorri.

– É melhor mudar o seu jeito, irmãzinha. – Olívia provocou-a. – Você ainda não é uma solteirona e Sir. Leon sabe disso.

– Do que está falando? – Violetta inquiriu, corando. Seria possível que sua irmã, de apenas catorze anos, houvesse percebido que havia algo mais entre ele e Leon, além do interesse pelo tesouro?

– Acho que ele está interessado em você. O que há de errado nisso?

– Nada, nada. Desculpe-me, Liv. Estou um pouco tensa por estarmos tão próximos de encontrar as cartas.

Ao ouvirem a batida na porta, as duas irmãs trocaram olhares triunfantes. Uma das criadas abriu a porta e anunciou:

– A sra. Ferro pede que vá até a sala, srta. Castilho. – Então, pôs a perder seu ar formal, com um sorriso maroto. – Ouvi dizer que um certo cavalheiro não pára de perguntar pela senhorita.

– Obrigada, Janie. – Violetta agradeceu e seguiu a criada.

Leon levantou-se quando ela entrou na sala, sem esconder o alívio.

– Srta. Castilho, é muito bom saber que a senhorita está se sentindo bem.

– E por que não estaria?

– Sua tia suspeitava que a senhorita estivesse doente. – ele explicou, com um leve toque de ironia na voz.

Violetta dirigiu um sorriso meigo e inocente à tia.

– A senhora é muito atenciosa, ao se preocupar com minha saúde, tia Priscilla, mas sinto-me tão bem quanto me sentia, quando tomamos juntas, o desjejum.

– Eu estava dizendo à sua tia e à sua prima, que achei a arquitetura de Chesilworth muito interessantes. — Leon informou-a, enquanto ela se sentava do outro lado da sala, uma vez que as outras duas mulheres haviam tomado os lugares mais próximos a ele. – Gostaria muito de fazer outra visita à propriedade.

– Se quiser, poderemos ir esta tarde. – Violetta sugeriu.

– Eu adoraria.

Ludmila soltou uma de suas risadas tolas e forçadas.

– Ora sir Leon, posso assegurar que existe uma porção de lugares muito mais interessantes do que Chesilworth, para serem visitados em Dunsleigh. Como o senhor pôde ver, aquele lugar está caindo aos pedaços.

– Sim. Admiro antiguidades. – ele comentou. – Nada desperta mais o meu interesse do que coisas velhas.

– Vai achar a história de Chesilworth interessante, também. – Violetta falou. – Talvez, queira ver os livros dos quais falávamos, ontem.

– Ah, seria ótimo!

– Violetta. – Ludmila voltou a interferir – Tenho certeza de que sir Leon não está interessado em seus livros velhos e tolos.

– Muito pelo contrário, srta. Ferro. Estou muito interessado. Ontem, a srta. Castilho e eu conversamos sobre tais livros. De fato, partilhamos interesse semelhante por história.

O esforço que Ludmila tinha de fazer para continuar sorrindo aumentava a cada instante.

– Existem passeios muito mais prazerosos, por aqui. — lembrou e, então, recitou uma lista de locais a serem visitados.

O sorriso de Leon não foi menos forçado.

– Realmente, srta. Ferro, está me oferecendo uma fantástica lista de opções. Eu não sabia que Dunsleigh poderia ser tão interessante para um visitante. Esta tarde, porém, já me comprometi a visitar Chesilworth, com a srta. Castilho.

Percebendo que a filha estava prestes a perder o controle, tia Priscilla intercedeu:

– Se é para onde o senhor deseja ir, na companhia de Ludmila e Violetta, é para onde irá. Aliás, iremos todos. Afinal, o senhor não pode sair por aí, com duas moças solteiras, sem companhia adequada. – acrescentou em tom de brincadeira forçada. – Pedirei aos criados que preparem um piquenique para nós.

Dessa vez, foi Leon quem pareceu prestes a explodir. Violetta foi rápida:

– Que idéia maravilhosa! Não imaginei que prima Ludmila quisesse se juntar a nós, em nossa exploração do sótão. É melhor trocar de roupa e vestir algo velho e surrado. Do contrário, vai arruinar o seu lindo vestido.

– Não tenho a menor intenção de explorar aquelas ruínas!

– Então, o que pretende fazer, enquanto sir Leon, eu e as crianças estivermos explorando Chesilworth?

– A srta. Castilho tem razão. – Vargas concordou, tendo recuperado seu charme. – Não vai querer que seus belos cabelos acabem cobertos de poeira, srta. Ferro. E, também, estragar um vestido tão elegante e sujar uma pele tão perfeita... Ah, seria um pecado!

Violetta teve de se esforçar para não rir, mas depois de mais alguns comentários açucarados, sobre como seria bom voltar para a Mansão Ferro e encontrar Ludmila “linda como sempre”, mãe e filha estavam convencidas de que a excursão era mais apropriada a crianças.

– Agora, se me derem licença – Leon falou, levantando-se — preciso cuidar de alguns assuntos, antes de explorar Chesilworth, esta tarde.

Ludmila e tia Priscilla insistiram para que ele ficasse, mas como Leon não cedesse, decidiram aceitar a partida, com uma condição:

– Promete participar da festa que daremos amanhã, à noite? – Ludmila pediu, fazendo beicinho.

– Festa? – Leon inquiriu, aflito.

– A festa que mamãe e eu estamos organizando para amanhã. Estávamos justamente comentando que foi uma grande coincidência o senhor ter vindo nos visitar, justamente quando vamos dar uma festa.

Violetta permaneceu em silêncio, embora a notícia da festa fosse uma novidade para ela.

– E claro que nossas festas não se comparam àquelas das temporadas londrinas. – tia Priscilla esclareceu. – Mas, vivendo isolados no campo, também precisamos nos divertir.

– Será um jantar para alguns poucos amigos. — Ludmila explicou. — O senhor virá, não?

– Claro... Será um prazer. Agora, realmente, preciso ir.

Curvou-se para beijar a mão de cada uma e, quando chegou a vez de Violetta, sussurrou:

– Dez minutos. No poço que vimos ontem.

Ela não precisou de mais que um segundo para se recuperar da surpresa.

– Até mais tarde, sir Leon. Teremos uma o produtiva, prometo.

Notas finais
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