O Dom
5 Special
-14 de Setembro, Boston, 14:50 pm –
Desde que acordou na hora habitual pela manhã e começou a descompactar as ultimas coisas na sua nova casa, ainda pensava seriamente no sonho estranho e extremamente realista que teve num local que ele nunca vira e ainda por cima, juntamente com a recente pessoa que acabou de conhecer em Boston, que copiava os seus pensamentos. Até então nunca tivera sonhado nada do género, mas também sabia que existia uma primeira vez para tudo e que sonhar era uma das coisas mais imprevisíveis da vida, o que realmente o importunava fora sentir algo que nunca sentira, nem no sonho mais estranho de sempre. De maneira a tentar esquecer tal coisa, pensou bem e decidiu que o melhor seria ir passear e conhecer mais um bocado da cidade, não fossem os seus pensamentos destruir qualquer plano para aquele dia, principalmente a espécie de primeira saída que ia ter com Mia, até ao local de emprego que ela pretendia apresentar como proposta de trabalho para Adam, naquela tarde.
Vestiu algo fresco e arejado por baixo de um casaco leve de fecho e olhou para o espelho de maneira a pentear o cabelo encaracolado para o lado, que mesmo assim lhe cobria a testa quase toda. E depois trancou o apartamento e desceu para a rua. Esperava não acabar por se perder por completo no monte de ruas que ele pouco conhecia de vista.
Vivia agora em North End e podia dizer que era o local que melhor conhecia, já que quando tivera de férias o ano passado, foi por ali de que alojaram. Por isso começou por descer a sua rua, a Hanover Street sem decidir se apanharia um táxi para visitar alguns outros locais, como a famosa Chinatown, ou limitar-se a ficar por ali. Almoçou à pouco tempo, com alguns dos ingredientes dados pela família Lance e mais uma hora estaria com Mia uma segunda vez, mas só foi necessária a primeira para deixar-lhe uma impressão extremamente positiva dela. Pensando melhor não sairia da rua, mas olharia apenas as montras, os cafés e os convívios do local. Talvez a rapariga tivesse a amabilidade de lhe mostrar alguns pontos turísticos depois de procurar o emprego. Adam esperava bem que sim, ao menos sentia que Mia podia ser a sua primeira amiga e a primeira pedra colocada na ponte de amizade em Boston. Com ela viriam tantas outras pessoas ainda por descobrir e conviver.
Envergado nos pensamentos, quase atropelava um homem apressado no passeio. Pediu-lhe desculpas com alguma vergonha e depois tentou acelerar o passo dali e manter-se atento ao caminho. Respirou fundo o ar puro da cidade e continuou a colocar pé ante pé.
- 15 de Setembro, Nova Iorque, 10:21 am –
Finalmente tinha chegado o dia de folga de alguns nova-iorquino e não existia nada melhor para um, que a manhã de Sábado para aproveitar e descansar de uma semana tensa. E Dwayne que o dissesse. Aquela tinha sido a semana mais estranha da sua vida. O carro parte-se, ele necessita pela primeira vez em anos a todos os dias às escondidas usar a sua habilidade anormal para se teleportar em segundos até a um local apropriado e escondido atrás do edifício da Sporting Corporation. E acima de tudo tinha que se atrasar em casa, pois viajar em pouco tempo dava pouco o ar que ele apanhava transportes como todos os outros, afinal em mínimos segundos, percorria quilómetros de viagem. Assim sendo à hora de entrada na empresa, Dwayne ficava por casa e quando ultrapassava um minuto ou dois da hora, lá se abria um portal dimensional e ajudava-o a passar os metros que o distanciava da zona industrial da “Big Apple”. Ajeitava a gravata e tirava o possível pó do fato e assim ia para mais um dia.
Depois de tudo isso, juntou-se a perseguição que até à data estava por ser descodificada. O rapaz não sabia quem era, o que queria ou porque o fazia. Até mesmo chegara a pensar que fora a sua mente cansada de trabalho a pregar-lhe uma bela partida, mas descartou-a naquela manhã, cada vez que repetia na mente o cenário daquele dia. Estava sentado sobre a sua poltrona creme de eleição, com os pés descalços sobre a mesa da sala. Estava também em tronco nu e apenas de boxers, já que tirara a manhã para permanecer em casa a descansar e estava simplesmente relaxado assim. Sabia que tinha Domingo um jantar em casa da família Carter na sua casa luxuosa em Manhattan e por isso tinha de ir para lá o melhor que conseguisse. Não queria de maneira nenhuma demostrar ao seu pai e mãe adotivo, assim como ao Chris que o cargo de chefe estava a deixa-lo nas ultimas das forças. Por vezes até pensava que o cargo de funcionário básico teria menos trabalho que ele.
Fechou os olhos e suspirou. Continuava a pensar na estranha vida e em um aspecto que por muitos anos não o tinha pensado: O porquê de ser só ele a ter aquele poder manhoso e estranho, para que fim? Deveria contar a alguém, mas a quem? Ao Chris? Não sabia se ele ao ver tal coisa se acharia maluco ou começaria a ver Dwayne doutra maneira. Mas sentia que ficar sozinho com esses pensamentos só para si não estava a dar mais.
De repente, ouviu perto da entrada do apartamento, uma espécie de ventania e um fraco estalido que logo foi abafado pelo som do silêncio. Sobressaltado o Carter voltou a temer o pior e relembrou o acidente no Central Park. Talvez quem o perseguira estivesse de volta e era altura de agir. Pegou as calças penduradas na cadeira e apertou-as. Não teve tempo para vestir mais nada, já que alguém caminhava para a sala naquele momento. Preparou um bastão de baisebol que tinha arrumado a um canto e posicionou-o sobre a cabeça, preparado para partir uma cabeça. Alguém de chapéu de cowboy entrava pelo hall da sala e quando deu por si, já Dwayne estava a debruçar-se contra ele para lhe deferir um golpe com o bastão. Com movimentos coordenados, o sujeito estalou os dedos e como que com um clique, o tempo parou. O som parou, Dwayne mantinha-se suspenso no ar com rosto carregado de raiva. A pessoa desviou-se da trajetória do objeto que lhe ia acertar na cabeça e quando estava a uma distância segura, voltou a estalar os dedos da mesma mão, levando o rapaz ao chão.
Surpreso, olhou em redor e voltou a encontrar aquele estranho na sua casa. Estranhou ainda mais que ela tivesse desaparecido da trajetória sem quase se mexer, apenas estalando os dedos e em segundos estava a alguns metros, como que se tivesse usado um teleporte.
- Como?! – Gritou Dwayne, pensando seriamente se aquele sujeito estaria a dar uso do mesmo poder anormal que ele recebera desde novo. – Quem és tu? Tu... Tu teleportas-te? O que fazes na minha casa?! – Voltou a levantar-se e colocar o bastão em posição de ataque por precaução.
- Desculpa estar a entrar assim na tua casa Dwayne Carter, mas a minha habilidade mandou-me para aqui.
- A tua habilidade? Tu também consegues viajar de local em local? Tens um poder? – Perguntou surpreendido por encontrar alguém como ele. Parecia ser atraído tal pessoa com os seus pensamentos sobre o assunto.
- Não propriamente, a minha habilidade é diferente da tua. Eu não me teleporto de local a local com uma distorção de espaço. Eu faço algo diferente... Desculpa ainda não me ter apresentado Dwayne Carter. Sou Alexander Hood. – Disse, ao estender a mão direita para apertar a mão. Dwayne hesitou, mas acabou por baixar a arma e apertar a mão. Alguém igual a ele não deveria fazer-lhe mal. Se fizesse também ele poderia desviar um ataque ao teleportar-se para outro sítio.
- Prazer... Mas espera lá, como conheces o meu nome, Alexander?
- Essa é fácil. Como já disse também tenho uma habilidade como tu. – Começou, acabando por retirar o chapéu e deixar o cabelo castanho preso com um rabo-de-cavalo cair. – Eu sou capaz de viajar no tempo, para o passado e para o futuro, assim como parar o tempo se o quiser. Conheço-te pois já me encontrei contigo uma ou duas vezes no futuro.
- Vieste do futuro, isso é possível?! – Comentou Dwayne, ao começar a perceber que por mais estranho que fosse a conversa de alguém, ele mesmo era a prova viva que o mundo era habitado por algo mais que pessoas normais, mas necessitava de ter a certeza. – Então nesse caso prova-mo.
- Como queiras... Andei a estudar este dia com o teu eu do futuro e sei perfeitamente que daqui a... – Olhou o relógio na mão. — ... 10 segundos alguém vai bater à porta.
- Vai? – Quase que quando acabou de o dizer, a campainha soou. Olhou Alexander, que também o olhava a sorrir.
- Vai atender, penso que não demora muito... – Comentou o homem, acabando por se sentar.
Ele estava certo, não demorou muito. Era apenas um vizinho a perguntar se tinha visto por ali um objecto perdido. Dizendo ao homem que nada vira, voltou para dentro e encontrou o misterioso homem com um dom, sentado no mesmo local onde o deixara.
- Acredito em ti. – Afirmou Dwayne, animado por finalmente encontrar alguém como ele. Mesmo que esse sujeito fizesse algo completamente diferente dele. – Mas, o que vens fazer ao passado? E o que eu tenho a ver com isso?
- Mesmo pensando que não, tu terás um papel fundamental no futuro e eu tenho que me assegurar que tudo correr como o planeado. O teu futuro poderá ser diferente, mas à algo que eu tenho de fazer aqui, para que o teu futuro não seja como o meu... – Parecia aparecer desgosto no rosto dele.
- O que se passa no teu tempo então? – Acabou por dizer o rapaz, sentando-se no sofá à frente dele.
- Não posso usar as viagens no tempo para te dar indicações concretas do que se passa ou passará. Se o fizer, o meu poder ficará inactivo por tempo indeterminado. Só posso dizer que o cenário daqui a 5 anos será terrível se não fizermos nada. Por isso eu viajei até este dia e esta hora, para te encontrar aqui e colocar-te uma missão em mãos.
- Que tipo de missão?
- Necessito que encontres uma pessoa por mim e te juntes a ela. Alguém especial como nós.
- Espera lá! Existem mais pessoas especiais?
- Nem sabes quantas... – Sorriu ele. – Mantemo-nos escondidos Dwayne, entre os humanos normais, mas temos habilidades que usamos quando mais ninguém vê.
- Nunca pensei que mais alguém tivesse algo como eu... – Comentou, sorrindo. – É bom saber que não sou o único anormal por ai.
- Anormal não, especial. Ter um dom é algo que acarreta bastante responsabilidade...
- Já pareces o tio Ben do Spiderman... – Gracejou Dwayne mesmo que com aspeto frio, recebendo de Alexander um ar de indignação. – Oh, desculpa lá...
- Bem, prepara as malas, tens de ir para Las Vegas hoje ainda. Tens 2 dias a contar de hoje apenas para levar essa pessoa a ficar do teu lado.
- Las Vegas? – O jovem estava bem situado para saber que isso ficava no outro extremo do país. – Mas isso é a dias daqui! Como pensas que viajarei em menos de dois dias, ou que terei tempo de o fazer?
- Bem, estás-te a esquecer que possuis a habilidade de destorção do espaço?
- Mas eu só consigo fazer isso para locais que já estive. Tenho de me concentrar no local para que esse espaço que falas encurte e me leve em segundos para lá.
- Hum... – Alexander ficou pensativo e chegou a colocar a mão no queixo barbudo. – A tua habilidade está mais fraca que eu pensava. Ou então só te falta experimentar. — O Dwayne que eu conheço consegue viajar até para locais que nunca esteve, desde que ouça falar dele, ou tenha uma necessidade inata de o visitar. Tu também deves ser capaz de o fazer.
- Não sei... Como te disse, só fiz para locais que já visitei.
- Mas tens de tentar. – Acabou por se levantar e dar ao rapaz um papel A4 com algumas informações. – Tenho de ir, não posso ficar muito mais tempo no passado. Ainda posso distorcer mais alguma coisa por aqui. Pensa só assim, Dwayne Carter: O futuro da humanidade pode estar comprometido neste acto que irás tentar realizar. Tens dois dias, até 17 de Setembro para encontrar a pessoa e faze-la acompanhar-te. Se assim conseguires, não hesites em procurar o maior número de pessoas como nós. Mas essa em Las Vegas pode ser crucial...
- Espero não desiludir o futuro... É muita responsabilidade... – Dwayne não estava seguro do que tinha que fazer e como o faria. Alexander sorriu para ele.
- Diz-se que as coisas difíceis são aquelas que mais dão prazer de tentar superar. Eu confio em ti, por isso mesmo te confio esta missão. – Voltou a estalar os dedos e desapareceu com um clique. O ambiente voltou a ficar silencioso. Dwayne olhou o papel entregue e leu entre algumas coisas, o nome, os locais frequentados e a morada da pessoa em questão, nada da sua habilidade.
- Uma rapariga... – Confirmou ao ler o nome. Depois suspirou.
Não sabia como se sentir. Preocupado com a visita daquele sujeito do futuro, especial como ele, mas excitado pela descoberta de outras pessoas anormais como ele. Isso dava-lhe um motivo de vida. Não sabia porque, mas queria agora mais que nunca descobrir as suas origens, antes do orfanato, antes de nascer até. Talvez encontrar os outros como ele lhe desse alguma resposta concreta. Colocou-se ao trabalho e foi nesse aspeto que se agarrou para tentar um salto espacial assim tão complicado. Era-lhe impossível pensar mentalmente em Las Vegas já que nunca a visitara, mas pensava apenas no objetivo para o qual queria ir para lá. Afinal Alexander tinha realmente uma habilidade especial que Dwayne acreditar viajar mesmo no tempo, por isso se ele regressou para o avisar e coloca-lo sobre essa missão, valeria a pena tentar cumpri-la. Desistiu apenas para arrumar a carteira e a roupa para acabar de se compor, uma t-shirt curta e azul com umas calças bege e uns ténis mais desportivos. Gostava de andar mais descontraidamente vestido quando dava.
Voltou a sentar-se na cadeira da sala, apoiando os ombros sobre a mesa e colocando a cara entre elas. Estava a ficar frustrado, pois sabia perfeitamente que era-lhe muito fácil concentrar na estátua da liberdade, ou até nas ruas de Manhattan para lá ir ter em segundos. Pensando bem nunca sentira tanta raiva de falhar com o seu poder anormal como naquele dia. Seria por ter encontrado finalmente alguém igual a ele? Quereria usar agora todo o potencial do passado que sempre tentou ocultar. Mesmo que quisesse, conteve esses sentimentos, voltando novamente a fixar-se numa leitura mental da palavra “Las Vegas”.
De repente sentiu calor ao seu redor, mas tinha a certeza que o ar condicionado estava desligado. Depois uma aragem. Depois percebeu que afinal estava com os cotovelos pousados no nada e assim que o entendeu, eles pareceram responder ao cair para o vazio. Abriu os olhos e deu de caras com o sol. Estava fora do apartamento e quando conseguiu adaptar a visão à luz, deu uma vista de olhos em seu redor. A cadeira da sua casa tinha vindo com ele para uma paisagem árida e seca de montanhas quase planas. Levantou-se e investigou o aglomerado gigante de casas à sua frente.
- Merda, isto é enorme! – Criticou a falta de informações que teria sobre Las Vegas, se aquele local onde tinha conseguido chegar fosse mesmo aquela cidade que procurava. Tinha uma rapariga para encontrar num monte de milhões de outras pessoas e não podia voltar para casa, correndo o risco de demorar mais tempo ainda para conseguir voltar. Ao menos tinha que absorver mais algumas imagens do local.
Enquanto caminhava entre o nada até ao interior da suposta cidade, relembrou-se que era Sábado e no compromisso que tinha no dia a seguir. Pelos vistos tinha de pegar no telemóvel e arranjar uma desculpa. E assim fez. Atenderam-lhe pouco depois, era a voz do pai Carter.
- ... Lamento dizer, mas não posso aparecer para o que tínhamos combinado para amanhã. – Recebeu do outro lado respostas como “porquê?” e “não trabalhas amanhã!?” – É que surgiu-me um imprevisto e tive mesmo que vir. Prometo compensar-vos com a minha presença depois. – Depois veio a pergunta que ele não pretendia responder: “Para onde vais?”. Responder-lhes com Las Vegas era um absurdo, decidiu responder com algo mais “aceitável” para alguém que supostamente viajava de avião ou carro. – Toronto.
O pai pareceu engolir bem a resposta. Afinal Dwayne também já era grandinho para se desenrascar sozinho. E desligou.
Agora bastava envergar na “cidade dos jogos” e da gente rica, para depois de acordo com as única informações que tinha, encontrar a dita “Kaze”.
- 16 de Setembro, Kyoto, 00:02 am –
O último fecho da mochila era puxado para cima e a mesma era colocada às costas, usando um trinco que o deixava pegado ao peito de maneira a que na situação de um movimento mais violento, não se soltasse. Por fim, Kenato apertava os ténis que sempre usava para as suas “intervenções” aqueles de marca resistentes e pouco escorregadios. Pegava na máscara negra de cima da cama do hotel e deixava sobre uma banquinha os óculos de ver. Tinha chegado a Kyoto no dia anterior, mas decidiu averiguar com o Mordomo as redondezas antes de avançar. Tokyo conhecia o rapaz bem, ainda pra mais as ruas que ele mais frequentava próximas das empresas Tsukisaki. Ali, tudo era completamente diferente, já que o jovem não tinha nunca saído da sua cidade para impedir que um negócio acontecesse, mas a situação parecia chamar pela sua intervenção, talvez de se tratar de uma mega-empresa mundialmente destacada como Yamato tinha deixado claro como a água.
Mordomo estava a um canto do quarto, com uma vestimenta diferente da habitual como empregado de uma família rica, agora com uma camisa de manga comprida e esguia vestida, que deixava visível a sua musculatura produzida de anos na tropa. Parecia pensativo assim que Kenato cruzou o olhar com ele.
- Mais alguns minutos e partimos. Conseguiste mais alguma informação importante da SEC hoje, Mordomo? – Ele não sabia ainda de novidades, já que homem tinha estado quase todo o dia fora, analisando por onde podia andar com o carro e talvez a fazer a circulação das ruas várias vezes para as memorizar melhor. Quando ele começava a falar, Luna a gata que Kenato resolvera trazer consigo na viagem estava agarrada aos seus pés, arranhando ligeiramente as suas calças.
- Sim Kenato-kun... – Parecia continuar pensativo e com a cabeça minimamente na lua. – Soube que o homem que está a mando desta empresa é um tal Matthew, um importante sujeito de negócios americano. Está em Kyoto à poucos meses, mas já cá tem investimento na China há mais de 3 anos. Ouvi dizer que é muito ocupado e chega a ficar até muito tarde no seu escritório. – Ao ouvir isso Kenato não pode ficar mais feliz.
- Percebo, percebo. – Esboçou um sorriso largo. – Tanto melhor Mordomo. Assim sendo o nosso alvo é Matthew. Bem melhor é assustar o líder que os milhares de subordinados.
- Será assim tão fácil penetrar pela segurança num edifício de 20 andares e ainda conseguir colocar medo numa pessoa tão experiente. Não se esqueça que até agora todos os seus alvos têm sido mínimos peões...
- Estás a querer dizer que não serei capaz de o fazer?! É isso? – Kenato exaltou-se, mas não muito. Acima de tudo queria manter o Mordomo sobre o seu comando. – Eu lutei todos estes anos para que os Sr. e Sra. Tsukisaki finalmente se livrem dos seus encargos e possam ser uma vida mais simples e normal, comigo. Não será um velho qualquer que manda numa multinacional que me vai impedir agora, não um que pode arruinar todos estes anos de luta!
- Compreendo e peço desculpa menino Kenato-kun. – Ao dize-lo baixou o corpo, fazendo uma vénia.
- Não te preocupes, eu não levei a sério. Vamos mas é ao que interessa. – E dito isso agarrou os últimos objetos que necessitaria para a operação e saiu pela porta do quarto. Mordomo ficou para trás, estático a olhar para a porta e depois desviando o olhar para o chão, abanando a cabeça em reprovação.
Por mais que percebesse a dor que Kenato, nunca esperou que tudo isso chegasse tão longe e temia que isso se complicasse ainda mais. Um pressentimento de velho.
Mas o que podia ele fazer contra alguém especial...
***
A SEC era tão grande como esperado, pelo menos a sua sede em Kyoto já demonstrava respeito. Dois arranha-céus pegados no 3º ou 4º andar e 16 outros até ao céu. Algumas luzes em vários andares ainda estavam ligadas, o que indicava que várias pessoas ainda lá estariam.
- É um pouco maior do que aquilo que pensava ser... – Comentou Kenato, encostado no banco de passageiro ao lado de Mordomo, na sua carrinha discreta preta. O vidro estava subido e como era daqueles que só dava para ver num sentido, de dentro para fora, ninguém o veria a investigar o grandioso tamanho do edifício. Luna nesse momento saltava para o seu colo e o rapaz respondia ao estímulo acariciando-lhe o lombo. – Está na hora... – Olhou para o empregado e o homem acenou para ele, sem grande emoção. – Deixa-me a 20 metros daqui.
Cruzando as ruas, Kenato desceu da carrinha quando cruzaram uma via menos movimentada, um beco sem saída afastado dali. Colocou a máscara e respirou fundo. Estava habituado a fazer aquilo, mas tinha sempre um misto de excitação e receio quando começava uma nova operação. Mordomo arrancou e preparou-se para instalar a carrinha com todo o material que habitualmente levava na traseira, que tinha sido transformada num completo quartel-general, para um local que ele mesmo já tinha encontrado para visualizar o prédio dos SEC ao mesmo tempo que poderia manter uma certa distância de segurança. Mas Kenato avançou, já que não passavam ali ninguém que o impedisse de continuar.
Sempre em frente, dava às traseiras da SEC e seria o local perfeito para se agarrar com a sua mão moldada de energia. Tinha várias varandas nos primeiros andares. Assim que elas acabassem de aparecer, entraria por uma das janelas que desse a um local sem gente. Também teria atenção a não se descuidar ao ponto de subir em locais com janelas que apresentavam o interior com a luz ligada.
Nos últimos metros correu e moveu a mão para a frente, fazendo uma força invisível acompanhar esse movimento, uma mão que apanhou o chão da primeira varanda de ferro, mesmo a tempo de escapar do olhar de duas asiáticas que passavam no momento pelo parque de estacionamento. Com a força desse braço, Kenato foi lançado para cima e caiu mesmo no centro da varanda. Olhou para cima, de maneira a prosseguir viagem para o próximo apoio. Conseguiu fazer isso mais três vezes e quando deu por si, estava no 3 ou 4º andar. Sem mais subida possível, analisou as janelas à sua frente e deparou-se com cinco à esquerda; duas à direita e muitas outras cima que estavam de luz ligada. Teria de entrar mesmo pela janela que dava àquela varanda. Retirou a mochila das costas e enquanto o vento gélido lhe batia na cara tapada, retirava um instrumento que incumbiu o Mordomo de arranjar em Tokyo e que ele mesmo já tinha usado uma vez. A pequena peça servia para fazer um corte no vidro, sem o ter de estilhaçar. Não sabia bem como alguém como o empregado de 40 e poucos anos, ex-militar, tivera acesso a tal regalia, mas dava muito jeito.
Depois de já ter treinado várias vezes cortar vidro com aquilo, criar um círculo perfeito e depois com a própria ventosa do objeto, retirar o pedaço cilíndrico para fora foi canja. Deixou o vidro retirado no chão da varanda e agachado, colocou delicadamente a mão dentro da janela, procurando o trinco para a abrir. Depois de mexer e mexer, lá encontrou e manipulou, ouvindo-se um leve clique. Empurrou delicadamente a janela para dentro e manteve-se no exterior, até perceber que não tinha acionado nenhum alarme. Talvez a SEC não esperasse que alguém especial como Kenato tentasse entrar à socapa pelo 4º andar, a vários metros do chão. E ele aproveitou-se dessa ingenuidade, colocando o primeiro pé sobre o solo alcatifado da sala. Olhou em redor.
Era um típico escritório com secretária, computador fixo e montes de papelada, assim como estantes semicheias de livros e arquivos. Estava vazia o que fez o jovem avançar sem medo, já que ao olhar para o teto, não viu vestígios de camaras de vigilância. Se ainda existia pessoal no interior, nenhuma sala teria o alarme ligado, esperava ele. Com cuidado e precisão, começou a rodar a maçaneta para a direita e resultou num destrancar total. Deixou-a entreaberta enquanto contactava com Mordomo pelo microfone.
- Mordomo, consegues aceder às camaras de segurança do andar 4? – Perguntou Kenato, afastado da porta para que ninguém o ouvisse sussurrar. Depois de um compasso de espera, recebeu a resposta.
- Já consegui mas para que não me descubram o servidor só poderá ficar conectado por 5 minutos. Tem esse tempo para arranjar um elevador e sair desse andar Kenato-kun.
- Onde é o escritório do Matthew? – Afirmou, antes de finalmente voltar à entrada e espreitar para fora.
- Andar 20, esse andar é todo dele, logo veja se não dá nas vistas. Sugiro que apanhe o elevador até ao andar 19 e as escadas até ao 20. – Depois através do comunicador, conseguia-se ouvir teclas de um pc a serem batidas fortemente. – Avance agora, não tem ninguém no corredor, ficarei de vigia.
- Ay. – Quebrando a comunicação, abriu a porta e começou a correr.
O andar não era grande e ele não encontrou ninguém que o impedisse de andar até ao elevador, logo depois da esquina. O interior da sede da SEC era ainda mais impressionante e requintada que o exterior. Carpete vermelha para todas as saídas, por cima de todas as portas o nome da pessoa ou sector que ali tinha o seu trabalho numa placa amarela e brilhante e candeeiros prateados que iluminavam vagamente o andar. Dentro já do elevador, encontrou facilmente o botão preto para o 19º andar e carregou nele, fazendo o mecanismo avançar sem receios para cima. Estava a achar a operação mais simples de sempre.
- Mordomo, tem atenção ao andar 19 e manipula as camaras com o teu servidor que eu estou a chegar. Averigua também se temos alguém indesejado pelo caminho. – Comunicou, com um tom confiante na voz e para quem o visse, um sorriso rasgado por debaixo da máscara.
- Kenato... Kena... – A voz do Mordomo perdia-se no meio da comunicação, mas dera a entender que ele queria dizer algo mais que um simples “ordem cumprida com sucesso”.
- Mordomo? – Voltou a chamar pelo microfone mas nada recebeu em troca. Sentiu-se pela primeira vez desde que iniciou a subida pela empresa uma réstia de medo e receio, ao ponto de engolir em seco quando viu o brilho dos botões passar do 17º para o 18º. Mas depois pensou para consigo: “O que poderei eu encontrar que me faça frente?” “Com o meu poder, ninguém me para!”.
E mesmo que a tremer ligeiramente, apertou os punhos e voltou a sorrir, esperando que as portas abrissem.
Com um novo clique as portas afastaram-se e revelaram um andar seguido e sem interrupções onde no fundo Kenato distinguia um ultimo elevador, desprovido que qualquer movimento. Motivado pela facilidade da infiltração, preparou-se para chegar à de Matthew rapidamente e sem interrupções. A meio do caminho, antes mesmo que ele concluir a viagem no meio do corredor, ao fundo, vindo do interior do elevador, saia um sujeito engravatado, mas ao mesmo tempo mais desleixado que os habituais homens de negócios com que contactava. Trazia uma barba grossa por fazer e um cabelo castanho claro e de corte médio, chegando a franja até às sobrancelhas. Quando reparou em Kenato, manteve-se ali, sem se mexer, mas também sem expressar medo e foi isso que deixou o rapaz mais desconfiado, mas não assustado. Usando o seu poder, pegaria nele e deixaria que o medo inato saísse por si só. Também o infiltrado acabou por parar antes de se cruzar com o sujeito e manter-se a poucos metros de rosto virado para ele.
- Espero que o teu patrão esteja, pois tenho umas palavrinhas suaves para lhe dizer. – Avançou mais um pouco. – Faria questão de sair da frente? – Perguntou como que em retórica, continuando o seu caminho para o ultimo elevador. O homem com os seus 20 e poucos anos e rosto de americano, saiu do lugar, mas em vez de se desviar, colocou-se literalmente à frente do caminho de Kenato. Este apercebeu-se logo disso e com a sua força invisível, moldou uma mão que prontamente agarrou o sujeito, elevando-o no chão e mesmo assim ele pareceu pouco surpreso.
- Eu disse-te para saíres da minha frente. Os meus assuntos serão com o líder da SEC. – O homem sorriu, mesmo paralisado pelo poder do jovem. Pronunciou-se sarcasticamente pela primeira vez.
- E eu dei a entender que não podes subir. – Comentou ele, olhando para a entrada do elevador. – Pelo menos até eu ter a ordem em contrário.
- Nesse caso vou deixar os meus poderes ocultos falarem por si... – Sorriu Kenato, apertando cada vez mais o homem, de maneira a faze-lo suplicar pela vida. Mas isso nem pouco aconteceu.
- Poderes ocultos?! Pf... Como és uma criança ingénua ainda. – Afirmou, ao rir e desprezar Kenato, mesmo estando a receber uma pressão no corpo que deixaria todas as outras vítimas dele a suplicar das dores. – Andas muito pouco informado então. Deves ser o famoso Justiceiro “Sem Motivo” que ataca os clientes das empresas que tentam investir na Tsukisaki. Tens um bom dom, mas ainda não se chega aos calcanhares de muitos. – E dito isso começou a tentar mover o corpo e conseguiu para espanto do rapaz. O seu coração começou a bater a mil, tentando arranjar resposta para como aquela pessoa se conseguiria mover com tanta pressão no corpo. Ele sorriu. – Nesse caso vamos brincar um pouquinho. – E por fim a mão de força desmaterializou-se deixando o homem escapar. Ajeitou a franja e levantou-se, no momento em que Kenato ficara espantado com o que presenciava. Tanto parte do pescoço, como as duas mãos salientes do fato estavam em cor metálica, acabando por voltar ao normal enquanto o sujeito ajeitava a roupa.
- Como fazes isso?! – Pergunto incrédulo Kenato, não podendo acreditar que aquela pessoa conseguir-lhe-ia fazer frente. Ele voltou a rir.
- Como?! Da mesma maneira que tu. Ou pensas ser o único menino mimado por Deus neste mundo!? – A última frase foi produzida enquanto ele já corria para o rapaz e a sua mão direita voltava a ficar prateada à luz dos candelabros no teto. Kenato pouco tempo teve para reagir, que envolver o corpo pela energia que dispunha e ver o punho cravar-se entre a força invisível, penetrando até ficar a 10 centímetros do infiltrado.
- Caraças, que pouca sorte. Prometo fazer mais força para a próxima. – Gracejou ele, retirando a mão e voltando a golpear o ar que afinal de contas estava carregado de energia para amparar Kenato. Este mantinha-se parado, sem se mover e apenas a concentrar energia à sua volta, vendo por várias vezes o homem a ronda-lo e golpear o seu poder, fechando a ficar a 5 centímetros do seu corpo.
Naquele momento achou-se mais impotente que nunca. Afinal antes apenas ameaçava homens indefesos e sem qualquer contra-ataque que pudesse vir que fosse suficiente para penetrar as suas defesas. Agora, rogava pragas a ele mesmo por não ter tido a ideia de treinar uma forma de fortalecer a sua defesa. Pois agora sabia: Talvez não fosse o único com poderes, aquele homem estranho e engravatado da SEC era a prova disso. Sabia lá ele quantos mais poderiam haver por ai e isso assustava-o como nunca.
Soube que o melhor era fugir, não havia hipóteses de chegar ao andar de cima sem derrota-lo e isso parecia estar fora de questão, pois tentou golpeá-lo com as mãos de energia, mas ele transformava sempre a parte do seu corpo atingida no que parecia ser metal e por isso em vez de sentir dor, apenas sorria ainda mais.
Começou a mover-se de volta para o elevador que o levaria de volta para os andares a baixo mas esse caminho foi acompanhado pelo homem, que corria lado a lado com ele como um verdadeiro atleta.
- Devias saber que enquanto te moves, ficas mais fraco ainda rapazinho! – Gritou, entre excitação e bafos de cansaço, movendo a mão esquerda uma última vez em direção às defesas de Kenato e finalmente o conseguiu apanhar pela blusa. – Já está. – E ao conseguir contacto, pareceu adquirir uma força sub-humana elevando o rapaz apenas com uma mão e lançando-o contra a parede de um escritório e para amparar a queda, Kenato ainda conseguiu para alguma dor que viria com o impacto, que acabou por destruir aquela parede e deixar um dos escritórios sem entrada. Pilhas de livros caiam e o seu barulho era ouvido em todo o corredor, assim como o ruido dos restos de parede a degradarem-se.
Nesse momento Kenato sentiu uma pontada de dor na cabeça e costas, que teria sido muito pior se o poder não o tivesse parado. Sentiu a enregia a desvanecer-se à sua volta e o corpo a deixar de responder aos estímulos. Deveria estar a desmaiar.
A última coisa que viu foi a sombra do homem de braços cruzado na entrada luminosa dos destroços.
***
- Kenato-kun? Kenato-kun! – Gritava Mordomo para o microfone, sentando e agarrado ao computador fixo na bagageira da carrinha tentando usar algumas camaras de segurança para o procurar. Mas sem sucesso. Estava a começar a ficar preocupado. Luna miava ao seu lado, talvez a par da situação. – Não te preocupes Luna-chan, ele está bem. Eu conheço-o... – Quando acabou de falar acariciou o pelo da gata ao mesmo tempo que se ouviu barulho no exterior da carrinha. A porta de correr traseira estava trancada, mas acabou por ser arrancada à força de um estrondo. À luz da lua, três sujeitos sem rosto visível estavam à sua espera e um mais próximo acabou por mover a mão incitando o mordomo a sair da carrinha.
- Por favor, acompanhe-nos. – Afirmou, numa voz rouca.
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