O Dote Argentino

11 CAP. 10 - Viajem e Apresentações


Violetta reclinou a cabeça no encosto do banco da carruagem e suspirou com prazer. Dormira pouco nas duas últimas noites e o dia anterior fora longo e estafante. Mesmo assim, conseguira cumprir com todas as suas tarefas, inclusive a de pedir desculpas à tia, pelas palavras duras que lhe dissera. O clima entre as duas continuava tenso, mas, ao menos, a mais velha não criara qualquer problema com relação à viagem..

Como já era esperado, Priscilla tentou todas as estratégias que lhe ocorreram para convencer León a viajar na carruagem dos Ferro, junto dela e Ludmila, mas ele recusara, com muita cortesia, alegando que preferia cavalgar.

Violetta, por sua vez, estava mais do que satisfeita com o arranjo feito. A carruagem dos Vargas era muito mais espaçosa e luxuosa do que a da tia, além de melhor conservada. Como o dia estivesse quente, manteve as janelas abertas, o que lhe permitia conversar com León, que cavalgava, ao lado da carruagem. E, quando o barulho os forçava a alguns minutos de silêncio, ela aproveitava para estudá-lo, sem que ele soubesse que estava sendo observado.

Apreciando a destreza com que ele dominava o cavalo, a postura ereta, os cabelos castanhos que refletiam a luz do sol e os traços másculos, não pôde deixar de se perguntar se havia algo de verdadeiro em tudo o que a tia lhe contara.

Quando pararam em uma hospedaria para dar descanso aos cavalos, quatro puros-sangues sensacionais, Hart e Crispin bombardearam León de perguntas sobre os animais.

Rindo, León sugeriu que os meninos conversassem diretamente com o cocheiro.

– Will! – chamou. – Temos dois candidatos a cocheiro, aqui! Por que você e Tommy não dão uma boa aula a eles?

– Agora mesmo, sir Vargas. – o cocheiro respondeu de bom humor, fazendo um sinal para que o assistente, Tommy, se encarregasse dos cavalos. – O que acham de tomar o meu lugar, para saberem como é a vista lá de cima?– perguntou aos gêmeos.

– Está falando sério? – Crispin perguntou, incrédulo, enquanto Hart parecia emudecido pela surpresa.

– Também posso subir? – Olívia perguntou.

Will mostrou-se confuso, sem saber o que responder, mas León sorriu e disse:

– E claro que pode, srta. Olívia. Isto é, se sua irmã não fizer objeção.

Violetta sorriu e assentiu, satisfeita por ele não ter negado um prazer tão simples à menina.

– Olívia oscila entre querer usar penteados sofisticados, saias longas e namorar, e subir em árvores com os irmãos. – ela comentou divertida. – Obrigada por permitir que ela os acompanhe. Sei que muitos consideram impróprio a uma menina fazer uma coisa dessas, mas papai e eu sempre acreditamos que não é certo restringir as atividades de acordo com o sexo da criança. Papai dizia que o que restringe a mente e enfraquece a vontade.

– E evidente que seu pai aplicou tais princípios a você, também.

– Obrigada. Vou receber o comentário como um elogio.

– Mas foi um elogio.

Fitaram-se por um momento, sorrindo um para o outro.

– Olívia! – O grito histérico de tia Priscilla sobressaltou-os. – Desça daí agora mesmo! Violetta, onde está com a cabeça permitido que ela se comporte como um moleque?

– Está tudo bem, tia Priscilla. – Violetta respondeu, tranqüila, enquanto Olívia simplesmente ignorava a ordem da tia. – Sir León deu permissão aos três e o cocheiro está tomando conta deles.

– Mas Olívia... – Priscilla aproximou-se, parecendo mais chocada a cada momento. – Já é lamentável que o lorde de Chesilworth esteja dando um verdadeiro espetáculo, mas uma menina...

– Lorde Chesilworth tem apenas doze anos. – Violetta lembrou-a. – Não se pode esperar que ele se comporte como um adulto, seja qual for o seu título.

– Uma jovem não pode se sentar no banco do cocheiro!

– Tenho idéias bastantes modernas, no que diz respeito a crianças. – León declarou, com um brilho divertido no olhar. – Creio que não devemos restringir a mente, seja de um menino, ou de uma menina. — Priscilla pareceu querer discutir, mas fez um esforço para se conter.

– Muito bem, sir León... Se é esse o seu desejo...

– Vamos entrar, senhoras? – ele sugeriu, já conduzindo-as para dentro. – Tenho certeza de que o dono da hospedaria vai lhes oferecer um salão privativo, além de refrescos.

– Será ótimo. Viajar é tão cansativo. – Ludmila murmurou, enroscando o braço no de León apoiando-se nele, como se houvesse percorrido aqueles quilômetros a pé.

– Podem ir. – Violetta falou. – Vou caminhar um pouco, antes de entrar.

– Excelente idéia. – León concordou. – Deixe-me acompanhar sua tia e sua prima até a hospedaria. Então, caminharei com a senhorita.

Violetta recebeu um olhar fulminante de Ludmila, quando León desvencilhou-se do braço dela e, com gestos impessoais, levou as duas para dentro da hospedaria.

Enquanto esperava por ele, Violetta observou os irmãos e logo se convenceu de que os três encontravam-se em boas mãos, estando aos cuidados de Will.

Quando León se juntou a ela, saíram pela rua principal da pequena vila. Violetta sabia que a tia a repreenderia por caminhar na companhia de León, mas não estragaria o passeio por isso. O que Priscilla lhe contara ainda a perturbava, mas ela tinha esperança de descobrir a verdade, embora soubesse que jamais teria coragem de perguntar diretamente a ele.

– Conte sobre sua casa. – pediu.

– A Mansão Haverly é muito antiga, construída com pedras cinza de Norfolk.

– Nunca estive em Norfolk.

– É um lugar bastante isolado. Há séculos, as pessoas vão para lá, quando querem fugir de alguma coisa. Os pântanos representavam uma grande barreira, no passado. Dizem que é por isso que existem tantas igrejas por lá. Os religiosos se mudavam para lá em busca de paz. E claro que, agora, com os pântanos drenados, a região é mais acessível, mas pouca gente passa por lá, uma vez que não há nada além, exceto o mar.

– Não quero nem pensar no que sua mãe vai dizer, ao receber um verdadeiro bando de visitantes.

– Mamãe já está acostumada com minhas excentricidades. Desde que não seja perturbada, é uma mulher muito tranqüila. Como temos uma excelente governanta, mamãe raramente é perturbada. Na verdade, a Sra. Olga vai me dar um belo puxão de orelha, por tê-la avisado tão em cima da hora, mas mamãe não vai se abalar. Minha irmã, por outro lado, ficará feliz por ter companhia.

– Eu não sabia que tem uma irmã.

– Qualquer um pode ter irmãos. – León replicou com um sorriso zombeteiro. – Até mesmo criaturas rígidas e sem imaginação, como os Vargas.

– Não foi isso o que eu quis dizer. Simplesmente... Não sei explicar por que, mas você parece ser filho único.

Ele deu de ombros.

– Na verdade, fui o único filho, até os quinze anos, quando ela nasceu. Mas, então, eu estava na escola e, por isso, não tivemos um relacionamento estreito, enquanto ela era pequena.

– Qual é o nome dela?

– Francesca. Vai gostar dela. É uma garota cheia de energia e curiosidade.

– Com certeza. – Violetta murmurou, desejando que Francesca gostasse dela também, embora não conseguisse encontrar uma razão lógica para tal desejo.

– Senhor! – um jovem gritou atrás deles, correndo para alcançá-los. – A senhora pediu que eu viesse encontrá-los. Disse que a senhorita deve ter cuidado com o sol e que é melhor voltar à hospedaria.

Violetta suspirou irritada. Sabia que a tia não estava preocupada com sua saúde, mas sim com o tempo que ela estava mantendo León longe de Ludmila. Dirigiu um sorriso ao empregado da hospedaria.

– Diga a ela que já estamos a caminho.

O mau humor da tia ficou evidente no momento em que Violetta e León entraram no pequeno salão privativo, onde Priscilla e Ludmila bebericavam refrescos, enquanto Crispin, Hart e Olívia conversavam e riam, demonstrando excesso de energia.

– Sir León! – Hart cumprimentou entusiasmado. – Foi demais! Eles nos deixaram ajudar a alimentar e dar água aos cavalos e Will até me permitiu segurar o chicote!

– Verdade? Nesse caso, só posso concluir que ele gostou muito de você.

– Ele deu o chicote a cada um de nós. – Olívia explicou, lançando um olhar zombeteiro para o irmão.

– Will disse que poderemos nos revezar, durante a viagem, no banco do cocheiro, com ele. Se o senhor permitir, é claro. – Crispin falou.

– Will disse isso?

– Sim. – Olívia confirmou. – Disse que nossas perguntas são inteligentes e que nunca conheceu crianças como nós. Isso é bom, não é?

– Sem dúvida. – León respondeu com um sorriso. — Se Will fez o convite, não serei eu quem vai impedi-los.

– Quem vai primeiro? – Hart indagou.

Apanhado de surpresa pelo impasse, León olhou para Violetta, em busca de ajuda.

– Eu, claro. – Crispin declarou. – Afinal, sou o lorde Chesilworth.

– Ah! Acha que isso lhe dá o direito de fazer tudo em primeiro lugar?

– Sou a mais velha. – Olívia argumentou. – Além disso, se vocês fossem dois cavalheiros, cederiam seus lugares a uma dama.

– Dama! Você? – Hart zombou.

– Seu argumento não vale, se realmente quer fazer tudo o que os meninos fazem. – Violetta apontou. — Hart poderia dizer que deve ir primeiro, porque é o mais novo, ou porque, como não receberá título, nem terras, deveria ter certas compensações. Minha sugestão é que decidam no jogo do palitinho.

– Excelente sugestão. – León concordou grato pela idéia.

No final, Hart foi o primeiro, seguido por Olívia e Crispin, que assumiu um ar de nobreza, como se houvesse cedido o seu lugar aos irmãos.

Com as crianças se revezando junto ao cocheiro, sobrou espaço na carruagem e León aproveitou a oportunidade para amarrar seu cavalo na traseira e viajar junto de Violetta. Sem dúvida, Priscilla e Ludmila estavam furiosas, mas não havia nada que pudessem fazer, uma vez que viajavam em carruagens separadas.

Na verdade, Violetta e León não ficaram sozinhos nem por um segundo, uma vez que tinham sempre duas das crianças dentro da carruagem. Porém, podiam ao menos conversar sobre o que lhes agradasse, como a dificuldade de interpretar o mapa encontrado, a possível localização do segundo mapa e, claro, do tesouro.

Pararam para almoçar, já pelo meio da tarde, em Banbury. Violetta observou, divertindo-se um bocado, as manobras da tia e da prima para se sentarem ao lado de León, monopolizando a companhia dele e excluindo Violetta. Sentada do outro lado da mesa, ela viu os olhos de León tomarem-se sonolentos, enquanto Ludmila falava sem parar, fazendo comentários infantis e contando histórias absolutamente desinteressantes.

Assim que terminaram de comer, ele se pôs de pé, sem esconder o alívio, e declarou que deveriam apressar-se, se quisessem chegar ao seu destino antes do anoitecer.

Infelizmente, tal objetivo não foi alcançado, uma vez que a carruagem dos Ferro teve uma de suas rodas quebradas. Depois de deixá-la em conserto, seguiram viagem, com Priscilla e Ludmila na carruagem dos Vargas. Ocorreu a Violetta que a tia poderia ter sido perfeitamente capaz de providenciar o pequeno acidente, a fim de juntar-se a León. Porém, a alegria das duas durou pouco, pois, percebendo que a carruagem ficaria apinhada, cavalheiro que era, ele voltou a cavalgar.

– Covarde. – Violetta sussurrou, quando ele passou por ela, ao sair da carruagem.

Como resposta, recebeu um rápido sorriso de cumplicidade.

Chegaram após o anoitecer em uma mansão, situada perto de Northampton. Era a casa de lorde e lady Philby, tios de León. Lady Philby era uma mulher tão esnobe e tediosa, que até mesmo Priscilla encontrou dificuldade em disfarçar os bocejos. O lorde, por sua vez, era um tipo bonachão, que realizou a proeza de beliscar os traseiros das três jovens presentes. Foi um grande alívio para todos quando, encerrado o jantar, alegando cansaço da viagem, puderam retirar-se para seus quartos.

León acompanhou Violetta até o quarto que ela dividiria com a irmã e, uma vez diante da porta, inclinou-se para beijar-lhe a mão, sussurrando com uma piscadela:

– Toda família tem suas ovelhas negras, não concorda? — Mesmo exausta, Violetta não pôde conter uma gargalhada.

A torre da Catedral Ely apontava para o céu, chamando a atenção dos passantes, mesmo a distância. Com a cabeça para fora da carruagem, Viioletta emitiu um sonoro suspiro.

– Ah... É mais linda do que imaginei!

Virou-se para León com os olhos brilhando. Aquele era o terceiro dia de viagem, mas o cansaço se dissipara diante da beleza da catedral, reluzente ao sol da tarde.

– A melhor época do ano, para se ter uma vista perfeita, é o outono, ao pôr-do-sol. A torre ergue-se em meio à neblina e o sol poente parece tingi-la de dourado. Assim, é fácil compreender porque foi, centenas de anos atrás, um refugio para aqueles que eram caçados.

– Eely. – Crispin falou com pronúncia carregada, fazendo uma careta. Então; virou-se para Olívia e disse: — Cuidado, Livy, ou as enguias virão pegá-la!

– Agora, isso seria impossível. – León corrigiu-o com um sorriso. – Mas você está certo, a palavra “Ely” vem de “eel”, que significa enguia. Originalmente, Ely era uma ilha, em meio ao pântano. As enguias eram o principal alimento da população local.

– Podemos entrar? – Olívia perguntou.

– Dizem que a catedral é linda, por dentro. – Violetta comentou.

– E é. Prometo trazê-los, um dia desses, pois a Mansão Haverly não fica longe daqui. Hoje, creio que seja melhor seguirmos viagem.

– Sim, tem razão. – Violetta concordou.

Crispin também assentiu em concordância. O entusiasmo pela viagem diminuíra sensivelmente ao longo daqueles três dias, até mesmo para os incansáveis gêmeos.

Depois de atravessarem a pequena vila que circundava a catedral, Violetta continuou olhando pela janela, deleitando-se com a paisagem.

– Tudo é muito diferente, aqui. Os terrenos são tão planos. O que é aquela saliência, que parece acompanhar a estrada por muitos quilômetros?

– E um rio.

– Um rio?

– Sim, as margens dos rios são mais altas que os terrenos ao seu redor. Quando os pântanos foram drenados, no século dezessete, foi preciso elevar as margens dos rios, para evitar que transbordassem.

– Por que os pântanos foram drenados? – Crispin perguntou, decepcionado. – Eu gostaria tanto de vê-los.

– Você verá. Ainda existe um pântano em nossas terras. O Vargas daqueles tempos, pai de sir Edric, que foi noivo de Margaret, não aprovava a idéia da drenagem. Quando o conde Bedford trouxe Vermuyden, um especialista holandês, para drená-las, meu antepassado manteve-se firme. Quando ele morreu, o filho dele, que foi o noivo abandonado, contratou outro holandês para drenar nossas terras. No entanto, em respeito à memória do pai, deixou intacta uma pequena parte do pântano. Iremos até lá, enquanto estiverem hospedados na Mansão Haverly.

– Não compreendo por que queriam livrar-se do pântano. – Crispin persistiu.

– Dinheiro, meu caro. Como sua irmã poderá lhe contar com detalhes, os Vargas sempre tiveram verdadeira paixão por dinheiro. A terra obtida pela drenagem dos pântanos é preta e rica para o plantio. No lugar de muitos acres de pântanos improdutivos, agora temos muitos acres de lavoura, bastante lucrativos.

– Gostaria de ter visto a terra como era antes.

– Para dizer a verdade, Crispin, eu também – León confessou com uma pontada de nostalgia. – Lembro-me com saudade dos tempos que passei no pântano Blackley.

– O que são todos aqueles moinhos? – Olívia perguntou. – Por que há tantos deles?

– Eram usados para bombear a água dos pântanos. E claro que não são mais usados, uma vez que, hoje, existem máquinas a vapor para realizar esse trabalho. No século dezessete, existiam muitos mais, drenando a terra continuamente, a fim de impedir que a água retornasse.

– É fascinante. – Violetta comentou. – É como se estivéssemos em outro país.

– Muitos dizem que uma região pantanosa é um mundo à parte.

Pouco mais de duas horas depois, deixaram a estrada e seguiram pela alameda que levava à Mansão Haverly. Violetta não parava de suspirar diante da beleza da vegetação, cuidada com esmero. León sorriu, satisfeito pela reação dela.

Mais adiante, a alameda terminava bem em frente a uma magnífica casa de pedras cinzentas, parcialmente cobertas por hera. Ao mesmo tempo em que sentiu prazer ao admirar a beleza da propriedade, Violetta lamentou o final da viagem. Haviam sido três dias cansativos, mas, também, maravilhosos. Ela passara a maior parte do tempo na companhia de León e longe da tia e da prima.

Vários criados postaram-se diante da entrada, esperando que a carruagem parasse. Então, abriram a porta do veículo e baixaram os degraus. Um homem de idade aproximou-se, com seus cabelos brancos e porte digno.

– Bom dia, sir León. Seja bem-vindo. – declarou, curvando-se.

– Bom dia, Shivers. Gostaria de apresentar-lhe meus convidados: Srta. Violetta Castilho, Srta. Olívia, lorde Chesilworth e master Hart, ali, sentado com o cocheiro. Não pense que está enxergando em dobro. O lorde e master Hart são gêmeos.

– Evidente, senhor. — o mordomo reconheceu, voltando a curvar-se.

A segunda carruagem chegou e León tratou de apresentar a Sra. Priscilla Ferro e Ludmila. Naquele momento, algo azul atravessou a porta com a velocidade de um raio.

– León! – a menina gritou, atirando-se nos braços dele.

– Francesca! – León abraçou-a e deu-lhe um beijo no rosto. – Você nunca vai aprender a se comportar como uma dama? Meus convidados vão pensar que é um moleque!

Francesca virou-se para o grupo reunido, com um sorriso contagiante. Era bonita, com cabelos escuros e Lisos e os olhos Castanhos.

– Estou muito feliz em vê-los! – declarou. – Faz muito tempo que León não traz ninguém para nos visitar e a vida é muito desinteressante, aqui. – Fez uma pausa, parecendo ligeiramente embaraçada. – Perdoem-me. Acho que me expressei mal. Eu ficaria feliz em vê-los, mesmo que a vida aqui fosse agitada. Mas, como não é, confesso que me sinto duas vezes feliz!

Antes que León pudesse apresentar a irmã, uma mulher mais velha apareceu na porta, sorrindo, os braços estendidos.

– León, meu querido!

– Mamãe. – Ele também sorriu e beijou-a. – Você está linda, como sempre.

– Você é um amor! Agora, apresente-me a todos.

– Sim, León, por favor. – Ludmila pediu, aproximando-se para enlaçar o braço dele de maneira possessiva. – Estou ansiosa para conhecer a sua família.

León fitou-a surpreso. Naquele momento, outra mulher apareceu. Tinha vinte e poucos anos e, embora não fosse feia, vestia o mais simples dos trajes.

– Gery! – lady Vargas chamou-a. – Venha ver León. Ele acabou de chegar com os convidados.

– Sim, eu vi... É por isso que... Bem, não quero atrapalhar...

– Bobagem. – lady Vargas assegurou-a. – Você nunca atrapalha. Afinal, já é praticamente da família. Não é, León?

A jovem corou, mas não escondeu o prazer provocado pelas palavras da mãe de León.

– A Srta. Gery estava nos fazendo uma visita, quando vocês chegaram. – lady Vargas explicou. – Ela cuida de Silverwood e é uma grande amiga da família.

Violetta perguntou-se o que seria Silverwood e do que a jovem cuidava.

A pergunta foi imediatamente respondida por Francesca:

– Sim, ela cuida das crianças de León, o que não é fácil!

León sorriu e, desvencilhando-se de Ludmila, tomou a mão da Srta. Gery.

– Bom dia, Srta. Gery. Como vão as crianças?

– Bem, sir León, mas sentindo a sua falta.

– Tratarei de visitá-los amanhã, pela manhã. Agora, deixe-me fazer as apresentações.

Enquanto ouvia esse breve diálogo, Violetta permaneceu imóvel, atordoada. Seu coração parecia pesar uma tonelada e seu estômago ameaçava criar-lhe problemas.

Não conseguia raciocinar, pois em sua mente ecoavam as palavras de Francesca: “as crianças de León”.

Era verdade! León era tão promíscuo, que mantinha uma casa repleta de filhos ilegítimos, perto dali.

Violetta não acreditara no que a tia lhe contara, pois a história lhe parecera absurda demais. Virou-se para tia Priscilla, que balançou a cabeça com ar de reprovação.

León prosseguia com as apresentações e Violetta esforçou-se para sorrir e cumprimentar a todos. A mãe dele cumprimentou-a com tranqüilidade, levando-a a perguntar-se como ela podia falar de Silverwood com tamanha naturalidade. Na opinião de Violetta, acomodar uma porção de filhos ilegítimos, praticamente diante da porta da própria mãe, era lamentável. Era difícil compreender como a mulher aceitava tal situação com aquela aparente calma inabalável.

Lady Vargas sugeriu que todos entrassem, mas a Srta. Gery recusou.

– Tenho certeza de que vocês têm muito o que conversar. Voltarei outro dia. – Dirigiu um sorriso aos convidados. – Espero que vocês visitem Silverwood, enquanto estiverem aqui.

Tia Priscilla ficou boquiaberta, mas Violetta conseguiu murmurar:

– Sim, claro. Obrigada.

Assim que a Srta. Gery se afastou, lady Vargas insistiu:

– Vamos entrar, onde teremos mais conforto. Tenho certeza de que estão exaustos da viagem.

– Eu não. – Ludmila declarou, com um de seus sorrisos tolos. – Sir León fez com que a viagem se tornasse fácil e agradável. – Virou-se para a irmã de León. – Para ser sincera, estou ansiosa para ter uma longa conversa com Francesca. Posso chamá-la de Francesca ? León falou tanto de você, que sinto como se nos conhecêssemos há muito tempo. – Passou o braço pelo da menina e, praticamente, arrastou-a na direção da porta. – Não tenho a menor dúvida de que seremos grandes amigas.


Francesca mostrou-se um pouco confusa, mas acompanhou Ludmila e todos as seguiram. Tia Priscilla segurou Violetta pelo braço, esperando que os demais entrassem.

– Eu não lhe disse? – sussurrou ao ouvido da sobrinha.

– Sim, titia, a senhora disse.

– Espero que tenha levado minhas palavras a sério.

– Sim. – Violetta garantiu, tentando ignorar a náusea que a invadira. – Não se preocupe. Não há nada entre sir León e eu. E nunca haverá.