O Dom

3 Capítulo 2


Samuel Ollie estava em seu escritório fingindo analisar alguns documentos que estavam em sua mesa, enquanto esperava a entrada dos candidatos a vaga de assistente. Parou de olhar os papeis e levantou de sua cadeira. Foi em direção de sua porta e abriu um pouco para poder olhar como os cinco candidatos pareciam. Quando olhou na direção das cadeiras onde eles estavam esperando, lá se encontravam apenas quatro. Ele deduziu que o candidato deveria ter desistido.

Dentre os quatro candidatos nenhum chamou a atenção de Samuel. Um deles parecia ter menos de dezoito anos, se tivesse mais do que cinco pelos em sua face seria muito. Ao seu lado estava um candidato da altura do garoto com cara de criança, mas esse não tinha o mesmo problema de hormônios que o outro, ele parecia ter mais de vinte anos, e demonstrava certa confiança pela desenvoltura ao falar com os concorrentes. O problema era o terno. Deveria ter comprado no centro da cidade por menos de cem reais, e de longe Samuel conseguia identificar a péssima qualidade do tecido. Para ele qualquer advogado que tivesse a ambição de ser respeitado em seu ramo deveria se preocupar primeiramente com a qualidade do terno. Sentado atrás dos dois estava um dos candidatos que mais chamara atenção de Samuel, e não de uma forma boa. O garoto estava com a barba para fazer, não usava gravata, e desabotoara os três primeiros botões de sua camisa, deixando a mostra alguns pelos claros de seu peito. Sentava-se sem postura alguma, e mesmo assim mantinha um sorriso confiante no rosto, como se tivesse certeza que a vaga seria sua. Se dependesse de Samuel não seria. Não gostou do garoto, pois ele o lembrava um pouco de quando era mais novo, e o que não gostaria, era de alguém como ele sob seu comando. Nunca daria certo esse relacionamento. Finalmente chegou a garota, que era a mais atrativa dos candidatos fisicamente. Ruiva, de olhos verdes. Vestia uma camisa branca, com uma saia preta na altura da cintura. Salto alto, mas nada vulgar. Se estivessem em alguma festa ele provavelmente tentaria algo com a garota. O encanto foi quebrado quando desceu seus olhos até a bolsa da garota, estava aberta, e era possível ver a parte da capa de um livro. A ilustração da capa era uma gravata cinza. Ele conhecia o livro, ouvira as criticas negativas da qualidade de escrita e história, mas mesmo assim comprara e o lera de capa a capa, não pelo livro ser bom, mas sim porque estava revoltado em busca da parte interessante da história. Após essa experiência frustrante decidira que quem quer que tivesse a coragem de carregar esse livro junto a si durante o dia deveria ter sérios problemas.

Sua animação que já não era das maiores, desapareceu após vê-los. Mas tinha a obrigação de entrevista-los da mesma forma. Esperava que algum deles o surpreende-se, sendo algum tipo de gênio.

As primeiras entrevistas foram entediantes. Descobrira que o garoto com problemas de hormônios chamava-se Denis, e era o mais velho dos quatro candidatos, tinha vinte e quatro anos. Denis adiantou-se na conversa e explicou o porquê de parecer tão jovem, aparentemente sua puberdade demorara para chegar. Contou toda a sua trajetória escolar desde o ensino fundamental. Essa parte durou trinta minutos. O garoto, que na realidade era um homem, falara tanto e por tanto tempo que no final da entrevista Samuel não sentiu vontade de fazer nenhuma pergunta apenas de adiantar que ele não seria escolhido para ocupar tal vaga, pois não tinha o perfil desejado. Ele não entendera o significado daquela frase de primeira. Apenas após alguns segundos entendeu que não seria contratado, e lágrimas surgiram em seus olhos. Aquilo foi o cumulo para Samuel. Chamou o segurança e pediu para escoltar o candidato a saída do escritório. Era apenas a primeira entrevista e ele já estava desanimado quanto aquele dia.

O Sr. Terno barato, era assim que Samuel o chamava em sua cabeça, foi o próximo. Quando o jovem entrou na sala de Sam, ele notou mais um detalhe no homem. Seu sapato estava em estado horrível. Diversas partes do sapato não possuíam mais couro, e as partes de couro estavam nojentas. Deveria ter engraxado seu sapato pela última vez na década passada. Samuel não poderia contratar alguém como ele. Pensou até em mandar o garoto embora sem antes de qualquer tipo de diálogo acontecer entre os dois, ele podia. Mas decidiu dar uma chance ao garoto.

— Olá senhor Ollie – ele disse, estendendo a mão.

— Sente-se – Samuel baixou seus olhos para os currículos; cada um deles possuía uma foto do candidato. O que lembrava mais o candidato a sua frente era o de Lucas Ferreira. – Lucas, certo? – o jovem balançou a cabeça em afirmativa.

Nenhum dos dois estava disposto a iniciar a conversa. Samuel por desinteresse ao candidato, e Lucas por medo. Como estava com pressa que aquela entrevista acabasse, Sam decidiu dizer algo.

— O que comeu hoje antes de vir pra cá, Lucas? – Samuel perguntou.

Lucas ficou sem saber o que responder por alguns segundos. Estava pensando se realmente tivera ouvido aquela perguntar sair da boca de Samuel Ollie.

— O-o que?

— Perguntei: o que você comeu hoje? – ele repetiu, elevando um pouco seu tom de voz.

— Eu comi – Lucas colocou a mão em seu queixo, pensativo; tentava lembrar em detalhes o que havia comido. – Arroz integral, filé de frango empanado, salada e batata doce.

— Bela refeição. Você mesmo que fez, ou comprou em algum lugar? – outra pergunta. Lucas começava a sentir-se incomodado com o andar das coisas.

— Eu-eu – ele não queria responder aquela pergunta – Qual a relevância disso? – ele perguntou, seu tom de voz expressava seu constrangimento e nervosismo quanto a situação.

— Se eu dissesse o porque de cada pergunta você iria responder somente o que eu gostaria de ouvir. Qual a graça disso? – Samuel perguntou; um sorriso aparecia em seu rosto. Ele estava divertindo-se em ver a confusão nos olho de Lucas.

— Tudo bem – ele sabia que não deveria questionar alguém como Samuel então simplesmente deixou de lado sua barreira as perguntas feitas. – Minha mãe que fez.

— Então você mora com ela?

— Sim, moro.

Samuel começava a entender o candidato que estava a sua frente, e aquilo fazia com que quisesse manda-lo de volta para a casa imediatamente. Ele era um filhinho da mamãe. Mas escolheu conversar um pouco mais e tentar revelar para o jovem o quão ele era desprezado por ele.

— Por que? – Samuel perguntou.

— Por que o que senhor Ollie?

— Por que ainda vive com sua mãe?

— Na realidade moro com minha mãe e meu pai. Eles pagaram minha faculdade, entre outras coisas. São ótimas pais – ele disse.

E você não é um ótimo filho, Samuel pensou.

— Entendo.

— Mais alguma perguntar senhor Ollie? – o jovem perguntou.

— Sim. É provocação ou você realmente não tem noção? – quando Samuel disse aquilo o jovem balançou a cabeça confuso; não compreendera ao que estava referindo-se. Sam percebeu, e continuou para esclarecer. – Por que alguém que vem de uma família que possui dinheiro vem para uma entrevista com um dos melhores escritórios de advocacia do país, vestido com um terno desses, e com um sapato destruído como o que esta usando?

A expressão na cara de Lucas divertia Samuel, mas fez questão de não expressar seu divertimento. Não queria tirar o ar de seriedade da sala. O jovem estava confuso, com medo, sem palavras, entre várias outras emoções que percorriam seu corpo ao mesmo tempo. Sabia que a entrevista havia acabado, mas mesmo assim tentou explicar para Samuel o motivo de tudo aquilo.

— Senhor Ollie – ele começou. – Minha família possui dinheiro, mas infelizmente hoje meus ternos estavam para lavar, e não sou fã de sapatos sociais, por isso precisei pedir emprestado para...

— Chega, pode ir – ele interrompeu.

Desta vez a entrevista realmente acabara. Samuel tinha um poder de influência com as pessoas que não poderia ser negado, por este motivo Lucas calou-se após sua última frase e saiu da sala.

Sam apertou o botão de seu telefone para falar com sua secretária, Júlia, e mandou que ele não mandasse nenhum dos candidatos seguintes entrarem até ele dizer.

Meia hora havia se passado após a entrevista com o Sr. Terno Barato, e ele não estava com sua paciência de volta para os outros dois, mas precisava. E algo que Samuel não gostava era de deixar algo inacabado. Falou com Júlia novamente e pediu para que mandasse o último candidato homem entrar.

— Olá Samuel – o jovem disse quando entrou. Não hesitara um segundo ao chama-lo daquela forma; aquilo o deixou intrigado.

— Tiago Lut, vinte e três anos – Samuel falava enquanto olhava o currículo do jovem.

— Então, como faremos essa entrevista? – ele perguntou, enquanto puxava a cadeira para se sentar.

— Onde está sua gravata, Tiago?

— Sinceramente? Deve estar na casa da Bruna ou da Carla... não sei ao certo qual das duas foi a última – Tiago falava aquilo como se falasse de outra pessoa, em momento algum demonstrara qualquer emoção quanto ao relato.

Samuel ouvira o que o candidato dissera sem mudar sua face ou postura. Não queria que o jovem percebesse que sentira-se incomodado com a sua forma de falar descontraída.

— Começa toda entrevista assim, com uma piada? – perguntara Samuel.

— Não é uma piada, Sam.

— “Sam”? Nada insolente você – ele disse; Samuel não gostava de ser sarcástico, mas aquele situação pediu por aquilo.

— Vamos direto ao assunto então – ignorou o sarcasmo, e pegou uma pasta que estava em sua bolsa. – Por que eu mereço trabalhar com o lendário Samuel Ollie? – essa era a primeira vez que dissera o sobrenome de Samuel, e percebeu que o jovem o dizia com certo respeito, aquilo o agradara. – Porque você precisa de alguém como eu. Sou o único dos candidatos que tem a capacidade de trabalhar de igual para você. Posso encontrar seus erros. Posso te dar soluções que nem você mesmo imaginará. Posso te fazer ser o melhor advogado, não só um dos melhores.

Samuel considerou o que Tiago dissera. O jovem o fizera acreditar nas palavras ditas, e por isso tomou alguns minutos para pensar em tudo que acabara de ouvir. Percebia que por um lado gostava do candidato e por outro o odiava.

Ele sou eu, Samuel pensara.

Esse era o real problema.

— Você usou palavras bonitas, e foi convincente até. Mas no final são só palavras, preciso de mais do que isso.

— Imaginei – ao dizer isso empurrou o monte de papel na direção de Sam. – As áreas grifadas são os erros cometidos por você em contratos feitos nos seus últimos anos de trabalho.

Os papeis estavam em sua frente, mas não queria olha-los. A possibilidade de ter cometido um erro no passado já o atormentara, pela quantidade de papeis eram diversos. Ele não poderia, ele era o melhor. Não. Ele era um dos melhores.

— Eu acho que é isso por hoje Tiago – Samuel disse, sem deixar seu nervosismo transparecer; mas ele sabia que não adiantara.

— Tudo bem, senhor Ollie, aguardo sua ligação – o jovem saiu do sala, e aquele foi o fim da entrevista, e da confiança de Samuel Ollie.

Samuel contratara a garota, pois os outros dois candidatos eram péssimos para serem seus subordinados, e Tiago Lut... O garoto era um problema. E quando teve coragem de olhar os papeis e ver que realmente cometera erros, não muito grandes, mas cometera, percebeu que não gostaria de alguém com aquele potencial perto de si. Não gostaria de ter alguém que o fizesse se sentir menor. A garota por outro lado era uma máquina de trabalhar, fazia tudo e exatamente o que era pedido. O problema era a falta de criatividade para solucionar problemas inesperados. Mas Samuel poderia superar aquela falha.

Após a entrevista Sam não teve noticias de Tiago Lut. Imaginara desde sua saída da sala que não ligaria para saber se fora contratado ou não, o garoto era orgulhoso. Exatamente como ele.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.