O Dominador de Sonhos
4 Capítulo 3
Notas iniciais
Tiago abriu os olhos lentamente, fitando o teto e sentindo algo em seu rosto o incomodar.
— A bela adormecida finalmente acordou.
Virou os olhos na direção da voz, vendo Amanda de braços cruzados encostada no batente da porta. Não se lembrava de como chegara até o apartamento.
— O que aconteceu? — ele perguntou.
— Não me surpreende que não se lembre. — Ela franziu o nariz. — Você começou a surtar dizendo que sua mãe estava morta e foi sacudi-la. Eu tentei explicar que se a acordasse seu pai ficaria preso para sempre, mas você não me ouvia. Então te puxei para longe dela, com um pouco de força demais, talvez, e, por acaso, você foi em direção a uma quina na parede e cortou a testa.
O garoto tocou o curativo em sua testa, entendo o porquê do incômodo. Abriu um meio sorriso.
— Sei. Eu estava desmaiado e você me trouxe até aqui. Vai me dizer que não se aproveitou?
— Não curto enfermos. Além disso, você não estava exatamente o modelo de sedução com todo o sangue e tal.
Ele arqueou as sobrancelhas.
— Mas não tem nada mais importante para me perguntar? — ela indagou.
— Sobre toda aquela cena? Certo, como foi que fez aquilo?
Amanda suspirou.
— Não foi uma brincadeira, Tiago. Aquilo...
Tiago observou a frase da garota se perder quando ela ficou paralisada. Seus olhos se vidraram e sua boca permaneceu entreaberta. Seus joelhos foram de encontro ao chão, o corpo parecendo fraco.
— Tudo bem, eu acredito em você, mas não faça aquilo, certo? Amanda!
Levantou-se, indo em direção a ela e sacudindo seus ombros.
— Não desapareça, está ouvindo? Amanda!
Sentiu a pele extremamente fria da morena através do pano da blusa e a puxou para o colo, levando-a até a cama e jogando o edredom por cima de seu corpo.
Sentou-se ao seu lado, sem saber o que fazer. Quando ela se mexeu novamente, seu corpo se contorceu antes que as convulsões começassem.
Ele nunca havia visto ninguém ter convulsões, então tudo que pensou em fazer foi ligar para Melissa, a mãe de Alexia. A médica não atendeu, deveria estar trabalhando. Tentou o celular da Alexia, mas também foi para a caixa postal.
Num ato instintivo, passou para cima de Amanda, travando suas pernas com as panturrilhas e segurando seus braços. Para sua surpresa, os movimentos foram cessando e a respiração dela voltou ao normal.
Deixou sua cabeça pender para frente, soltando um suspiro e relaxando os músculos contraídos.
— Você não sabe mesmo o que fazer com alguém que está tendo um ataque, não é? — a garota sussurrou.
Ela soltou uma risada fraca enquanto as pontas do cabelo dele encostavam-se ao seu rosto.
— Saia daí, está me fazendo cócegas.
Tiago levantou a cabeça, percebendo que era a primeira vez que via um sorriso genuíno da garota. Ela abriu os olhos e ele se aproximou sem pensar, querendo só...
Ele sentiu uma mão contra seu rosto e foi impulsionado para longe. Caiu sentado no chão e levantou os olhos assustado, observando Amanda de pé do outro lado do quarto com o corpo contra a parede. Ela parecia assustada. Não assustada apenas como se tivesse sido pega de surpresa, mas com medo.
— Amanda... — Não sabia o que dizer, não entendia qual era o problema.
Ela pensara que ele a havia prendido no colchão de propósito? Estava com medo dele?
— Não — ela disse como se lesse seus pensamentos. — Não é isso. Esqueça o que houve aqui, não vai acontecer de novo.
Esquecer seu ataque? Esquecer que quase a havia beijado? Esquecer o medo que vira nela? Por que não podia ser mais clara?
Levantou devagar, percebendo que toda a agitação havia arrancado seu curativo. Sentou na cama e observou enquanto ela pegava uma caixa e se aproximava, cuidando do machucado sem dizer nada.
— Amanda... — Ele a segurou pelo braço e procurou seus olhos. — Você tem alguma doença?
— Não — respondeu de imediato.
Ela pareceu arrependida de ter respondido tão rápido.
— Não me esconda as coisas se quer que eu acredite que tudo isso é verdade. Não posso acreditar que o que houve ontem foi verdade se você age como se até sua crise tivesse sido uma espécie de brincadeira sem sentido. — Tiago procurou os olhos dela.
— Não foi uma brincadeira. — Amanda trincou os dentes. — Mesmo que eu quisesse explicar, não poderia; e se não acredita nem no que seus próprios olhos vêem, como acreditaria no que eu teria a dizer?
— Acreditaria se me pedisse. — Viu a expressão dela vacilar por um instante, só para voltar para a indiferença.
— Mas não estou pedindo.
–X-X-X-
— Quem inventou o sorvete foi um gênio — afirmou Alexia, colocando uma colher cheia de sorvete de macadâmia na boca.
Lorena franziu o cenho.
— Me lembre de pesquisar isso no Google depois. Precisamos aclamar esse cara.
— Ou essa mulher, não me venha com machismo.
A morena revirou os olhos.
— Tu entendeu, guria.
Alexia sorriu.
— Sabe, é bom estar numa tarde das garotas, já cansei de andar com os meninos para todos os lados.
— Mentira! — Lorena apontou a colher na direção da amiga, balançando-a freneticamente. — Tu nunca se cansa daqueles guris!
Dessa vez, a loira gargalhou, dando de ombros. Ela observou a amiga por alguns instantes. Lorena tinha a pele morena e os cabelos encaracolados e compridos; as duas tinham a mesma altura e as personalidades eram bastante parecidas. Embora fosse nova, havia terminado o ensino médio mais cedo que o normal e agora viajava com um grupo de dança fazendo apresentações; assim, se aproveitava dessas viagens para visitar Alexia.
— E o Tiago? — indagou, erguendo as sobrancelhas de forma maliciosa.
Alexia remexeu o sorvete.
— Bah! Não me venha com esses assuntos indesejados, guria — disse, tentando imitar a gaúcha, mas acabando por exagerar no sotaque.
Lorena poderia ter caído da cadeira com a risada que se seguiu diante daquela frase. Alexia reagiu instantaneamente, sem nem ao menos conseguir se lembrar do quê estava rindo. Era sempre assim: alguma coisa idiota era o suficiente para arrancar risadas de ambas quando estavam juntas, como se a simples presença uma da outra as deixassem felizes.
As duas pegaram seus potes e saíram rapidamente da sorveteria, ao notar que todos já viravam os rostos em sua direção pelo grande barulho.
— Você deveria parar de fazer tanta baderna em um estabelecimento na minha cidade, eu agradeceria — Alexia resmungou.
— Foi você quem começou, Alexia. E não me importo, ninguém daqui me conhece. — E piscou para a loira.
— Como eu sofro — murmurou, suspirando.
Levantou a cabeça sorrindo, e viu Leo surgindo no meio das pessoas que andavam na calçada. Ergueu a mão para chamar sua atenção. O garoto abriu um sorriso largo... e então se desfez diante de seus olhos, como se não tivesse passado de uma imagem holográfica.
Seu corpo amoleceu completamente e Lorena pôs-se rapidamente ao seu lado, suportando parte do peso.
— Lexi, o que foi? — perguntou, preocupada.
— Mas eu vi...
Em questão de segundos, Leo apareceu no mesmo lugar que ela vira, e seu corpo todo se retraiu. Lorena seguiu sua linha de visão e levantou o braço, chamando a atenção do garoto. Ele sorriu largamente, da mesma forma que Alexia vira antes, e depois se aproximou.
Assim que pôs os olhos na loira, adiantou-se para segurá-la, franzindo o cenho.
— O que foi que houve? — o garoto perguntou.
— Eu não sei, ela pareceu ter visto alguma coisa e depois quase caiu — respondeu Lorena.
— Lexi? — ele chamou carinhosamente.
— Mas eu vi... — Alexia repetiu.
— Vamos te levar pra casa — disse o loiro, puxando-a para o colo.
Ela continuou parecendo perdida por todo o caminho e os dois amigos caminharam em silêncio, mal tirando os olhos da garota. Na cabeça de Alexia, ela tentava entender o que havia visto, e se por acaso confundira algum desconhecido com seu amigo, mas era muita coincidência este ter aparecido logo em seguida no mesmo lugar. E a loira nunca confundiria o sorriso de Leo, era nisso que acreditava.
Melissa estava no hospital trabalhando, e Leo sentou Alexia no sofá, agachando-se na sua frente. Lorena sentou-se ao lado dela, observando-a.
— Você está bem? — o garoto perguntou.
Ela moveu a cabeça levemente de forma afirmativa.
Alexia observou enquanto sua mãe entrava em casa, parecendo cansada: ela passara a noite de plantão. A mais velha observou a cena e franziu o cenho, chamando o nome da filha.
A loira piscou; a cena à sua frente se dissolvendo. Não havia ninguém ali, sua mãe não havia chegado, ela estava enlouquecendo. Encolheu-se, puxando os joelhos contra si, e escondeu a cabeça, sentindo lágrimas se formarem em seus olhos.
— Lexi. — A voz de Leo soava terrivelmente perturbada.
Ele e Lorena levantaram a cabeça quando a porta foi aberta, e Melissa entrou. A mãe de Alexia olhou a cena e franziu o cenho.
— Ale? O que foi que houve? — a médica perguntou.
A garota se encolheu mais ainda, sem conseguir raciocinar, sem conseguir entender o que estava acontecendo. Não queria levantar os olhos, tinha medo de tudo sumir ao seu redor.
Sentiu os braços de Lorena apoiarem seu lado direito e, alguns instantes depois, sua mãe do lado esquerdo. Aquilo foi o suficiente para convencê-la de que todos estavam realmente ali, que não era nenhuma invenção de sua mente.
Sentiu o soluço subir por sua garganta, e chorou enquanto seu corpo todo tremia. De medo e de alívio porque a mãe não desapareceu novamente mesmo depois de estar tomando-a nos braços.
— Ale, o que foi que houve? — perguntou novamente, de forma delicada, quando a filha já estava mais calma.
— Eu estou ficando louca, mãe. — Fungou, tentando manter a voz estável. — Você já consertou tanta gente, acho que está na hora de me consertar.
–X-X-X-
— A história dos Morelli não começou como outra qualquer, ela começou nos sonhos — Amanda falou.
— Nos sonhos? — Tiago abriu um sorriso distorcido.
— Houve um dia em que um garoto chamado Benjamin Morelli desenvolveu a capacidade da Dominação. Através do sonho das pessoas, ele atingiu uma camada mais profunda do subconsciente, absorvendo as lembranças para se teleportar até o momento em que elas ocorreram.
— E você quer dizer que foi isso o que meu pai fez? Com o globo azul. — Ele arqueou as sobrancelhas.
Amanda revirou os olhos, jogando as pernas no encosto do sofá e fitando o teto.
— Termine de ouvir a história! — Embora parecesse irritada, ela estava mais gentil que o de costume. — O único problema é que ele só descobriu o que podia fazer quando já estava perdido num passado muito distante.
“Perdido entre as épocas, quando chegou ao limite de suas próprias lembranças, utilizou os sonhos de outras pessoas, tentando entender quem era e onde estava, mas atingiu um limite.”
Enquanto contava, a garota via as mesmas imagens em sua mente de quando ouvira a história pela primeira vez. Na época, tratou como um conto qualquer, sem saber que aquela era a história real do garoto que se perdera no passado.
Tiago arrancou Amanda de seus devaneios quando levantou-se para ir até a cozinha.
— Tem detalhes demais para que eu acredite que realmente aconteceu.
— Ben deixou um diário. — Ela terminou de sentar invertida no sofá, observando o Morelli de cabeça para baixo. — Ele retomou a memória com o passar do tempo, mas já estava com a vida construída ao lado de uma mulher. Descobriu mais sobre seu poder, e, desde que teve o seu primeiro herdeiro, se tornou um ensinamento que é passado pelas gerações.
— É mesmo? Então porque o próprio Vinícius não me contou? — Começou a remexer os armários.
— Eu não sei, pergunte a ele. Seu avô o ensinou o Domínio dos Sonhos; não sei te dizer por que seu pai quebrou a regra, mesmo sabendo o que poderia acontecer se você recebesse sua herança sendo completamente ignorante.
Tiago desistiu de comer depois de fitar a geladeira vazia. Suspirou e pegou o celular.
— Esse lugar tem algum problema com celulares? Quando não está sem área, não consigo fazer ligações.
— Talvez as pessoas simplesmente não queiram te atender, Tiago. Aceite o fato.
— Por que Alexia não iria querer me atender? — murmurou.
Amanda abriu um sorriso.
— Enfim, Ben descobriu que as sensações estranhas no primeiro dia foram causadas pela vida que estava sendo forçada para seu corpo e alma. Ele então pesquisou, da forma como podia na época, até descobrir que o verdadeiro filho de Joseph havia adquirido uma doença rara e morrido no feudo onde fora criado, na mesma época em que Benjamin chegou àquele passado. Aparentemente, Ben tomou para si a vida do outro garoto.
— Então ele morreu por causa da chegada de Ben? — Tiago recostou-se no balcão, olhando Amanda de cabeça para baixo no sofá.
— Não é nada confirmado, já que nunca existiu outro fenômeno como esse para ser comparado: depois de Ben, o passado nunca mais foi alterado.
— Então Ben conseguia falar na tal língua arcaica da época porque o verdadeiro filho do cara sabia?
— Isso mesmo. Mas, como suas memórias dos dias atuais nunca deixaram de existir, ele relembrou a língua portuguesa, e com o tempo a ensinou para sua mulher. Eles nunca passaram esse conhecimento adiante, achando que ensinar aos seus filhos poderia afetar ainda mais o futuro, mas também usavam esse conhecimento, caso precisassem conversar secretamente.
— E como exatamente você sabe tudo isso sobre a história da minha família?
Amanda abriu um sorriso quase diabólico.
— Já disse que estou aqui para investigar seu pai.
— Certo, muito convincente — ele murmurou.
— Por que mesmo depois de tudo o que viu ainda não consegue acreditar?
Tiago deu de ombros, caminhando até uma das mesas e observando os papeis bagunçados. Havia recortes de jornais e revistas com fotos suas e de seus pais. Fez uma careta.
— Só é difícil enxergar em você algo como uma agente secreta — explicou.
— Não é tanto como nos filmes policiais. — A fala dela o fez sorrir.
— E o que é isso? — Levantou um livro com capa de couro.
— Ah, o diário de Ben.
— O quê? — O garoto parecia incrédulo. — É brincadeira, não é? O cara viveu no feudalismo, Amanda!
— Ele atravessou o tempo até o feudalismo. Te surpreende tanto assim que o diário ainda esteja aqui?
O Morelli ponderou, decidindo que não questionaria mais nada que acontecesse de anormal. O mundo estava de ponta cabeça, e não cabia a ele consertá-lo. Aceitar era o melhor a fazer.
— Tudo bem sobre o diário estar inteiro. Mas isso não deveria estar com a minha família, com o meu pai?
Amanda se levantou, parecendo agitada, indo em direção à porta.
— Nós pegamos para a investigação. — Balançou a mão de forma despreocupada. — Estude o diário e os papeis, preciso sair, tenho um compromisso.
— É sério? Quer que eu fique aqui vendo toda essa velharia?
— Não reclame, Tiago! Não foi você quem aceitou ajudar? Então faça as coisas direito! — O mau humor dela havia retornado com tudo.
Ele suspirou.
— Certo, mas... — Ouviu o som da porta batendo.
A Twennis já havia saído, e não havia mais nada para fazer no apartamento — nem mesmo o que comer.
Iria ao supermercado depois. Naquele momento, se sentiu impelido a ler o diário de Benjamin. A capa de couro estava tão intacta quanto as páginas branquíssimas de dentro. Ele o folheou por um instante, enquanto caminhava até uma poltrona. A letra no começo era um garrancho quase ininteligível, e se tornava cada vez mais bem escrita e rebuscada com o avanço das folhas.
Se jogou na poltrona macia, resolvendo começar pelo começo, a história de seus antepassados estava toda lá, afinal.
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