O Dote Argentino

20 CAP. 19 - Ladrão, Noivado e Mapa


Violetta gritou assustada. León lançou-se para dentro do quarto. O homem ergueu o braço e algo voou no ar, atingindo León na cabeça. Ele cambaleou e, então, seguiu adiante, mas o ladrão conseguira tempo suficiente para atravessar o quarto e pular a janela.

León correu até lá.

– Diabos! Ele desceu pela árvore. O sujeito parece um macaco! Já está no chão. – Examinou a árvore rapidamente. – Não creio que agüente o meu peso. — concluiu, esmurrando o peitoril da janela. – Eu o tinha praticamente em minhas mãos!

– Você não teve culpa. – Violetta consolou-o, pousando a mão em seu braço.

– Não, mas é frustrante. – León suspirou. – Bem, vamos verificar os estragos que ele fez.

Naquele momento, Priscilla apareceu na porta do quarto, empunhando um lampião. Ludmila estava logo atrás dela, espiando por cima do ombro da mãe. As duas olhavam para o quarto com expressão chocada.

Vendo, pela primeira vez, o quarto iluminado, Violetta também ficou horrorizada. Todas as gavetas da penteadeira haviam sido abertas e reviradas. Havia roupas e outros objetos espalhados pelo chão.

– O que aconteceu? – a tia perguntou.

– Alguém invadiu o quarto de Violetta. – León respondeu.

– Mas, para quê? Violetta não possuía nada que seja valioso.

Ludmila passou à frente da mãe, levando a mão à garganta, em um gesto dramático.

– O ladrão deve ter entrado no quarto errado. Certamente, pretendia roubar as nossas jóias, mamãe. — Cambaleou até onde estava León, estendendo a mão trêmula para ele. – Ah, acho que vou desmaiar! León... ajude-me.

– Sente-se e ponha a cabeça entre os joelhos. – León instruiu em tom prático e impaciente, ao mesmo tempo em que puxava uma cadeira e a forçava a sentar-se.

Ludmila abriu a boca para protestar, mas ele já se virava para Violetta.

– Talvez seja melhor você passar o resto da noite no quarto de sua tia. – declarou.

– Não há necessidade. Tenho certeza de que ele não voltará. Ao menos, não esta noite.

Priscilla parara de examinar a confusão no quarto e olhava fixamente para León e Violetta. Notou que a sobrinha vestia apenas a camisola e que León parecia não ter nenhuma peça de roupa debaixo do robe.

– O que está acontecendo, afinal? – inquiriu, franzindo o cenho. – O que está fazendo no quarto de minha sobrinha, a esta hora, sir León?

– Está tudo bem, tia Priscilla. – Violetta falou depressa. – Ele veio porque gritei, quando descobri que havia um ladrão em meu quarto.

A tia lançou-lhe um olhar desconfiado.

– Ouvi quando você gritou, e vim imediatamente. Ele já estava aqui. – Voltou a encarar León. – Por favor, retire-se, sir León.

– Titia, por favor! Posso assegurar que não há necessidade...

– Não se preocupe, Sra. Ferro. – León interrompeu com voz calma.

– Não me preocupar! Se alguém souber do que aconteceu aqui, a reputação de Violetta estará arruinada.

León estreitou os olhos.

– Ah, mas ninguém ficará sabendo, não é mesmo, Sra. Ferro? Além do mais, a reputação de Violetta não corre risco algum, uma vez que ela se tornará minha esposa.

– O quê? – Violetta ficou tão surpresa quanto a tia.

Priscilla deu-se conta do erro tático que cometera e tentou, desesperada, corrigi-lo:

– Ah, não... Eu... Sir León, isso não será necessário. Os criados não o viram aqui e é claro que Ludmila e eu jamais diremos uma palavra a ninguém. Afinal, trata-se da reputação da minha sobrinha.

– Tenho certeza de que a senhora não contaria a ninguém. – León concordou. – No entanto, a Srta. Castilho e eu estamos noivos.

– Não pode ser! Isso é absurdo!

León ergueu uma sobrancelha, olhando para Priscilla como se ela houvesse chegado de outro planeta.

– Também fiquei surpreso quando Violetta aceitou meu pedido de casamento. Afinal, é evidente que não a mereço. Mas, como senhora deve saber, ela é uma dama muito generosa.

– Não! Espere! – Ludmila gritou, levantando-se de um pulo. – Mamãe! Faça alguma coisa! Ele não pode se casar com Violetta!

– Pois posso afirmar, Srta. Ferro, que não só posso, como vou me casar com ela.

– Mas... mas... – ela voltou a encará-lo com expressão magoada. – E quanto a mim?

– Estou certo de que a Srta. Castilho fará questão que seja uma de nossas damas de honra. Não é, Violetta, querida?

Violetta não conteve o riso, diante da expressão horrorizada da prima.

– Claro, Ludmila. Afinal, foram você e tia Priscilla quem me aproximaram de León.

– Violetta... espere... pense bem... – Priscilla gaguejou. – Sir León, está se esquecendo de um detalhe muito importante. Violetta não tem um centavo.

– Não preciso de uma esposa rica. – ele respondeu com um sorriso amável. – Sei que a senhora vai ficar feliz em saber que o amor de Violetta é o maior tesouro que eu poderia encontrar.

Violetta teve de se esforçar para não cair na gargalhada.

– Mas, também, tem de pensar nas crianças, os irmãos dela. – a tia insistiu. – O senhor deve concordar que educá-los será um fardo muito pesado.

– Adoro crianças.

– Não pode se casar com ele! – Ludmila gritou para Violetta. – Não pode se casar antes de mim!

O último pensamento pareceu demais para os nervos frágeis de Ludmila, pois ela virou-se e saiu do quarto, correndo. Em seguida, ouviram uma porta bater. Tia Priscilla fitou-os, boquiaberta, por mais alguns momentos e, então, foi atrás da filha.

Violetta riu, mas admitiu que o sentimento de triunfo que a invadira era desprezível. Então, virou-se, quando León acendeu o lampião. Só então, viu o fio de sangue descendo pelo rosto dele.

– León! Está ferido!

– Sim. – ele replicou em tom casual. – Ele me atingiu com força, com aquela caixinha. Ainda não me conformo que o deixei escapar!

– Você não teve culpa. Afinal, não esperávamos encontrar alguém no quarto. E, embora a sua cabeça seja dura, não creio que seja à prova de objetos voadores. Sente-se na cama. Vou cuidar de você.

– Não é nada. O que importa é o mapa. Tenho certeza de que era o que ele procurava. Por que mais um ladrão entraria, justamente neste quarto?

– Ah, o mapa está seguro.

Violetta foi até o guarda-roupa e abriu-o. Então, enfiou a mão no bolso de um de seus vestidos, e retirou o mapa, agitando-o no ar. Então, voltou a guardá-lo.

– Um lugar estranho para guardar algo valioso. – León comentou.

– Com certeza, o último em que um ladrão pensaria. Se eu tivesse o hábito comum de guardar as coisas de valor em caixas e cofres, certamente teria escolhido a caixinha que ele atirou em você. Bem, de qualquer maneira, trata-se de uma simples cópia. Tenho outra na Mansão Haverly e deixei o original em casa.

– Mesmo assim, fico contente que o ladrão não o tenha encontrado.

Violetta despejou água na bacia de porcelana e apanhou um lenço, antes de voltar ao lado de León.

– Conseguiu ver o rosto dele? – perguntou.

– Não. – ele respondeu com pesar. – Estava escuro demais e fiquei um pouco atordoado pela pancada na cabeça. Tudo o que pude ver é que era um homem alto e magro.

– Também não pude vê-lo. – Violetta murmurou.

– Ainda desconfio de seu primo americano. Ele pode ter contratado alguém.

– Ele voltou para os Estados Unidos. – Violetta lembrou-o.

– Isso foi o que ele lhe disse.

– Você vive repetindo isso.

– Bem, você só tem a palavra dele. – León argumentou. – Ai! Ainda bem que você nunca pensou em ser enfermeira.

– Desculpe-me. Pronto. Isso é tudo o que posso fazer. Acho que vamos precisar de um curativo.

– Se não é o Sr. Tomás, querida, então, quem poderia ser? – León voltou ao assunto que o perturbava. — Sempre achei que sua tia é perfeita para o papel de vilã.

Violetta sorriu.

– Quem mais? – ele insistiu. – O Sr. Simons, talvez?

– Bem, não consigo imaginá-lo subindo e descendo por uma árvore! – ela comentou com uma risada, pensando no homem baixinho e gorducho.

– Graças a Deus, você não estava aqui, quando ele entrou. – León murmurou com sinceridade. – Prometa que, daqui por diante, vai manter as suas janelas bem trancadas. Podemos estar noivos, mas creio que despertaremos terríveis fofocas, se eu passar todas as noites em seu quarto, a fim de protegê-la.

– León, quero conversar com você sobre isso. – Violetta falou com seriedade, quase se esquecendo do ladrão.

– Sobre datas, roupas e coisas assim? Prefiro deixar tudo em suas mãos, minha querida. Mamãe e vovó farão questão de ajudá-la e...

– Não é disso que estou falando. Não há necessidade de dizer que estamos noivos. Foi muita gentileza sua pensar em me proteger, mas garanto que tia Priscilla não contará nada a ninguém.

– Violetta! – León arregalou os olhos, fingindo-se chocado. – Ao que parece, está tentando livrar-se de mim! E estamos noivos a menos de uma hora! Quanta audácia!

– León, estou falando sério! Não é necessário nos casarmos. Minha reputação estará segura.

– Quer dizer que sua intenção é me usar e, então, atirar-me na sarjeta? – ele indagou com falsa indignação.

Violetta rangeu os dentes, irritada.

– Será que não podemos conversar com um pouco de seriedade?

– Ah, mas eu estou falando sério. É você quem está pensando de maneira frívola. Estamos noivos e não há nada que você possa fazer para mudar isso.

– Minha opinião não conta?

– Conhecendo você, imagino que tenha um grande discurso sobre o assunto. – León falou com um sorriso divertido. – No entanto, nada vai mudar o fato de que casamento é a nossa única opção. Se não está preocupada com a própria reputação, minha querida, pense na minha.

Violetta ficou furiosa. As brincadeiras de León anulavam suas tentativas de fazer o que era certo, agindo de maneira muito mais eficiente do que uma verdadeira discussão. E era evidente que ele sabia disso. A frustração de Violetta tornava-se ainda maior porque seu coração não concordava com a oferta que tinha a fazer. A idéia de se casar com León a deixara muito feliz. Dera-se conta de que era isso o que ela mais queria na vida, mais que o dote espanhol, inclusive. Era difícil tomar uma atitude nobre e dispensar León da intenção impetuosa de salvar a reputação dela. No entanto, Violetta não queria casar-se somente pelo senso de responsabilidade que ele já provara ter. Queria ser amada por León.

Com um suspiro, decidiu não insistir por enquanto. Voltaria ao assunto no dia seguinte. Talvez algumas horas de consideração o fizessem enxergar o que estaria jogando fora, unindo-se a ela.

– Vá dormir. – declarou.

– Excelente sugestão. Espero que a siga, também. — León trancou as janelas, antes de encaminhar-se para a porta. — Tem certeza de que não prefere dormir no quarto de sua tia, ou de sua prima?

– Não diga bobagens! Aqui, eu teria apenas um ladrão para enfrentar. Se dormir com uma delas, provavelmente, serei assassinada durante o sono.

Ele riu e saiu do quarto, depois de beijá-la longamente, deixando-a sem fôlego, perguntando-se porque fora tola a ponto de protestar contra a idéia de casamento. Violetta arrumou o quarto, dobrou e guardou suas roupas e deitou-se. Adormeceu imediatamente e, em vez de sonhar com ladrões e quartos revistados, sonhou com véus, grinaldas e alianças.

– Não acredito que seja capaz de fazer isso comigo! – tia Priscilla choramingava. – Sangue do seu sangue. Depois de tudo o que fiz por você! Alimentei uma serpente, em meu próprio lar!

– Pode dizer o quê, exatamente, eu fiz? – Violetta perguntou, no tom prático de sempre.

A tia lamentava-se havia dez minutos, sem lhe dar a menor chance de dizer uma palavra sequer.

– O que você fez? – Ludmila repetiu, incrédula. – Roubou sir León de mim!

– Roubei? Ludmila, sir León nunca foi seu.

– Ele se interessou por mim, primeiro!

– Por um dia, ou dois. Até descobrir quais eram os seus planos para agarrá-lo.

– Como se você não tivesse feito a mesma coisa!

As palavras da prima perturbaram Violetta e ela não conseguiu pensar em nada para dizer.

– Está vendo? – Ludmila falou em tom de triunfo. – Estou certa.

– Trata-se de uma situação completamente diferente. – Violetta afirmou. – Além do mais, não é da sua conta.

– Como não é da minha conta, se ele era meu, antes?

– Já disse que ele nunca foi seu!

– Eu a recebi em minha casa. – Priscilla retomou a ladainha. – Alimentei e vesti você. Até mesmo levei-a conosco à festa de lady Arrabeck, por que tinha pena de você. E veja como me retribui!

Violetta cerrou um punho e bateu-o no braço da poltrona.

– Chega! Já ouvi demais! Em primeiro lugar, a senhora não me recebeu em sua casa, nem me vestiu, ou alimentou. Foi meu tio, irmão de minha mãe, quem fez isso. Se dependesse da senhora, meus irmãos e eu viveríamos com os criados. Em segundo lugar, não me levou àquela festa por caridade, ou generosidade. A senhora só queria alguém que a ajudasse a fazer companhia a Ludmila. E, por último, não roubei sir León de Ludmila. Ninguém poderia fazer isso, porque ele nunca teve o menor interesse nela. Mal suporta ficar no mesmo aposento que ela. Qualquer pessoa com um mínimo de inteligência teria percebido isso. Nunca entendi como vocês duas podiam acreditar que León estava interessado em Ludmila, quando ele fazia tudo para evitar a companhia dela!

As duas limitaram-se a fitá-la, boquiabertas.

– Sir León pediu-me em casamento – Violetta continuou – e é exatamente o que pretendo fazer. Não há nada que vocês possam fazer para mudar isso. Tudo o que estão conseguindo com essa atitude mesquinha é enfurecer sir León e eu, tanto que talvez nunca mais sejam convidadas à Mansão Haverly. Vocês têm a perspectiva de estabelecer um relacionamento mais próximo com lady Vargas, o que significa livre acesso a círculos sociais, repletos de excelentes partidos. Se tiverem um pouco de bom senso, tratarão de agarrar essa oportunidade, em vez de ficarem lamentando a perda do que, na verdade, nunca tiveram!

– Bravo, querida!

Violetta virou-se e deparou com León, parado na porta, batendo palmas. Corou até a raiz dos cabelos.

– Eu... Sinto muito.

– Não sinta. Conseguiu expressar exatamente o que eu sinto. – Ele olhou para Priscilla e Ludmila. – Agora, se me derem licença, gostaria de conversar em particular com minha futura esposa. Querida?

Ofereceu o braço, que Violetta aceitou de pronto, deixando-se conduzir para o escritório.

– Por favor, desculpe-me por ter criado uma cena como aquela. Geralmente, não costumo ser...

– Não me decepcione! – León interrompeu-a com um sorriso. – Eu já estava me preparando para assistir a um espetáculo como aquele, muitas vezes ao longo de nossa vida. Foi mesmo muito divertido.

Violetta fez uma careta.

– Estou mais interessada no que você quer conversar comigo. O que é?

– O Sr. Bigby enviou a resposta ao meu bilhete.

– E, pela expressão no seu rosto, eu diria que as notícias não são boas.

– Ele se recusa a vender o livro.

Violetta apanhou o bilhete que León lhe estendeu e começou a ler:

– Lamento informá-lo... mas vou me sentir honrado se o senhor visitar minha casa, esta tarde, para ver o livro de orações da rainha Elizabeth. Será um prazer mostrá-lo ao senhor, assim como o restante de minha coleção. – Ergueu os olhos para ele: – León!

– Também estou satisfeito. Já enviei a resposta, aceitando o convite, em meu nome e de minha noiva. Só não sei como conseguiremos o mapa.

– Que tal enfiar o livro no bolso, quando ele não estiver olhando?

León fingiu-se chocado.

– Eu não havia me dado conta de que estou prestes a me casar com uma vilã!

– Nós o devolveríamos assim que retirássemos o mapa. – Violetta protestou. – Mas não vai dar certo. Ele certamente perceberia. No entanto, não precisamos do livro, mas apenas do mapa. Você poderá procurá-lo, enquanto me encarregarei de distrair o Sr. Bigby. Conheço muito sobre livros antigos, por causa de papai, e poderei fazê-lo falar por muito tempo.

– Violetta... – León murmurou com semblante preocupado.

– O que foi? Por que está me olhando assim? – ela inquiriu, apreensiva, tomada pelo pavor de que ele fosse dizer que havia reconsiderado a idéia do noivado.

– Bem, eu... tenho medo de que o mapa não esteja lá.

– Ah...

Violetta sentiu uma onda de alívio invadi-la.

– Já faz muito tempo e o livro passou por dois proprietários, depois de meu pai, além do livreiro. E só Deus sabe quantos Vargas o examinaram. Receio que o mapa tenha sido encontrado e, simplesmente, jogado fora, uma vez que ninguém saberia o que era aquilo.

– Margaret não o deixaria em meio às páginas, pois provou ser mais inteligente que isso. Com certeza, escondeu-o sob a capa, ou prendeu-o a uma das páginas, a fim de garantir que não se perdesse com facilidade.

– Espero que esteja certa. Só não quero que fique desapontada, caso não encontremos nada.

– Não ficarei. – Violetta prometeu, surpresa ao perceber que dizia a mais pura verdade.

Começava a descobrir que seu amor por León ofuscava tudo o mais. Algumas horas depois, foram à casa do Sr. Bigby, que os recebeu com um largo sorriso.

– Sir León! – cumprimentou, com um aperto de mão entusiasmado, deixando evidente que, por maior que fosse a sua fortuna, a visita de um baronete o impressionara. – É uma honra conhecer o senhor, assim como a Srta. Castilho. Uma vez, li um artigo escrito por seu pai, senhorita. Um dos mais iluminados que já encontrei.

Ele era calvo, robusto e cheio de energia.

– Tenho certeza de que estão ansiosos para ver o livro. – comentou e, em seguida, pediu ao mordomo que servisse refrescos na biblioteca, para onde conduziu León e Violetta.

Tratava-se de um aposento quase tão vasto quanto a biblioteca da Mansão Haver1y. Algumas das prateleiras eram fechadas por vidros, com fechos resistentes.

– Estes são os meus livros raros.

Abriu a prateleira central, que abrigava um único livro. Pequenas pérolas emolduravam-lhe a capa de couro. Então, fez um gesto para Violetta, convidando-a a retirar o volume de seu santuário.

Ela obedeceu, fascinada.

– É maravilhoso! – exclamou, esquecendo-se por um breve momento do mapa que procurava.

A descrição de Liliane fora perfeita. Violetta abriu-o com extremo cuidado e leu a inscrição na primeira página:

– “A Sir Everard, meu leal cavaleiro. Elizabeth R.” Minha nossa! Mal posso acreditar que tenho em minhas mãos um livro que já esteve nas mãos da rainha Elizabeth.

– É de tirar o fôlego, não? – o Sr. Bigby indagou com um sorriso orgulhoso.

Depois de examiná-lo por alguns instantes, sem encontrar nada que pudesse chamar a atenção, Violetta entregou o livro a León.

– Realmente, maravilhoso. – ele murmurou, também fascinado.

No mesmo instante, Violetta tomou o braço do Sr. Bigby.

– Importa-se de mostrar-me o restante da sua coleção? Vejo que é imensa. Que tipo de livros são aqueles?

Tratou de levá-lo para longe de León.

Foi fácil fazê-lo falar sobre o que era, evidentemente, seu assunto predileto. Ele mostrou os melhores volumes a Violetta que, graças à educação pouco convencional que recebera, pôde fazer perguntas inteligentes, prendendo-lhe a atenção.

Foram interrompidos por um criado que entrou para servir os refrescos.

Com um sorriso cortês, León devolveu o livro ao seu proprietário, agradecendo por ele ter lhe permitido folheá-lo.

– Se, algum dia, decidir vendê-lo, por favor, avise-me.

– Sim, claro, mas duvido que esse dia vai chegar... a menos que eu morra.

Bigby voltou a guardar o livro em seu lugar de destaque.

Violetta olhou para León, tentando determinar se ele havia encontrado o mapa, mas a expressão dele não revelava coisa alguma. Ansiosa, ela teve de esperar quase uma hora para perguntar-lhe.

– Muito bem? – atacou, assim que entraram na carruagem.

Ele sorriu.

– Bem, examinei a capa e todas as páginas, mas não encontrei nada.

– Ah, não...

– Mas, então, – León continuou – deslizei a unha pelo forro da capa, bem junto à lombada e descobri uma minúscula abertura. Consegui inserir a ponta da unha na fenda e retirei isto.

Ergueu um pedaço de papel muito fino, dobrado várias vezes.

Violetta parou de respirar.

– O mapa?

– O mapa

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.