O Domador de Feras
1 Capítulo 1
Notas iniciais
E boa leitura.
O jovem foi arrastado pela grande sala do trono. Tinha os cabelos castanhos cheios de sangue e seu capuz triangular fora retirado. Os olhos, antes cor verdes e brilhantes, estavam virados para o chão, sem coragem de encararem o rei.
Havia poucas testemunhas na sala do trono. O rei havia cuidado disso. O próprio rei, com os cabelos loiros e olhos azuis claros era um. O segundo era o homem postado do lado direito do trono, atrás do rei. O Conselheiro Roland tinha cabelos negros e olhos escuros, chegando perigosamente da vermelhidão. Ele vestia as mais caras roupas encontradas ao redor do castelo. As outras oito testemunhas eram os guardas, que se dispunham pela grande sala real, imóveis, porém atentos. Dois deles carregavam o jovem trovador entre eles.
A sétima e última testemunha era Fargen, o escrivão real. Ele estava sentado em uma pequena mesa de carvalho aos pés do trono, com a pena pousada no pergaminho, pronta para escrever.
O rei suspirou ao ver o jovem. Virou-se para seu conselheiro:
— Ora, Roland. Olhe para o jovem. Vinha cantar aqui vez ou outra. Alegrava este castelo como nenhum trovador conseguiu. Dê-lhe uma chance.
Somente o conselheiro ouviu os sussurros do rei. E ele os ignorou. Falou para que todos no salão ouvirem:
- Está iniciado agora o julgamento de Peter Vancoulask. Acusado de desmanchar a imagem do rei por canções obsenas e sem valor algum para a sanidade moral.
O rei Ruther afundou-se em seu trono. Vestido com as mais finas sedas de Terum, ele se sentia com vergonha, diante do amigo, que julgava sem necessidade; o próprio Ruther havia ajudado o jovem a compor a pequena canção.
O conselheiro, sabendo que rei tinha coração fraco diante de seus amigos, tomara a frente, sendo mais ousado do que deveria à presença de seu rei.
Fargen olhou para o rei, impotente, mesmo sentado no grande trono. Começou a falar, vendo que o suserano não coragem para continuar.
- Peter você nega as acusações ou faz observações a seus atos?
Pela primeira vez desde que chegara ao castelo, o trovador ergueu os olhos. Estavam em uma cor horrenda de piche. Porém, o jovem somente negou com a cabeça, engolindo em seco. O rei afundou mais em seu trono.
- Há duas opções — continuou o escrivão – Ou os dedos, ou a língua.
O conselheiro ergueu o queixo imperiosamente, esperando que rei sentencia-se o jovem. Lágrimas corriam pelo rosto de Peter.
O Ruther se apiedou de seu amigo.
- Poderia cantar para nós a canção que eu mesmo ajudei a compor? – perguntou.
O escrivão olhou com surpresa para o suserano. Ninguém havia comentado da mão do rei sobre a pequena canção.
Um dos guardas alcançou o alaúde do jovem, que chorando o agarrou. Sentiu-se aliviado por ter o instrumento em mão, porém também com medo. Com medo do que o seu rei pudesse lhe fazer se tocasse novamente a música.
O rei ajeitou-se no trono, sem ter mais medo da condenação de seu amigo. Fez um gesto para que o cantor começasse.
A música encheu o salão em suaves acordes, lentos, porém marcantes, e a voz de Peter logo acompanhou seu talento musical.
Vosso rei tem prazer em três coisas
Três coisas que a maioria consideraria loucas
A primeira é batalhar
Lutar, lutar e lutar
Porém não para matar
E sim para assombrar
A segunda é cavalgar
Não com um destino
E sim como um andarilho
Sem rumo e sem lugar
Para o que encontrar
E a terceira á não ser rei
Pois rei manda e governa
E nosso amigo Luta e batalha
Para assombrar sem rumo...
A canção foi perdida entre os soluços do jovem cantor, que, temeroso, chorou, se ajoelhando. Os guardas que o seguravam quase se bateram, diante da inesperada força; o rei fez sinal para que largassem o jovem trovador.
Peter caiu no chão, deixando que seu medo tomasse conta dele em seus soluços. O conselheiro ergueu cada vez mais o queixo, que havia deixado baixar quando o rei pedira ao trovador que tocasse a bela música.
- Está claro que isso é uma violação das leis... – começou ele.
- Porém eu o ajudei – interrompeu o rei, tomando uma postura real – sendo assim, Peter Vancoulask teria direito ao perdão real.
- O perdão real não pode ser usado em casos de morte. – falou o conselheiro. O conselheiro entrou na questão. Falou com o rei em uma tensão que chegava perigosamente do medo.
- Senhor, nós temos de matá-lo. Se o deixarmos viver, quebraríamos uma tradição que passou durante séculos. Seus ancestrais não permitiriam que você...
- Eu creio que a tradição possa ser quebrada para salvar uma alma inocente Roland – falou uma voz zangada atrás do trono. Todos se viraram para ver, escondido nas sombras, Raposa Dourada.
O jovem não tinha mais que dezesseis anos, cabelos negros e olhos verdes. Usava uma túnica de veludo verde, com o símbolo de seu comando. Uma Raposa Dourada correndo. Também usava uma capa azul, com o brasão real: um leão rugindo.
A máscara dourada lhe cobria metade do rosto, deixando descobertos uma bochecha, os dois olhos, a boca, metade de seu nariz e a mechas negras que caiam por cima da máscara.
O rei sorriu aliviado. Além de ser a Mão Direita do rei, Raposa Dourada era um grande amigo do rei. Este lhe conferiria vida sem pestanejar.
- Ora, meu amigo, — falou ele, com a voz grave e límpida – tome seu lugar neste julgamento.
Houve, por um momento, um silêncio inquietante enquanto Roland tomava seu lugar consumado, do lado esquerdo do trono, e Raposa Dourada se dirigia a parte direita do trono, apoiando-se desleixadamente no trono dourado lindamente esculpido com cabeças de leões.
- Qual é seu nome? – perguntou Raposa Dourada mansamente. Raramente o jovem gritava.
- Peter Vancoulask – murmurou o trovador. Ele se sentia cada vez mais envergonhado. Principalmente por causa do adolescente que o julgava.
Raposa Dourada olhou para o rei, com uma sobrancelha levantada.
- Ele é um amigo! Quantas vezes eu o vi tocar com você!
Uma coisa que Raposa Dourada não entendia era a traição com um amigo e injustiça. Para ele, os dois estavam ocorrendo diante de seus olhos.
O rei se encolheu diante das palavras duras do amigo. Raposa Dourada tinha certa... Amizade profunda com o rei. A prova da amizade dos dois era a máscara dourada que cobria metade do rosto do jovem, que lhe fora dada de presente no dia em que Raposa Dourada se corte.
O rei, tomando uma decisão, falou:
- Eu, rei Rethur, Senhor das terras de Terum, diante dos olhos das testemunhas aqui presentes sentencio Peter Vancoulask, e toda sua família a expulsão, quebrando assim, a tradição de meu pai e dos antes dele.
Os três nobres na sala falaram ao mesmo tempo.
- O senhor não pode quebrar o protocolo, Vossa majestade!
- Ele não merece isso, vossa majestade!
- O senhor deve matá-lo!
Todos se concentraram no homem que gritara a última frase. Quando ele falou a palavra matá-lo, e falou de modo tão desesperador, como um homem protegendo sua própria vida.
Raposa Dourada deu um meio sorriso, sua marca registrada, Fargen segurou a risada, e o rei ergueu uma sobrancelha para seu conselheiro.
- O que você falou? – perguntou o rei, segurando a risada.
O conselheiro não falou nada, o rubor tomando conta de seu rosto. Com o corpo completamente ereto, o conselheiro do rei saiu da sala. O jovem a ser julgado, se ajoelhou e beijou os pés do rei.
- Obrigado, meu senhor, obrigado.
E ele foi arrastado por entre as colunas, chorando de alívio.
O rei se levantou do trono. Olhando para o lado, ele não viu Raposa Dourada. Era o jeito do homem. Ruther assentiu para seu escrivão e saiu por uma porta lateral. Foi somente ai qu o escrivão declarou:
— Julgamento encerrado.
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